Bong Brigade leva o rock and roll de volta para as pessoas fugindo da cartilha do bom gosto

Bong Brigade leva o rock and roll de volta para as pessoas fugindo da cartilha do bom gosto

16 de junho de 2020 0 Por João Pedro Ramos

Se você é uma pessoa ligada à cena independente e ao underground de Campinas, com certeza conhece Daniel ETE, ou Daniel Pacetta Giometti, se quiser ser mais formal. Mais conhecido como o baixista e um dos cérebros por trás da antológica banda Muzzarelas, Ete já teve projetos como o Víscera, sua primeira banda, e Drákula, ainda na ativa. A nova empreitada musical do agitador cultural mais gente fina da Região Metropolitana de Campinas e adjacências é o Bong Brigade, uma banda de punk rock sujo e sem aparas nas arestas que não tem medo de enfiar um quase-reggae e disparar letras sobre guerra de cocô a la G.G. Allin em um hipotético Baile do Havaí do interior.

Formada por ETE (vocais), Tomás Peres (guitarras), Victor Peres (baixo), Marcus Leijoto (guitarra) e Marcel Ricardo (bateria), a banda acaba de lançar seu primeiro disco “Fuck Armageddon… This Is Bong Brigade”, lançado pela Chop Suey Discos e gravado no Mutante Estúdio (Americana/SP). Produzido por Artie Oliveira e ETE e masterizado pelo próprio Artie no Sinistro Studios (Campinas/SP), o álbum conta com 14 faixas com a lírica e contação de histórias com o selo ETE de qualidade. “Cantamos sobre qualquer coisa que se encaixe numa melodia bem básica e cantarolável, se é que esse termo existe. Então cada som tem uma história própria”, conta ETE. “Vai desde uma homenagem ao habitantes de uma pequena cidade alemã que ao descobrirem que um encontro de militantes da extrema direita aconteceria nas redondezas, comprou toda a cerveja disponível na região, deixando os nazis de bico seco. Tem um som sobre envelhecer, outro que conta a história da surra que um amigo meu levou em 1987 numa ponte que não existe mais, tem duas homenagens aos amigos e as amigas, porque amizade é massa…”

  • Me conta mais sobre o primeiro disco do Bong Brigade, “Fuck Armageddon”.

Foi bem divertido gravar esse disco, assim como tudo nessa banda. Começamos a tocar no meio do ano passado para dar vida a uma pequena coleção de composições que eu tinha, coisas inéditas e alguma coisa do repertório do Desenmascarado, que foi uma banda que eu tive uns anos atrás. Tirando uns dois solos e as vozes, todas as bases do disco foram gravadas ao vivo, com um instrumento vazando no canal do outro, como não se manda o figurino e a polícia do bom gosto. No fundo a gente queria que o disco soasse como aqueles discos antigos de punk rock que tanto amamos, mas que quase ninguém conhece, tipo os discos de bandas como o Meatmen, Impatient Youth e aquelas coletâneas nacionais das antigas como o “Sub” e o “Grito Suburbano”. Usamos uns microfones bem antigos para dar um toque a mais na tosqueira, porque na verdade a nossa ideia não era fazer uma produção muito caprichada e polida. Depois mixamos tudo na casa do Artie, que produziu o disco junto comigo. A ideia foi se distanciar bastante da sonoridade dos discos gravados hoje em dia, super editados, sem um peidinho fora do lugar, porque tudo isso é muito chato.

  • Como surgiu o Bong Brigade e como foi escolhida a formação?

Surgiu para dar vida a essa coleção de composições safadas que eu tinha na manga, o Tomás que toca guita já tocava comigo no Desenmascarado, aí chamamos o irmão dele, o Victor, para o baixo. Sinceramente não me lembro como o Marcinho Banda Show, que é o outro guita, entrou para o time, mas funcionou muito bem. Quem começou a tocar batera com a gente foi o Claudião, que é meu chapa de longa data, ele tocava nas Lunettes, mas daí ele arrumou um trampo massa em outra cidade e chamamos o Marcel, que foi da última formação dos Muzzarelas e tinha tocado comigo também no Drakula e no Desenmascarado. O legal da banda é que todo mundo tem uma onda bem parecida, tanto de som quanto de ideias, e também porque a gente já se conhecia fazia um bom tempo.

  • O que o Bong Brigade tem em comum com seus projetos anteriores?

