Aletrix prepara segundo disco com letras zombando de racistas, machistas e homofóbicos

Aletrix prepara segundo disco com letras zombando de racistas, machistas e homofóbicos

28 de outubro de 2015 3 Por João Pedro Ramos

Certo dia, chega à minha casa um grande envelope com alguns desenhos esquizofrênico com letras garrafais que diziam “Aletrix“. Em um press kit dos mais criativos, que continha inclusive um convite para um milk-shake com o artista (que eu ainda vou cobrar), conheci a obra de sua banda, sua obsessão por gatos e o primeiro disco, “Herpes Aos Hipsters”, lançado no início de 2014. Foi meio impossível não entrevistá-lo (e colar todos seus ímãs cheios de imagens de gatos na geladeira).

Atualmente, a banda formada por Aletrix, Alexandre Lemos (guitarra), Mia (baixo) e Ed Avian (baterista) prepara seu segundo álbum. Enquanto o primeiro mirava seus tiros certeiros em hipsters, ex-BBBs e fãs de UFC, o novo trabalho promete desmoralizar os defensores de ideiais machistas, racistas e homofóbicos, além, é claro, de apresentar novos personagens tão divertidos e esquisitos como o “Dr. Bichano” do disco “Herpes Aos Hipsters”.

Conversei com Aletrix (infelizmente, sem tomar milk-shake) sobre sua carreira, o tal “BRock”, a cena rocker brasileira atual e sua total ojeriza por pessoas que tocam de óculos escuros e bermuda:

– Como você começou sua carreira?

Comecei adolescente em São Paulo, minha cidade, tocando guitarra numa banda de metal e mais tarde em bandas cover, como vocal ou baterista. Perto dos 20, passei quatro anos tocando numa igreja que frequentei nesse período. Lá, aprendi sobre entrosamento, progressão de acordes e também sobre ego de músico. Alguns caras que tocavam gospel tinham egos enormes, apesar das orientações do bispo, que dizia que o músico deveria ser um instrumento doador que ajudasse a conduzir o público a um estado de espírito conectado a algo maior. Curiosamente, eram todos fãs de guitarristas virtuoses. Uma relação a investigar. Tempos depois formei uma banda de som autoral com a qual me apresentei esporadicamente por alguns anos cantando em inglês, algo que hoje me constrange. Entendia que existia uma cena e que eu era incapaz de penetrá-la. Acusava panelas, jurava que aquela cena era manipulada por uma máfia hipster que favorecia amigos. Não sabia transitar naquele contexto, faltavam conhecimentos muito básicos e algum jogo de cintura. Desanimei em algum ponto, fui estudar produção musical, fazer cursos on-line da Berklee e desisti de me apresentar até que eu tivesse um material e uma banda que me dessem força e vontade pra tentar conquistar um espaço outra vez.

– Porque ter uma banda com o seu nome?

Minha ideia era que o nome representasse esse material, onde a música é o principal, mas também um tipo de apresentação, de composição de arte gráfica, de estética de vídeo e de ideias. Como já tinha as músicas e o conceito bem definidos quase um ano antes de formar a banda, preferi escolher um nome de artista solo pra que fosse futuramente associado a esse conjunto de formas de comunicação. Mais tarde completei a formação escolhendo os membros com bastante cuidado pra que não fossem aleatórios e rotativos, e que cada um tivesse sua marca dentro desse universo, contribuindo com suas personalidades, gostos e talentos como músicos. Conto com os amigos Alexandre Lemos (apresentador do programa Snooze Zero, da Antena Zero) tocando guitarra, a Mia (ex-Hugh Grants), no baixo e o Ed Avian, baterista que também se apresenta com o Brothers of Brazil. Músicos habilidosos que não tocam ao vivo usando bermuda, nem óculos escuros. Algo importante pra mim.

Aletrix

– Quais as suas principais influências musicais?

