Arandu Arakuaa mostra verdadeiras raízes brasileiras com metal em tupi antigo, xerente e xavante

Arandu Arakuaa mostra verdadeiras raízes brasileiras com metal em tupi antigo, xerente e xavante

5 de dezembro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Formada em 2009 em Taguatinga (DF), a banda Arandu Arakuaa une em sua música diversas vertentes do rock pesado com música indígena e regional brasileira com letras em tupi antigo, xerente e xavante. Ou seja, talvez um tiquinho mais “Roots” do que o Sepultura fez pioneiramente em seu incrível disco de 1996. A ideia da banda é valorizar a cultura indígena e todas suas manifestações, subestimadas durante séculos e até hoje deixadas de lado por grande parte da população.

Formada por NáJila Cristina (Vocais/Maracá), Zândhio Aquino (Guitarra/Viola caipira/Vocais/Instrumentos indígenas/Teclado), Saulo Lucena (Contrabaixo/Vocais de Apoio/Maracá) e Adriano Ferreira (Bateria/Percussão), a banda já lançou Conta um EP (“Arandu Arakuaa”, de 2012) e dois álbuns (“Kó Yby Oré”, de 2013, e “Wdê Nnãkrda” de 2015), se preparando agora para o terceiro que deve sair em 2017.

Conversei com Zândhio sobre a carreira da banda, as manifestações culturais indígenas, a opção por cantar em tupi, xerente e xavante e muito mais:

– Como vocês decidiram montar a banda?

Zândhio – Ancestralidade, identificação e compromisso em dar nossa contribuição para ajudar a preservar e divulgar as culturas e lutas dos Povos Indígenas do Brasil. Nasci e morei até os 24 anos de idade, nas proximidades da Terra Indígena Xerente no estado do Tocantins. Pra que tudo ganhasse forma tive que vim para o Distrito Federal, a banda começou em 2008 aqui na periferia de Brasília. Mas só no início de 2011 conseguimos ter uma formação estável, a mesma que se mantém até hoje.

– Porque escolheram investir em tupi antigo, xerente e xavante como línguas principais dos sons?

Zândhio – Foram os idiomas mais acessíveis pra nós. A ideia é utilizar também outras línguas indígenas, justamente pra mostrar a diversidade nesse aspecto, mas claro iremos precisaremos de parcerias com nativos desses idiomas.

– O que significa Arandu Arakuaa?

Zândhio – Sabedoria dos ciclos dos céus ou saber do cosmos. Vi esse nome enquanto lia o livro A Terra dos Mil Povos: História Indígena Brasileira Contada por um Índio, de Kaká Werá Jecupé, que trata a cerca da cosmologia Tupi-Guarani.

– Já ouvi comentários dizendo que vocês são o verdadeiro “Roots”. O que acham dessa afirmação?

Zândhio – Respeitamos todas as opiniões, podem comparar até com funk carioca que tá ok (risos). Mas eu não me recordo do “Roots” ter músicas em três idiomas indígenas (exceto a música dos Xavante gravada pelos próprios), nem vocais limpos e cânticos xamânicos; nem viola capira, flauta uruá, flauta enawenê-nawê, flauta bororo, maracá, chocalho de pé, pau de chuva; nem os compassos mais complexos com influências da música do Norte/Nordeste, muito menos as estruturas complexas das nossas músicas, ou seja, não é pior nem melhor, mas são coisas completamente diferentes. Geralmente quem faz essa comparação seja como elogio ou não, tem uma visão bem superficial sbre. Claro é disco ótimo e clássico, somos todos fãs do Sepultura. Eles já são parte do cancioneiro popular brasileiro e do metal mundial, não precisam mais provar nada pra ninguém.

Arandu Arakuaa

– Quais as suas principais influências musicais?

Zândhio – Cada integrante tem uma lista gigantesca de artistas que os inspiram a crescer enquanto músicos, e ela só cresce a cada dia, é um processo infinito. No meu caso em particular as influências de música indígena brasileira, música tradicional de diferentes regiões do Brasil e Heavy Metal aparecem naturalmente na hora de compor e foi justamente por isso que montei a banda. Apenas compomos o que sentimentos na hora e damos o foda-se para as regras.

– Me falem um pouco sobre o material que já lançaram.

