Amor da cabeça aos pés: Gal Costa – “Fa-Tal – Gal A Todo Vapor” (1971)

Amor da cabeça aos pés: Gal Costa – “Fa-Tal – Gal A Todo Vapor” (1971)

20 de agosto de 2020 0 Por Victor José

“João Gilberto dizia sempre que ela era a maior cantora do País. O que faltava a Gal era repertório e coragem cênica, o que ela adquiriu logo cedo”. Quem disse isso foi Guilherme Araújo, empresário e uma das pessoas fundamentais na revolução artística de Gal Costa.

Se em 1967 – ano de sua estreia musical com Caetano por meio do LP Domingo – ela era uma moça tímida ainda em busca da linguagem certa, no início da década de 1970 a “emancipação” artística enfim deu as caras. Não só isso, Gal virou musa de toda uma galera. De carona com o ideário tropicalista, naquela época, a juventude sedenta por mudanças se ligou numa nova onda que estava surgindo. A bola da vez no que se referia a comportamento era o “desbunde”, termo adotado para batizar o que havia de mais novo na contracultura. Seria isso o nosso equivalente mais próximo da cultura hippie, a qual já dava claros sinais de falência pelo mundo.

O “desbundado” seria aquela pessoa que pregava o amor livre, tomava ácido, transava uma erva e andava por aí à deriva com roupas alternativas ou um mínimo traje de praia, isso sem contar o livre crescimento dos cabelos do corpo, homem ou mulher. No Brasil todo se espalhavam adeptos ao movimento, mas era no Rio de Janeiro que a coisa pegava fogo de fato. Um desbundado que surgisse de qualquer canto do País encontraria na cidade maravilhosa o maior grupo de semelhantes.

E como toda determinada época abraça uma determinada personalidade, não foi diferente quando chegou a vez de Gal Costa. Tal condição passou a se concretizar de fato a partir de uma temporada no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, onde ela apresentou o espetáculo Gal a Todo Vapor.

Montar o show naquele teatro em Copacabana foi uma opção meramente estratégica, uma manobra para abrigar o maior número possível de desbundados. E ali nos arredores residia a nata do movimento, gente como Jards Macalé, Jorge Mautner e a trupe do Novos Baianos. Por aquelas bandas – sobretudo a praia de Ipanema, entre as ruas Montenegro (hoje Vinicius de Moraes) e Garcia D’ávila – viviam ali na curtição, junto a Gal, tomando sol e experimentando o barato do LSD e fumando maconha. Nessa época, Gal Costa atraía mais do que nunca a atenção de homens e mulheres. Como consequência do sucesso, ditava as modas onde quer que estivesse. Não demorou muito para que o local passasse a ser visitado por pessoas se vestindo como ela e para que fosse apelidado de “dunas da Gal” ou “dunas do barato”, pelo óbvio.

Gal nas “dunas da Gal”

E foi nesse contexto que o poeta e assíduo frequentador das dunas Waly Salomão (ou Sailormoon, como então era conhecido) assumiu as rédeas da direção daquele espetáculo em novembro de 1971.

Como nenhum desbundado tinha muita grana, o preço para o show era modesto: um cruzeiro. Singelo como o preço, no palco nada de luxo se via. Sobre um banquinho indígena e mergulhada na escuridão mais ou menos proposital, Gal chegava para o primeiro ato empunhando um violão. Cantava acompanhada de batidas secas e o restante ficava por conta de seu carisma. Como uma versão feminina de João Gilberto, ela levava o espetáculo dessa maneira ao longo de toda a primeira parte.

De repente, o público já acostumado com o intimismo acústico do repertório, enchia os olhos de um quase breu tentando encontrar de onde vinham aqueles acordes de guitarra. A banda “invisível” era composta por Lanny Gordin (guitarra), Novelli (baixo) e Jorginho Gomes (bateria). O foco das atenções ficava mesmo voltado para Gal: magérrima, bronzeada, muito mais solta que aquela mesma que se via nos festivais de 1967 e afinadíssima, como sempre. Sua figura mandava esse recado transgressor, agressivo para grande parte da opinião pública que queria sua cabeça. Essa mistura de erotismo como recurso performático com um inegável talento ofendia o establishment. Aliás, nem todo mundo que ia assistir ao show encarava sua performance tranquilamente. Sobre os efeitos da fabricação e veiculação midiática de sua imagem erotizada, a própria cantora revelou em uma reportagem sobre esse espetáculo que: “Ouvi de amigos que, durante o show, havia meninos e meninas se masturbando”.

O som furioso que saía daquele palco era algo, se não inédito, pouco comum até então. Especialmente para a ocasião, a estrela do espetáculo trouxe de Londres caixas Marshall, justificando que aquele era o melhor som para um grupo de porte roqueiro. O efeito causado pelo som fora tão envolvente que o inusitado aconteceu. Recém chegado dos Estados Unidos, João Gilberto tinha o costume de assistir à apresentação da cantora atrás do cenário. Certa vez, Gal perguntou qual parte do show ele mais havia gostado, e, surpreendentemente, João afirmou ter sido a segunda.

