Barbárie pisa com força nos calos da sociedade “pré-apocalíptica” brasileira em “A Primeira e Última Antinacional”

Barbárie pisa com força nos calos da sociedade “pré-apocalíptica” brasileira em “A Primeira e Última Antinacional”

23 de setembro de 2015 1 Por João Pedro Ramos

Fernando Sarti, ex-guitarrista da incrível banda independente Biônica, que agitava a cena underground no começo nos anos 2000, é uma das mentes responsáveis por “A Primeira e Última Antinacional”, primeiro álbum de seu projeto Barbárie. Além de Fernando na guitarra, o grupo conta com Godinho (vocal), Fabinho (guitarra), Mandioca (bateria) e Magrão (baixo). O disco-manifesto, divulgado primeiramente apenas no Youtube e depois também no Bandcamp com download gratuito, é uma sarcástica e ácida crítica à situação atual do país, principalmente no que diz respeito ao povo e sua relação com a mídia e a política. Sem deixar de lado cutucadas na classe média, a direita conservadora, políticos, empresas, canais de TV, a falta de água, o racismo, machismo, a grande briga de torcidas que se tornou a disputa entre esquerda e direita e tudo e todos que aparecerem no caminho.

O manifesto tem muito do punk clássico paulistano dos anos 80, com vocais gritados, guitarras econômicas e cheias de distorção e bateria reta e rápida. São quatro faixas, gravadas em 2015 no Estúdio Quadrophenia. Em agosto, lançou mais uma música, “A Festa da Família Brasileira”, sobre os protestos que estão acontecendo onde pessoas abraçam Policiais Militares e se mostram cada vez mais conservadoras “em favor de nosso país”. “As madame vai batendo as frigideira / Sorrindo pras fotinha, lépida e faceira / Vai passando a polícia carniceira / Com arma na cintura e dinheiro de empreiteira / O deputado pede o fim da roubalheira / Se a festa é de burguês a mídia é parceira / Divulgando desde segunda-feira”, brada.

“Jura que não percebeu que o fim está próximo? Nem reparou que São Paulo virou um imenso deserto?”, diz a primeira música do disco, “A Última Geração Que Vai Pisar Nesse Mundo”. Os que comem mortadela e arrotam caviar na cara dos outros ganham um recado direto em “Valet Para o Inferno”, a mais curta e crua do álbum: “O que eu desejo pra explorador não é justiça burguesa / É pedrada na sua SUV, incêndio na sua empresa / Um valet para o inferno / Delivery de dor e sangue”. O final de “Tipo Excalibur” é apenas a voz de Geraldo Alckmin repetindo seu mantra “Não vai faltar água em São Paulo/Não falta água em São Paulo”. Para finalizar, “Deusa”, uma contundente ode às empregadas domésticas e o tratamento “familiar” que recebem: “No país do elevador de serviço / Do apartamento com quarto de empregada / Era quase da família… agora já não é mais!”

Conversei com a banda sobre o manifesto. Suas respostas foram quase uma dissertação sobre a atual situação do país, continuando o formato “documental” do disco do Barbárie:

– Como surgiu “Barbárie”?

A banda Barbárie surgiu no final de 2014, um dos últimos anos do calendário gregoriano. Naqueles tempos sombrios, a humanidade expandia sua auto-degradação para limites nunca dantes atingidos. Em São Paulo, onde a banda surgiu, a água potável já era escassa, mesmo tendo sido a cidade construida num paraíso hidrográfico. A cidade era cinza, tóxica, coberta de asfalto e repleta de cercas elétricas e circuitos de câmeras. Era talvez a cidade-prisão mais típica do período de decadência da civilização capitalista, pois quase todos ali viviam encarcerados.

Centenas de milhares estavam em instituições declaradamente prisionais do Estado de São Paulo (então governado por um fundamentalista católico que se tornaria célebre após a Sentença de Tipo Excalibur). Metade dessas pessoas estavam presas por se apropriarem de coisas que a humanidade produziu e que por alguma razão misteriosa deveriam ser usufruídas só por alguns, a outra metade por praticar o comércio varejista de substâncias indispensáveis para aquela sociedade (estranhamente, isso acontecia num tempo em que se defendia com todas as forças as ideias de “livre mercado” e de “liberdades individuais”). Havia também casos de presos por crimes realmente violentos, mas o estupro e o abuso sexual eram fortemente tolerados (ainda que esta essa tolerância variasse, como em todo o resto do sistema penal, a depender da renda e da cor da pele de quem praticava tais crimes).