Zândhio – Contamos com um EP “Arandu Arakuaa” (2012) e dois álbuns “Kó Yby Oré” (2013) e “Wdê Nnãkrda” (2015). Em 2012 lançamos nosso EP de estreia, gravado com poucos recursos com o intuito apenas de começar a divulgação. Para nossa surpresa teve uma ótima aceitação e até hoje muitas pessoas ainda comentam. Mas em minha opinião em “Kó Yby Oré” (“Essa Terra é Nossa”, no idioma Tupi Antigo) foi realmente a primeira oportunidade que tivemos de materializarmos o que tínhamos em mente. Na verdade ele foi muito além de nossa expectativa tanto na parte musical quanto da divulgação e aceitação por parte do público e crítica. É um disco com material composto em diferentes épocas, mas mostra bem como a banda soava naquele momento, o produtor Caio Duarte soube tirar o melhor de cada um de nós. Creio que “Kó Yby Oré” seja o típico primeiro álbum, onde são mostrados os elementos básicos da proposta da banda para serem aperfeiçoado nos trabalhos futuros. “Wdê Nnãkrda” (“tronco de árvore” no idioma Akwẽ Xerente) que em um sentido amplo seria origem, raiz, base, ancestralidade… O motivo para a pintura corporal dos indígenas Akwẽ Xerente terem traços verticais fortes e unitários como uma tora. Trazendo para nosso contexto seria algo como você ter contato com outras culturas, porém permanecer fiel às suas origens. Nesse álbum conseguimos consolidar e explorar bem todos os elementos da nossa proposta musical, esse é o disco que sempre quis fazer e estou muito feliz que tenhamos conseguido. Com esse álbum aumentamos consideravelmente nosso público também fora do nicho do Metal. Então se eu bater as botas hoje e tiver música na porra do velório coloquem “Wdê Nnãkrda” pra tocar.

– Como é a recepção das músicas pelo público do metal? O fato de usarem línguas que não são faladas por todos aguçam a curiosidade ou afastam os mais puristas?

Zândhio – Talvez o uso dos idiomas e influências de música indígena esteja mais na cara em um primeiro momento, mas creio o que causa estranheza é a diversidade e complexidade das nossas músicas. Porra, geral ouve músicas em trocentos idiomas diferentes, e vivem repetindo a máxima “a música é universal”. A verdade é que a banda sempre teve uma boa aceitação, basta olhar os números. E o mais legal é que quem se identifica vira fã mesmo, toma a música pra si.
Sobre os puritas, se fôssemos depender deles nós humanos nem fazíamos música: “oh só os passarinhos podem cantar, não somos dignos”.

– O que vocês acham deste “redescobrimento” da cultura indígena, com a mistura de ritmos populares cantados em idiomas indígenas, como vocês e os rappers do Bro Mc’s?

Zândhio – Desde a chegada dos invasores europeus nessas Terras houve um grande esforço em dizimar as culturas dos Povos que aqui viviam e impor a cultura dominante. Um processo que vivemos até os dias atuais, porém, as culturas indígenas não se manifestam apenas em traços de heranças culturais… Elas vivem de forma material e imaterial. Desde nosso primeiro lançamento em 2012 que diariamente as pessoas vêm até a nós pra dizer o quanto nossa música foi/é importante no seu processo de reconectar com nossas raízes. Isso muito nos emociona e é um sinal que nossa mensagem está sendo entendida e tiramos o chapéu para qualquer artista que dê sua contribuição nesse sentido.

Arandu Arakuaa

– Quais os próximos passos da Arandu Arakuaa?

Zândhio – O planejamento é conseguir recursos para gravação de um novo disco em 2017, tentar tocar no maior número de lugares possíveis e seguir nossa luta diária.

– Recomendem bandas (especialmente se forem independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos e todo mundo deveria conhecer!

Zândhio – Temos tantas bandas fantásticas que seria injustiça citar apenas algumas. Na verdade não só bandas, mas também produtores e profissionais da mídia. Há tempos soa cafona e bocó usar a expressão “foi gravado na gringa” como sinônimo de qualidade técnica. Então se você é músico e copia as bandas gringas, ou é público e acha que só as bandas gringas são boas. Sinto te informar que você tem alguns problemas cognitivos (risos)!