Camila Garófalo respeita o pop e aposta em sua alma rock em “Sombras e Sobras”, seu primeiro disco

Camila Garófalo respeita o pop e aposta em sua alma rock em “Sombras e Sobras”, seu primeiro disco

11 de abril de 2016 0 Por João Pedro Ramos

“Ser pop é encontrar o caminho do tesouro perdido”, conta Camila Garófalo. “Acho que fazer música fácil é a coisa mais difícil que existe. Criar um refrão grudento não é pra qualquer um”. A cantora, compositora e guitarrista admira quem consegue criar hits pop que estão no topo das paradas, mas sua alma é totalmente entregue ao rock em seu primeiro disco, “Sombras e Sobras”, produzido em conjunto com Dustan Gallas (Céu, Cidadão Instigado), Bruno Buarque (Céu, Karina Buhr), Thiago França (Metá Metá, MarginalS) e Danilo Prates.

Camila começou sua carreira quando se mudou de Ribeirão Preto para São Paulo, em 2008, e cantava versões de The Doors, Nirvana e Janis Joplin na noite palistana. A partir daí, começou o processo de “Sombras e Sobras”, que foi iniciado em 2010, quando morou em Londres, e virou disco físico em 2014, com lançamentos na Inglaterra, SESC Ribeirão Preto e no popular projeto Prata da Casa do SESC Pompeia, em São Paulo.

Conversei com Camila sobre sua carreira, a aposta no rock, o processo de “Sombas e Sobras” e a admiração pelo pop:

– Como começou sua carreira?
Comecei insistindo pra minha mãe que seria cantora e que queria fazer aula de viola na escola. Ela não botou muita fé e me comprou uma flauta porque era mais barato. Nos outros anos eu insistiria até ela comprar um violão. Na faculdade não estudei música, mas continuei compondo e fazendo meus contatos. Fui me assumir artista aos 22 anos, quando larguei tudo pra fazer só música.

– E isso só foi se concretizar depois que você saiu de Ribeirão Preto e veio pra São Paulo?
Eu vim pra São Paulo com 17 anos pra fazer faculdade de Comunicação. Quando cheguei aqui apenas começou esse processo. Apenas 5 anos depois que eu tomei coragem de encarar o mercado independente como cantora e compositora. Larguei meu emprego, no qual eu escrevia sobre música e me joguei! (Risos)

– Seu primeiro disco, “Sombras e Sobras”, começou a ser produzido em 2010 e foi lançado em 2014. Como foi esse processo?
Isso, foi um longo e doloroso processo. Justamente nesse momento que eu estava para abandonar minha carreira de redatora e encarnar o papel de cantora e compositora. Escolhi as musicas e procurei os caras que eu admirava pra produzir o disco, veio então o Dustan Gallas (Cidadão Instigado) e o Bruno Buarque (Karina Buhr). Gravamos em 4 dias aquilo que eu demorei 4 anos pra planejar. E assim tudo começou.

– Me fale um pouco mais mais sobre o disco.
Então, como foi o meu lançamento acho que o nome “Sombras e Sobras” se encaixa muito. Porque todas as musicas eu compus num momento sombrio, assim como foi sombria a minha caminhada para esse disco. Eu não sabia por onde começar. Fui perguntando e insistindo até dar luz à ele. Quem fez a arte do disco foi o fotógrafo Vitor Jardim e o designer Pepê Ferreira, ambos grandes amigos.

Camila Garófalo por Federico Gomez-1

– Quais são suas maiores influências musicais?
Gosto de citar as minas: PJ Harvey, Patti Smith, Janis Joplin. No Brasil, Cassia Eller e Rita Lee. Atualmente, Karina Buhr.

– Porque investir no rock?
Também não sei (risos). Tem muita gente que gosta, mas parece que não é o gênero mais aceito. Eu pretendo misturar as coisas num futuro próximo. Caí no rock porque não tive escolha, do nada eu estava mergulhada nele.

– Mas por gostar do estilo ou foi algo inconsciente?
Eu gostava de música caipira (risos), fui gostar de rock só com 17 anos quando vim pra São Paulo. Por isso foi ali totalmente inconsciente. Escrevi e o Dustan me disse que era rock. Subi no palco e cantei. Hoje o Rafael Castro (meu guitarrista) me fala que é punk. (Risos)

– O que você acha da cena musical independente brasileira hoje em dia?
Acho que tá todo mundo se ajudando muito. Pelo menos eu conheço artistas incríveis que estão querendo trabalhar juntos. Ficamos presos num sistema opressor que não paga pela arte, mas o povo quer que isso mude! Já não estamos sozinhos, pode não haver dinheiro, mas teremos energia o suficiente para reinventá-lo!

Camila Garófalo

– Você acha que a parada de sucessos está ficando mais pasteurizada hoje em dia?
Antes eu tinha preconceito com as músicas das paradas de sucesso, achava todas fáceis, linguagem acessível, pobre em poesia. Hoje minha ideia é outra. Acho que fazer música fácil é a coisa mais difícil que existe. Criar um refrão grudento não é pra qualquer um. Então há controversas sobre esse lance do que deve ou não deve fazer sucesso. Muitas vezes há uma assessoria de imprensa muito poderosa por trás, isso significa DINHEIRO. Não podemos generalizar. Ou seja, a Anitta é genial sim. Dentro da proposta dela ela é a melhor e por isso merece estar nas paradas de sucesso. (Risos) A gente fica com preconceito em tudo, mas começa a perceber que não é fácil ser pop… Ser pop é encontrar o caminho do tesouro perdido.

– O machismo ainda rola no mundo da música (e do rock)?
Rola muito machismo na música. Quantos convites recebo para promover minha música em troca de uns beijos? Muitos. Quantos músicos não acreditam na sua capacidade de artista apenas por ser mulher? Uma penca. Quantas brincadeiras idiotas escuto dos meus próprios amigos quando o assunto é mulher apenas por eu também gostar de mulher? Uma tonelada. O machismo é geral, e muitas vezes rola um esforço enorme para o identificamos, porque ele pode vir disfarçado também. Mas a gente vai aprendendo a desconstruí-lo e a passar isso adiante.

Camila Garófalo

– Quais os seus próximos passos em 2016?
Compor compulsivamente para que eu consiga começar a visualizar meu segundo disco. Ele ainda está distante mas, aos poucos, consigo me conectar com sua alma e conceito antes mesmo que ele nasça. É uma trabalho profundo e demorado. Enquanto isso a ideia é cair na estrada.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes!) que chamaram a sua atenção nos últimos tempos.
Claro, artistas mulheres que admiro e que são minhas amigas: Luiza Lian, Lara e os Ultraleves, Tika, Sara Não Tem Nome, Larissa Baq, Verônica Ferriani, Laya, Bárbara Eugênia.

Ouça “Sombras e Sobras” de Camila Garófalo completo no Spotify: