40 anos do antológico show de Elton John no Central Park

40 anos do antológico show de Elton John no Central Park

15 de setembro de 2020 0 Por Pedro Vivas

Seja pela coincidência trágica da “despedida” de dois amigos ou pelos figurinos, público e setlist, o show de Elton John no Central Park (1980) pode ser considerado um dos principais de sua carreira.

Um dos modelos de camisa vendidos naquela tarde

Nova York, 13 de setembro de 1980. Era uma tarde ensolarada no Central Park, um dos principais marcos da Big Apple, com cerca de 300 a 400 mil pessoas sedentas para assistir Sir Elton John de graça. Foram recompensadas com três horas de música da mais alta qualidade, em uma das apresentações mais marcantes da carreira do artista.

Oficialmente a “justificativa” do show foi a arrecadação de fundos para os parques de NYC, com o slogan marcado em faixa no topo do palco “Help Elton John keep it green” (Ajude Elton John a preservar o verde). Na prática, para além disso, tratava-se de um marco de recuperação na carreira do artista, que voltava aos palcos depois de algum tempo afastado. 

Acabou sendo um marco promocional da turnê internacional de 1980, que tinha acabado de começar. Canadá, Austrália, Nova Zelândia e, é claro, Estados Unidos, receberam o artista. A turnê foi finalizada em 22 de dezembro na cidade de Perth.

Mas afinal, o que torna este show especial?

O LOCAL E O PÚBLICO

O Central Park é um dos grandes palcos da música mundial. Trata-se de um símbolo de uma cidade e de um ideal de entretenimento muito forte no hemisfério norte, principalmente no verão – os concertos de parque. Centenas de pessoas se reúnem com roupas leves, quase que em clima de piquenique, para ouvir música.

Esse conceito rende todos os anos grandes apresentações. Neste palco, especificamente, fizeram exibições marcantes Simon & Garfunkel (que resultou no famoso Concert at the Park), James Taylor, Diana Ross, Jimi Hendrix, The Who, Led Zepellin, Patti Smith, Luciano Pavarotti e tantos outros.

Falando de Brasil, em 1995 o parque receberia também Chico Science e Nação Zumbi (a primeira turnê internacional do grupo) e Gilberto Gil. Gil e Chico Science protagonizaram um improviso em palco no mínimo curioso, mas ao mesmo tempo revelador de intensa conexão entre as obras dos dois artistas. Funcionou tanto que eles tocariam  juntos de novo no VMA 1995 – mas isso é assunto para outro texto.

Fato é que o parque é um dos marcos da música americana, desde o hip hop até o country, mas também do que se convencionou chamar de World Music.

O público, por outro lado, foi um dos maiores já registrados no ‘Great Lawn’ (a localização específica dentro do parque, bem no centro dele). Vale registrar matéria do New York Times, de 2008, citada pela Rolling Stone, que detalha como era feita a estimativa de público nos concertos do parque. O recorde teria sido do músico Garth Brooks com impressionantes 750 mil pessoas.

Como era de se esperar, a matéria mostra que as contagens eram totalmente amadoras, com participação dos organizadores dos eventos, sem nenhum método consistente. Com essa contabilidade confusa, foi registrada a presença de 300 mil pessoas. Sendo verdade ou não, o parque estava lotado e a questão numérica não se faz tão importante.

ELTON JOHN, FIGURINOS E SETLIST

Quack!

Quando finalmente subiu ao palco, Elton John fez um show longo, bem humorado e não desafinou. Na gravação da performance, que se tornou especial da HBO, é possível ver com clareza uma das características mais marcantes do artista evidenciadas mais uma vez – seus figurinos excêntricos. 

Três podem ser destacados como especiais. O primeiro deles é o de piano, uma metalinguagem, nos termos dos professores de literatura. Depois disso, ele viria com um figurino de difícil descrição, uma espécie de caubói espacial, principalmente pelo chapéu. Por último e mais importante, Elton se vestiu de Pato Donald, a roupa com que concluiu o show e que se tornou um dos figurinos mais marcantes de sua carreira. Enquanto estava vestido assim, fez questão de imitar o personagem clássico da Disney com um “Quack” enquanto cantava “Your Song”. Logo em seguida embalou com “Bite your lips – Get up and dance”.

Além das já citadas, no setlist também foram incluídas as clássicas Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding, Tiny Dancer, Goodbye Yellow Brick Road, Rocket Man e Bennie and the Jets (com uma versão épica de 15 minutos). Por último, cabe aprofundar em uma canção inesperada que se fez presente…

JOHN LENNON

O boato corria solto de que John Lennon faria aparição surpresa no meio da apresentação. As chances eram consideráveis, dado que a última vez que Lennon havia pisado em um palco foi em 1974, na mesma Nova York, no Madison Square Garden, em um show do mesmo Elton John. 

Reza a lenda que tudo só foi possível por conta de uma aposta entre os dois, em que Lennon teria que tocar ao vivo “Whatever gets you thru the night” caso esta chegasse ao primeiro lugar das paradas. Foi o que aconteceu (felizmente!) e no dia de ação de graças, lá estava ele para tocar três canções, no que ficou marcado como a última participação ao vivo do artista. Além do sucesso das paradas, tocaram “Lucy in the sky with diamonds” e, para a loucura do público, o clássico “I saw her standing there”. O registro desse encontro é precário em imagem, mas em áudio é de boa qualidade.

Seis anos depois, todos esperavam que o raio caísse duas vezes no mesmo lugar. Fazia sentido – era um show na “esquina” do Edifício Dakota e a amizade dos dois permitia essa especulação. Não aconteceu.

O que aconteceu, entretanto, foi que Elton tocou ‘Imagine’ – “Vamos fazer uma canção escrita por um amigo meu que eu não vejo há muito tempo, é uma canção muito bonita, vocês vão saber qual é. Ele mora no fim da rua, não grava nada há um bom tempo, mas no momento está fazendo um novo disco”, afirmou. Algum tempo depois “(Just Like) Starting Over” iria ao topo das paradas. 

Três meses depois, Lennon, que certamente estava fazendo pães enquanto ouvia seu amigo, vivendo sua vida reclusa, estava morto.

Elton John cantando Imagine – NYC CENTRAL PARK 1980

A REPERCUSSÃO NO BRASIL

No Brasil, em 21 de setembro de 1980, o Fantástico exibiu reportagem de Nelson Motta, que trazia imagens interessantes da apresentação, o contexto dela, e fazia a ponte com NYC em uma época de comunicação muito mais lenta. Fica o registro histórico.