Além desses prisioneiros de tempo integral, havia muitos outros, em regime parcial. Era o caso de milhões de crianças e de adolescentes que passavam algumas horas do dia em instituições semelhantes a presídios, com grades, muros altos, carcereiros e vigilantes armados. Nestes locais os jovens deveriam ser contidos em sua rebeldia e doutrinados nos principais valores civilizacionais então vigentes (o egoísmo doentio, a concorrência desumanizante, a imposição do mais forte e uma total ausência de empatia ou de solidariedade; a este conjunto de valores chamavam então “empreendorismo” e “meritocracia”). Para melhor eficácia do doutrinamento havia um jogo do tipo “trinta jovens entram, um jovem sai”, então conhecido como “vestibular”. Após se libertar da “escola”, a quase totalidade da população adulta era também prisioneira em regime parcial, cumprindo pena de galés perpétuas. Chamava-se “trabalho alienado”, mas para não revelarem que se tratava de um roubo costumavam chamar apenas de “Trabalho”.

“Trabalho” também era o nome dado a uma das maiores divindades cultuadas por aquela civilização exótica, dividindo o panteão celestial com a Ciência, a Técnica, o Progresso, o Mercado, a Ordem, etc., e com santos nacionais como São Ayrton Senna, o padroeiro do automóvel. Naquele tempo, o automóvel era objeto de um culto no qual representava um imenso falo. Aliás, a sociedade era tão falocêntrica que uma das incontáveis formas de restrição da liberdade então existentes dizia respeito à constante ameaça às mulheres em quaisquer espaços que desejassem ou precisassem frequentar, pois naquele tempo os homens (eles mesmos quase todos prisioneiros de galés) defendiam que o Sagrado Direito emanado da Grande Piroca Mágica lhes dava o poder de se impor sobre mais da metade da humanidade.

Além de ser um imenso presídio em processo de desertificação, a cidade de São Paulo era cinza, desde o céu tóxico, passando pelas construções, até os uniformes de sua principal organização terrorista, que se fazia presente por toda parte. Conhecida como PM, ela atuava em cada espaço da cidade, desde a prisão-escola até os lugares destinados ao “lazer” (nome dado ao tempo que os galés deveriam usar, não para trabalhar, mas para consumir e manter a máquina funcionando, além de servir para fazer parecer que a vida de galé tem um lado bom, o que diminuía o potencial de rebeliões). Mas a organização terrorista reservava seus atentados apenas para uma parte da cidade, enquanto era aplaudida e abraçada com gratidão sincera na Avenida Paulista, que se localizava no atual epicentro da área de exclusão nuclear, mas que na época era o principal local de culto de massas à Civilização Burguesa na cidade.

A banda Barbárie surgiu, portanto, numa São Paulo pré-apocalíptica, a partir da reunião de prisioneiros e desertores de alguns desses regimes penais (passaram primeiro pela “escola”, depois pelo “trabalho alienado”). Eram então definidos como “uma rapaziada completamente descontrolada”, mas eram tolerados, pois aquela sociedade, para parecer livre e não ser derrubada por uma insurreição, tinha que permitir alguma “liberdade de expressão”. Graças a isso, a Barbárie, assim como inúmeras outras bandas, pôde narrar um pouco do que foi viver num período tão monstruoso da história humana. Esta “liberdade”, porém, não chegava nas periferias das cidades, onde músicos que narravam suas próprias histórias de violência eram assassinados, a exemplo de seis jovens DJs e MCs mortos por grupos de extermínio no litoral paulista em apenas sete meses, no mesmo ano em que surgiu a Barbárie.

