A força motriz dos Capotes Pretos na Terra Marfim está na mistura de ritmos sem pudores

A força motriz dos Capotes Pretos na Terra Marfim está na mistura de ritmos sem pudores

29 de maio de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Com uma base de fãs construída com talento e muitos shows em calçadas e espaços públicos, os cearenses do Capotes Pretos na Terra Marfim lançaram em 2015 seu primeiro disco, auto-intitulado, explorando todas as misturas de sonoridades que lhes vem à cabeça em 10 faixas. O sucessor do primeiro EP, “A Casa”, foi produzido pela Mocker Studio e é totalmente orgânico, com sons inusitados como o do charango, instrumento de cordas andino.

A banda, formada pelos multi-instrumentistas Moisés “Zéis” Filipe, Freddy Costa, Eudenia Barros, Marcelo Freitas e Artur Mendonça, possui uma personalidade musical que se alterna entre o rock e a MPB, com pitadas de alt-country. “Percebo que nós estamos sentindo também uma vontade maior de fazer referência a produção musical nordestina. Os caminhos melódicos dos arranjos”, explica Zéis.

Conversei com a banda sobre seu primeiro disco, o som eclético e denso que produzem, a cena independente nordestina e muito mais:

– Como a banda começou?

Zéis: A banda começou em 2012. Eu tinha umas composições e tinha ideias de arranjos pra elas, mas num tinha banda. Na época eu tava envolvido em dois projetos no teatro, fazendo trilha sonora. Nesses projetos conheci o Marcelo Freitas e o Freddy Costa. Então falei com eles sobre as composições e eles decidiram se juntar. Dentre as ideias de arranjo tinhas composições que a gente vislumbrava a presença de um violoncelo. Daí eu lembrei da Eudenia Magalhães, que eu tinha conhecido num curso de Francês e a gente convidou ela pro fazer participação nessas musicas. Acabou que ela ficou de vez. E o Artur entrou quando fomos fazer o primeiro show em palco aberto e precisávamos de de bateria, era numa mostra de bandas universitárias. E ai pensei nele que tinha conhecido dentro do curso de música da UFC (Universidade Federal do Ceará).

– E como surgiu o nome da banda? O que ele significa?

Eudenia: Cara, esse nome é uma grande figuração de como funciona o clima da banda: uma mistura de nomes e significados que deixa livre pra qualquer interpretação (risos). Na realidade, nessa mesma época que nós estávamos nos reunindo pra formar o grupo, viajamos pra um interior do Ceará pra casa do tio do Marcelo Freitas, em São Luis do Curú. Era um sítio isolado das outras casas, e nos dias que ficamos por lá, arranjamos praticamente todo o primeiro trabalho da gente (o EP “A Casa”). Lá tinha muitos animais, incluindo capotes (galinha da angola). Tentamos uma brincadeira com o nome do bichinho e o próprio lugar, que era meio cor de terra seca, como marfim… misturamos as coisas, como acontece com as músicas também (risos).

– Quais as principais influências musicais da banda?

Artur: Bem, esse assunto é fácil e difícil ao mesmo tempo. Cada um do grupo possui diferentes influências e tipos de formação musical. Temos desde ex-integrantes de orquestras e bandas de fanfarra, passando por outras bandas independentes que já participávamos, dentre outras coisas. Assim, cada um trouxe um pouquinho pra dentro do grupo, suas bandas preferidas, sonoridades, dando uma cara muito diversa ao grupo, e que ao mesmo tempo consegue ter uma sintonia – não sei como, mas conseguimos. Dai, em cada produção usamos como referências vários grupos, dependendo do conceito, da cara que queremos dar a composição. Já passamos por Los Hermanos, Beirut, Legião, Raul Seixas, Coldplay… A lista não tem fim, até porque o som do grupo também se atualiza.

– Como vocês definiriam o som da banda atualmente?

Zéis: Pois é, já ia falar sobre isso quando o Artur falou essa coisa de usar referências que servem pros momento da banda e pra estamos buscando naquele momento. Acho que atualmente a gente é uma banda que soa mais elétrica, a primeiras composições tinham uma pegada bem acústica. Percebo que nós estamos sentindo também uma vontade maior de fazer referência a produção musical nordestina. Os caminhos melódicos dos arranjos.

Marcelo: Era isso que ia complementar.Acho que incluímos a pegada elétrica, mas ainda mantemos referências que nos remetem a instrumentos essencialmente acústicos, como a sanfona.

Zéis: Na própria música que gravamos pro tributo ao Pato Fu, essas características ja aparecem. Inclusive tivemos a liberdade de usar um trechinho duma musica do Ednardo, que é um compositor muito importante aqui do Ceará.

Capotes Pretos na Terra Marfim

– Já que vocês falaram do Nordeste, me falem um pouco mais de como vocês veem a cena independente do Nordeste hoje em dia.

Marcelo: Creio que ele apresenta-se bem diversificada, porém essa diversificação, infelizmente não a torna tão fortalecida.Tomando como exemplo o Ceará, temos excelentes bandas autorais que estão fora do eixo de apresentações até mesmo dentro do estado. O circuito de apresentações que pode ser percorrido por bandas independentes dentro do estado do CE é pequeno e esgota-se rápido e a busca por um novo nicho muitas vezes é um obstáculo e faz com que muitas bandas desistam. Por isso achoo que a cena independente no NE é bem eclética mas ainda há obstáculos quase intransponíveis de acesso a locais para tocar, incentivo e principalmente um circuito musical específico para bandas independentes que a tornam não tão fortalecida.

– E vocês acham que isso é algo que ocorre pelo país inteiro?

Marcelo: Acredito que a dificuldade para as bandas independentes é geral, seja uma banda do NE ou de qualquer outra parte do país, no entanto as oportunidades são maiores para o famoso eixo Rio – SP ,mas também precisamos ver que a concorrência se torna maior nesse ambiente. É , como dizemos por aqui”cobrir a cabeça e descobrir os pés”. Projetos como esse do tributo ao Pato Fu tornam-se excelentes pontes entre as bandas independentes de toda parte do país. E o fortalecimento das bandas independentes perpassa por isso, a comunhão e a ajuda mútua de quem faz parte do movimento.

Capotes Pretos na Terra Marfim

– Me falem um pouco mais sobre o disco que vocês lançaram!

Eudenia: Lançamos um álbum homônimo em fevereiro de 2015, com a Mocker Discos, no qual revisitamos a versão de uma música do EP (“Traços Simples”), e apostamos em arranjos que envolvia sopros, cello, charango… Foi um projeto bacana, e com ele lançamos, inclusive, dois clipes (“Terra Marfim” e “O Que Você Espera”)
A música “Adro” foi uma invenção de laboratório que extrapolou as nossas expectativas: nunca tínhamos tocado ela ao vivo (nem em ensaio).. fomos configurando o seu arranjo em estúdio, e pra mim (particularmente) é uma das músicas mais massa que gravamos. Lançamos o disco em um show no SESC, e a receptividade foi positiva… algumas das músicas desse album tocam nas rádios locais, e vez ou outra a galera manda mensagem “ouvi o capotes hoje no rádio!”… Acho bem bacana isso.

Marcelo: O álbum em si é bastante dotado da essência dos capotes, preocupação com os arranjos e sonoridades diversas.Não é à toa que ele leva o nome da banda (risos).

Zéis: O clipe da gente da música “Terra Marfim” foi o que teve mais alcance e tal. as pessoas que conhecem a gente aqui em fortaleza, é sobretudo por conta dessa musica. Uma vez numa conversa de bar me foi questionado o forma como a palavra revolução é colocada na música, como se essa palavra estivesse sido colocada com desdém. Como se nós não precisássemos de revoluções.

Eudenia: E ai, o que tu respondeu? Até eu tou curiosa! (risos)

Zéis: Pois bem, na verdade, como na maioria das musicas do álbum, as questões aparecem como indagações e não como resposta. na música terra marfim a frase aparece com uma interrogação: “Quem precisa de revolução”, “Quem precisa que digam amém?”. Outra indagação é o próprio título do faixa “O que você espera?”. Em outra faixa diz: “Qual é a cor do amor, do cuidado, de um filho que ainda nem nasceu?” Enfim só pra salientar que as pessoas as vezes esperam dos artistas uma postura de quem tem uma resposta pra dar mas que nesse disco a preocupação maior era com as perguntas.

Marcelo: A própria musica “Adro”, que a Denia tanto gosta, é cheia de indagações indiretas. Aquelas que não possuem um ponto de interrogação ao final.

– Aliás, me contem um pouco mais sobre os clipes! Mesmo com o fim da Mtv Brasil como a conhecíamos, eles ainda são importantes para a música?

Marcelo: Artur é o nosso garoto MTV (risos).

Eudenia: Verdade (risos)!

Marcelo: Sempre comenta sobre os clipes que ele via por lá…

Artur: (Risos). Hoje em dia a produção de clipes e a alimentação de mídias sociais estão intimamente ligados
Um disco físico partilha de vários aspectos musicais-sonoros e também estéticos. Contudo, o meio virtual para esta divulgação da arte do álbum, do conceito da banda e do enredo abordado pelo grupo se dá através dos clipes que tem um grande poder de divulgação nas mídias sociais. Apesar da MTV – minha amada – não ser o foco
Os clipes continuam tendo produções grandiosas e influenciando não somente bandas, mas dialogando com outras linguagens. Acho que é isso. Compartilhar, compartilhar e compartilhar!

– Quais os próximos passos da banda?

Eudenia: Estamos com planos de gravar um EP de músicas que já tocamos em shows. Estamos decidindo se lançamos em formato de single, ou duas por EP.

Artur: Durante a divulgação do disco novas composições foram surgindo e temos planos para a gravação e divulgação, muito em breve.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Eudenia: Ahhh! ? O Berg Menezes, certamente!

Artur: Berg Menezes (CE), Djambê (BH), Forria (CE), Zéis (CE)…

Eudenia: Descendentes da Índia Piaba

Artur: Mad Monkees (CE), Projeto Rivera (CE)!

Marcelo: Casa de Velho (CE)!

Artur: Andrezão GDS (CE)!

Eudenia: Erivan Produtos do Morro (CE)

Artur: Subcelebs (CE) ❤