Violins – O retorno do hiato e a “Era do Vacilo”

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Beto Cupertino - voz e guitarra Pedro Saddi - teclado Gustavo Vazquez - baixo Fred Valle - bateria

Há aproximadamente um mês, entrevistei o vocalista e compositor de uma de minhas bandas nacionais preferidas que, após quase 10 anos de hiato, lançou uma música nova. Quando o Violins anunciou em sua página do Facebook que voltara do hiato e lançaria um disco novo neste ano, no mesmo dia comentei com alguns amigos: “poucas vezes me arrisco a dizer isso, mas acredito que esse vai ser um dos melhores álbuns de 2018”.

Pouco tempo depois, saiu o line-up completo do Festival Bananada, um dos grandes festivais de música do Brasil, que aconteceu nesse mês em Goiânia – GO, cidade natal da banda e, lá estava o nome deles. Outro ponto que me deixou surpresa foi o anúncio de clipes, eles nunca foram de produzir videoclipes.

Quem não conhece a banda deve se perguntar porque me surpreendi tanto com coisas que artistas fazem o tempo todo, ainda mais em tempos onde produções audiovisuais estão em alta, onde as redes sociais são uma vitrine comum e tocar em festivais também. Mas o Violins nunca seguiu regras, sempre foram o verdadeiro Lado B. Não de uma maneira hipster e proposital, mas de forma genuína, simples, pé no chão.

Depois de conversar com o vocalista e compositor Beto Cupertino, entendi que Violins é o que é, é porque é, sem mais complicações, estratégias ou pretensões.

Hoje em dia vemos muitas bandas com excelentes apresentações, técnicas impecáveis, execução perfeita das músicas, palcos maravilhosos, discos muito bem produzidos, mas não trazem verdade nenhuma no que fazem, algumas nem mesmo na mensagem, é um teatro bem feito, sem genuinidade, não transmitem verdade alguma. Violins anda na contramão do excesso de profissionalismo das bandas atuais e ressignifica a palavra amadorismo. Faz porque ama.

Outra coisa interessante sobre a banda, é que apesar de diversos fãs fiéis espalhados por todos os cantos, a grande maioria acima de 25 anos (devido ao contexto, cronologia e tempo do último hiato), existem poucas entrevistas com eles, nenhuma após a última pausa. Eu que sempre quis ficar de frente com um dos compositores que mais me influenciaram no fim da minha adolescência e que até hoje é um dos meus favoritos da música nacional, não sabia por onde começar as perguntas. Conheci Violins em um período conturbado e aquelas letras, aquele sentimento cru expressado nas músicas repletas de existencialismo, me mostrou que eu poderia colocar beleza em qualquer coisa. Não me fizeram mudar a forma de ver algumas questões, me fizeram mudar a forma de lidar com elas. Eu lia as letras do Violins como quem lia contos, mesmo sem áudio. A forma metafórica e o realismo que Beto Cupertino utilizava para abordar coisas aparentemente complexas era genial. Então, o que eu iria perguntar para esse cara? Lembrei que alguns amigos e músicos também tinham a curiosidade de saber várias coisas que ainda não haviam sido esclarecidas pela banda. Por fim, com todas as perguntas em mãos, procurei Beto, que foi muito gentil e extremamente receptivo.

Beto diz não saber nada sobre internet e esse é um dos motivos pelos quais a banda ainda não é tão presente nas redes sociais (ainda). Comprovei a veracidade disso, porque foi uma dificuldade para que ele entendesse como funcionava uma entrevista por vídeo no Skype, mas no fim das contas, deu tudo certo e aqui está:

– A pergunta que todos querem saber: qual foi o motivo do hiato, por que tanto tempo?

Beto: Foi uma coisa natural da vida de cada um. A gente vai ficando velho, as contas chegam e desde o começo da banda eu tenho uma vida profissional que me sustenta, até porque mexer com música é só prejuízo, né (risos)? Então por essas ocupações cotidianas das pessoas da banda e até por já ter gravado muitos discos, naturalmente começamos a parar de ensaiar, fazer shows e aí ficou assim por um bom tempo. Desde 2012 que não lançávamos um disco e agora vamos lançar um neste ano. Nunca ficamos parados por tanto tempo. Mas fizemos alguns shows, poucas vezes. Fizemos há pouco tempo um show em comemoração aos 10 anos de “Tribunal Surdo” aqui em Goiânia.

– Hoje vemos muitas bandas utilizando um contexto nas letras como vocês faziam há muitos anos atrás, conteúdo com mais “tristeza”, mais carregados de conflitos, em paralelo a uma ascensão de bandas psicodélicas e positivas. A Violins e outros grupos da mesma época influenciaram muitos dos grupos de hoje com certeza. A quê você acha que se dá essa nova leva de compositores?

Beto: Sendo sincero, estou acompanhando pouco a cena musical e escutando pouca música. Não conheço muito o que está acontecendo agora, então sou muito displicente para analisar essas coisas. Mas acho que tem a ver com a própria situação social e política do país, mais acirrada, então acho que esse sentimento de frustração, de irritação, de revolta e a vontade de usar as coisas mais marginais da vida para fazer alguma representação em músicas tem a ver com os ciclos da vida, faz parte da história do lugar onde você está vivendo, isso te influencia de alguma forma e as pessoas têm mais necessidade de escrever sobre isso. Eu sinto essas coisas muito presentes na minha realidade, então falar sobre isso faz parte de uma manifestação natural minha. Talvez tenham muitas pessoas que não têm interesse em falar sobre isso, mas tem muita coisa para ser falada. Faz parte do meu cotidiano, das coisas que eu gosto de escrever e acho interessante. Mas na discografia da banda tem muita coisa muito diferente também, sobre relacionamentos, sobre paixões e amores, até coisas mais otimistas, então a banda não é só a parte politica e ‘’baixo-astral’’, varia de acordo com o que passamos enquanto pessoas.

– Me parece que a discografia do Violins realmente é um reflexo das fases dos compositores. Os últimos dois álbuns tinham algum ar mais “positivo”, Aurora Prisma soava mais romântico, Grandes Fiéis já trazia sentimentos em uma perspectiva mais amarga e conflituosa. Tribunal Surdo foi mais social e marcante para muita gente, inclusive a música ‘’Grupo de Extermínio de Aberrações’’ que causou muita polêmica na época por abordar o fascismo com uma ironia enorme, sem dizer que era uma ironia e naquele tempo não discutíamos alguns temas (racismo, homofobia, elitismo social, etc.) como hoje…

Beto: O “Tribunal Surdo” foi feito para ter essa musicalidade mais suja, falando sobre coisas meio feias, mas eu acho que ele tem uma beleza justamente nessa visão de que sempre que você denuncia alguma coisa ruim, de alguma forma você esta tentando olhar para alguma coisa melhor. Então, no fundo dele, em algum lugar, ele tem essa esperança meio suja. Esses dias estava conversando sobre as pessoas das minhas redes sociais, como muitas têm pensamentos completamente diferentes dos meus mas estão nas minhas redes sociais por causa da música, eu fico pensando porque essa música atrai uma pessoa que pensa tão diferente de mim. Por exemplo, um disco como o Tribunal Surdo. Será que a pessoa ouviu e não entendeu como uma ironia? Que eu realmente penso como diz na ‘“Grupo de Extermínio de Aberrações’’ e algumas outras? Eu lembro que quando saiu o encarte do disco, até colocamos na capa que as letras eram ficções e tudo mais, porque eu sabia que esse tipo de interpretação poderia vir. Mas lançamos porque achamos que seria importante falar das coisas que falamos e da forma que falamos lá. E que bom que existem pessoas que reconhecem tanto esse disco, se uma pessoa gostou desse disco, já justifica o motivo dele existir.

