Black Cold Bottles, de Carapicuíba, trabalha em “Percept”, seu primeiro disco

Black Cold Bottles, de Carapicuíba, trabalha em “Percept”, seu primeiro disco

19 de outubro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Jazz, funk, britpop, rock alternativo e muito barulho. “Tente imaginar o som que seria se o Interpol tocasse músicas do Red Hot Chili Peppers e vice-versa”, explica Bruno Carnovale, vocalista e guitarrista do Black Cold Bottles, ao tentar definir o som de sua banda. O quarteto começou em 2006, quando ele conheceu Larissa Lobo (guitarra e vocal) e eles começaram a compor juntos. Com a entrada de Gabriel Brito (baixo) e Caio (bateria), o grupo de Carapicuíba lançou seu primeiro trabalho, o EP “Neander”, em 2011, com 5 faixas que mostram todas as influências da banda.

Depois de um hiato criativo, eles voltaram a trabalhar no primeiro álbum do grupo, “Percept”, a ser lançado ainda este ano. “Tem um universo enorme por trás da decisão por esse nome. Mas musicalmente falando, esse disco é o registro oficial de todas as músicas que compusemos antes do hiato que tivemos – a gente até chegou a chamar essas novas músicas de ‘bastardas’ porque apesar da gente tocar elas nos nossos shows, elas não tinham nenhuma gravação (risos)”.

Conversei com Bruno sobre “Percept”, a carreira da banda, a cena independente brasileira e como o streaming ajuda (ou atrapalha) as bandas do underground:

– Como a banda começou?

A banda começou comigo e com a Larissa. Nós tivemos uma banda antes da Black Cold Bottles, que hoje a gente vê como o neandertal da nossa história musical juntos. Lá em 2010, a gente tentou começar como um duo, mas decidimos conhecer gente nova pra montar, e ai chegaram o Gabriel e o Caio no fim desse mesmo ano, e a gente começou quase que instantaneamente a compor nossas novas musicas.

– E de onde saiu o nome Black Cold Bottles?

Eu tive um insight pro nome da banda, considerando que os quatro gostam muito de cerveja – e também porque nós quisemos fugir daquele padrão pra nomes de bandas que sempre começam com ‘The’. Eu sugeri ‘Black Bottles’ mas não teve tanto appeal quanto eu achei que teria, e a Larissa depois de alguns dias sugeriu ‘Black Cold Bottles’, e os quatro concordaram na hora – e comemoramos com cerveja (risos).

– E eu achando que era de Coca-Cola gelada. E quais são as principais influências musicais da banda?

A gente é uma verdadeira salada musical. O Gabriel vem de uma influência funkadelic anos 80/90, o Caio parece um lorde inglês tocando com influência pura do jazz, e talvez as pessoas mais próximas em questão de influência somos eu e Larissa, trazendo conosco aquele rock mais rasgado e guitarrado. Se eu tivesse que resumir a sonoridade que resulta disso, seria essa: tentar imaginar o som que seria se o Interpol tocasse músicas do Red Hot Chili Peppers e vice-versa.

– E vocês estão produzindo um novo trabalho, certo? Me fala mais sobre ele!

Sim, estamos! Já estamos na fase final de produção e logo logo a gente vai começar a soltar as novidades! Nosso disco vai se chamar Percept” e tem um universo enorme por trás da decisão por esse nome. Mas musicalmente falando, esse disco é o registro oficial de todas as músicas que compusemos antes do hiato que tivemos – a gente até chegou a chamar essas novas músicas de ‘bastardas’ porque apesar da gente tocar elas nos nossos shows, elas não tinham nenhuma gravação (risos). Mas esse é um disco que, pra mim, segue uma ordem lógica pro que foi feito no nosso primeiro EP em 2011, o “Neander”.

Black Cold Bottles

– Me fala um pouco sobre o material que vocês produziram antes desse disco.

Em 2011 nós lançamos o “Neander” (que está disponível para audição em todas as plataformas digitais) na intenção de que ele fosse (e é) nossa ‘pré-história’, na intenção de entendermos o que éramos e qual era nosso propósito musical dentro do que formamos. Então, de certa forma, o som que criamos no “Neander” tem uma aura meio sombria, é um som meio espesso, é cru. No “Neander” são 5 músicas (seriam 6, mas uma delas tava incompleta na época e ficou pra esse disco que vamos lançar agora).

– Você falou que tocam músicas que ainda não tinham sido registradas nos shows. Como vocês veem a vida de artista autoral independente? Como é a reação do público a bandas autorais com sons que nunca foram tocados?

