Zé Bigode trabalha sem parar em seu jazz alternativo com influências de ritmos nordestinos, americanos e até marroquinos

Zé Bigode

José Roberto Rocha é um quase nômade entre a boemia desvairada da Vila Isabel e do esfumaçado Grajaú. Estes dois locais foram apenas algumas das inspirações para que o músico e compositor idealizasse o projeto Zé Bigode, que conta com repertório de música instrumental que passeia entre diversos estilos, indo do afrobeat ao jazz, passando por ritmos brasileiros como maracatu e baião. “É um apanhado de coisa, mas numa linguagem voltada ao jazz. Mas tem Recife, tem Havana, tem Marrocos… Bahia, Nova York (risos)… Música do mundo. Difícil essa!”, tenta definir.

Em 2016, a banda lançou seu primeiro EP, auto-intitulado, que se desenrolou no primeiro disco da banda, “Fluxo”, lançado este ano. No disco, José Roberto toca guitarra acompanhado por Daniel Bento (baixo), Eric Brandão (bateria), Jayant Victor (guitarra), Victor Lemos (sax alto e tenor), Thiago Garcia (trompete), Rodrigo Maré (timbal, percussão), Bruno Durans (bongas) e Pedro Guinu (Rhodes, piano, clavinete, moog, orgão). O álbum também conta com a participação de Belle Nascimento, Alexandre Berreldi, Eduardo Rezende, Reubem Neto, Ingra da Rosa e Victor Hugo e foi gravado no Estúdio Cia dos Técnicos, no Rio de Janeiro. O prolífico grupo já está trabalhando em novas faixas, que devem sair em breve.

Conversei com o líder do Zé Bigode sobre a banda, a cena instrumental, a dificuldade em definir um gênero para sua música e o disco “Fluxo”:

– Como a banda começou?

Surgiu no final de 2015, eu estava cansado de sempre entrar em projetos e eles não irem pra frente por motivos diversos… Mas sempre esbarrando naquele problema de que não rolava concordância entre as partes e as coisas não andavam. Me cansei disso e resolvi montar um projeto “solo” em que eu fosse a principal cabeça. Aí fui reunindo uns amigos e gravamos um EP, lançado em maio de 2016.

– Me fala mais desse EP. Como ele foi composto e criado?

Algumas idéias eu já tinha pra esse EP, de temas que havia escrito, como de “7 Caminhos”, que deve ser o tema mais antigo que tenho. O conceito desse EP foi mais de apresentar o projeto ao mundo, ter algum material pra poder dialogar com as pessoas, foi algo mais “solitário” e menos coletivo que o Fluxo”. No EP não era uma banda fixa, e sim convidados, rolou até uma galera boa na gravação como o Carlos Malta, Leandro Joaquim, que tocava na Abayomy e o Pedro Selector, que toca com o Bnegão.

  • – Como rolou o disco “Fluxo”?
  • Assim que lancei o EP no ano passado formei a banda e começamos a ensaiar e fazer shows, fui adicionando temas novos ao repertório. No fim de 2016 decidi que era uma boa hora de registrar esses temas e fomos para o Cia Dos Técnicos em Copacabana no RJ. Minha ideia foi de fazer algo mais próximo da experiência ao vivo, então basicamente 80% do disco foi gravado ao vivo. Como este estúdio é grande, rolou de conseguir botar cada musico em uma sala e gravar ao vivo, mas sem vazamento. O nome “Fluxo” vem basicamente desse contexto, de deixar fluir as coisas. Vejo que as gravações atualmente estão cada vez mais frias, e música é feita pra ser tocada em conjunto e ao vivo.

– E porque investir em música instrumental?

A forma que me expresso melhor é com a guitarra, some a isso o fator que canto terrivelmente mal (risos). Mas acho que a música instrumental virou algo elitista ou técnica demais, música pra músico, música gourmet, e isso é coisa do mercado. O mercado inventou isso e acabou ficando… Mas eu discordo: música instrumental é música, pode entrar na cabeça do ouvinte tão facilmente quanto uma canção.

– Nos últimos tempos muitas bandas independentes instrumentais têm aparecido e feito barulho, como o Mescalines, por exemplo. Essa é uma tendência que deve crescer?

Acredito que sim, o publico tem se mostrado afim de curtir música instrumental, vendo que nem sempre música com letra tem algo a dizer e que é possível passar uma mensagem com o instrumental. E essa turma nova tem uma linguagem mais democrática, não repete os clichês nem quer fazer música só pra músico.

Zé Bigode

– Mas porque esse tipo de música não chega ao mainstream, na sua opinião? Porque o instrumental é praticamente ignorado, salvo casos como “Misrlou” do Dick Dale, que estourou graças à Pulp Fiction?

Indústria, musica instrumental já foi mainstream, vide o jazz, o bebop… Mas acredito que um dos motivos é o padrão radiofônico que foi inventado de música de curta duração, 3 minutos e meio em média, e a música instrumental foi cada vez mais ficando complexa e com longa duração… Mas o instrumental sempre esteve aí, Pink Floyd apesar de ter voz tem mais instrumental que canto (risos). “Weather Report”… Claro que não na mesma proporção, mas se garimpar ela esteve presente.

– Esse projeto você considera como solo ou tem membros fixos na banda?

Um pouco dos dois, os membros são fixos mas como tem meu nome e eu que escrevo os temas, acaba tendo mais a minha cara. Mas rola uma democracia, pessoal opina também, e somos bem amigos, quase uma família, numerosa e barulhenta por sinal (risos)!

– Como você definiria o som da banda para quem ainda não conhece?

Vixe… Um apanhado de coisa, mas numa linguagem voltada ao jazz. Mas tem Recife, tem Havana, tem Marrocos… Bahia, Nova York (risos)… Música do mundo. Difícil essa!

– World music?

Isso é que os gringos inventaram, né (risos). Jazz alternativo?

– Quais suas principais influências musicais para esse projeto?

Nação Zumbi, Wayne Shorter, Miles Davis, Daymé Arocena, Heraldo Do Monte, Criolo, Fela Kuti, Kamasi Washington, Elza Soares, bastante coisa que as vezes nem esta diretamente no som…

Zé Bigode

– Já estão trabalhando em novos sons?

Sim, lançamos o “Fluxo” agora em maio, mas já estamos com novos temas. A produção não para (risos)!

– Dá pra adiantar alguma coisa?

Em breve uma das musicas novas vai entrar no set do show, uma rumba com influências de jazz modal.

– Quais os próximos passos da banda?

Iremos prensar o disco em CD, e iremos circular por ai com o disco.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Hmm… Tem o Bixiga 70, Nômade Orquestra, Metá Metá, Mahmed, Negro Leo… Tem uma galera boa aqui do Rio também: Os Camelos, Foli Griô Orquestra, Kosmo Coletivo UrbanoRelógio de Dali


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