– Ainda sobre Tribunal Surdo e aproveitando para trazer algumas perguntas de outras pessoas, o Ian Black, publicitário e também grande fã da banda, perguntou qual a possibilidade de vocês terem um álbum mais conceitual e político como foi o Tribunal Surdo.

Beto: Esse disco novo tem muitas músicas que vão por essa vertente. Algumas músicas dão uma “quebrada” para não ficar muito monotemático, mas tem muitas músicas que refletem esse ambiente político. É um disco que vai ter muita ligação com os discos anteriores que também faziam esse tipo de abordagem. Então sim, ele vai mais pela linha do “Tribunal Surdo”. A diferença é que ele é mais “acessível”, musicalmente falando. As músicas vão entrar de forma mais suave aos ouvidos, o Tribunal Surdo tinha uma sonoridade mais fechada. Esse disco é fácil de entender, tem um apelo mais “pop”. É um álbum mais “palatável”, mas ainda com as letras mais agressivas, as vezes irônicas, meio na linha do Tribunal Surdo mesmo.

– Vocês não são muito ativos nas redes sociais e na internet em geral, por que?

Beto: A banda sempre foi meio das sombras. Esses dias eu estava até perguntando se tínhamos Instagram, fui procurar e não encontrei, acho que tenho que procurar saber com alguém se existe, porque eu realmente não me lembro. O site está fora do ar. A banda também estava sem ensaiar, sem tocar, acho que quando estávamos mais ativos havia um preocupação maior, faz parte também do nosso afastamento da rotina de banda que foi diluindo as “manifestações internéticas”.

– Hoje a internet vai além de “baixar musicas”, ela forma opiniões, ela comunica diretamente com quase todos os públicos. É muito difícil para uma banda atingir algum público sem ter presença na internet, principalmente com os mais jovens. Como vocês pensam em atingir essas pessoas mais novas que ainda não tiveram contato com a banda? É intencional esse “desaparecimento”? Tem quem pense que é uma estratégia para a banda continuar sendo considerada “Lado B”.

Beto: Agora nós já temos uma pagina no Facebook, mas pretendemos sim começar a atuar mais nesses canais de comunicação. Temos a consciência que hoje a internet é o maior canal e vamos revigorar tudo para inserir as novas músicas e a nova fase. Não existe nenhuma pretensão “cult” em se manter escondido, não é intencional, é na maioria das vezes pela nossa correria de vida individual mesmo, falta de tempo. Eu, por exemplo, trabalho o dia inteiro e depois vou para a faculdade. Muitas vezes não consigo me dedicar como gostaria. Ser desconhecido não traz nenhum benefício para a banda.

– Vocês anunciaram recentemente que lançariam videoclipes nesse ano. De onde veio a vontade de começar a trabalhar com audiovisual?

Beto: Temos pouco material audiovisual, clipes mesmo temos só dois. Mas também vem dessa necessidade de se fazer mais presente em outras mídias.

– E porque voltar aos palcos agora? Tem algum motivo específico?

Beto: O mesmo motivo que gerou todas as nossas manifestações: foi instintivo, não foi nada planejado. Eu achei que depois de 2012 a gente nunca mais iria gravar um disco, que já havíamos feito o suficiente. Mas recentemente me bateu uma vontade de escrever músicas e como eu sei que a banda tem uma história, falei com o pessoal que seria interessante fazer algumas coisas novas, sem nenhuma pretensão, só para fazer as músicas acontecerem. Eu acho que a parte mais legal de ter banda é ir para o estúdio gravar, compor os arranjos, gravar as vozes. Eu acho isso muito mais legal do que tocar ao vivo. Tocar ao vivo é muito ruim as vezes, algumas coisas escapam do nosso controle, ainda mais quando se trata de uma banda independente, você depende muito de outras coisas, não sabe se o palco vai ser bom, se a estrutura vai ser boa. Já a parte criativa está mais dentro do nosso controle e é a parte que mais me dá prazer em ter banda. Então dentro dessa filosofia eu procurei os meninos para gravar, o Tiago (ex-baixista) não animou muito e sugeriu colocar outra pessoa no lugar. O Gustavo Vasquez produziu nossos discos e agora esta com a gente no baixo. Eu já tinha muitas musicas feitas e algumas surgiram durante o processo, agora temos dez musicas inéditas para lançar.

– O nome “Era do Vacilo” é muito bom. De quem foi a ideia de usar essa ironia cômica no título do álbum?

Beto: Foi uma ideia minha. É um nome cômico ao mesmo tempo que é realista. Diante dos últimos tempos, das relações das pessoas na internet, da situação política no Brasil, acho que realmente estamos na “Era do Vacilo”. É um nome bem simbólico sobre a era em que o disco será lançado. A ironia sempre tem uma comicidade por trás. Tem muita coisa tragicômica por trás das musicas do Violins, até exagerando em alguma coisa para deixar ridículo. Eu acho legal utilizar essa figura de linguagem nas letras porque ela abre um leque de interpretação.

– E o álbum está previsto para sair quando?

Beto: Estamos trabalhando nele com calma, sem atropelos, para ficar exatamente como queremos, mas acredito que nesse semestre ele será lançado.

– Vocês voltaram à ativa em um período muito conturbado, socialmente e ideologicamente. Estamos em um caos social, onde todos estão divididos e existe muito extremismo, isso torna mais difícil compor e se expor, existe um risco que não existia antes. Quem viveu entre os anos 90 e 2000, se encaixa muito bem naquele trecho de Clube da Luta: “Somos uma geração sem peso na história, sem propósito ou lugar. Não tivemos uma guerra mundial, não temos uma grande depressão. Nossa guerra é espiritual, nossa depressão são nossas vidas”. Essa ausência de conflitos marcantes fez a nossa geração se tornar terrível. A geração que vem agora, consegue presenciar mais conflitos sociais, tem mais necessidade de lutar, mas ao mesmo tempo tem grandes dificuldades de se relacionar e se comunicar, não tem hábitos de leitura, nem de desenvolver um raciocínio aprofundado, escrevem em apenas 140 caracteres, se comunicam na maioria das vezes pelo WhatsApp, é tudo muito superficial. Já o Violins tem uma linguagem mais complexa, temas mais profundos e contestações sociais, então como vocês acham que será a aceitação das novas músicas perante a nova geração? Como vocês vão se posicionar liricamente e dentro dos temas abordados para atingir essas pessoas?

Beto: Eu acho que as músicas estão escritas de uma forma clara. Não tem muita complexidade em termos de letra. Contudo, cada um tem o seu jeito de escrever e eu acho que o meu não vai mudar muito. As letras desse disco vão ser mais parecidas com as do Tribunal Surdo, seja com metáforas, ironias ou narrando uma estória. Uma das músicas narra a estória de um cara que tomou uma bala perdida. É mais ou menos como o “Tribunal Surdo” fazia também.

– Você tem um pouco dessa ‘“pegada” storyteller, né?

Beto: Eu acho muito interessante isso de contar uma pequena estória dentro de uma letra. Claro que existe uma limitação muito grande porque letra de música é uma coisa muito achatada, tem que respeitar métricas e tudo mais, então as coisas são mais limitadas. Mas esse também é um desafio legal. Quando as composições se tratam de uma estória, elas têm que ser escritas de uma forma que seja muito clara, com começo, meio e fim e com a mensagem que você quer passar. Mas acho que as letras dessa vez estarão fáceis de compreender, apesar de não serem tão diretas. Elas estão dentro de toda a temática atual, claro que dentro da minha perspectiva de ver o mundo, algumas pessoas vão se identificar e outras não, mas é normal, tudo bem.

– O Ian Alves, guitarrista da Brvnks, também de Goiânia, perguntou quais as referências que você utiliza na hora de compor e se você tem alguma dica para quem quer compor bem em português.

Beto: É muito difícil falar em referências porque muitas pessoas e coisas te influenciam sempre. Existem as referências de texto, existem as referências na hora de compor uma sequência de acordes na guitarra que são diferentes das utilizadas para criar melodias. As vezes tem uma referência vocal dos Beach Boys, da década de 60, com aquele monte de vocalistas e tudo mais, mas ao mesmo tempo gosto de guitarras de rock inglês. E além disso tem as influências da minha infância, de Clube da Esquina, misturado com coisas da adolescência como Deftones (que tem uma melodia e peso que gosto também). É meio que um caleidoscópio de influências que monta uma pessoa, cada uma vai ter as suas, então acho difícil dar referências porque são minhas referências baseadas no que eu passei, estudei e aprendi, da cultura que eu cresci, essas características formam cada compositor. Provavelmente o cara que cresceu em um bairro diferente do meu vai ter outra visão do mundo e outras influências. Por isso acho muito difícil dar receitas prontas para composição, é algo muito individual. O meu método é muito caótico, não sigo uma ordem de escrever primeiro e depois compor a melodia, geralmente faço os dois ao mesmo tempo, mas isso também não funciona para todos.

– Ele também perguntou se você tem alguma influencia de Sunny Day Real Estate, porque viu que você tem até tatuagem da banda.

Beto: Muitos discos do final da década de 90 me influenciaram bastante, dentro das bandas americanas que eu gosto muito está o Sunny Day Real Estate, com certeza me influenciou muito, principalmente no inicio da Violins.

– E quais outras bandas ou artistas que o Violins tem como referência? Porque sempre tenho dificuldade para classificar a banda em algum gênero ou descrevê-la. Você também tem essa dificuldade?

Beto: Eu considero uma banda de rock e pra mim isso é o suficiente. Mas se precisar detalhar eu também tenho dificuldade em dizer, até porque eu não domino muito essas “classificações”. Então somos uma banda de rock, ou rock independente, as vezes “rock alternativo” por ser mais elaborado, ou mais melódico, ou mais difícil de compreender. Sendo só de rock pra mim tá legal. Posso citar algumas bandas como o Radiohead, os primeiros álbuns deles dos anos 90 me influenciaram bastante, o próprio Sunny Day Real Estate e as bandas chamadas de “emo” na década de 90. Também gosto muito de rock inglês, ouvi muito Beatles e Pink Floyd na infância. E gosto muito de música pop, escuto muito.

– O Douglas Carlos, da Sick, banda de rock instrumental experimental do Triângulo Mineiro (banda ótima por sinal e que recomendo bastante), perguntou como você se sente ao ver algumas composições antigas, se tem alguma que você se arrepende, ou que não faz mais sentido nenhum e se tem alguma que hoje faz mais sentido ainda.

Beto: Olha… tem muita coisa que eu escrevi que eu não gosto mais hoje em dia, que eu não faria novamente. Tem coisas do Aurora Prisma mesmo que hoje não gosto mais em termos de letra (vou falar só do disco e não da musica, tá? risos). Mas também tem esse lado de escutar coisas antigas que hoje fazem muito mais sentido do que na época, acontece isso às vezes. O legal da musica é isso. A partir do momento que você grava uma música e ela fica eternizada, ela passa pelo tempo e a interpretação sobre ela também muda. Por isso é bom escrever coisas mais abstratas, porque elas permitem interpretações diferentes que você pode sempre revisitar de formas diferentes.

– Vocês vão tocar no Festival Bananada, que além de ser um dos maiores festivais de música alternativa do Brasil, acontece na cidade de vocês. Muitos consideram essa apresentação como o grande retorno da banda. Vocês também enxergam dessa forma? Qual a expectativa para esse show?

Beto: Tocar no Bananada é massa demais, a gente toca no festival desde o começo dos anos 2000 quando começou a crescer esses festivais aqui em Goiânia, junto Goiânia Noise, depois o Vaca Amarela, mas esses dois festivais, o Bananada e o Goiânia Noise são muito tradicionais, o Bananada tem 20 anos. A gente ficou por um tempo sem tocar nesses festivais mas nesse ano estamos muito animados, principalmente porque vamos tocar as músicas novas pela primeira vez ao vivo, a gente ainda nem ensaiou essas músicas juntos com a nova formação da banda. A gente foi construindo as músicas no estúdio, então eu nunca toquei elas com o Gustavo na banda, por exemplo. Então pra nós vai ser uma coisa nova, porque nunca tivemos isso na nossa história. Sempre que a gente ia gravar um disco, já tínhamos ensaiado pra caramba, aí entrava no estúdio e gravava, mas dessa vez não, fomos meio que fazendo as músicas separadamente, juntou tudo e gravou. Ficou muito legal, foi muito bom esse processo porque as músicas ainda são muito novas pra gente, então não tem aquele sentimento de tocar ao vivo e já estar cansado da música, no nosso caso ainda nem ensaiamos, inclusive temos que fazer isso logo porque o show está perto, mas vamos tentar ensaiar pelo menos uma semana antes pra não passar muita vergonha (risos). Mas vai ser ótimo, é um público grande, uma oportunidade boa pra divulgar as músicas novas.

– Você sabe quem tem pessoas que vão ao festival só para ver vocês tocarem, certo?

Beto: Uma pessoa me falou no Facebook esses dias que sairia do Rio de Janeiro só para ver o nosso show no Bananada. Toda vez que tocamos em algum lugar e alguém me diz que viajou só para ver a gente tocando, pra mim é o auge de realização de uma pessoa que faz música, quando alguém vem te falar que saiu da cidade dela só para ver o show da sua banda, pra mim é a coisa mais foda que pode acontecer. Na primeira vez que isso aconteceu comigo eu não acreditei, eu achei que a pessoa estava tirando onda com a minha cara, foi difícil acreditar que era verdade. A gente toca na maioria das vezes em capitais, então quando a gente vai tocar em Belo Horizonte por exemplo, tem muitas pessoas das cidades próximas que vão, até pessoas de São Paulo, isso é muito mais do que a gente pensou quando começou a banda, lá em 2001, no quartinho da minha casa. Na época a gente queria ter uma chance de tocar no Goiânia Noise apenas, era o nosso “auge”, então isso pra mim é uma realização como compositor. Ter uma pessoa que viaja pra te ver tocar é uma coisa muito foda.

– E vai acontecer turnê nova com o disco novo?

Beto: O problema de fazer shows é a agenda de cada um, aí já fica uma complicação, a gente não tem essa flexibilidade de horários nas nossas vidas profissionais pra ficar uma semana viajando. Então não tem como fazer turnê porque não tem como ficar vários dias fora, cada um tem um trabalho fixo aqui e dependemos deles. Os shows que fazemos geralmente são em fins de semana, bate e volta, não conseguimos emendar dias e dias de show. Fazemos um show pontual aqui ou ali mas não vai acontecer uma sequência enorme de apresentações porque não temos condições mesmo de fazer isso por inúmeros fatores. Mas claro que pretendemos tocar várias vezes e em vários lugares para divulgar o disco.

– Ok, mas suponhamos que apareçam boas oportunidades, o álbum estoura, vira um sucesso, aparecem várias propostas, inclusive financeiras, e aí? Vocês estão preparados pra isso?

Beto:  Eu não tenho isso como objetivo. Se isso acontecer provavelmente eu vou negar.

– É sério? Você negaria?

Beto: Eu não tenho nenhuma vontade de viver só ganhando dinheiro com shows e música. Minha vida já está construída em outra carreira, eu não trocaria o que eu tenho hoje pra ficar vivendo com um pouquinho só para fazer música, eu não consigo. Eu me cansaria de ter que viajar e tocar toda hora, eu não gosto desse ritmo, sou muito caseiro, não é pra mim esse tipo de coisa. Eu já considero que eu vivo de música justamente porque eu não dependo dela para pagar minhas contas, então eu posso realmente viver o que eu quiser na música porque eu não dependo dela, essa liberdade pra mim é muito legal.