Meus letristas preferidos são o Jarvis Cocker, do Pulp, e o Morrissey. Ambos são críticos ferozes que usam humor de um jeito que eu gosto bastante. Além de proporem sentimentos e situações complexas em formas de rápida compreensão e de fácil identificação. Também curto o surrealismo do The Frogs, Robyn Hitchcock e Frank Zappa, as sátiras do Randy Newman e o modo como o Lou Reed contava histórias e criava personagens. De artistas brasileiros, minhas influências principais são Frank Jorge e Marcelo Birck, em carreiras solo ou com a Graforréia Xilarmônica. Na minha opinião, grandes tesouros nacionais. De sonoridade, cito Frank Black solo e Pixies, Guided By Voices e Pavement. Também o The Cure post-punk, o pop barroco do Divine Comedy, e alguns do punk rock e do rockabilly. Mas é o Nirvana a minha banda preferida de todos os tempos, com certeza.

Uma pena que essas referências vão todas pro espaço assim que entra a minha voz cantando em português e música então passa a ser identificada apenas como “BRock”. De vez em quando citam a “vanguarda paulista” como referência. Fico muito honrado por essa associação, mas igualmente preocupado em dessa forma ser atirado a uma margem “cult”, enquanto todo meu trabalho no dia a dia é rumo a um caminho diferente, popular, que é de ter músicas rolando em rádios AM e poder tocar em eventos como “Festa da Mixirica” e afins, pelo interior. Quero me comunicar com quem curte esse tipo de som e vive em lugares mais afastados das capitais, onde quem usa camiseta de banda é considerado o alienígena local.

– Para você, qual foi a melhor década para o rock nacional?

Admiro em especial a primeira metade dos anos 90, principalmente pelas fusões com culturas regionais que surgiam numa época onde se cantava bastante em inglês no Brasil. Havia grandes bandas e o mais legal é que eram distintas entre si em termos de sonoridade e referências locais. Conseguiam fazer o ouvinte se sentir conectado a partes do país que eram diferentes de onde vivia, algo muito positivo. Além das bandas, havia também a força e a sincronia de veículos como a MTV, as publicações especializadas e as rádios rock, além dos festivais. Acredito que o conjunto dessas mídias trabalhando em sintonia reforçava no inconsciente coletivo a relevância do rock feito no Brasil como parte da cultura daquela geração. No entanto, não tinham como ser mídias a prova de balas, uma vez que dependiam do interesse de anunciantes e de uma capacidade absurda de adaptação num cenário onde, de repente, se viam competindo com os avanços tecnológicos. Por esses e outros motivos, alguns foram ficando mais vulneráveis e também mais sucetíveis a apostar em abordagens que no decorrer espantaram parte do público, onde me incluo. Nos dias de hoje, tudo é mais esparso, porém mais democrático. É possível construir um nome, estabelecer metas com mais ambição e ter suas conquistas sem depender do apoio de uma estrutura profissional. Ajudaria bastante se tivéssemos alternativas mais interessantes de distribuição. Um tipo de distribuição que comesse menos da fatia arrecadada por vendas digitais e que de fato distribuísse discos do RS à Roraima.

– Fale um pouco mais sobre “Herpes Aos Hipsters”, seu primeiro disco.

Quanto ao tema principal, “Herpes aos Hipsters”, havia muita raiva e desprezo em relação ao que eu entendia por rock nacional sendo feito naquela época. Queria que as músicas desse disco fossem alternativas a todas as bandas que celebravam em suas letras a boemia na rua Augusta ou que falavam sobre temas repetidos como amor, dor de corno e excessos. Também achava patética toda aquela atitude de superioridade, onde o cara da banda se considerava mais especial do que quem tava na platéia. Muito parecido com os músicos que eu tinha visto anos antes na igreja. Cada grupo servindo à sua vaidade dentro do seu respectivo universo.

Procurei ir ao oposto disso e tentei através dos temas expressar de um modo simples, em diferentes níveis de falta de seriedade, reflexões sobre assuntos universais, como a fragilidade dentro das interações sociais, sentimentos de incapacidade perante expectativas e desejos, e o questionamento sobre comportamento e suas dinâmicas. Tendo isso bem representado pelo disco, pude viajar e cantar também sobre um gato que fez faculdade (“Dr. Bichano”), imaginar formas de ridicularizar uma sub-celebridade (“Ex-BBB”), ou falar de algo mais corriqueiro como a ansiedade que envolve esperar por um e-mail que não chega nunca (“Caixa Vazia”). Nas últimas semanas de gravação, quis incluir uma faixa de última hora que fosse uma composição nova que contasse sobre aquele momento específico. Se tornou a “Debut do Aletrix”, que era sobre minhas expectativas quanto a recepção do disco, imaginando os desafios que encontraria pra entrar no mercado e ser levado a sério.

Acreditava em traçar uma rota de shows pelo interior, indo pessoalmente buscar meu público, e que iria dormir no porta malas do meu carro, pra que o plano fosse financeiramente mais viável. Não imaginava a resistência que ia encontrar mais pra frente pela grande parte das casas do interior, que declaradamente só tem interesse em bandas cover. Hoje tenho menos paciência pra esse tipo de conservadorismo e busco parcerias e meios a fim de estabelecer contatos com prefeituras locais. Algo mais complexo, mas que pode render resultados mais significativos e relações profissionais interessantes.

Aletrix

– Suas letras são bem ácidas e às vezes remetem ao humor negro. As pessoas entendem as mensagens?

Tenho a impressão de que quem curtiu, entendeu e embarcou nas ideias. Alguns escrevem pelo Facebook contando, outros vão além e pedem músicas pras rádios. Fico muito feliz e grato. Alguns que curtiram e que trabalham numa posição dentro desse mercado, escreveram a respeito, contrataram shows e assumiram riscos incluindo músicas do disco nas programações das rádios onde trabalham, como aconteceu na Kiss FM, na Brasil 2000 e na Cultura FM. A essas pessoas sou também extremamente grato. Nunca esperei agradar todo mundo e realmente tem quem não pegue o espírito. Muita gente já não curte tanto esses tipos de observação com humor cretino, independente do formato. As vezes tem alguma situação onde, por formalidade, preciso ouvir o disco na companhia de alguém que acabei de conhecer pra tratar de negócios relacionados à banda. Assim que que começa alguma letra é uma viagem ao abismo do desconforto pros dois. Também já ouvi bastante “O que é um hipster?”. O nome não poderia ter sido Hepatite aos Hippies, nem Gonorréia aos Grunges… ou Pancreatite aos Posers. “Herpes aos Hipsters” deveria refletir àquele momento onde o uniforme e a atitude eram mais valorizados e reconhecidos do que a música que era produzida. Algo parecido com o que aconteceu com o hard rock nos anos 80. “Chuva Dourada” deve ser um termo muito mais comum do que hipster, já que até hoje ninguém perguntou o significado (risos).

– Você acha que falta crítica/barulho no rock nacional hoje em dia?

Gostaria de ouvir uma variedade maior de assuntos em letras do rock nacional mais mainstream. Muita coisa soa reciclada e oportunista, se tratando de crítica ou não. É alguém nos dizendo anos atrás “Cara, CARA, o gigante acordou! Ouve esse pop-rock que eu fiz pra servir de trilha!”. Não, não, muito obrigado… entra por aquela porta ali, o “Norvana” tá te esperando do outro lado. O público é mais exigente do que o mainstream supõe, tenho certeza. Dos independentes, gostaria de ter mais bandas compondo em português. Com erros de gramática, sobretudo. Algo que eu quase conseguisse entender. Uma música que falasse de comida, outra sobre diversão no pasto e pelo menos uma sobre balé. Acho importante conhecermos nossa história, os artistas que vieram antes, os movimentos culturais e também saber sobre como o mercado fonográfico do Brasil foi se desenvolvendo ao longo do tempo. Recomendo os livros do jornalista Ricardo Alexandre, que acredito ter feito a pesquisa mais completa sobre esses aspectos. Num outro ponto, venho observando e percebendo cada vez mais sofisticação nas produções e digo sem medo que os independentes do Brasil chegaram num ponto, já há uns anos, onde não ficam mais devendo em relação as produções profissionais nacionais e internacionais em termos de qualidade e trabalho em estúdio.

– Seu presskit é incrível e divertidíssimo. Você mesmo faz sua assessoria? O quanto uma boa assessoria de imprensa pode fazer por um artista?

Muito obrigado! Crio esse tipo de material e faço minha própria assessoria desde o começo, por ainda não ter encontrado uma assessoria profissional com a qual me identificasse e que estivesse interessada numa parceria. Uma boa assessoria faz a ponte entre o artista e os veículos que publicam sobre entretenimento e cultura. Já tem contatos estabelecidos e sabe identificar qual crítico vai ter as referências e a sensibilidade para avaliar um determinado trabalho. Nos dias de hoje o artista precisa estar disposto a aprender e assumir papéis que muitas vezes são fora de sua especialidade. Sendo assim, na falta de uma assessoria, busco eu mesmo os contatos. Certamente minha abordagem é muito amadora, comparada a de uma assessoria. O que deve refletir nos resultados, imagino, pois na maioria das vezes as mensagens que envio nem são respondidas. “Asterix? Quem será esse arrombado?” (Risos). Adoraria hoje em dia poder me concentrar apenas nos aspectos criativos como no começo, mas no momento isso seria um grande luxo.

Aletrix

– Você está trabalhando em um novo disco/EP/single ou algo?

No momento estou gravando as demos pro segundo álbum. Vão ter novos personagens, dessa vez mais ameaçadores, pois são mais reais e possivelmente fazem parte do convívio de quem ouvir. A zombaria que antes foi destinada ao culto à celebridade, hipsters e malas em geral, dessa vez serão direcionadas à figuras que conheci após o lançamento do primeiro álbum. Figuras que defendem opniões absurdamente racistas, machistas e de ódio às questões LGBT. Discursos que atrasam o progresso das relações humanas. Supondo que a exposição é uma forma de condenação, então no próximo álbum vamos apontar e rir desses personagens com bastante direito e gosto. O convite pra ouvir o disco deverá ser algo nessa linha. Um tipo de ridicularização que é positivo e ainda mais prazeroso de praticar na companhia de um ouvinte. Tendo isso bem registrado pelo disco, vou me sentir livre pra cantar também sobre tipos de comida, animais aventureiros e situações das mais ridículas. O som deve ficar um pouco mais experimental, com guitarras mais barulhentas e pretendo usar compassos que não explorei antes. Tem um som que o instrumental parece valsa com Nirvana, chama-se “Inspetor de Macheza”. Estou bastante empolgado, vai ser legal gravar esse disco com a banda e poder apresentar uma versão mais atual e amadurecida das ideias.

– Recomende bandas ou artistas que chamaram sua atenção ultimamente (especialmente se forem independentes!)

Cito os independentes Emicaeli, Sheila Cretina, Herod, Orange Disaster, Beach Combers, Capim Maluco, Lusco Fusco e Pastor Rottweiler. Tem alguns lugares em particular em SP que gosto de ir pra conhecer bandas novas e que recomendo bastante. Um é a Free Noise, na Associação Cultural Cecília, outro é a The Ace of Spades Rock Party, no Spades Café, a festa Gimme Danger e os shows organizados pelo Nada Pop. São festas e eventos produzidos por gente que ama o que faz e que não se intimida em assumir riscos pela música nova.