Audiometria – “As Aventuras de DJ L” (2004), o comeback musical explosivo de Latino

Audiometria – “As Aventuras de DJ L” (2004), o comeback musical explosivo de Latino

29 de junho de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Latino – “As Aventuras de DJ L – Festa no Apê”
Lançamento: 2004
Duração: 44 min
Gravadora: EMI
Produção: Dalmo Beloti, Latino e Fábio “FB” Mello

Audiometria, por João Pedro Ramos

A novíssima (e para alguns, torturante) coluna Audiometria fez muito sucesso em sua estreia, analisando e procurando o lado bom do disco de estreia da banda Restart. Pois bem: vou continuar me colocando à prova e ouvindo discos que muitos consideram um lixo musical buscando o que há de bom neles. Afinal, tudo tem um lado bom… Ou quase tudo, pelo menos.

Hoje, resolvi ouvir algo que é massacrado pela crítica intelectual, mas já foi um dos grandes sucessos entre o povo. É dia de ouvir “As Aventuras de DJ L”, o disco de “comeback” do Latino, que nos anos 90 fazia sucesso com seu funk charme em hits como “Me Leva” e conseguiu se reinventar com sucessos pop grudentos como “Festa No Apê”. Em 2004, era impossível escapar da versão em português para “Dragostea Din Tei”, que tomou um mundo com o grupo O-Zone e virou até meme (quando isso nem era chamado de meme). O sucesso do hit do Latino foi tão grande que o disco ganhou o subtítulo “Festa No Apê” pra alavancar as vendas. Deu certo: em 2005 “DJ L” foi Disco de Ouro, graças à venda de 50.000 cópias. Fones à postos e preparado para involuntariamente cantarolar alguns refrões chiclete de 2004, vamos à audição do disco.

Bom, começamos com a garrafa de champanhe abrindo, anunciando que hoje é festa no apartamento de Latino. Sinceramente, eu bato palmas para quem quer que tenha composto a versão, pois a letra gruda na cabeça até em momentos hilários como “Garçom, por favor venha aqui e sirva bem a visita”. Ah, a expressão “tá é bom” pra caber na métrica é algo de uma genialidade de gambiarra que eu tiro meu chapéu!  Aliás, a (não) rima de “libido no ar” com “fazendo orgia” é algo incrivelmente malandro, liricalmente falando. Sabe o que eu só reparei agora? Tem um violãozinho bem bacana que acompanha toda aquela massa de teclados, sintetizadores e baterias eletrônicas… mas é preciso se esforçar pra ouvi-lo. Preste atenção.

Bom, passou o grande hit do disco, passou a música que muitos dos que compraram o álbum colocaram no repeat e nem ouviram o resto da obra… É aqui que eu farei o que muitos não fizeram. Vamos à faixa número 2: “Umazinha” fez um certo sucesso, mas se você falar dela para qualquer pessoa hoje em dia, provavelmente receberá uma coçada de cabeça e um “não lembro”. Começa com o violãozinho e um autotune capenga. Aliás, o instrumental ~eletrônico~ é algo que remete aos discos caça-níqueis que foram lançados aos montes nos anos 90 e 2000, como “Discoteca do Quico”, por exemplo. A letra é um pouco mais séria nos versos, parecendo até um pouco com o trabalho da Luka (do hit “Tô Nem Aí”, composta também pelo Latino)… Até que chegamos no refrão. “Tchururá, tchururá, tchururá, away / Umazinha com você / Tchururá, tchururá, tchururá, away / Sem depois me arrepender”. Ponto alto da letra: “Mas meu corpo não tem um antivírus, baby / Pra te afastar”. OURO PURO.

[…]

OK, não consegui ouvir na sequência e este texto está sendo continuado três dias depois. Acho que esse é o grande problema da música pop criada pra estourar: os singles dão uma overdose de chiclete na cabeça. Se você ouve tudo na sequência, são 10 chicletes musicais pra grudar AO MESMO TEMPO no seu cérebro. É difícil, cara. Imagina a confusão mental.