– Algumas bandas que surgiram na mesma época que vocês estão voltando aos palcos também, isso é muito interessante. E ainda dentro desse tema, o Luden Viana da banda E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante perguntou como vocês conseguiram permanecer ativos durante tanto tempo, tendo em vista que a banda chegou a acabar e voltou devido a pedidos do público na época do Orkut. Como é ser uma das poucas bandas independentes remanescentes do começo dos anos 2000?

Beto: Eu acho que houve um ciclo. Acho que muitas bandas dessa época ficaram muito presas dentro do que estávamos falando, do objetivo de ter que fazer a banda “virar alguma coisa”. Houve uma euforia no começo dos anos 2000, muita coisa sendo construída, as bandas independentes começaram a tocar nas rádios, mais estrutura para as bandas, festivais rolando no Brasil inteiro, mas aí as pessoas viram que dali pra frente não caminharia muito mais e eu acho que isso gerou uma ressaca em muitas bandas, que inclusive desapareceram nessa época. Eu acho muito bom que os integrantes das bandas que estão voltando agora tenham amadurecido enquanto pessoas e estão voltando a fazer música de uma forma despretenciosa (no sentido do “profissionalismo” da banda), fazendo as coisas por amadorismo no sentido de fazer porque ama, no bom sentido da palavra amador. E isso não significa fazer mal-feito e sim fazer com carinho, porque gosta, com um sentimento legal, sem aquela pressão de ter que fazer a banda ser isso ou aquilo. Essa pressão acaba com a banda, acaba com a credibilidade dos artistas, acaba com a espontaneidade da música. E alguns dos integrantes das bandas que passaram por essa ressaca agora já estão mais decididos na vida pessoal mesmo e decidiram voltar a ter banda porque gostam de tocar juntos, gostam de gravar, gostam de fazer shows e se só 10 pessoas ouvirem e gostarem, foda-se. O importante é fazer parte disso e é isso que vale.

– Depois de conversar com você, percebe-se que realmente vocês tem pouca noção do simbolismo que o Violins tem para muita gente e a influência que é para muitas outras bandas, é interessante ver essa forma verdadeira e despretensiosa de levar a banda e o que vocês fazem.

Beto: Talvez eu não tenha essa noção, mas eu fico muito feliz de imaginar que possa acontecer isso, de achar que tem quem nos tenha como referência. Esses dias eu estava lendo uma entrevista com uma banda aqui de Goiânia, o Components, e eles estavam citando o Violins como influência e eu pensei como isso é legal, ter uma banda que influenciou uma outra banda, um músico ou uma pessoa na vida mesmo, que foi tocada por aquilo. Isso é o mais legal de fazer música, essa conexão que é gerada com as pessoas, pessoas que vêm conversar com você e parece que você conhece há muitos anos porque vocês estão conectados à música, pela frequência das músicas que as pessoas têm em comum. Eu tenho amigos no Brasil inteiro por causa da banda, isso é uma das coisas que move muito essa missão de fazer música.

– Pra finalizar, eu sempre coloco Violins como uma das minhas bandas nacionais favoritas e muitas pessoas me pedem pra apresentar a banda, sugerir músicas ou algum álbum e eu geralmente não sei o que fazer porque os discos são muito diferentes, as músicas também. Eu tenho as minhas preferidas mas entendo que podem não agradar tanto quem nunca escutou a banda. Se você tivesse que separar algumas músicas para quem nunca ouviu Violins conhecer a banda, quais músicas ou álbum você sugere?

Beto: Nossa, isso é muito difícil, difícil demais! Acho que o disco que eu mais apresento para as pessoas que eu vejo que não são de ouvir música independente, mais do senso comum da música, de ouvir rádio, que não são muito pesquisadoras, é o Direito de Ser Nada”, tem o clipe de “Rumo de Tudo”, então eu acho que é uma boa para começar a conhecer a banda de uma forma mais acessível.

– Mas sem falar apenas de acessibilidade, mais para dizer “isso aqui é Violins, isso é o que o Violins quer transmitir”.

Beto: Tem algumas músicas que são representativas de cada disco. Do Greve Das Navalhas” tem “Tsunami” e “Do Tempo”, de Grandes Infiéis” tem “Atriz” e “Glória”, do “Tribunal Surdo” tem “Anti-Herói Pt. 1″ e “Manicômio”… essas músicas são as que geralmente nos pedem para tocar nos shows. Do Redenção dos Corpos” tem “Entre o Céu e o Inferno”, “Festa Universal da Queda”

– Desculpa interromper, mas é que “Redenção dos Corpos” é um dos meus álbuns preferidos da vida e “Entre o Céu e o Inferno” é uma das minhas favoritas da banda. Esse álbum me pegou justamente num período de conflitos espirituais e existenciais também, na linha entre a fé e as questões humanas individuais, esse álbum aborda muito isso, então tem um lugar importante pra mim. Eu precisava falar sobre ele!

Beto: É bom demais ouvir isso porque é um disco que eu tenho um grande carinho por ele, foi muito legal de fazer, gosto das músicas, das letras. É que tem discos que eu escuto e me dá uma certa vergonha, sabe? Eu penso: “Ah! Nunca mais quero ouvir esse disco na minha vida”. Mas o “Redenção dos Corpos” não, é um disco que eu ouço e penso que não fiz muita cagada ali. Ele é um disco que tem um cunho pessoal grande porque ele traz o questionamento existencial. Na minha casa eu fui o único que não fez primeira comunhão, eu sempre tive o questionamento de nunca conseguir me entregar a uma religião, a um corpo fechado de dogmas, sempre tem uma coisa ou outra que eu não consigo aceitar, tem coisas que eu concordo mas eu nunca consegui dar aquele salto de fé necessário, então eu sempre me vi nessa condição vulnerável de pesquisador e investigador. Eu não tenho religião mas não sou totalmente despido de religiosidade. Eu não consigo explicar todas as questões, fico na condição de ficar só com a pergunta.

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Enquanto eu transcrevia o áudio da entrevista, foi divulgada a primeira musica do álbum “Era do Vacilo”: “Herói Fabricado”. Foi lançada em formato de videoclipe, praticamente um “lyric video”, objetivo, bem feito, com simbologias sutis e com o foco naquilo que talvez seja o ponto mais forte da banda: a lírica e a mensagem. Não precisava de mais.

“Herói Fabricado”, a priori, parecia somente uma crítica aos ícones conservadores que supostamente podem salvar a pátria, mas foi além, é um questionamento para todos. Ataca, inclusive, as tentativas de amenizar os conflitos sociais entre oprimido e opressor. Sem falso moralismo, sem idealismos pacifistas utópicos. Violins trouxe com essa música o lado social de Tribunal Surdo com a sutilidade de Redenção dos Corpos, que, pra mim, são os dois melhores álbuns da banda. A opção de fazer um clipe com foco na lírica foi brilhante. Violins é para escutar com o encarte do disco em mãos, acompanhando as letras, absorvendo e tentando digerir aos poucos cada palavra, cada entrelinha, toda a semântica. O instrumental traduz perfeitamente o sentimento de cada trecho, te faz sentir o que deve ser sentido em cada parte da mensagem. Com mais peso que a maioria das canções dos dois últimos álbuns, Herói Fabricado nos deixa na expectativa de mais um álbum marcante, mais dias escutando as mesmas musicas com afinco, em uma agradável e lenta digestão.
Que venha “Era do Vacilo”.

A trilha sonora perfeita para um Halloween sangrento

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Chegou o natal dos trevosos e queremos comemorar! Não importa se você mora em terras tupiniquins e queira chamar de “Dia do Saci”, o importante é colocar sua fantasia, pegar um copo de vinho barato e aproveitar as festinhas com a melhor (e mais mórbida) playlist.
Conversamos com alguns amigos do underground nacional para saber o que escutariam em uma noite de Halloween. O resultado foi assustadoramente bom.

Mesmo com algumas mudanças e intervenções comerciais no decorrer do tempo, a história do Halloween desafia as festas cristãs tradicionais por ter uma origem pagã que não perde suas raízes. Manter viva uma comemoração que fala sobre a morte e exalta figuras demonizadas pela sociedade tem lá sua importância. É no ode ao bizarro e no confronto social sobre o que é considerado “aceitável” que o rock encontra o Halloween. Muitas bandas e artistas homenageiam a data, seja nas composições ou na estética “creepy”. Impossível não mencionar alguns ícones: Alice Cooper com suas apresentações chocantes que influenciaram toda uma geração, Black Sabbath que construiu o conceito da banda inspirado em contos de terror, Misfits que deu origem ao Horror Punk, Rob Zombie que até dirigiu o remake do filme Halloween e King Diamond com seu microfone feito de ossos humanos. Claro que a lista de artistas que bebem dessa fonte é muito maior e, inclusive, merecem uma matéria futuramente.

No Brasil, terra de Zé do Caixão, Mula Sem Cabeça, Toninho do Diabo, Michel Temer e Saci Pererê, temos nossas bandas terrivelmente boas. A coletânea Isto é Horror Punk Brasil reúne bandas brasileiras que falam sem misericórdia sobre cadáveres, sangue e satanás. As bandas de punk rock brazuca tem um sarcasmo único nas composições, coisa que só sabe fazer quem cresceu com medo do homem do saco, no meio da tensão da favela, com presidente vampiro sugando o povo e correndo de bandido portador de peixeira. Rir da desgraça é coisa que brasileiro faz melhor do que ninguém.


E falando em rir da morte e se divertir com a decadência, vamos às indicações de músicas para embalar o Halloween com muito sangue de groselha:

Zumbis do Espaço – “O Mal Imortal” // Amanda Magnino
Começando pela minha indicação, claro! Zumbis do Espaço é punk rock do Brasil e o clipe dessa música tem participação do grande mestre José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Zumbis do Espaço não tem medo de chocar ninguém, fala do capeta, violência e cemitério. Por algum motivo muito bizarro, sempre que eu escuto a banda eu fico de bom humor, então, pra mim, é a trilha sonora ideal pra uma noite de celebração degenerada.

Misfits – “London Dungeon” // Alexandre Cacciatore – O Inimigo

Nekrotério – “Jason” // Joe Porto – Lava Divers
O Joe considera Nekrotério o Misfits do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. E cá pra nós, se alguém sobrevive às loucuras do cerrado, sobrevive a qualquer noite de terror.

Bauhaus “Bela Lugosi’s Dead” // Victor José – Antiprisma
“Classicão. Não vejo nenhuma outra música com apelo tão soturno a ponto de me fazer lembrar sangue, vampiro, lápide, cadáver, caixão, cemitério e noite apenas com poucos compassos de bateria. E o mais estranho é que, se você reparar bem, aquilo é uma bossa nova! Ela é tétrica por inteiro. Aquele riff repetitivo do baixo, a guitarra levemente noise e o vocal afetado dão um ar de hipnose nos quase dez minutos de duração. E mesmo esquecendo dessa coisa dark, dá pra perceber que ali tem uma noção estética absurda. Parabéns aos envolvidos. Além disso “Bela Lugosi’s Dead” é meio que pioneira nessa pegada, tanto que muita gente a considera como “a inauguração do rock gótico”, o que fez com que o Bauhaus se incomodasse um pouco (e com razão). Poxa, Bauhaus é uma banda incrível, vai muito além disso. Enfim, não dá pra pensar em fazer uma festa de Halloween sem essa.”

Carbona – “Eu Acredito em Monstros” // Andrei Martinez – Francisco, El Hombre

Alice In Chains – “Grind” // André Luis Santos “Murça” – Desventura
De acordo com meu querido amigo Murça, o clipe dessa música é o mais mórbido possível.

Itamar Assumpção – “Noite de Terror, Oh Maldição” // Moita Mattos – Porcas Borboletas
Nessa versão o Itamar mistura “Noite de Terror” do Roberto Carlos“Oh Maldição” de Arrigo e Paulo Barnabé. Obviamente a mistura ficou bem bizarra, ou seja, perfeita para uma noite sinistra.

Ministry – “Everyday Is Halloween” / Rafael Lamin – Enema Noise
Não precisa nem falar nada, né?

O Lendário Chucrobillyman – “Macumba For You” // Mauro Fontoura – Muñoz

Sopor Aeternus – “A Strange Thing To Say” // Vitor Marsula – Molodoys
“A escolha já começa com a própria artista, que é, basicamente, uma pessoa que ninguém tem certeza de onde vem, o que é e como é e, pela banda de apoio, que é alegadamente uma hoste de espíritos que ajudam Anna Varney Catandea, a única integrante viva da banda a compor, e do fato da banda só performar para a alma dos mortos. Juntando à temática da música, que é a relação do personagem com o seu único amigo, um assassino da mais alta qualidade e a ponderação e até felicidade em pensar que o mesmo poderia ser quem tiraria sua vida num futuro, tornam ela, para mim, uma ótima música para essa época. Isso sem contar a música em si, que tem uma pegada que vai desde a música barroca até uma sonoridade bem agressiva de forma linda e que te cativa muito. E o clipe da música merece uma atenção também por ser bem creepy e reconfortante, como é essa época do ano.”

The Cramps – “Bikini Girls With Machine Guns” // Marco Paulo Henriques – Uganga
Não podia faltar The Cramps nessa lista, obrigada Marco Paulo!

John Carpenter

– “Escape From New York” // Gabriel Muchon – Poltergat
“Não tem como não falar de John Carpenter quando o assunto é Halloween e música. O cara não só escreveu e dirigiu o primeiro filme da lendária franquia de Michael Myers, mas também criou e produziu a icônica trilha sonora. Recentemente ele lançou um disco “Anthology: Movie Themes 1974-1998″ e conta com vários clássicos, como o “Escape from New York’.”

Drákula – “Cidade Assassina” // Gordon Rise – Light Strucks
Mais uma do horror punk nacional pra nossa lista.

Soundgarden – “Beyond The Wheel” // Lúcia Vulcano – Pata
‘Beyond the Wheel’ é a quarta música do ‘Ultramega Ok’
do Soundgarden e fica entre as músicas 665 e 667. Ou seja… A sonoridade remete a um clima tenso, com um andamento lento e riff bem pesado. A letra fala de uma dinâmica familiar patriarcal, baseada em guerra e lucro. Bem, não há coisa entre o céu e a terra mais assustadora do que isso, certo?”

Marilyn Manson – “The KKK Took My Baby Away” / Amanda Ramalho – Chá das 4 e 20 Músicas / Jovem Pan FM
“Eu ganhei um tributo aos Ramones de uma amiga gótica na minha adolescência, cheia de bandas famosas fazendo versões dos caras, mas essa sempre me impressionou mais. O clima é totalmente macabro. Quando eu penso nessa musica eu canto na versão do Manson, não na dos Ramones. Pra mim ela faz muito mais sentido com ele.”

The Gothic Archies – “Smile! No One Cares How You Feel” // Pedro Serapicos – Serapicos
Stephen Merritt é um dos meus cantores preferidos e um compositor absurdamente prolífico, lúdico e diverso. Mais conhecido por seu trabalho com o The Magnetic Fields (especialmente pelo épico album triplo de 1999 ’69 Love Songs’), Merritt também dá as caras em diversos outros projetos, como o Gothic Archies, definido pelo compositor como um projeto de ‘goth-bubblegum’. As músicas desse projeto tem todas um ‘quê’ fantasmagórico e abordam, com humor ácido, mórbido e inteligente, um lado mais melancólico, dark, visceral e pessimista da existência. Destaque pra canção ‘Smile! No one cares how you feel’; com poesia arrebatadora que aborda a vaidade, egoísmo e dissimulação.”

Black Sabbath – “Black Sabbath” // Mariana Ceriani – Dead Parrot
“Você não precisa entender a letra e nem o próprio título da música pra saber que está falando de algo macabro. Dá pra imaginar toda uma história de terror pelo arranjo inteiro, mas principalmente pelo riff de guitarra principal por si só (habemus Tony Yommi). Não é à toa que é a faixa que tem o mesmo nome do álbum e com a capa mais assustadora das capas.”

Eminem – “3 A.M.” // João Pedro Ramos – Crush em Hi-Fi
“Nessa música do discoRelapse” o rapper fala da perspectiva de um serial killer que questiona sua sanidade. O som tem até referências à “Silêncio dos Inocentes’

White Zombie – “I’m Your Boogieman” // Chris Lopo
“A música é original do KC & The Sunshine Band, mas foi em 1996 que o White Zombie levou o título ao pé da letra e fez um dos clipes mais legais da curta vida da banda. Gravado para a trilha sonora do filmeO Corvo: Cidade dos Anjos”, a música ganhou um vídeo que parece ter saído diretamente de um capítulo da série Os Monstros”. Nele, temos uma banda de monstros tocando pra uma plateia de monstrinhos hiper-empolgados. Os takes com Rob Zombie cantando já se passam na atualidade, com zumbis estilo The Walking Dead” vagando, ao seu redor, dentro de uma jaula, decorada igualzinho àquela melhor festa de Halloween que vai aparecer só pra quem sonhar com o clipe.”

Spidrax – Lenda Urbana // Helder Sampedro – RockALT e Crush em Hi-Fi
A letra macabra da música junto aos riffs


Depois de tantas sugestões discrepantes e sensacionais, montamos uma playlist no Spotify da Crush em Hi-Fi com todas essas indicações e mais algumas outras que colocamos para vocês saírem na rua pedindo doces, com maquiagem duvidosa e fantasia improvisada.

Dê o play e lembre-se sempre de não morder o coleguinha sem autorização, ok?

 

Já escolheu o look do dia?

 

Um ode ao rock triste em tempos de pós-psicodelia

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Fotografia de @ciaospiriti

Vivemos na geração da pós-psicodelia, com muitas cores, brilhos, canções felizes e lisérgicas. Falamos muito sobre uma liberdade em tons de Woodstock, onde questões sociais são abordadas superficialmente para não estragar a boa onda, os conflitos internos se resolvem momentaneamente com um drink bacana e todos os problemas aparentemente se resolvem com um discurso alto astral. Encarar a própria humanidade fica cada vez mais impossível.

Em meio à composições que falam de uma realidade quase distópica e carregadas de uma positividade inalcançável, ainda existe quem canta tudo que ninguém quer ouvir, existe quem fala dos desconfortos e conflitos insuportáveis da existência. Essa ascendência de bandas com temática crua e realista, em paralelo à onda tropical e colorida, mostra que falar sobre tristeza é um ato de resistência, um grito de quem não aguenta mais uma realidade florida que não pertence.

Estamos sufocados na obrigatoriedade de sermos felizes o tempo todo, cercados de feeds simétricos com pessoas festivas em fotos descoladas, os eventos têm cada vez mais glitter e nem sempre isso representa nosso estado de espírito. Nos sentimos desconfortáveis ao falar sobre nossas angústias por medo de ser taxados de “onda negra” ou “pessoa tóxica”. No meio dessa demanda por perfeição, sentir tristeza, dor, ou qualquer tipo de sentimento negativo soa completamente errado, mas a realidade é que todos sentimos as piores angústias e, encará-las frente é a melhor forma de enfrentá-las, encarar com música, é parte de uma cura.

Na geração em que vivemos, existe tanta alusão à uma positividade utópica na música, que as vezes tenho dúvidas sobre o quanto as pessoas estão dispostas a escrever com profundidade, a encarar suas dificuldades de forma realista e se curar através do auto-conhecimento. Parece que todo mundo quer se anestesiar de maneira psicodélica em uma ilusão de realidade que não faz parte. Mas isso não é um problema, fugir do mundo real é necessário para sobreviver, mas em que ponto essa fuga virou uma constante?

Quando eu estava saindo da adolescência, conheci Violins. Estava me reconhecendo ideologicamente, com uma depressão que mal entendia e conflituosa com todas as minhas crenças pessoais, escutei o álbum Redenção dos Corpos” e chorei bastante, aquilo traduzia tudo que eu sentia e não conseguia expressar, todo meu sufoco ficou mais poético e menos insuportável. Eu lia as letras da banda por horas como se fosse um livro, isso me ajudou a entender que eu não era anormal, que se aqueles caras conseguiram transformar aqueles conflitos em algo tão bonito, eu também poderia.

Violins, em 2005

Para quem teve o punk como escola, falar de ódio, tristeza e decadência social não é novidade. O punk ensina como peneirar todo o “caos mental geral”, transformar a “rebeldia contida” em luta e fazer uma “canção para esquecer”.

Bandas gringas com ar de tristeza sempre foram mais populares, a MTV trouxe o shoegaze à tona no Brasil e o grunge explodiu nos anos 90, mas nem todo mundo tem o privilégio ser ser bilíngue. Nos anos 2000, o idioma morto, ou o bom português do Ludovic, trouxe composições mergulhadas em conflitos e melancolia, somado à essência do punk. Cada música do Ludovic é um expurgo. As letras de Jair Naves falam de uma forma tão crua sobre sentimentos e decadências que, nos ouvidos de quem não está acostumado a encarar as próprias fragilidades, pode soar incômodo. As performances ao vivo da banda são um momento de alívio para quem se sente deslocado em meio às demandas sociais de perfeição, muitos desses deslocados são os que, hoje, deram continuidade à toda essa chama depois de quase uma década da última ascensão do rock triste no Brasil.

Ludovic, em 2005

Bandas como Gorduratrans, Lupe de Lupe, El Toro Fuerte, Enema Noise e Raça trazem novamente essa temática na contramão da onda “good vibes” que assola a cena musical. Selos e coletivos como Geração Perdida e Bichano Records ajudaram a dar espaço e visibilidade para esses artistas que ainda são controversos para muitos.
Talvez, todo esse renascimento de bandas e músicos aparentemente “tristes” no Brasil, reflete que o superficial não fala mais por nós, que estamos cansados de esconder nosso lado mais obscuro por medo das reações sociais, que a trivialidade musical já não preenche. Não é porque somos o país do carnaval que precisamos estar sempre em festa e conformismo. Mergulhar a fundo e sem medo em composições que falam do ser humano com genuinidade, sem máscaras e sem glamour, pode significar uma nova etapa para a música brasileira.
Aos poucos, estamos aprendendo a lidar com nossos demônios de forma poética. Assumir as próprias fraquezas é resistir.

Fiz uma playlist para o Spotify do Crush Em Hi-Fi para embalar a melhor bad vibe possível, só com bandas nacionais do tal “rock triste”. Segue a playlist e o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify, pegue a sua bebida, cigarros, cartelas de remédios ou água com gás e dá o play.

Do emo ao shoegaze, segundo EP do Eliminadorzinho, “Aniquiladorzinho”, é um resgate de influências perdidas

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Muitas vezes sinto falta de músicas que falem comigo de maneira genuína, que não falem sobre uma realidade colorida distópica ou sobre positividades inalcançáveis. Sinto falta do que eu sentia quando descobri Violins e Ludovic na adolescência, que em bom português, traduziam tudo o que eu sentia mais do que muitas bandas gringas de post-hardcore, shoegaze e punk da época. O Eliminadorzinho foi uma das bandas mais sinceras que descobri de uns tempos pra cá, junto com outras do tal “rock triste”, um alívio para quem se sente perdido em meio a tanta obrigação de ser feliz o tempo todo. Ontem a banda lançou o segundo EP, Aniquiladorzinho”, corri para escutar e foi incrível ver um material tão intenso.

A faixa de abertura “Você Acha” não deixa dúvidas da forte influência de Ludovic, que vai desde o instrumental até a lírica. Chega a ser quase uma homenagem à banda que, pelo menos para mim, é uma das mais significativas do cenário nacional. Ludovic provavelmente deve sentir orgulho ao ver os frutos que deixou crescer em bandas como Eliminadorzinho. A mesma influência continua em “Borrão”, que também bebe do pós-punk, lembrando as canções dessa fase de Inocentes e Cólera em alguns momentos.

“Desculpa, parte 2” traz memória ao emo cru e verdadeiro, sem vergonha de se assumir como tal. Essa faixa é um marco no EP que mostra influências do Eliminadorzinho que vão além do shoegaze já mostrado no EP anterior, referências que lembram Mineral, Cap´n Jazz, Sunny Real Estate, tudo direto da fonte dos anos 90. Depois do termo “emo” ter se tornado um palavrão, é bom ver bandas que resgatam essa essência com coragem para mostrar que isso faz parte do que chamamos de “rock triste” sim. Sem meios-termos. Esse resgate de referências perdidas por muitos foi o ponto alto de Aniquiladorzinho.

“Fora de Ar” é dessas músicas que dá vontade de escutar dentro de casa, no quarto, com alguns comprimidos e álcool do lado. Também dá vontade de mandar pra alguém, confesso que eu mesma quase mandei. As palavras intensas seguidas de um instrumental contínuo e denso fazem dessa música uma experiência incrível para quem se propõe a ouvir com o coração aberto.

A conexão entre instrumental e lírica em Aniquiladorzinho é muito coerente e complementar, as composições feitas de maneira simples, sem palavras muito rebuscadas mas com muita intensidade trazem sinceridade para cada música, dá pra sentir cada palavra, dá para processar e digerir.
Como já mencionado, o shoegaze ainda é muito presente, impossível não pensar em Pinback e Slowdive em vários momentos e como a própria banda diz, a influência de Dinosaur Jr também é perceptível.

Terminei de escutar o EP com vontade de ouvir mais. Espero que o mar de boas referências que Aniquiladorzinho trouxe de forma corajosa e contra a maré de quase tudo que vemos por aí, inspire muitas bandas e artistas a seguir falando de sentimentos, conflitos, tristeza e tudo que ainda pode soar incômodo.

O EP foi mixado e masterizado por Rubens Adati, no Inhamestúdio.

Voz, violão e guitarra: Gabriel Eliott Garcia
Baixo e vocal de apoio: João Pedro Haddad
Bateria e vocal de apoio: Tiago Schützer

Anoquiladorzinho está totalmente disponível nas plataformas virtuais da banda e no Spotify:

 

 

Instrumental agressivo e protagonismo feminino formam o primeiro EP do duo cuiabano SixKicks

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A dupla cuiabana SixKicks, formada por Marjorie Jorie e Theo Charbel, lançou ontem seu EP de estreia, “You Should Sing In Portuguese Buy More Pedals And Play Lower”.

O EP traz um instrumental que passeia de forma agressiva pelos anos 90, indo do garage rock ao industrial, como se misturasse Nine Inch Nails, Le Tigre, Sonic Youth e My Bloody Valentine na mesma receita. Inclusive, a faixa Take Time tem acordes que lembram bastante Sonic Youth.

O EP de nome provocativo valoriza a parte instrumental, como fica claro em “Doom”, onde os vocais são deixados de lado para destacar ainda mais os instrumentos executados apenas pelas duas integrantes.

A faixa de abertura, “You Wanna Fuck Me”, é sensual dos os acordes até a letra que fala sobre sexo de maneira nada pudica. Toda a parte lírica do EP, apesar de simples e curta, soa como um reflexo do imaginário das autoras.
Entre guitarras, uma bateria muito bem executada e sintetizadores, “Forrock” homenageia a música tradicional cuiabana até na forma de composição lírica, que segue a mesma fórmula das músicas regionais de Cuiabá.

SixKicks representa muito bem o protagonismo feminino na música, apresentando um material onde mulheres executam desde as composições até a mixagem.

O EP “You Shoud Sing In Portuguese Buy More Pedals And Play Lower” foi lançado pelos selos PWR Records e Fofura Records, gravado no Estúdio Aurora Sounds por Alejandra Luciani e masterizado no Estúdio Us.

Entre o Machado de Assis e de Xangô, Baco Exu do Blues marca o rap nacional com “Esú”

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Primeiro álbum de Baco Exu do Blues, Esú

Na última semana viralizou nas timelines de quem nem é habituado a ouvir rap a música “Te amo Disgraça”. Pessoas de vários nichos sociais diferentes estão compartilhando e escutando rap e, dessa vez, não é não é um cantor classe média, não é um rapper diplomático que só conversa com universitários e, principalmente, não é um grupo de brancos falando de futilidades e nem alguém do sudeste. É um negro, nordestino, que fala de forma suja ainda que cante sobre literatura. É o rap sujismundo, como ele mesmo diz em uma das músicas que canta e traduz bem a realidade que o leva a compor.

Baco Exú do Blues é um compositor impecável, está acima de muitos compositores da música de elite e a importância sociocultural de um artista do rap, música de favela, ter esse nível, tem que ser reconhecida. Em tempos onde as composições ficam cada vez mais rasas, com conteúdos que falam de uma realidade que soa distópica, a profundidade vir dos ditos “marginais” é um fenômeno social, é uma revolução.
“Esú”, o primeiro álbum de Baco, é mergulhado em referências da literatura brasileira, com grande ênfase na obra de Jorge Amado. Ele é filho de professora de literatura, o que deixa claro que essa influência não é proveniente de prepotência intelectual alguma, mas da vivência pessoal do autor, além do quê, a própria obra de Jorge Amado, que influenciou muito a construção de “Esú”, é um ode à Bahia e ao Nordeste em sua forma mais nua e crua, com louvores à tudo que é visto de maneira marginalizada pelo sudeste, essa mesma intenção foi refletida em cada detalhe do álbum.

Baco consegue levar o privilégio do conhecimento que tem à todos os públicos. Sem ser pedante e elitizado, ele consegue falar, entre tantas outras coisas, de Almodóvar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Baden Powell, mitologia grega, negritude, desigualdade social, distúrbios psicológicos e suicídio. Muitas vezes a música e a arte em geral não conversam com todos, principalmente com a periferia, mas a linguagem, a simplicidade e a genuinidade que ele carrega na atitude, leva essas mensagens à lugares onde não existe o debate sobre esses temas. Essa linguagem aparentemente “chula” que Baco adota propositalmente é no mínimo genial e faz parte desse ato. Ela incomoda, ela traz desconforto, principalmente para os ouvidos do sudeste ou de quem não pertence à realidades marginalizadas, parar para refletir sobre os porquês desse incômodo é fundamental para quebrar barreiras de comunicação, é um desaforo aos preconceitos linguísticos. Ela conversa com um público além dos universitários e bem-letrados, ela transmite informação para fora dos nichos sociais de praxe, coisa que muitos artistas, inclusive do rap, pararam de fazer. Esse compartilhamento de informações que quase sempre são restritas à classe média, vai na contramão do comportamento de muitos artistas e pseudo-intelectuais. Hoje vemos pessoas com ciúmes dos seus autores, artistas e bandas favoritos, rindo da cara de quem não tem o mesmo conhecimento musical, com toques de preconceito linguístico, usando de “privilégios intelectuais” para se sobressair socialmente, como se quem não conhecesse milhares de livros ou músicos requintados fossem menores, ignorando o fato de que nem todos têm o mesmo acesso cultural e a mesma realidade social.

Baco sempre criticou todo tipo de segregação sociocultural, estourou ano passado com a música “Sulicídio”, feita em parceria com Diomedes Chinaski, com produção de Mazili e Sly. A diss virou o rap nacional de cabeça pra baixo ao questionar de forma agressiva como o rap nordestino era desvalorizado enquanto o do sudeste era supervalorizado, atacando diretamente os grandes rappers que estavam em evidência. A intenção era mostrar como existem barreiras sociais que impedem a música nordestina de ter o devido reconhecimento e, só um grito escandaloso poderia acordar o país para essa questão. Com “Sulicídio”, o rap do nordeste voltou a ter visibilidade e o questionamento sobre a segregação no hip hop veio à tona, paralelamente, Baco recebeu uma grande notoriedade acompanhada de ameaças, um paradoxo de amor e ódio que o levou à uma depressão, descrita em vários momentos nas faixas de “Esú”. Essa crise ficou clara em En Tu Mira, que foi divulgada em prelúdio para o álbum, ali ele falava das cobranças e conflitos durante o processo criativo e sobre o tão falado “ano lírico” que foi prometido em Poetas no Topo 2, uma provocação às composições rasas que estavam no mainstream do rap nacional. De fato, 2017 trouxe composições mais profundas, protagonizadas por diversos artistas do rap, Baco veio com Esú para coroar de vez esse ano como lírico.

A intro, de cara, traz scratches de KL Jay (Racionais MC´s), participação da Orquestra Afro Brasileira e beat feito por Scooby Mauricio. A criação dos beats das outras músicas do álbum ficou por conta de Nansy Silvvs que ousou em trazer cânticos em Iorubá, maracatu, guitarra baiana e batuques de candomblé. As fotografias do livro “Laróyè”, de Mario Cravo Neto compõem a parte artística, cada imagem traz um significado único às faixas com maestria. Em tempos conservadores e de intolerância religiosa, uma obra que ataca os pilares racistas, religiosos e morais da sociedade desde a arte da capa até os beats, é um ato revolucionário.

Sobre as faixas, vale destacar três:

“Esú”:
Música destaque do álbum. Novos Baianos sendo homenageados no sample, letra impecável repleta de referências e versos de peso:

“Garçom, traz outra dose, por favor, que eu tô entre o Machado de Assis e de Xangô”

“Dance com as musas entre os bosques e vinhedas. Nesse sertão veredas e sentir é um mar profundo, nele me afundo até o fundo, insatisfeito com o tamanho do mundo”

“Capitães de Areia”:
Título que homenageia a maravilhosa obra de Jorge Amado que contesta as diferenças sociais em Salvador. Clara referência musical à Nação Zumbi e ao mangue beat. Essa música mostra que o álbum utiliza em vários pontos a mesma fórmula de “Da Lama Ao Caos” . A letra ataca sem piedade:

“Eu tô brindando e assistindo um homofóbico xenófobo apanhando de um gay nordestino. Eu tô rindo vendo uma mãe solteira espancando o PM que matou seu filho. Me olho no espelho, vejo caos sorrindo”



“Te Amo Disgraça”:
A música mais popular do álbum, acredito que por falar de amor e sexo de uma forma escrachada, sem ser pudico. Fez muito sucesso entre mulheres que, com certeza, estão cansadas de canções que falam de romances perfeitos e triviais. Ninguém quer mais ser a “Minha Namorada” de Vinícius de Moraes, os tabus foram quebrados e os relacionamentos não têm mais a obrigatoriedade do moralismo. A priori, o termo “disgraça” (com essa grafia mesmo) chocou alguns, mas Baco já explicou que esse é um termo comum em sua região. Inserir um termo tão chocante, ao meu ver, é parte da construção lírica e da intenção dessa música.

Louvamos Kendrick Lamar, mas no Brasil temos material à altura. “Esú” é, sem dúvidas, um dos álbuns do ano. Um marco não só no rap nacional mas também na música. Baco Exu do Blues de fato é o karma da cena, criado pela cena pra matar a cena, que precisa morrer para renascer lapidada e sem cabresto social.

O álbum completo está disponível gratuitamente em diversas plataformas virtuais: https://onerpm.lnk.to/BacoExuDoBlues

Sugiro conhecer o álbum através do Youtube, acompanhando as fotografias de Mario Cravo Neto e as letras simultaneamente:

Pata traz em seu EP a essência do riot grrrl de forma “Wild And Cabeluda”

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EP Wild And Cabeluda

Tive uma boa surpresa nesta semana quando escutei o EP da Pata, banda mineira de Belo Horizonte que eu ainda não conhecia. Me lembrou os tempos áureos do riot grrrl. Chega a dar nostalgia. Me dá um sentimento muito bom ao ver bandas nacionais com mulheres reacendendo essa chama.

A vocalista e guitarrista Lúcia Volcano é musicista e isso fica claro na qualidade do disco, na excelente técnica vocal, no instrumental, nas referências que a banda mostra e em cada detalhe do EP “Wild And Cabeluda”, que foi produzido por Renan Fontes, pela própria Lúcia e mixado por Robson Garcia.

Destaque tanto para o nome da banda quanto do álbum que são agressivos e escrachados como deve ser, já mostrando a proposta da banda logo de cara. O nome Pata vem do termo “pata de camelo”, que de acordo com a banda tem a intenção de representar resistência e promover a liberdade das mulheres em suas diversas formas.

A ilustração genial da capa foi feita pela artista Marcela Yoko e o design por Rodrigo SantanaA sonoridade é uma mistura de grunge e punk rock, com bastante influência do rock dos anos 90, tem um toque de Veruca Salt, 7 Year Bitch, L7, Bikini Kill e Hole. A voz de Lúcia alcança tons incríveis e diferentes em cada música, sempre com muito sentimento, em alguns momentos é rouco e agressivo, chegando a se assemelhar ao timbre das maravilhosas Brody Dalle e Courtney LoveMuitas bandas do grunge e do punk rock esquecem que é importante colocar qualidade técnica e musical no que fazem, o Do It Yourself pode ser bem feito e o Pata está aí pra provar.

As letras são outro ponto muito interessante, falam de conflitos, tristeza e decadência, totalmente coerente com a proposta e refletem uma realidade conflituosa de uma geração nascida entre os anos 80 e 90. A faixa Adulthood é mais suave, inclui novos instrumentos e um vocal mais sutil, fala sobre a vida adulta com um realismo seco e merece ser escutada com uma boa bebida alcoólica ao lado. O baixo de Luis Friche também se destaca principalmente nas faixas “Boy” e “Monster”.

Ainda quero ver a banda ao vivo para sentir se a mesma energia e entrega que estão EP acontecem no palco. Nessa semana, dia 15 de setembro, o Pata faz um show de lançamento do “Wild And Cabeluda” em Belo Horizonte na Casa do Jornalista. Link do evento: https://www.facebook.com/events/345082805938780

O EP está completamente disponibilizado no Spotify e no Bandcamp:

Para quem quiser conhecer mais a Pata, também tem a página do Facebook e o canal no Youtube:
www.facebook.com/patamusic
www.youtube.com/channel/UC89bZltaFgpwc8oVHHdoOqQ

Lúcia Volcano, vocalista, guitarrista e compositora da Pata