1991: o ano em que o Nirvana (e “Nevermind”) mudou as leis da música

1991: o ano em que o Nirvana (e “Nevermind”) mudou as leis da música

16 de setembro de 2016 4 Por Luis Bortotti

No Walkman, por Luis Bortotti

Há 25 anos atrás, 1991 ficava marcado como o ano em que o rock mudou. O cenário musical passava por mudanças extremas, principalmente com a chegada do CD e a consolidação da MTV e sua promoção de artistas e videoclipes. Entretanto, o cenário rock’n’roll não apresentava sinais de que acompanharia essa evolução, vivendo uma fase tomada por artistas pop e por roqueiros cheios de laquê no cabelo que se arrastavam para permanecerem nas paradas. Tudo mudou em setembro daquele ano, quando Nevermind, o segundo disco de um trio desconhecido vindo de Seattle, foi lançado, e então, os Estados Unidos abraçaram o punk rock mais uma vez.

O Nirvana nunca foi a banda mais importante daquele movimento, denominado pela mídia como grunge. Aliás, era uma banda pequena e que ninguém apostava uma mísera camisa de flanela, afinal, bandas como Soundgarden, Alice In Chains e Mudhoney dominavam o cenário há anos e alguns até já possuíam contrato com gravadoras maiores. Entretanto, foi “Nevermind” quem colocou Seattle no mapa e junto, toda uma revolução grunge de adolescentes, talvez cansados da forma como o entretenimento e o “sonho americano noventista” caminhavam, recheados de sobras da década anterior.

Muito do sucesso do disco deve-se aos vários elementos do rock ali presentes. Temos o peso e a obscuridade vindos da influência do Black Sabbath, a simplicidade e a ira punk dos Sex Pistols, a melodia suave dos The Beatles e muito do lema “faça você mesmo”, vindo de bandas de rock alternativo dos anos 80, como Pixies e REM. O segundo disco do Nirvana tinha tudo para se tornar um clássico.

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Clássico desde a sua capa. Afinal, quem não conhece a imagem do bebê nadando pelado atrás da nota de um dólar? A gravadora logicamente tentou uma censura, mas Kurt Cobain falou que a única opção seria de inserir um adesivo escrito “se você se ofende com isso, é um pedófilo enrustido”. A gravadora voltou atrás e a imagem se tornou uma obra da arte contemporânea.

Em seguida, quatro acordes: F Bb G# C#, repetidos tristemente duas vezes até a explosão da bateria e a inclusão da distorção. “Smells Like Teen Spirit” abre com maestria o disco, nos injetando suavemente tudo o que teríamos pela frente. Muito da fórmula do Nirvana realmente está aí. Versos calmos e refrão pesado. O próprio Cobain citou que tentava soar como Pixies, mas ele foi muito além. Sua letra genial, tomada por passagens das dores de Cobain, atingiu o público, que ouvia ali o reflexo dos problemas adolescentes comuns no mundo inteiro.

Bom, não vou falar de todas as músicas aqui. Todas são boas, pode acreditar! O trabalho de Bucth Vig foi essencial, mas a genialidade de Cobain em suas composições, somada a desenvoltura do baixo de Krits Novoselic e a atitude hardcore agressiva de Dave Grohl (que definiu a formação clássica e ideal da banda), também foram essenciais para a composição desse clássico. Citarei então, as canções mais importantes de um ponto de vista para a banda e relativamente para a história do rock.

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“Lithium” é a quinta faixa do disco. Seus versos depressivos casam perfeitamente com o título, um antidepressivo utilizado em tratamentos psiquiátricos para controle de alternância de humor. E na letra essa alteração é visível. Kurt canta uma falsa felicidade de apoio de amigos e da religião, ele busca uma justificativa de seu fracasso (ele estava deprimido na época, graças ao caminho que a banda seguia e 2 relacionamentos amorosos falhos). Em seguida, volta à sanidade e diz que não irá enlouquecer. E na própria música temos isso, versos calmos, intercalados por refrões gritados e pesados. Uma perfeita alteração de musicalidade em uma das mais belas canções já compostas.

“Polly” é a canção seguinte. Engraçado como ela foi aclamada pela mídia e virou uma sensação das rodinhas de violão. Isso, pelos que se dizem fãs da banda, mas não tem o mínimo de esforço em analisar o trabalho de um artista e apenas acompanham a moda. A canção é baseada em um fato real, em que uma garota saiu de um clube punk rock em Seattle, foi sequestrada e estuprada, porém escapou, graças a um descuido do maníaco. Kurt ficou tão vidrado na história que compôs a canção após ler a matéria e, é claro, colocou suas opiniões em toda letra. Com total crítica ao machismo, a Polly da letra se mostra muito mais inteligente em relação ao molestador, enganando-o e escapando. Kurt mesmo viria a declarar: “se você é racista, sexista e homofóbico, por favor, não venham aos nossos shows, nem compre nossos discos, não queremos vocês como fãs!”, uma clara crítica aos falsos fãs modistas, muitos com os quais Cobain presenciou o estilo em toda a sua adolescência.

E para fechar, texto e disco, temos “Something In The Way”. Canção que retrata o abandono pelo qual Cobain sofreu de seus familiares. Calma, suave e perturbadora, a canção cita como é morar solitariamente debaixo de uma ponte (uma das histórias de Cobain inventadas para brincar com a mídia). Kurt só a apresentou aos companheiros de bandas dias antes das gravações do álbum. Um curinga em sua manga, afinal, ele já conhecia a incrível força dessa música. Durante as gravações, ela não soava como Kurt queria, e então, entrou na sala de Butch Vig e mostrou como ela deveria ser. Vig trancou as portas, desligou o telefone e gravou os tristes sussurros de Cobain. Em seguida, acrescentou todos os outros instrumentos que, com extrema dificuldade, conseguiram acompanhar o desafinado violão de cinco cordas de Cobain.

Volto a recomendar o álbum inteiro. Nevermind é uma jovem obra-prima, não só do rock’n’roll, mas de toda a música mundial. Item obrigatório em qualquer coleção de discos. Se você ainda não o conhece por inteiro, não perca tempo(!!), e veja como é possível fazer um rock simples, pesado e genial. O rock de três cabeludos sujos de Seattle que mudaram a cara do rock, ajudaram no reconhecimento de artistas alternativos e desbancaram Michael Jackson do primeiro lugar das paradas.

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Nirvana – Nevermind | #temqueouvir!

– O DISCO INTEIRO!

Nirvana – Nevermind | #singles

“Smells Like Teen Spirit” | 10 de Setembro de 1991

“Come as You Are” | 2 de Março de 1992

“Lithium” | 13 de Julho de 1992

“In Bloom” | 30 de Novembro de 1992

Nirvana – Nevermind | #ouçaagora!