Audiometria – A coletânea poliglota “Seleção de Ouro” (1998) da Gretchen

Audiometria – A coletânea poliglota “Seleção de Ouro” (1998) da Gretchen

6 de julho de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Gretchen – “Seleção de Ouro”
Lançamento: 1998
Duração: 68min
Gravadora: EMI Music

Audiometria, por João Pedro Ramos

Já que dona Maria Odete Brito de Miranda Marques, mais conhecida como Gretchen, está na boca do povo desde que Katy Perry a convidou para participar do clipe de “Swish Swish”, resolvi que era a hora perfeita para fazer uma edição da coluna Audiometria ouvindo um disco completo da rainha do bumbum brasileira.

Fucei e no Spotify temos apenas dois discos: “Me Deixa Louca”, de 2001, e “Seleção de Ouro”, uma coletânea lançada em 1998. Como eu estou afim de ouvir o fino da bossa da rebolatriz, vamos de coletânea mesmo. De cabo a rabo (sem trocadilhos)!

Começamos com “Dance With Me”, uma pérola disco com um belo baixo e metais, como era lei na disco music. Porém, o instrumental é permeado por gemidos da moçoila, em uma letra simples pedindo para que você a acompanhe na dança. E, oras bolas, essas músicas disco normalmente eram feitas pra dançar mesmo, então pra que uma letra existencial? “Dance With Me” é muito bacana e apesar da produção que deixa a faixa meio abafada, é uma bela música disco.

Acho que não preciso comentar sobre “Freak Le Boom Boom”, um dos maiores clássicos da Discoteca do Chacrinha e um hit que varreu o Brasil nos anos 80. Seu pai já dançou, sua tia já dançou, você já dançou. É chicletuda, tem a latinidade não-brasileira que Mister Sam colocou na Gretchen (pra atingir mais público, veja bem!). O pianinho do começo é quase um pastiche de “I Will Survive”. Tente ouvir e não cantarolar o refrão. A versão da coletânea tem até uma guitarrinha solando a la Carlos Santana pro final!

Em seguida a coletânea nos oferece “Melô do Xique Xique”, que eu achei que não conhecia, mas ela começa igualzinha ao clássico “Je Suis La Femme”, pelo jeito… Novamente, mistura espanhol, francês, inglês… Outra canção poliglota de nossa querida Gretchen Essa tem uma guitarrinha caribenha mezzo axé mezzo Coração Melão. Meus parabéns à quem pensou em misturar Chiquita Bacana com “Je T’Aime Moi Non Plus”!

Nossa, o comecinho de “You And Me” tem um pianinho bem noventista. Me pareceu até algo dos Backstreet Boys fazendo balada. É bem diferente das outras. Em inglês, começa com a frase mais repetida por Gretchen: “You and me”. É uma balada com violão, romântica com “AU” no meio e “tchu tchu tchu” fazendo backing. Não é incrível, mas quem criou a coletânea soube encaixar bem essa, pra dar um respiro de tanta dança.

Agora sim, a já citada “Je Suis La Femme”, que ganhou o apelido “Melô do Piripiri” e é aquela latinidade dançante cheia de gemidão (precursora, hein, Gretchen? BEM antes do Whatsapp) e a letra “Je Suis La Femme” sendo repetida à exaustão. É um chiclete mental em francês com todas as frases conhecidas, “mon amour” e “merci beaucoup” à granel. Aliás, essa música é MUITO melhor que “Swish Swish”, na minha opinião.

“Me Gusta El Cha-Cha-Cha” é meio que uma continuação da faixa anterior, só que com o refrão falando sobre sua paixão pelo cha-cha-cha. Não tenho conhecimento suficiente para definir se a música pode ser considerada um cha-cha-cha, na verdade. Gostei bastante da linha de baixo da música, nunca tinha reparado.

Em “Quiero Ser Libre”, o bem-te-vi te dá as boas-vindas a uma faixa quase melancólica em espanhol. É o mais próximo de gótica e trevosa que Gretchen já esteve. Na real, parece um pouco com as baladinhas de momentos de reflexão de filme animado da Disney. É o equivalente Gretchen para “Let It Go”, quem sabe.

Quando li o título de “Sueño Tropical”, achei que seria novamente uma baladinha, mas é outro som dançante cheio de latinidade e a guitarrinha que o Calypso ama em mais uma letra em espanhol. Sim, a Gretchen canta muito mais em francês, espanhol e inglês que em português. Uma mulher do mundo!