A vida de artista autoral independente é uma constante incógnita. Depende de muitos fatores que não estão necessariamente conectados entre si. Pra gostar do som, depende do humor da pessoa, do estilo da banda, do quão bem eles executam o som, de quão agradável é o som que se ouve… Quando a gente entende essas variáveis, a gente tende a ficar muito mais cuidadoso com o som que produzimos, e acho que isso vai ficar muito bem exposto quando o disco for lançado. E nós temos dois estilos de fazer música misturados: as agitadas e as calminhas. Geralmente nas agitadas, as pessoas dançam ou pulam, nas calminhas eles começam a se beijar ou fazer aquela cara de quem tá entrando em transe, é sensacional.

https://www.youtube.com/watch?v=hcSLw1eqlOA

– Mas você acha que existe uma dificuldade em encontrar lugares que apostem em banda autoral?

Infelizmente ainda existe um certo receio das casas de show em receberem bandas autorais, mas eu acredito que hoje em dia nós estejamos passando por uma fase de transição. De pouquinho em pouquinho, nós temos visto isso acontecer, mas ainda é algo muito intrínseco na cultura musical do Brasil. Hoje em dia se valoriza mais o dinheiro do que a arte em si, mas torço eu pra que essa minha visão de transição esteja certa.

– A queda da indústria musical e o crescimento do streaming foi favorável ou ruim para bandas independentes?

Se a gente olha por um prisma mais distante, foi bom, mas também foi ruim. Porque se por um lado, aquele lance de ter que se mostrar aos grandes mercados acabou, hoje você se vê num grande emaranhado de talentos (que as vezes ficam ofuscados por grandes egos), e de uma certa forma tudo foi descentralizado. É algo bom poder ver que todos estão no mesmo patamar de possibilidades, mas a estrutura de como podemos propagar o som ainda é precária.

– Existe a possibilidade de uma nova “cena” rock se erguer como já ocorreu diversas vezes no passado, com movimentos como o punk e o grunge (e até o emo)?

Existe. Talvez por essa descentralização, não surja um único ícone que represente essa nova cena, mas considerando que o mundo está em constante renovação, a possibilidade de uma nova cena surgir é bem grande (e bem animadora, se considerarmos a mesmice musical que temos vivido, se essa nova cena chegar logo, teremos uma explosão de boas bandas surgindo por ai).

– Como você definiria o som da banda?

Se a gente fosse considerar todas as influências que temos no nosso som, seria um nome gigantesco, rs. Mas se tentar sintetizar tudo num único nome/gênero, eu acredito que seria um rock alternativo que transita entre o jazz e funk.

Black Cold Bottles

– E como é o processo criativo de vocês?

Tudo começa quando nos reunimos no estúdio. As melodias surgem pra nós nos momentos mais imprevisíveis, e acabam se tornando em jam sessions intermináveis. Depois que isso acontece, a gente decide qual letra usar, quem vai querer cantar, como vamos desenvolver, e tentamos deixar as possibilidades abertas quando estamos compondo. A única coisa que nós temos certeza quando estamos criando é que o Caio não vai querer cantar de jeito nenhum (risos).

– Quais os próximos passos da Black Cold Bottles?

A curto prazo, nós vamos lançar o “Percept” e temos algumas ideias pros nossos singles e tudo mais. Quando soltarmos o disco, o plano é pisar na rua e botar o som pra tocar em tudo quanto é lugar. Mas a longo prazo, já temos algumas idéias rolando, já temos algumas músicas novas a caminho, já temos uma idéia do que vamos fazer no próximo disco, mas a intenção nossa agora é mostrar nossa nova criança pro mundo, e quem sabe não vamos mostrar ela em outros países também?

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos

A conterrânea Der Baum foi uma das bandas que mais nos chamaram a atenção nos últimos tempos, mas ainda temos pra indicar a nossa banda irmã Molodoys e seu discasso do ano, a competente Tramp Stamp Moose que tá fazendo um disco primoroso, os rapazes da Forest Crows que tão vindo com uma estética nova pro disco que tão criando, a porrada incrível dos Abacates Valvulados, a lisergia do Chá de Vênus, o poder visceral da Color for Shane, os conhecidos da Sky Down, Def, as meninas cariocas da Jane Lane (que eu infelizmente ainda não consegui ver ao vivo)… tem muita indicação boa, a gente tenta sempre trazer todo mundo com a gente quando vamos montar algum esquema legal.