Esses jovens foram pouquíssimo lembrados e dentre os poucos registros que restam de suas mortes encontram-se comentários da internet que apenas repetem dizeres como “UM FUNKERO A MENOS!!11!!!11 KKK”. Em Campinas, outro desses músicos, que contava com um público de milhões de pessoas, foi assassinado em pleno palco. Não houve luto oficial, nem campanha em defesa da liberdade de expressão, e as vítmas não viraram nomes de avenida. Pelo contrário, os nomes das rodovias que saíam de São Paulo nesta época eram em muitos casos, nomes de fundadores do primeiro grupo de extermínio da cidade: Fernão Dias, Anhanguera, Raposo Tavares, além do próprio nome da organização genocida à qual pertenciam, “Bandeirantes” (depois legitimamente homenageada numa certa “Operação Bandeirantes”). E, claro, Rodovia São Ayrton Senna, que pelos valores daqueles tempos tinha todos os méritos para dar nome à antiga Rodovia dos Trabalhadores. É que apesar de cultuar o Trabalho, aquela sociedade convivia com um imenso desprezo pelos que o executavam, a ponto de apagar uma homenagem aos que permitiam a existência de todos para entregá-la a um querido filho da classe que os explorava.

Barbárie

do Facebook da banda

– Porque disponibilizar somente no Youtube?

As músicas foram, num primeiro momento, disponibilizadas apenas no Youtube, mas em seguida foram também para o bandcamp (http://aultimageracao.bandcamp.com/ ), para download em MP3. Naquele tempo, estas eram formas comuns de divulgação de conteúdos sem necessidade de dinheiro* (mas no caso do Youtube, com muito dinheiro envolvido, pois o que sua proprietária, a Google, vendia era o acesso aos olhos e aos corações e mentes das pessoas para iniciativas com fins comerciais). A opção pelo Youtube, assim como por uma página no Facebook (última forma de rede anti-social dominante na civilização capitalista) era compreensível num tempo em que as relações eram cada vez mais mediadas. Mas a banda também disponibilizava suas músicas em MP3 sem licença comercial e em apresentações ao vivo. Há também indícios de que gravaram suas músicas em Laser Disk e em Disquetes compactados de 1.44MB, mas esses artefatos nunca foram localizados.

* Dinheiro era um pedaço de papel, também encontrado em outras formas, como metais arredondados e cartões magnéticos, com ou sem chips. No caso do dinheiro brasileiro do período pré-apocalíptico, tais papéis continham inscrições que parecem contraditórias. Por exemplo, traziam a inscrição “Deus Seja Louvado” num país em que a religião predominante cultuava um messias que morreu torturado pelo Estado romano graças a uma traição em troca de dinheiro (no caso, trinta dinheiros). Esses papéis também traziam fotos de animais que estavam em extinção graças à ação devastadora do domínio do dinheiro sobre os ecossistemas, o que na melhor das hipóteses pode ser interpretado como um pedido de desculpas um tanto desastrado. Permanece um mistério o que levou uma espécie capaz de tantas proezas intelectuais a ser dominada durante séculos por um pedaço de papel, que foi a principal motivação para assassinatos e outros tipos de violência durante toda a história do capitalismo. Acredita-se que se tratava de algum tipo de insanidade temporária coletiva ou de um fanatismo religioso fundado na idolatria desses papéis e na sacralidade dos templos ao dinheiro, conhecidos como “bancos”. Naquela época, bancos eram tão sagrados que simplesmente quebrar uma de suas vidraças era motivo de comoção muito maior do que assassinatos, torturas e desaparecimentos de seres humanos, caso estes insistissem em nascer no lugar errado, na classe errada e/ou com a cor errada.

– Você criou tudo sozinho?

Para criar suas músicas, a Barbárie contou com o trabalho alienado de milhões de pessoas, que fabricaram instrumentos musicais, microfones, megafones, computadores, mesas de som, canetas, papéis de eucalipto (provenientes da destruição de florestas nativas), alimentos, vestuário, visões de mundo que eram frutos de milênios de experiência acumulada de luta de classes, etc. Isso é verdadeiro para todos os artistas, menos para um músico paradigmático da era decadente da qual surgiu a Barbárie, que segundo se depreende de uma entrevista daquela época realizou pela primeira e única vez na história a façanha de fabricar todas as suas condições de existência individualmente. Em suas palavras:

“Quis gravar todos os instrumentos como um argumento contra os coletivos culturais, que formam pessoas fracas. Fiz tudo nessa música para provar que um indivíduo bem formado é capaz de fazer qualquer coisa. […] O conceito de toda a música é isso, que o individuo é forte, o autor é indissociável. O autor sempre será a célula inicial da criação. Não se pode desvalorizar o trabalho do artista. Nem abrir mão do direito autoral que é o seu ganha-pão.” (Lobão, 2013)

Não se sabe a expressão “fazer qualquer coisa” incluía a auto-suficiência do indivíduo desde a fabricação das próprias fraldas quando criança ou se este poder de fazer a si mesmo só vinha na idade adulta. O que é evidente nesta afirmação é que naquela sociedade, ao menos para algumas pessoas, o Autor havia substituído Deus (ou os Deuses) enquanto “célula inicial da criação”. A banda Barbárie, porém, não professava esta fé, nem defendia o dogma sagrado dos direitos autorais, o que se percebe pela publicação de videos que não têm qualquer imagem “original”, “criada individualmente” pela toda-poderosa Iniciativa Empreendedora do Autor.

 

– Como a situação política atual do país influenciou esse trabalho?

Naquele tempo, chamava-se “política” a um espetáculo midiático que não tinha qualquer relação com o exercício do poder pelas pessoas. Esta “política” da era final da civilização burguesa só deixou como resquício material um imenso boneco inflado de um simpático homem barbudo com roupa listrada em branco e preto. Acredita-se que seu opositor “político” era outro boneco do mesmo tipo, descrito como Galinha Pintadinha Inflada e que as decisões eram tomadas em pitorescas batalhas de balões gigantes.

Como se percebe por suas letras, a Barbárie não participava deste tipo de duelo de gigantes. A política que interessava à banda, ao que parece, era a “guerra de classes até o fim do capital”, e esta não ocorria no país, mas no mundo. O Brasil, como todos os outros Estados nacionais, era uma invenção de curta duração (não durou nem dois séculos e, quanto aos outros, alguns duraram um pouco mais, outros bem menos). Nações foram estranhas invenções que serviram para traçar fronteiras entre as pessoas com a finalidade de organizar a exploração do trabalho e distinguir entre civilizados e bárbaros, sendo estes os matáveis. Enquanto existiu, a Nação gerou por toda parte episódios como atentados contra imigrantes (caso de 6 haitianos baleados em São Paulo no ano de 2015) e corpos de crianças de países pobres sendo lançados em praias de países ricos.

– Me fale um pouco sobre seu posicionamento em relação à situação política do Brasil.

Ao que parece, diante da “política” então vigente, os posicionamentos da Barbárie foram no sentido de desejar para o explorador pedrada na sua SUV e incêndio na sua empresa, cortar a cabeça do Geraldo Alckmin e, como já foi dito, “guerra de classes sem massagem até o fim do capital”.

– Que bandas e artistas influenciaram “Barbárie”?

A Barbárie foi influenciada por incontáveis monumentos de cultura da sua época, incluindo bandas e músicos os mais variados. Numa de suas músicas, percebe-se, por exemplo, a influência de artistas como Rosana e Molejão.

– Você pretende continuar com a banda ou foi um projeto isolado?

A Barbárie encerrou suas atividades apenas no momento em que deixou de existir a Civilização que a criou e que a alimentava.

– Existe alguma possibilidade do retorno do Biônica?

Biônica era fruto de um tempo em que um mundo subjugado e explorado por máquinas sem coração era apenas uma distopia, ainda que próxima. A Barbárie dizia respeito a um mundo lutando por se libertar desta situação, já às vésperas do colapso.

– Recomende algumas bandas que você ouviu e merecem ser divulgadas.

Dentre as músicas contemporâneas à Barbárie, recomendamos, para fins de saciar a curiosidade sobre o exotismo das crenças políticas e sobre o estranho senso estético daquele tempo, a música “Eu quero meu voto impresso” da banda Os Reaças. Trata-se de uma banda que acreditava profundamente em entidades como “voto”, “congresso” e “impeachment” e que frequentava festas nas quais muitos não se davam conta que para ter a intervenção militar desejada bastava caminhar alguns quilômetros no sentido da periferia. Por acreditarem, também profundamente, em “meritocracia”, entendemos que Os Reaças é uma banda que merece ser divulgada para a posteridade. Talvez com isso um dia compreendamos melhor a fé que estava por trás do duelo entre os bonecos inflados conhecidos como “Lulão Pixuleco” e “Galinha Pintadinha”.