Em Gal a Todo Vapor, a musa passeava elegante e livremente por uma miscelânea de compositores brasileiros. Ia de Roberto e Erasmo (“Sua Estupidez”) a Luiz Gonzaga (“Assum Preto”). Arriscava com êxito o flerte com o folclore baiano, como no caso de “Fruta Gogoia” e “Bota a Mão nas Cadeiras”. Revisitava sambas antigos como “Antonico” e “Falsa Baiana”, além de promover a nova geração por meio de versões definitivas de hinos como “Dê um Rolê”, do Novos Baianos, e manter o recente legado de Caetano com canções como Maria Bethânia e “Chuva, Suor e Cerveja”.

Mas o ápice ficou mesmo reservado para duas composições em especial: “Pérola Negra”, de Luiz Melodia, e “Vapor Barato”, de Macalé e Salomão. Ao contrário da versão sóbria que seria lançada no debut de Melodia, com Gal, “Pérola Negra” ganhou um tom mais frenético e nervoso. A música coube sob medida na voz da intérprete, e não demorou muito para o público procurar saber mais sobre aquele moço apaixonado pelo Morro do Estácio.

No caso de “Vapor Barato”, a composição já havia sido lançada em um compacto duplo da cantora no começo de 1971. A promoção da música foi ofuscada por conta da caretice da censura, que cismou com a outra canção do disquinho, “Você não Entende Nada”, por conta do verso “Eu como você”. Segundo Jards Macalé, Wally tinha sido preso e torturado em São Paulo por causa de uma bagana de maconha. “Li a letra e compus a música no ato. ‘Vapor’ era como os vendedores de maconha eram chamados. ‘Barato’ é o barato da droga mesmo”.

Era procedimento da gravadora Philips registrar os shows dos artistas do elenco para documentar. O que fosse acima da média normalmente passava pelo filtro e ia para as lojas como álbum. Quando Roberto Menescal apareceu com as gravações de Gal A Todo Vapor, não restavam dúvidas de que aquilo precisava ser lançado em grande estilo: o disco apareceu nas prateleiras das lojas na época de Natal.

O LP saiu com o título Fa-Tal – Gal A Todo Vapor. O termo “FaTal” surgiu de um poema homônimo de Salomão, presente no livro Me Segura qu’Eu Vou Dar um Troço. Além da inspiração para o título, o poeta teve a permissão de incluir na arte interna da bolacha alguns versos das músicas e palavras aleatórias em destaque (“Necessário viração”; “Ver de novo, ver de novo, VIOLETO, vejo violeta”; “Sou fruta gogoia”; “Pérola negra, te amo, te amo”; “Máscara do mal secreto”). Misturadas a isso, há fotos de paisagens, de Gal em ação durante o show e do pessoal do Novos Baianos. A capa, com a boca de Gal em evidência, sugeria a sensualidade da apresentação para quem não pôde conferir a baiana de perto.

Por azar – ou sorte, vai saber – não foi possível levar a aparelhagem do estúdio para o teatro, portanto Menescal, produtor do LP, teve que se virar para fazer daquele registro com gravador caseiro o melhor possível. O lado bom é que, embora Fa-Tal – Gal A Todo Vapor peque em matéria de sonoridade, a crueza das apresentações por si só já é um atrativo. Naquele vinil está exposto o show como realmente foi. É tão importante quanto as canções contidas nele o fato de haver erros comuns de uma banda ao vivo. Há até mesmo o som captado de Gal caindo do banquinho durante “Fruta Gogoia”, e depois de se desculpar com a plateia e soltar uma risada, ela retoma a música na maior naturalidade.

Nas palavras da própria Gal: “Eu acho que a dimensão política do LP Fa-Tal é muito mais grandiosa, muito mais importante do que a dimensão musical. Porque eu ouço as pessoas dizerem ‘o Fa-Tal é lindo, eu adoro o Fa-Tal’, mas tem coisas nele que, musicalmente, eu não gosto. Tem coisas que me incomodam, algum jeito de cantar uma canção ou outra. Se bem que tinham grandes músicos. Tinha o Lanny, tinha um repertório maravilhoso… Eu acho um show espetacular”.

Detalhes à parte, Fa-Tal deu a volta por cima dos entraves fonográficos, obtendo status de lenda conforme o passar dos anos. Aquele álbum supostamente precário foi conquistando aos poucos uma vaga no seleto clube das grandes obras da MPB, sendo atualmente reconhecido como um dos discos ao vivo mais cultuados do Brasil e considerado por muitos o auge da longa carreira da intérprete.

Gal encerrou a temporada no Tereza Raquel logo que começou o ano de 1972 para partir para outra. No início do chamado “verão do desbunde”, a cantora cruzou o Atlântico novamente, ocasião em que participaria das gravações do LP de Caetano, a obra-prima Transa.