Verso Rude lança single “Último Dia” e promete novo EP ainda em junho

Verso Rude lança single “Último Dia” e promete novo EP ainda em junho

22 de junho de 2015 0 Por João Pedro Ramos

Fundado em 2014, o grupo Verso Rude, formado por  Neph, JV e V-Beat, começou fazendo freestyle e brincando, voltando da escola dentro do ônibus. Em 2014 o grupo lançou seu primeiro EP, “Eu Sou o Problema” e o single “Último Dia”, lançado em junho de 2015, chamou a atenção de sites especializados em rap de todo o Brasil. O grupo promete que o sucessor do primeiro EP já está em produção e deve sair ainda neste mês.

“Pouco a pouco o rap tá tomando seu espaço de direito. A maior prova disso é o mercado: antes o rap não tinha mercado, não conseguia (em termos de vendas) bater de frente com outros estilos, e hoje podemos ver que em alguns lugares os shows de rap não preferência do público. Acho que o brasileiro está começando a gostar de música boa”, contou JV.

Conversei com a dupla sobre a cena do rap nacional, o lançamento de “Último Dia” e o funk ostentação:

– Me fale mais de seu novo single, “Último Dia”.

JV: “Último Dia” foi nossa primeira track, na verdade. Quando nem existia Verso Rude ainda. Acabei indo mexer no Facebook um certo dia e vi o soundcloud do Mr.Break, e resolvi clicar para conferir os novos beats à venda. Acabei achando um beat chamado unknown, que é o instrumental de “Último Dia”, e foi amor à primeira vista. Aquilo se encaixava perfeitamente comigo, e, mesmo sem ter a ideia de fazer uma música assim, no fundo tínhamos essa necessidade. A minha história e a história do Neph meio que se completam, ambos decepcionados no amor, frustrados, e logo que mostrei o beat pra ele a ideia veio. E naquele mesmo dia, à noite, começamos a ouvir SOJA e acompanhar as letras, prestar mais atenção nelas, o que deu inspiração o suficiente para criar essa faixa.

Naquela mesma noite fizemos nossos versos e o Neph fez o refrão. Ficou até bonito o refrão rimado, mas dez dias depois de pronta, quando fomos gravar no Studio Setor (comandado por Ramiro Mart) encontramos o DC, que também faz parte do Ello (outro grupo do Neph) e pensamos nele para o refrão, já com algo mais cantado. Gravamos no Setor, deu tudo certo. Ramiro Mart fez um trabalho lindo de mixagem e masterização, e essa faixa acabou sendo uma das melhores filhas que temos nesse primeiro EP.

– O EP “Eu Sou o Problema”, de 2014, é a estreia de vocês. Como rolou esse disco?

JV: Depois de ouvir a guia de “Último Dia”, uma ideia nos veio: Por que não criar um EP juntos? O Neph já tinha outro grupo (o Ello) e outros projetos, mas como amigos de infância, e pelo fato de termos começado a rimar juntos, decidimos criar um EP.
À princípio seria só um EP, não teríamos grupo nem nada, apenas dois amigos criando algumas faixas juntos. Criamos cinco faixas que acabamos nem usando. E, pouco a pouco em nossas conversas fomos chegando onde queríamos: montar um grupo.

– Como o Verso Rude se formou?

JV: Começamos a rimar em 2010, juntos, na volta da escola, dentro do ônibus.
Éramos muito ruins no começo, não conseguíamos completar duas rimas direito, porém tínhamos uma coisa que muitos não tem: Tempo e vontade. Ficamos o ano de 2010 inteiro rimando dentro do ônibus, fazíamos muito freestyle, batalhávamos um contra o outro, sempre vendo e ouvindo o Emicida, que na época era nossa maior referência.

Em 2011 eu (JV) me mudei, fui morar em Vassouras para fazer faculdade, o que me fez parar de ver o Neph com tanta frequência, e, consequentemente, diminuir o tempo que eu tinha para o rap, que na época era somente um hobbie. No fim de 2011 eu voltei para Rio Claro (Rio Claro – RJ, nossa cidade natal) buscando outra coisa, aquele curso não era para mim. Logo que voltei, eu e o Neph voltamos a nos reunir na casa dele todo dia, de segunda a segunda, e continuamos rimando, rimando e rimando.

Em 2012 comecei a fazer faculdade em Volta Redonda, o que nos deu ainda mais tempo para aquilo, já que íamos no mesmo ônibus e tínhamos o mesmo cenário de 2010. Já maiores, evoluídos e conhecendo mais de rap estávamos dispostos a levar aquilo para frente. Não viver disso, apenas buscar mais conhecimento, experiência, ficar mais técnico no que se diz respeito à fazer rima: Conhecemos a roda de rima de Volta Redonda.

Em Rio Claro, onde moramos, não tem cena do RAP. Ninguém aqui se interessava por isso na época, então tivemos que migrar para Volta Redonda. Chegamos na sétima edição da Roda de Rima, em um sábado quente. O evento estava marcado para 19h00, e a gente chegou as 18h00 e ficamos esperando por alguém até as 21h00. Vimos um pessoal se reunindo na praça (hoje chamada de praça do rap) em baixo da biblioteca, e fomos lá para ver. Trocamos um pouco de ideia com o pessoal, até que começou a roda.

Os caras pareciam ter experiência, tranquilidade e tudo que a gente não tinha na época. Eu lembro que vi o Grilo (um MC de Volta Redonda) rimando e fiquei impressionado, o cara era sinistro. Aí ele me chamou pra rimar, recusei o convite, estava um pouco tenso, com vergonha, medo de errar, sei lá, e acabei passando a bola pro Neph.