Bem, vamos continuar com Latino e sua incursão pelo humor de duplo sentido com “Amor de Pizza”, um jogo de palavras com a velha máxima do “amor de pica, onde bate fica”. A genialidade é transformar em “amor de pizza, onde bate fixa” e conseguir uma censura livre na canção. O som é aquele velho tecnopop com resquícios dos anos 90 que o Latino usou nessa volta às paradas de sucesso no começo dos anos 2000, mas com toques árabes e o cantor dando aquela cantada gemida dos tempos de “Me Leva”. Pérola da vez: “Sou predador e um mundo chamado prazer”.

Eita, chegou a baladinha. Começa com o clássico “Porque você tá fazendo isso comigo?”. “O Troco” tem nome de música do Charlie Brown Jr, é um funk balada do começo dos anos 90 e, é claro, cita sexo animal, uma fixação do Latino, aparentemente. Perto das três que tocaram até agora, é bem esquecível.

Agora sim, na faixa 5, outro hitzão do Latino. “Renata Ingrata” conta com uma das melhores frases que já saíram da filosofia Latinesca: “Quem planta sacanagem colhe solidão”. Essa gruda na cabeça como chiclete Bubbaloo de banana. A letra é aquela velha história de dor de cotovelo, mas o que você esperava?

Pronto, chega uma guitarrinha e um “au au” pra anunciar que a próxima faixa é a versão Latineira para “Amante Profissional”, hit dos anos 80 do grupo Herva Doce. A canção sobre um michê cai como uma luva no disco do auto-intitulado DJ L. Bobinha, grudenta e sucesso sem dúvida. Só o rap (e chamar aquilo de rap é ofender o rap como um todo, então já peço desculpas) que Latino colocou no meio é completamente dispensável.

Calma, tá acabando. Não foi tão ruim assim. Latino ri e debocha no começo de “Tiro Onda”, que parece música do P.O. Box. Se não me engano, o Latino já escreveu música pro P.O. Box, então faz todo o sentido. Bem, essa música é bem sem graça, o único momento em que esbocei um sorriso foi quando ele usou a frase “esse seu papo cheio de guéri-guéri”. Quando o melhor momento de uma música é a frase com “guéri-guéri”, você sabe que a coisa tá feia.

C’mon, girl: chega aos fones de ouvido “Amiga Tati”, que começa soletrando T-A-T-I com todo carinho, mas na sequência já faz como fez com a pobre Renata e fala que a moça é falsa e cheia de caô. A faixa seguinte, “Obra de Arte” é mais uma baladinha, com uma guitarrinha distorcida e tudo. Esquecível, com letra romântica. Dessa vez, sem caô. É de amorzinho mesmo.

Latino

No Spotify o nome da faixa 10 é “Mulher Bebe”. Eu achei que seria sobre uma mulher que se alcooliza, não sei. Mas é “Mulher Bebê”, e tem aquele duplo sentido nojento com sexo oral e “mamar”. Sério. Ugh! Terminou mal. Nossa, de revirar o estômago essa. Porra, Latino! “Mama tudo, meu bebê” é foda. Mantenha o duplo sentido de “Amor de Pizza” que você se sai bem melhor.

No fim do disco tem dois remixes que eu sinceramente não dei atenção. O primeiro chama “Knife” e não tem nada a ver com o resto do álbum. É em inglês, a voz nem parece do Latino e parece um daqueles poperôs de 1996. Depois tem um remix de “Festa No Apê” que eu parei de ouvir e desisti definitivamente depois de quase um minuto só fazendo “tunts tunts tunts”.

Quero fechar falando um pouco sobre esta capa, horrenda, com uma das caricaturas mais bisonhas do planeta. Parece feita no Paint (quiçá no Paintbrush) por uma criança de 9 anos. O desenho sequer se parece com o Latino, algo que foi corrigido no disco seguinte, de capa igualmente escrota (porém com uma caricatura melhor), “As Novas Aventuras do DJ L”.

Bom, eu já falei que sou fã dos hits ganchudos do Latino, mas como álbum, “As Aventuras de DJ L” não se segura muito, pelo menos pra mim. As únicas que eu gostei foram os sucessos que estouraram por aí, especialmente o hino pop do começo dos anos 2000 “Festa no Apê”. O resto, mesmo as obrigatórias baladinhas, só enche linguiça. Se tivesse ainda alguma balada no nível de “Me Leva”, quem sabe…