Violet Soda: gosta de Deb And The Mentals? Forgotten Boys? Water Rats? Conheça a nova aposta para o rock de garagem paulistano

Violet Soda: gosta de Deb And The Mentals? Forgotten Boys? Water Rats? Conheça a nova aposta para o rock de garagem paulistano

31 de agosto de 2018 0 Por Paula Holanda

Violet Soda é uma banda que absorve o melhor do que há no punk, no grunge e em outros movimentos musicais que a influenciam: seus integrantes fazem o que gostam de fazer, e nada além disso. Simplicidade é a palavra — não existe nada de muito novo no som que eles fazem, mas isso porque, para eles, a vanguarda não é o objetivo, mas sim a diversão e o prazer. E em um momento cultural e político em que a arte tem estado cada vez mais pretensiosa, não se esforçar demais para impressionar os outros tem sido uma estratégia criativa bastante progressista.

Na cidade de São Paulo, em 2017, a Violet Soda começou a partir de composições feitas por Karen Dió (vocais, guitarra), que estava em carreira solo, e Murilo Benites (guitarra), que a auxiliava com sua banda, Corona Kings. O quarteto, que a princípio seria um duo, tomou sua forma final com a entrada de Lucas Rosani (baixo), que integra também a Cavalo Zebra, e André Déa (bateria), conhecido por seu trabalho em bandas como Sugar Kane e Vespas Mandarinas. Eles têm chamado atenção com seus shows calorosos desde a sua primeira apresentação e repercutido com seu EP de estreia, “Here We Go Again” (2018), oriundo do lendário Estúdio Costella e lançado selo Forever Vacation.

Os integrantes da Violet Soda afirmam não ter influências diretas para o projeto, mas a associação visual e sonora com a também paulistana Deb And The Mentals é quase que instantânea. Também não é uma grande surpresa eles gostem de Forgotten Boys ou de MTV e de punk e rock de garagem da década de 1990, interesses que refletem em todo o trabalho apresentado por eles até então (nas músicas, nos videoclipes, nas artes visuais, no comportamento, nas performances ao vivo). Após lançar dois videoclipes que notoriamente têm uma ligação afetiva com esses elementos, a Violet Soda agora está prestes a lançar um segundo EP, ainda sem nome, e outros videoclipes para as faixas de “Here We Go Again”. Confira abaixo uma entrevista com a banda.

A Karen tinha uma carreira solo e o Murilo a auxiliava na guitarra — a Violet Soda começou a partir daí. Me falem sobre essa transição. Quando vocês decidiram que queriam se oficializar como banda?

Murilo — Então, a Karen é de Santos. Ela se mudou para São Paulo com a ideia de dar seguimento à carreira solo dela e começamos a namorar, então naturalmente começamos a compor juntos. Gravamos apenas uma música para sua carreira solo, “Do It”, e a banda de apoio para a gravação foi a minha banda, o Corona Kings. Mas depois nós compusemos outras músicas juntos e percebemos que funcionaríamos muito mais como uma banda do que como uma cantora em carreira solo com uma banda de apoio. E também gostaria de participar de todo o processo que envolve ter uma banda com ela; não apenas acompanhá-la como guitarrista. Acho que isso aconteceu naturalmente.

Karen — Quando o Murilo me fez o convite, não tive nem como negar. Mas voltar a ter banda me deixava com um pouco de medo, porque é um processo diferente, é como um casamento… não que as minhas outras bandas tivessem sido ruins ou traumáticas, mas elas não deram certo — porque se tivessem dado, elas ainda estariam em atividade, né? — e eu também gosto muito de fazer coisas sozinha. Mas a Violet Soda tem dado certo.

Vocês lançaram o “Here We Go Again” pela Forever Vacation. Eu sei que vocês já têm uma relação anterior com o selo pois o single solo da Karen e o terceiro disco do Corona Kings foram lançados por ele, mas de qualquer forma, vocês podem falar sobre a escolha pela Forever Vacation para lançar também a Violet Soda?

Murilo — A Forever Vacation é bem nova, acho que tem pouco mais de um ano. O single da Karen e o disco do Corona foram os primeiros lançamentos do selo, então ele é bem recente e ainda está engatinhando. Eu não posso falar pelas pessoas que o gerenciam — o Alexandre Capilé, o Bi Free e o Lucas Melim —, mas acho que a ideia é que eles usem toda a experiência que têm no cenário independente para ajudar as bandas amigas, ou as bandas que gravam material no Costella. Eles sobrevivem há anos nesse cenário, então têm muita sabedoria para passar. É um selo que acaba acrescentando bastante. E a escolha por ele acabou sendo bem natural, porque o Capilé produziu a Karen, produziu o Corona. A gente sempre soube que ia lançar o material com eles.