Ele mandou umas rimas e gritaram pra ele, aquilo despertou nele uma vontade maior, pude ver. Fizemos aquela rotina juntos por mais três ou quatro rodas de rima, até a décima ou décima primeira, e depois mais uma pedrada do destino: Acabei me afastando novamente do rap por influência de uma ex namorada.

Dizendo que àquilo não daria futuro, que eu deveria crescer, parei de fazer freestyle, parei de escrever, parei de frequentar eventos de rap. Por outro lado, a vida do Neph no rap ia de vento em poupa, acabou se tornando amigo do pessoal da roda de rima, virou ícone após vencer muitas batalhas lá, criou um grupo chamado Ello Crew (referência em VR) e acabou indo para a batalha do real.

Eu continuei estudando, e mesmo vendo o Neph todo dia e ouvindo histórias de rap, fingia não me importar. Até que meu relacionamento veio à baixo… três anos e meio, tudo caiu. Passei uma semana horrível, me reconstruí e fui me reconstruindo aos poucos. Costumo dizer que morri em vida e renasci para o rap.

Continuei afastado, não frequentava mais a roda de rima e nem rimava com o Neph, mas voltei a fazer freestyle, voltei a escrever, eu já estava mais maduro. Estava mais observador, acabei aprimorando meu rap, me tornei muito técnico nisso e evoluí da minha maneira, sozinho. Até que um dia, como citei anteriormente, entrei no facebook e ouvi o beat do Mr.Break… e toda aquela ideia de criar um grupo voltou.

Depois das cinco faixas ruins que escrevemos, chegamos a ideia de criar um grupo, o que tornou a coisa mais séria ainda: Tínhamos a meta de escrever 50 letras, e só depois dessas 50 íamos escolher algumas para compor o EP. Acabamos criando 45 letras em uma semana, aquilo foi incrível. Tínhamos muita letra, muita ideia, muito conteúdo, mas não tínhamos um conceito para o EP. Naturalmente surgiu isso. “Eu sou o Problema” era uma faixa que eu escrevi nesse tempo “afastado do rap”, que acabou entrando para o EP depois do Neph ouvir e gostar. O resto do conceito vocês só vão entender depois que ouvirem. Sai ainda esse mês (Junho).

11392987_596385483832237_895666897291377295_n

Quais são suas maiores influências musicais?

Neph: J Cole, Kendrick Lamar, Wu Tang, Sintese, Travis Scott, Soja, Djvan
JV: Mos Def, Biggie, Emicida, Kamau, Kendrick Lamar, Soja

– Vocês acreditam que a cena rap está se expandindo no Brasil?

JV: Sim, sim. Pouco a pouco o rap tá tomando seu espaço de direito. A maior prova disso é o mercado: antes o rap não tinha mercado, não conseguia (em termos de vendas) bater de frente com outros estilos, e hoje podemos ver que em alguns lugares os shows de rap não preferência do público. Acho que o brasileiro está começando a gostar de música boa.

– Muitas garotas estão entrando no mundo do rap e não aceitando atitudes machistas que antes permeavam o estilo. Qual a opinião de vocês sobre isso?

JV: Assunto muito delicado, posso ser mal entendido ao falar disso, mas… o rap é liberdade de expressão acima de tudo, ou seja, você tem que falar a sua verdade. Seja lutando contra o machismo ou falando de qualquer outra coisa, ela tem que ser sincera, pois comprar uma causa sem fundamento é lutar em vão. Escreva com fundamento, exponha seus argumentos, faça isso mudar. Reclamar por reclamar não vai levar a lugar algum. E, do mesmo jeito que eu apóio mulheres lutando contra o machismo, eu também apoio o direito de cada um falar sobre o que quiser: isso é o rap!

– Ainda existe uma rivalidade entre rap paulistano e carioca?

JV: Olha… deve existir sim. Existe rivalidade entre duas ruas, dois bairros, por que não entre dois estados? Mas acho que o rap é acima disso tudo, somos um coletivo, essa tal “rivalidade” só serve para evoluir, fazer com que os dois lados cresçam. Sem falar que… já foi o tempo em que o rap só era forte no Rio e em Sampa, podemos perceber muitos caras sinistros no sul, nordeste. O Brasil tá cheio de gente talentosa.

11165226_581833045287481_5630659347166235478_n

– O rap americano possui muito da “ostentação” que aqui aparece no funk. Porque o rap em geral não entrou nessa?

JV: O fato do rap falar sobre realidade já explica isso. Os primeiros mcs não tinham o que ostentar, e nem tinham porque ostentar. Muita coisa precisava ser dita, tinha muita mensagem pra ser passada, o plano nunca foi ostentar, e sim informar. Com esse tal mercado que criou-se em torno do rap, muitos mcs já vivem disso, e alguns tem até condição de ostentar, e ostentam. Não tem porque esconder o dinheiro ou ter vergonha de ganhar dinheiro. Se você tem para ostentar, ostente. Mas faça isso com a qualidade que você teve para ganhar aquilo tudo, com fundamento, e não falando asneira. O Brasil criou um pensamento de que rapper bom é rapper pobre, e eu não consigo entender isso.
Talento, talento é a palavra! Cresceu? Ganhou dinheiro? Ajude quem você tiver que ajudar, mas não tenha vergonha de ostentar. Afinal, prefiro ver um rapper que eu escuto, um ídolo, alguém que eu escuto, montado no dinheiro do que um cantor de sertanejo.

– Quais rappers brasileiros que não estão na grande mídia vocês recomendam?

Neph: Ramiro Mart, Pachá, Zona Verde e Indigesto.
JV: Pachá, Liink, Kayuá e Ramiro Mart.

Ouça o EP “Eu Sou o Problema”: