Wolken apresenta melancolia guitarreira em “Caos Calmo”, seu primeiro EP

Wolken

O quarteto de Santa Catarina Wolken acaba de lançar seu primeiro EP, “Caos Calmo”. O disco, lançado pela Aquagreen Records, mostra um pouco dreampop elaborado e cheio de influências de Beach House, Real Estate e Mac Demarco. Formada por Felipe (vocal e guitarra), Leo (guitarra), Billy (baixo) e Eduardo (bateria), a banda cria estruturas tranquilas com guitarras limpas e harmoniosas como manda o figurino do dreampop que define um pouco do som da banda. “‘Caos Calmo’ é uma combinação onírica com letras sobre a vida e o tempo em cidades pequenas. Tudo redondo, fechado com capricho no pacote final”, definiu Lucas Paraizo em resenha para o site A Escotilha.

Conversei com a banda sobre sua carreira, o disco “Caos Calmo” e a cena da música independente atual:

– Como a banda começou?

A Wolken começou em um pequeno quarto de uma antiga casa em Alto Benedito Novo, pequeno município de Santa Catarina. Nela, as primeiras reuniões foram encontros esporádicos entre o Leo (Guitarrista) e eu, Eduardo (baterista), para ouvir música e brincar com alguns sons que dificilmente podíamos ouvir nas festas de nossa região. Eram principalmente covers de Real Estate, Mac DeMarco e The Walkmen. Essas reuniões também serviam para contrapor uma certa desilusão com a cena alternativa de nossa região, que permanece excessivamente presa ao boom do indie pós Strokes. Não havia nenhuma ideia sobre montar uma banda nesse período. Mais tarde, o Billy (baixista) subiu a colina pra brincar junto e a coisa toda começou a ganhar corpo. Passamos a brincar com alguns riffs que o Leo havia criado e a sintonia foi boa. A partir desse momento decidimos ir em busca de um vocalista para formar uma banda e levar esses rascunhos à diante. Conhecemos o Felipe (vocalista e guitarrista) pelo Facebook, através de algumas composições interessantes que estavam no Soundcloud dele. Ele se encaixou bem na proposta e a partir daí, tomamos a decisão de gravar algumas músicas.

– De onde surgiu o nome da banda?

Queríamos um nome que pudesse dar uma pista sobre o estilo de som da banda e que, ao mesmo tempo, tivesse ligação com as características desse som. Wolken significa “nuvens” em alemão, e para nós, remete um pouco a esse clima “dreamy’ e a uma certa sensação de melancolia que identificamos em bandas de dreampop, shoegaze e chillwave. A região onde nascemos tem uma forte colonização alemã e por isso, esse nome fez um pouco mais de sentido.

– Quais são as suas principais influências musicais?

De forma individual, os integrantes carregam uma bagagem musical que agrega uma gama de artistas. Desde clássicos como Joy Division e The Velvet Underground, mais recentemente, Modest Mouse, The Walkmen e Beach House e ainda coisas bem frescas como Connan Mockasin. Mas no momento em que começamos a trabalhar em composições próprias com essa formação, fomos influenciados principalmente por bandas de dreampop como Real Estate, Wild Nothing e DIIV. Acho que estas três foram as bases para o nosso processo criativo até aqui.

– Como é a vida de artista independente hoje em dia?

Desde muito novo eu me interessei em ver bandas tocando por aí, e mesmo não podendo constatar isso mais cedo, sempre tive a sensação de que o artista independente tinha muita dificuldade para mostrar sua música. Isso, devido a fatores como qualidade e estrutura dos locais onde eu costumava vê-los. Fazendo parte disso hoje, eu acredito que a parte mais difícil para a maioria de nós é a dificuldade de valorizar e agregar valor ao próprio trabalho. Investir em instrumentos é caro, gravar é caro e grande parte do público de cidades pequenas ainda não carregam a cultura de sair de casa para de fato ouvir e conhecer uma banda autoral. Gostar de uma banda parece ser uma relação estabelecida com algo que “vem de longe”. Certamente em cidades maiores isso já mudou bastante. E o surgimento de vários selos independentes têm ajudado em criar um cenário mais favorável para estes artistas.

Wolken

– Me falem um pouco sobre o material que já lançaram até o momento.

Em junho deste ano lançamos nosso primeiro EP, chamado “Caos Calmo”. Para gravá-lo, buscamos um estúdio da região com boa referência, chamado Take Out. Na ocasião esse cara, o Roberto de Lucena e sua esposa Lola Beli, estavam iniciando as atividades de um pequeno selo independente, chamado Aquagreen Records. Durante o processo, o som foi de encontro ao interesse deles e fomos convidados a integrar o cast do selo. O que nos deu uma boa ajuda adicional com a divulgação do trabalho. Falando especificamente sobre o lançamento, trata-se de um EP de aproximadamente 18 minutos, com 5 faixas que compusemos e gravamos entre dezembro de 2015 e maio de 2016. “Caos Calmo” é um pequeno registro de sentimentos presenciados no dia a dia em cidades pequenas como Benedito Novo, onde o sentimento de melancolia por vezes se mistura com uma sensação etérea de tranquilidade. Foi basicamente este sentimento que tentamos passar com esse trabalho.