Poxa, não dá pra negar que “Mambo Mambo Mambo” é a MESMA MÚSICA que “Freak Le Boom Boom”. Sério, é a mesma música, com algumas variações. Vou até pular, porque a próxima é “Conga Conga Conga”, que também é praticamente “Freak Le Boom Boom”, mas pelo menos virou hit e eu sei a letra. As percussões latinas do começo são muito divertidas. E o “ay ay ay” do começo, se não me engano, foi gritado pelo mentor da Gretchen, Mister Sam. Aliás, queridos leitores: se alguém quiser analisar a letra de “Conga Conga Conga” e verificar se existe algum sentido nas palavras em inglês jogadas que ela canta, me avise. Me pareceu bem desconexo.

Gretchen

Bom, estamos na metade do disco e os grandes hits já foram… Ou seja: estou entrando no obscuro mundo dos Lados B da Gretchen. Me acompanhem nesta aventura.

Estamos na faixa 11, “Y Te Amare”, e novamente somos presenteados por uma balada pra acalmar os ânimos depois de tanta conga na orelha. Essa é a primeira em que Gretchen não vocifera seus “AU” ou “AI” durante o som. Parece bastante aquelas músicas de tristeza que tocam durante os episódios de Jaspion, lembra? Ah, claro que é em espanhol, mas acho que você já tinha imaginado.

Eita! Começou “Give Me Your Love”, com uma voz de criança. Mais uma balada, com ares bem oitentistas na produção. A voz que canta não parece ser de Gretchen. Será que foi ela? Enfim. É meio padrão de balada anos 80. O baixão novamente lá em cima.

Vamos para a terceira balada seguida, “My Man Of Love”, mais oitentista que calça amarela fluorescente. Opa, peraí: surpreendentemente, no meio ela engata em um semi-ska meio chupado de Blondie, acreditem se quiserem!

Falta pouco. Apesar de já ter enjoado do disco, vou em frente, depois de beber uma água para encarar o resto do desafio.

“Le Bel Masque” volta o ritmo e os “AU” da Gretchen. Ei, peraí, ele começa com “Venha Nega Vá?” sendo cantado, como na música do É o Tchan? Não sei, mas me lembra bastante lambada e axé do começo dos anos 90. Como o disco não informa as datas de lançamento, chuto que tenha sido lançada nessa época. Ah, e não dá pra entender bulhufas do que está sendo cantado, mas desconfio que seja em francês.

Em seguida, temos 4 músicas com títulos que fazem parecer que a gente vai ouvir um disco infantil: “Love Is Love”, “Baby (Baby)”, “1,2,3 (One-Two-Three)”, “Cha Cha Cha Boom Boom” e “Do Bidu Dam Dam”. É brincadeira, bicho!

“Love Is Love” contém os gemidos de Gretchen desde o começo, com o pianinho safado tomando conta. A letra é aquela coisa “I Want You, I Need You, Baby, Te Quiero”. “Baby (Baby)” é praticamente uma música do RPM, com tecladinho comendo solto, “tchu tchu tchu” e uma Gretchen roqueira como nunca dantes ouvimos… Mas soltando seus gemidinhos aqui e acolá. Acho que foi minha preferida até agora, apesar dela seguir a letra “Baby, I love you, I need you” de todas as outras.

“1,2,3 (One-Two-Three)” emula uma country music caipirona e foge de tudo o que foi feito até agora. Não vou dizer que é incrível, mas só de fugir um pouco do que rolou já é um respiro. “Cha Cha Cha Boom Boom”, ao contrário do que eu imaginei, não é uma mistura de “Me Gusta El Cha Cha Cha” com “Freak Le Boom Boom”. Aliás, poderia muito bem ser, já que é praticamente a mesma música feita pela terceira vez. Até a voz do Mister Sam está lá, e a métrica da cantoria é a mesma…

“Do Bidu Dam Dam” começa com mais um gemidão da Gretchen antes mesmo da bateria entrar. A bateria é quase algo tirado do disco da Xuxa, e o refrão “Do Bidu Dam Dam” não faz ficar nem um pouco menos infantil.

Pra fechar uma boa coletânea, nada melhor que “Disco Show Medely” (acho que quiseram dizer Medley), que começa com Mister Sam dando aquela apresentada em seu inglês macarrônico. As palminhas comem soltas enquanto a música mistura todos os hits da moça, confirmando a semelhança entre as músicas.

Ufa. Chega. Me senti assistindo à Discoteca do Chacrinha por mais de uma hora, mas sem ninguém jogando bacalhaus e abacaxis por aí. Apesar de eu achar os hits cafonas “Freak Le Boom Boom”, “Conga Conga Conga” e “Je Suis La Femme” super divertidos para serem dançados lá depois da 8ª cerveja em um churrasco, ouvir um disco inteiro da Gretchen não é pra mim. De qualquer forma, fico feliz que ela tenha sido reconhecida internacionalmente. Espero que seus “AU” e “AY” apareçam em breve em alguma participação com Pitbull, Nicki Minaj e afins, e não só sua imagem rebolativa.