O Chuck Hipolitho afirmou que, no videoclipe de “Take Me”, ele queria transmitir a sensação de estar no estúdio com a banda, além de ter descrito a Violet Soda como “filha total do Costella”. Como vocês caracterizariam a sensação de estar dentro do Costella e como tem sido essa relação entre o estúdio e a Violet Soda?

Karen — Antes mesmo de gravar no Costella, ele sempre foi para mim um santuário de bandas legais pra caralho. E você percebe uma energia diferente quando entra no estúdio. É sobre arte — é só sobre isso. O Murilo me apresentou ao Capilé mais diretamente por conta do Corona Kings e eu já o conhecia por conta do Sugar Kane, mas foi muito legal conhecê-lo melhor. Ele é uma pessoa muito foda e querida. E conhecer o Chuck também foi muito massa! Eu admiro o trabalho dele desde que comecei a acompanhá-lo na MTV, e acho que o Murilo e o Lucas o admiram desde que começaram a acompanhá-lo no Forgotten Boys. É muito massa ter essa experiência, ter esses caras com a gente. E rolou de uma forma muito natural. Eu me lembro que estava numa festa do Costella e perguntei para o Chuck, “meu, quê que cê acha de fazer um videoclipe para minha banda?”. E ele respondeu “bora, vamo!”, sabe? É uma relação bem direta e sincera.

Murilo — No Costella, a gente se sente muito confortável, a gente se sente em casa. E o conforto pesa muito na hora de gravar… e nós estamos gravando com nossos amigos, o que torna tudo diferente. É um clima bem leve, a gente se sente muito menos pressionado. Para mim esse é o grande lance do Costella, fora a qualidade da produção, que é animal. O som do Costella é muito característico, e hoje em dia é meio difícil um estúdio ter um som muito característico. O Capilé abraçou o Corona. Hoje em dia, eu não consigo pensar em gravar nada sem que isso tenha algum envolvimento com o Estúdio Costella. O Capilé e o Chuck estão sempre ajudando, sempre presentes. Gravar um videoclipe com o Chuck foi muito massa, porque é foda ver um cara que você admira ficar empolgado com algo que você fez. Estamos construindo uma relação muito legal e com certeza vão acontecer novas parcerias.

Lucas — Eu sou de Santa Catarina e na minha primeira viagem para São Paulo eu assisti a um show de uma banda de Sorocaba chamada Vilania, que o Chuck estava produzindo. Isso em 2006. Foi o meu primeiro contato com ele, foi a maior brisa. Depois de um tempo, eu tive bar em Santa Catarina e trouxe o Forgotten Boys e o Sugar Kane, então acabou acontecendo esse segundo contato. Os caras são queridos demais. Eu cheguei a orçar disco com o Chuck assim que ele abriu o Costella — esse disco não aconteceu, mas daí aconteceu um terceiro contato… enfim, a gente sempre se esbarrava nos rolês. Eu também trabalhava em uma loja que patrocinava o Capilé, então a gente sempre se via também. O Costella foi um passo legal, um passo evolutivo. Você está em um lugar que sempre via em programas, via na televisão, e você tá lá dentro com os caras, tá lá dentro gravando videoclipe. É uma historinha curta e longa ao mesmo tempo.

É verdade que o Chuck gritou feito um louco pelo estúdio na gravação do videoclipe? Contem-me sobre essa experiência, por favor.

Todos — [risos]

Murilo — Sim, isso é verdade. Cara, ele estava com um microfone em uma mão e uma lâmpada em outra, gritando, iluminando e dirigindo o videoclipe, tudo ao mesmo tempo. Quando vi, estavam ele e a Juh Guedes, responsável pelas filmagens, rolando pelo chão. [risos] Mano… foi uma doideira. A ideia do clipe era mostrar como era um show nosso. No nosso primeiro videoclipe, só a Karen apareceu, e era um videoclipe mais conceitual. Nesse segundo, a gente queria fazer um videoclipe de banda tocando, algo mais simples. E foi exatamente isso que o Chuck tentou nos entregar. Foi tudo muito rápido e visceral, a gente gravou um take atrás do outro.

Karen — Sim, ele gritou feito um louco, coitado. Nem sei como ele terminou as gravações com voz. E a Juh mal conseguia respirar.

Murilo — Mas ele estava curtindo muito. Ele fez tudo com muito prazer, foi muito foda.

Karen — E ele disse que faria tudo de novo.

O Forgotten Boys foi mesmo bem importante para o cenário independente nacional, acho legal vocês guardarem essas memórias afetivas da banda. Eu consigo perceber certa influência do Forgotten Boys na Violet Soda. Acho que a maioria das bandas brasileiras que flertam de alguma maneira com o rock de garagem tem alguma influência do Forgotten Boys, direta ou indireta. Como a banda influenciou vocês?

Murilo — Em Maringá, onde eu morava, quando entrei nesse rolê de show independente, o Forgotten estava na crista da onda. Era A banda. Das que eu ouvia, era de longe a que eu mais gostava. E na época deles, muitas bandas conseguiram fazer um trabalho legal. Ainda assim, eles sobressaiam. E me influenciaram muito também porque eu era muito novo quando os conheci e acabei pesquisando as influências deles, então eu conheci várias bandas que gosto até hoje por conta do Forgotten Boys. Para mim, foi uma banda muito importante, de verdade, e eles são relevantes e fazem coisas interessantes até hoje, pelo menos para mim. Inclusive, o Chuck me disse que talvez eles lancem material em breve. Não sei nem se eu posso falar sobre isso…

Então vou mudar essa pauta para “Forgotten Boys pode lançar material em breve”.

Murilo — [risos] Não faça isso, por favor.

Como foi o processo de criação e produção do “Here We Go Again”?

Karen — Não tem nenhum segredo no nosso processo criativo. A gente literalmente faz o que a gente gosta de fazer. Eu curto um riff que eu fiz, daí mostro pro Murilo e ele diz “puta, achei foda, eu só mudaria tal coisa”, aí eu respondo “é, isso realmente vai mudar a música para melhor”. Não sei bem como explicar, mas a gente não se deixa influenciar muito por ninguém. A gente só faz o que a gente quer, e foi assim que pensamos nesse EP.

Murilo — Quando a gente compunha para o projeto solo da Karen, a gente se sentava com um violão, acendia um incenso e ia escrevendo, escrevendo, fazendo, fazendo… era um processo bem coletivo, e foi quando decidimos que o projeto solo ia virar banda, como já expliquei. Isso também aconteceu nesse EP, e a gente compunha e depois tentava sentir como as músicas funcionavam ao vivo. O André, a princípio, ia ser integrante temporário, mas ele manifestou vontade de ser o baterista fixo. Para nós, isso foi muito foda, porque ele é um dos melhores bateristas do Brasil, se não for o melhor.

Karen — Foi muito legal. Durante a gravação do EP, ele colou no estúdio até nos dias em que ele não precisava fazer gravações.

Murilo — A gente estava cogitando ser uma dupla e chamar integrantes para participar dos shows e das gravações ao longo do caminho. Mas antes de terminar as gravações, o André manifestou essa vontade de integrar a banda. A gente não estava nem cogitando isso, porque ele é muito foda e toca com muitas bandas, então a gente não achou que ele fosse querer. O Lucas fez som com o Corona Kings em um rolê que a gente foi tocar na Breve, em São Paulo, e a gente tinha uma lembrança legal dele e decidimos convidá-lo. Foi muito espontâneo. E no final das gravações, a gente saiu com uma banda formada.

Karen — Eu lembro que eu estava com vontade de fazer uma música estilo Green Day na era “Dookie”, acho que essa foi a minha única influência direta para o EP. E aí, pensando nisso, a gente fez “Friends”, que não tem absolutamente nada a ver com o Green Day. Então acabou sendo bem espontâneo mesmo.

Murilo — Eu toco há 10 anos em banda, a Karen toca há 15. Tivemos muitas bandas, temos essa experiência, então decidimos seguir a nossa espontaneidade.

Karen — Até porque a gente não ganha nada, e a chance de a gente não ser famoso existe. Então a gente só faz o que a gente realmente gosta. Tem que ter tesão na hora de tocar, eu tenho tesão.

Murilo — É isso. Nossas composições são muito instintivas, a gente não pensa em seguir um padrão. São influências meio inconscientes.

O que vocês podem me falar sobre o segundo EP e como ele vai se diferenciar do primeiro?

Murilo — A gente está gravando o EP com o Capilé no Costella, claro, de novo. Não tem nada muito definido ainda, nome, tracklist e tal. A diferença é que esse segundo EP está bem mais coletivo do que o primeiro. A base ainda está concentrada em mim e na Karen, mas a composição está muito mais coletiva.

Lucas — É, acho que a principal diferença é essa questão orgânica mesmo, as concepções estão sendo bastante coletivas. É um processo legal compor assim, tá sendo massa.

E por que vocês optaram por um segundo EP e não por um LP? Acho apropriado pontuar aqui que tenho sentido que as bandas estão lançando menos LPs e mais EPs, e também sinto que as gerações mais novas estão ficando de saco cheio de ouvir LPs e dando mais atenção aos EPs e, é claro, aos singles. Vocês concordam?

Murilo — Nós sentimos uma urgência de mostrar a diferença entre as músicas que nós já lançamos e as músicas que estamos criando agora. Sentimos que ainda dá para lançar algo ainda esse ano. Assim que nós lançamos o primeiro EP, várias pessoas apareceram nos pedindo mais coisas. Mas o plano é lançar esse segundo EP agora, nesse semestre, e ano que vem lançar um LP, porque acreditamos que o LP ainda é importante e pode mostrar um conceito que você não consegue mostrar em um EP. Acho que o EP serve muito mais para mostrar as várias facetas que uma banda pode ter, enquanto o LP mostra a essência dela. Nós ainda estamos descobrindo a nossa própria essência. Estamos fazendo músicas diferentes entre si e observando a reação da galera, e a partir daí vamos entender o que devemos fazer em um LP. Sim, realmente, eu concordo com você. Acho que a galera não tem tido muita paciência para ouvir discos cheios. Nós lançamos um EP de quatro músicas e, de acordo com os números do Spotify, poucas pessoas têm saco para ouvir até a última música. E é normal, sabe? Isso não é uma exclusividade nossa. Acho que as pessoas, hoje em dia, querem tudo mais expresso.

Karen — E acho que elas querem mais receber do que procurar por informação. “Coffee” tem muitos plays a mais do que as outras músicas, porque a incluímos em playlists. Acho que tem sido tudo muito rápido, as pessoas estão trabalhando, não têm tempo para parar e procurar os outros trabalhos da nossa banda, ver quem são os integrantes. Acaba sendo um consumo por osmose.

Murilo — É, as pessoas têm confiado muito nas playlists do Spotify. Eu e a Karen sempre ouvimos coisas novas, fazemos playlists todo mês e procuramos por todos os trabalhos das bandas que conhecemos e gostamos. Mas eu acredito muito que ainda existe uma faixa do público que se interessa. Por isso que eu acho que o LP continua fazendo sentido.

Acredito que “Coffee” tenha mais plays também por ter videoclipe.

Karen e Murilo — Sim.

Murilo — Acho que também influencia muito ela ser a primeira do EP.

Karen — É.

Murilo — A gente já escolheu a tracklist do EP sabendo que “Coffee” ia ser o single. Ela é a primeira porque, nessa nova forma de consumo musical, colocar o single na terceira faixa não faria o menor sentido. Achei massa você ter falado dos videoclipes. Queremos lançar videoclipes para todas as faixas do EP. Acho que é uma forma legal de destacar todas as músicas que fazemos, e também de mostrar para o público como a própria banda as interpreta.

Karen — E é assim que planejamos uma relação de produção e consumo infinita. Nós lançamos um videoclipe e, enquanto o público está o consumindo, nós estamos fazendo um segundo videoclipe. Estamos trabalhando de modo contínuo, sem evidenciar pausas. Nos preocupamos bastante em manter essa conexão com o público.

E como foi a experiência de fazer o videoclipe de “Coffee”, falando nisso? Foi tão louca quanto fazer o videoclipe de “Take Me”?

Karen — Cara, então, foi uma doideira gravar esse videoclipe. Porque eu sou bem cara de pau, todo mundo que me conhece sabe disso. Toda festa que rola no Costella eu tô dançando na pista, a não ser que eu esteja muito cansada — eu sou uma pessoa bem enérgica, o Capilé me zoa pra caralho por isso. Enfim, o Murilo me deu essa ideia de dançar no meio de algum lugar público e eu aceitei na hora, porque foi genial. Era um desafio, de certa forma, e se tem uma coisa que eu curto é um desafio. No dia, eu fiquei muito nervosa, como sempre fico, mas quando rolou o primeiro take eu toquei o foda-se. Eu tentei não cantar muito alto na estação do metrô para não chamar atenção de seguranças, eu queria que tudo ocorresse de forma tranquila. Mas na avenida em si eu cantava alto, pulava, apontava para todo mundo. Na hora que eu dei aquela estrelinha, eu quase atropelei um casal que estava passando na minha frente. Eu saí arrastando o meu fone de ouvido pelo chão, foi uma tragédia… foi libertador, muito foda.

Murilo — E tem muita gente doida em São Paulo, então a Karen dançando no meio da Paulista provavelmente não foi a coisa mais doida que as pessoas viram naquele dia. [risos]

Karen — Com certeza não.

Assista aos videoclipes de “Coffee” e “Take Me”:

Ouça o EP do Violet Soda aqui: