Alambradas mostra voos musicais cada vez mais altos em seu EP “Cíclica”

Alambradas mostra voos musicais cada vez mais altos em seu EP “Cíclica”

31 de outubro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Lançado em maio deste ano, “Cíclica” é o terceiro EP da Alambradas, alter ego musical de Nicole Patrício. A one man band lançou um trabalho que mostra muito bem sua diversidade de influências e direções que seu som pode tomar. As 5 faixas foram mixadas e masterizadas por Filipe Consolini, da Mono.Tune Records.

“Já que não tenho ninguém pra formar banda, vou tocar sozinha”, conta Nicole, que em seus trabalhos anteriores (“EP” e “Amargo”, ambos de 2013) mostrou que não poupa nem um pouco de sua alma ao colocá-la por inteiro nos sons do projeto. “(O processo de composição) é difícil. Eu me cobro demais – não só pra compor, mas, pra tudo. Tenho uns 50 esboços sem letra, mais ou menos. Não consigo sentar, escolher um e falar ‘vou escrever alguma coisa agora’ tão fácil. Às vezes a letra vem primeiro, também… Depende muito do estado de espírito”, explica.

Conversei com Nicole sobre sua carreira, o EP “Cíclica”, seu processo de composição, o machismo que permanece latente no meio musical (e fora dele) e muito mais:

– Como você começou o projeto Alambradas?

Comecei quando tava no colegial, depois de chegar a conclusão que “já que não tenho ninguém pra formar banda, vou tocar sozinha”.

– Mas você chegou a tentar formar bandas? Teve aquela fase de tentativa e erro?

Nem isso, foi direto assim.

– De onde surgiu o nome Alambradas?

O nome veio de uma música do Four Tet, projeto d’um inglês, o Kieran Hebden, que gosto demais.

– E porque não usou o seu nome?

Não sei explicar de um jeito exato, assim, não. Acho que meu próprio nome ficaria formal demais pr’uma das poucas coisas na vida em que eu posso ser eu mesma, sabe?

– Quais as suas principais influências musicais para o projeto?

Vish… Tem muita coisa. essas influências vão mudando de tempos em tempos, mas, ficam as referências, mesmo que eu já não escute o artista ou a banda tanto assim. De uns tempos pra cá, tenho escutado muito, mas, muito mesmo, James Blake. Foi por conta dele que eu comecei a acrescentar alguns barulhinhos além do teclado de sempre em algumas das minhas músicas. Mas, puxando num modo geralzão, tem Yuko Ando, Fiona Apple, Imogen Heap, Hiromi Uehara… Dava pra fazer um baita listão aqui! (risos)

Alambradas

– Seus shows sempre são sozinha ou já contou com banda te acompanhando? Como você descreveria seu show?

Na maioria das vezes, sou eu, o teclado e o computador. já rolou de ter banda em algumas ocasiões, tipo o show de lançamento do “Cíclica”, que fiz na Casa do Mancha em julho. Como bastante gente participa, consegui juntar todo mundo pra tocar. Ah, meu show é um negócio que a pessoa tem de se permitir, sabe? Não funciona eu tocar num esquenta de balada, não funciona se tiver um monte de gente falando. Óbvio que eu não mando em ninguém, mas, tenho procurando algum canto mais aconchegante possível pra fazer isso acontecer, porque sou eu, só, sabe?

– Você tem uma visão ampla sobre streaming e este tipo de facilidade que rola hoje em dia. Isso continua polêmico: o streaming é benéfico ou maléfico para os independentes?

Não dá mais pra lançar um álbum, ou até mesmo um single, deixando só links do YouTube ou SoundCloud: sempre vai ter alguém perguntando quando entra no Spotify. Pra quem já usa com frequência as plataformas de streaming, se não encontra você ou sua banda por lá, pode perder o interesse de te escutar de primeira. Eu vejo como algo benéfico, principalmente no sentido de múltiplas opções para as pessoas ouvirem sua música. Pode não dar lá tanta grana – o que dá grana quando se faz música, ainda mais independente, né? – mas, ajuda no sentido de credibilidade pra quem ainda não sabe quem é você.

– Por falar nisso, me fala um pouco mais sobre o material que você lançou até agora.

Tenho 03 EPs: o primeiro é o “EP?”. Lancei em janeiro de 2013 e até hoje não tenho certeza se é o primeiro mesmo ou não – juntei algumas músicas que fiz de 2009 pra cá e foi isso. o segundo, “Amargo”, veio em dezembro do mesmo ano no sentido de urgência, de mostrar o quanto 2013 foi ruim pra mim. Daí, 03 anos depois, veio o “Cíclica”, dessa vez com mais gente, com músicas novas e outras nem tanto.

– E como foi a composição do “Cíclica”, já que não teve esse sentido de urgência dos anteriores?

Foi um pouco urgente no sentido de “vão me ajudar a produzir, as músicas tem de estar prontas pra ontem”. porque, quando o Filipe Consolini (Mono.Tune Records) me chamou pra gravar, eu tinha só alguns esboços de música, nada muito definido. elas foram se desenvolvendo conforme eu gravava uma ou outra coisa.

– Como é seu processo de composição?

É difícil. Eu me cobro demais – não só pra compor, mas, pra tudo. tenho uns 50 esboços sem letra, mais ou menos. não consigo sentar, escolher um e falar “vou escrever alguma coisa agora” tão fácil. Pode levar anos pra eu tirar algum desses esboços do computador, ou eu posso desistir, sei lá. Não tem um processo definido, não. Às vezes a letra vem primeiro, também… Depende muito do estado de espírito.

– Como você vê a cena independente brasileira hoje em dia? O que mudou das cenas dos anos 90 e 00?

Estar nela como espectadora é uma coisa, como artista, é outra. Ao mesmo tempo em que você assiste shows e sente que tá todo mundo junto abraçando a mesma causa, quando você vai pro outro lado, vê tudo muito fragmentado, muito “só falo com você se você trabalha comigo”. Isso sem falar de ser mulher, tocar sozinha e ser vista como alguém que falta alguma coisa, enquanto um cara só com uma guitarra é “gênio”. Essas coisas todas, às vezes, me aborrecem pra caralho. Fico me perguntando até que ponto vale ser eu mesma, que quando gosto da banda, da artista, tô lá mesmo, assisto o show, etc, enquanto tem gente na mesma roda que assiste o show por ofício, sabe? De estar lá porque a banda que trabalha toca depois de você. Mas inda tô aqui, procurando meu canto e gente que realmente queira abraçar a mesma causa que eu.

Alambradas

– Já que você tocou neste assunto: o machismo ainda é forte no mundo da música? Você já sofreu com isso? Como isso pode ser combatido?

Perguntar se o machismo ainda é forte é o primeiro sinal que sim. Eu diria que é milagre não ter passado por casos extremos desse tipo, mas, muitas pessoas próximas de mim já passaram e eu me sinto parte delas. Enquanto continuarem tratando uma artista com respeito, mais pelo produtor do álbum dela do que por ela mesma, por exemplo, isso não acaba nunca. Colocar artistas ou bandas com mulheres no lineup do seu festival só pra não reclamarem que “faltou mina” pode ser bem hipócrita, também. Continuar dando espaço pra cara agressor em determinado evento ou o que quer que seja porque ele é importante na cena também não ajuda. Eu acho lindo demais ver tanta mulher fazendo acontecer, cada uma na área cultural que apetece. As meninas no Rio de Janeiro com o Xanaxou, a Nanda Loureiro, da Banana Records, a Hannah Carvalho e a Letícia Tomás com a PWR Records no nordeste, a própria Bells Delfiol, que virou amiga por conta do “rolê”, tem uma força danada e tem levado várias bandas pra tocar em Santo André, fugindo dessa centralização que existe nos shows alternativos. enquanto a cena “padrão” não tem sido segura pra gente, a gente cria nosso espaço.

– Quais os próximos planos para o Alambradas?

Tô com planos de tocar em outros estados ano que vem; nada muito definido ainda, só devaneios saudáveis (risos). Além disso, tô compondo algumas coisas pro primeiro disco cheio, também nada muito definido; pra esse, não quero apressar. vamos ver no que dá.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Rita Oliva, que é(ra?) do Cabana Café e do Parati, tá na música agora como PAPISA, e o primeiro single é lindo demais. Além dela, tem os meninos da Quasar, que lançaram um EP recentemente, bem alunos de Boogarins (risos). Lembrei agora do Domingo Blanco, um projeto instrumental da Bianca Zampier, que tem umas ambiências maravilhosas… vish, daqui, sairia mais um listão! (risos)