Cantarolando: A experiência de “That’s it For The Other One”– Grateful Dead (1968)

Cantarolando: A experiência de “That’s it For The Other One”– Grateful Dead (1968)

21 de março de 2017 0 Por Elisa Oieno

Cantarolando, por Elisa Oieno

A faixa que abre o disco “Anthem For The Sun” (1968), foi a que me fez gostar de Grateful Dead definitivamente. Eu me lembro bem da primeira vez que ouvi. Estava com os fones de ouvido andando na rua e conforme a música foi tocando eu literalmente fiquei paralisada: tive que parar de andar e sentar em um canto na rua para ouvir tudo com calma, como uma experiência. Cheguei atrasada para a aula, mas com a cabeça completamente mexida.

Na verdade, “That’s it For The Other One” é uma suíte formada por duas músicas que eles tocavam ao vivo. A primeira parte é uma canção do Jerry Garcia chamada “The Cryptical Envelopment”, seguida por uma transição que leva à segunda parte, escrita pelo Bob Weir, apelidada de “The Other One”. Logo depois, a música retorna para um trecho curto de “The Cryptical Envelopment”, seguida novamente por uma explosão instrumental até o fim.

Uma das coisas que chamam atenção nessa música – aliás, nesse disco inteiro – é a mixagem. Em uma mesma faixa, podemos perceber várias texturas diferentes especialmente nas transições entre as partes. Isso acontece porque na gravação do disco eles utilizaram trechos camadas de vários takes diferentes, inclusive de ‘jams’ e shows ao vivo. A gravação desse disco no estudio foi resultado de muita experimentação – de sons e substâncias, em uma época em que a cultura do LSD estava no auge.

O Grateful Dead foi uma das principais bandas da cena ‘hippie’ de São Francisco. Eram moradores de um apartamento em Height-Ashbury, talvez a esquina mais lendária quando se fala em movimento de contracultura americano e em ‘verão do amor’. Eles foram trilha sonora constante das festinhas comunitárias e lisérgicas da região, improvisando por horas e horas, enquanto o pessoal dançava, se divertia e até descrevia experiências transcedentais com o som da banda.

A parte do Bob Weir da “That’s It For The Other One”, dizem, descreve uma viagem de ácido e todas as suas nuances rítmicas, imagens e um clímax. Há também referências claras ao ônibus dos “Merry Pranksters”, em que o escritor Ken Kasey organizou uma viagem que atravessou os Estados Unidos em 1964, consumindo livremente o LSD, que ainda não era proibido, e difundindo uma imagem de liberdade, comunidade e diversão, pouco antes de tais ideais se desdobrarem no movimento ‘hippie’.

Também faziam parte do grupo, entre muitos outros membros, o escritor Tom Wolfe, que descreveu a experiência do ônibus no livro “O Teste do Ácido de Refresco Elétrico” (“Electric Kool-Aid Acid Test”), e Neil Cassady, o “muso” beatnik. Conforme descrito exaustivamente no livro “On The Road” de Jack Kerouac, Cassady sempre se colocava no volante, dirigindo e falando freneticamente por horas a fio. Na música de hoje do Grateful Dead, ele aparece como o Cowbow Neil:

The bus came by and I got on, that’s when it all began
There was Cowboy Neal at the wheel of the bus to never ever land

Neil Cassady

Curiosamente, a letra definitiva de “The Other One” foi escrita por Weir em uma tacada só, exatamente na noite em que Neil Cassady faleceu. Para ele, acabou sendo como uma homenagem e resultado de algum tipo de sincronia cósmica. De qualquer forma, uma coisa é certa: o Grateful Dead acabaram conseguindo fazer uma música estranha e atraente, que te faz a parar, curtir e viajar junto com eles.