– Como vocês definiriam o som da banda?

Nosso som é simples e melancólico, pra ouvir tomando uma cerveja em casa, na madrugada ou num sábado de sol com os amigos. E eu faço questão de frisar esse ‘simples’, porque eu não sou um bom guitarrista, em termos técnicos. E se analisarmos artistas como Real Estate e Mac DeMarco, o nível técnico não é alto, mesmo assim o conjunto cria algo sincero e bonito. É era isso que eu queria. É um aspecto democrático, quase. O fato de o Mac DeMarco usar a mesma guitarra de trinta dólares que ele usava desde a adolescência até recentemente é algo que encoraja as pessoas a se arriscarem também. Eu criei todas as composições com uma guitarra Michael que meu irmão ganhou quando eu tinha 13 anos, e sem nenhum tipo de pedal. Eu adaptei tudo depois só na hora da gravação. Eu acho que já chegamos muito perto do que eu eu tinha em mente para o nosso som nesse primeiro EP. Mas ter a oportunidade de criar uma música com uma maior diversidade de equipamento ajuda muito. Podemos experimentar mais. Estamos fazendo isso nesse momento.

– Vocês acreditam que o rock pode se reerguer novamente no mundo dos sucessos mainstream?

Consideramos que o termo “rock” perdeu força por conta da grande polarização de estilos musicais que têm surgido a partir dele nos últimos tempos. Ao mesmo tempo existe um estigma por conta de quem tenta “proteger” o rock como algo rotulável. Quando a internet não estava disponível e o acesso à troca de informação não era tão rápido e fácil, talvez fizesse mais sentido vincular os estilos a rótulos mais convencionais e ancorais, como rock e pop, por exemplo. A nossa banda, por sinal, pode muito bem não ser considerada uma banda de “rock”. Mas essa polarização é muito boa pois você consegue se conectar mais diretamente com um público mais específico. Os artistas de cunho mais pop (e esse termo também é bem relativo) que permeiam o mainstream, e talvez um bom parâmetro seja o “hot 100 Billboard” são artistas ligados à gravadoras gigantescas e com um alto investimento em produção. São produtos de alcance global. Se a música chegou até você sem você procurar muito por ela, então esse é um produto pop. Com a grande tendência atual de ouvir música “on demand” e encontrar praticamente qualquer artista independente na internet, acabamos ganhando uma opção muito sincera e democrática de se comunicar com o público. Por isso, seja qual for a definição de “rock” de cada um, ele parece funcionar melhor longe daquele formato puramente industrial. Ao longo do tempo, a maioria das vertentes ligadas ao rock se adaptaram ao fato de estarem nas lacunas.

– A música independente saiu ganhando ou perdendo com a queda da indústria e a ascensão da internet?

Certamente os artistas independentes ganharam um grande impulso. Hoje em dia, qualquer pessoa pode subir sua música na internet e se aproximar do seu público. No nosso caso, por exemplo, surgiram coisas antes impensáveis, como contato de gente que gostou do som na Holanda. É claro que isso acarretou em um inflacionamento de artistas. Em muitos casos, o consumidor precisa de 15 segundos ou menos pra decidir se vai continuar ouvindo o seu som. Mas ainda assim, essa continua sendo a forma mais democrática de divulgar o trabalho. Então certamente o artista independente ganhou muito.

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– Quais os próximos passos da banda?

No momento, estamos em uma sequência de shows pela nossa região com o intuito de divulgar o “Caos Calmo”. Em seguida temos planos de gravar uma sessão ao vivo para nos aproximarmos mais do público. Mas o próximo passo mais importante é tirar da gaveta uma boa quantidade de ideias acumuladas e começar a trabalhar em músicas para um primeiro álbum que pode sair já no ano que vem. Mas tudo vai depender do processo criativo como um todo.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

É sempre um prazer! Tem o pessoal do Não ao Futebol Moderno e o Home no RS que acabaram de lançar os seus primeiros álbuns. Ambos realmente muito interessantes. Na nossa região também tem gente fazendo coisas de muito bom gosto. Taunting Glaciers é uma banda de post rock/hc e que também já tem um álbum na bagagem. Nossos amigos de Timbó/SC da Havana Hookers e também o projeto Hovel, que é de uma sensibilidade magnífica.


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