Cantarolando: A teia de guitarras de “Rain On Tin”, do Sonic Youth (2002)

Cantarolando: A teia de guitarras de “Rain On Tin”, do Sonic Youth (2002)

9 de maio de 2017 0 Por Elisa Oieno

Cantarolando, por Elisa Oieno

Sabe aquelas músicas que dá um orgulhinho de ouvir? Daquelas que, ao terminar de escutar, dá vontade de chegar na banda, dar um abraço em cada um, e falar em tom embasbacado ‘pô, caras, é isso aí, muito bom mesmo, muito obrigada’. É assim que funciona – pelo menos comigo – com “Rain On Tin”, do disco de 2002 “Murray Street”, do Sonic Youth.

Dá para dizer que “Rain On Tin” é como um resumo de Sonic Youth. Uma definição super-simplificada do que está no prato sonoro servido pela banda ao longo da carreira seria algo como melodia, tensão e improvisações livres. Nisso, “Rain On Tin” é quase literal. Praticamente instrumental, exceto por uma breve introdução cantada por Thurston Moore, para a partir daí desembocar em uma teia de linhas de guitarra muito mais nítidas do que as que se costuma ouvir em trabalhos anteriores, mas que a banda já vinha indicando claramente no disco “A Thousand Leaves” (1998).

Essa teia de guitarras é o que mais soa diferente e maduro, apesar de manter o ponto central do que sempre foi o inconfundível som do Sonic Youth. Um fator que com certeza ajudou a dar aquela expandida nos som da banda foi a entrada de Jim O’Rourke e seu background experimental e improvisacional, formando um conjunto de três guitarras e um baixo.

Desta vez, a banda desenvolve as partes instrumentais de jams com linhas muito mais melódicas e menos noise do que se ouvia anteriormente, esticando as músicas de uma forma muito mais ‘tradicional’ enquanto banda de rock improvisacional. Tanto que a influência de Grateful Dead, por exemplo, se torna bastante evidente no som do Sonic Youth. Lee Ranaldo já se declarou um ‘deadhead’ – alcunha dada aos fãs de Grateful Dead – em diversas ocasiões, e confirmou a referência como algo que ele sempre buscou com os improvisos do SY. Junta-se isso com a escola ‘no wave’, experimentações artísticas e começa a ficar muito claro o mapa sonoro fascinante dessa banda. Sim, estou babando ovo.

A letra da música fala do ataque de 11 de Setembro, que foi responsável pela destruição do estúdio em que eles estavam gravando o disco, localizado na Rua Murrey, próxima às Torres Gêmeas, onde inclusive caiu um pedaço do motor de um dos aviões, representada pela foto de sua placa amassada na contra-capa. A letra simples tem uma imagem forte, do pessoal estarrecido entrando em contato com parentes e amigos, com vontade de ficar juntos abrigados da chuva.

We all hope
To signal kin
Rays of gold
Now rain on tin
Gather round
Gather friends
Never fear
Never again

Nós esperamos    
Sinalizar parentes
Raios dourados
Agora chuva na lata
Reunirmos
Juntar amigos
Nunca sentir medo
Nunca mais

É muito inspirador saber que, após mais de 20 anos juntos, uma banda ainda foi capaz de criar algo tão forte e revigorante quanto os trabalhos do começo da carreira, no começo da juventude deles. E, ao invés de apenas repetir uma fórmula criada por eles mesmos, ou de começar a abraçar as referências de rock clássico e começarem a soar como ‘tiozões’ do rock, eles olham para si próprios e se aprimoram, dando a cara do que seria um Sonic Youth maduro e convicto, presente nos álbuns seguintes até o fim da banda.