As composições que eu fiz no Bong Brigade tem bastante refrões, aquela coisa de cantar junto fazendo “ÔÔÔ” ,tipo os sons que eu compus no Muzzarelas. É uma parada mais melódica diferente do Drakula, que é mais rítmico, mas como tem várias letras em português, acaba remetendo à minha primeira banda, o Víscera, que durou de 1987 até 1990. Na real várias músicas tem aquele formato bem canção, mas acaba virando um punk rock safado por causa da interpretação mais suja e agressiva da banda/ A ideia é que no segundo refrão as pessoas já estejam cantando junto e jogando cerveja para cima. Não estamos querendo reinventar a roda, só fazer ela girar um pouco. Já temos umas 10 músicas quase prontas para um segundo disco, mas isso é papo para quando a pandemia passar ou dar uma sossegada, porque esse papo de furar quarentena é coisa de bostonazi, e se tem algo de que todos da banda detestam… É bostonazi.

  • Quem inventou o nome Bong Brigade?

Vixe, mano… Acho que fui eu, mas para falar a verdade não tenho certeza, mas deve ter surgido num campeonato de piadas e trocadilhos infames. Tem gente que acha de mal gosto e gente que se identifica, toda banda tem que ter um nome, né, e acho que todos os nomes bons já foram usados.

  • Pode me contar um pouco mais sobre os sons presentes no disco que acabou de sair?

Cantamos sobre qualquer coisa que se encaixe numa melodia bem básica e cantarolável, se é que esse termo existe. Então cada som tem uma história própria, que vai desde uma homenagem ao habitantes de uma pequena cidade alemã que ao descobrirem que um encontro de militantes da extrema direita aconteceria nas redondezas, comprou toda a cerveja disponível na região, deixando os nazis de bico seco. Tem um som sobre envelhecer, outro que conta a história da surra que um amigo meu levou em 1987 numa ponte que não existe mais, tem duas homenagens aos amigos e as amigas, porque amizade é massa, tem um som rock tchubiruba saudosista meio inspirado no encontro do Meat Loaf com os Garotos Podres, uma história de amor ás vésperas de uma ditadura e tem até uma celebração dos autolanches campineiros com muita maionese, e se expremer direitinho acha até um som parecido com um reggae só que com o balanço de uma estátua. E é lógico que tem uma canção sobre uma briga de bosta numa Festa do Havaí!

  • Isso! Essa é uma das que geral quer saber a história. Qualé dessa briga fecal?

(Risos) Essa por enquanto só existe na música, mas seria algo como o G.G. Allin exú baixando numa Festa do Havaí de algum clube no interior paulista no fim dos anos 80, com mesa de frutas, camisas florais, coqueiros de papelão e muita merda mole.

  • E a história de jogar no Corguinho?

Foi um amigo meu lá da treta de 1987. Ele já estava apanhando de 3 caras bem maiores que ele, segundo o próprio ele não teria chances nem se fosse um só. E no auge da sova, enquanto ele apanhava de todos os lados, colou um baixinho do lado e começou a dar uma pilha errada nos agressores gritando “joga o gordo no corguinho!” para o desespero do meu amigo. O moral dessa história é que as pessoas nunca estão fodidas o suficiente, sempre pode piorar.

  • Como você tá se sentindo pela primeira vez como vocalista sem nenhum instrumento na mão?

Dá uma vergonha da porra, parece aqueles sonhos em que a gente vai pelado para a escola, mas já estou me acostumando mais um pouco.

  • E porque resolveu não usar nenhum instrumento nessa?

Não sei, a hora que eu vi já estava assim/ Mas apesar da vergonha, tô me divertindo bastante.

  • Vocês chegaram a fazer shows, mas aí o coronavirus chegou com tudo. Como rolaram os shows e quais os próximos planos da banda?

Começamos a fazer shows em setembro do ano passado, rolaram poucos mas foram bem legais. Com a pandemia cancelamos alguns. A ideia agora é fazer um clipe enquanto os shows não voltam. Se demorar a gente faz outro ou outros, e assim que for possível, gravar o segundo disco também.

  • Pode contar alguma coisa sobre os sons que já estão prontos do próximo disco?

Tem alguma coisa do antigo repertório do Desenmascarado e da minha primeira banda, o Víscera, mais algumas músicas que não foram terminadas a tempo para entrar no primeiro disco. Pretendemos gravar tudo no esquema ao vivo no estúdio de novo e mixar com o Artie também. Mas até lá novas provavelmente já teremos mais músicas, o legal seria fazer um disco por ano, bem mais legal que lançar singles.

  • Hoje em dia muita banda prefere esse formato de single, até pelo negócio dos streamings em alta. Porque vocês preferem o formato álbum?

Fizemos um single de uma das musicas, “No Beer for the Nazi Scum”, mas foi com a intenção de divulgar o álbum, que é o formato que mais gostamos. Preferimos o formato álbum porque aí podemos mostrar a banda de uma forma mais completa e porque álbum é bem mais divertido por ter começo , meio e fim, lado A e lado B.