Venuz mostra toda sua força no clipe de “Deixa Ela Entrar” e procura nova guitarrista

Venuz mostra toda sua força no clipe de “Deixa Ela Entrar” e procura nova guitarrista

17 de julho de 2019 0 Por João Pedro Ramos

Deixe elas entrarem: a banda carioca Venuz é formada por mulheres que não aceitam ocupar apenas o segundo lugar e deixam isso muito claro em suas letras e também em suas apresentações selvagens e cheias de fúria. Isso não significa que Aila Dap (voz), Renata Guterres (guitarra), Juliana Valente (bateria) e Carol Vianna (baixo) tenham medo de soar pop: uma das artistas mais citadas por elas como influência para a banda é Lady Gaga, por exemplo, além de nomes como Hole, Orianthi, Runaways e Alice In Chains. O agora quarteto lançou recentemente o clipe de “Deixa Ela Entrar” e está à procura de uma nova guitarrista para completar sua formação devido à recente saída de Jack Foster da banda.

“Queremos ter certeza que a nova venuziana vai nos complementar e queremos que o encaixe seja perfeito”, conta Aila. “Tem que ser mulher cis ou trans, claro! Tem que tocar guitarra e fazer backing, e se compor vai ser lindo. E ter disponibilidade pra estar com a gente, pra fazermos planos. Ela tem que amar nosso projeto e nossas músicas também!”, define Renata. Conversei um pouco com a banda sobre o EP “rebELA”, o novo clipe e os planos para o futuro:

– Como foi a gravação do mais novo clipe?

Aila: A ideia do roteiro partiu da gente, queríamos fazer algo diferente do usual. Procuramos por alguns videomakers e a Ju foi a única que conseguiu achar uma videomaker mulher e sempre adoramos trabalhar com mulheres como nós, pra fortalecer o lado feminino do rock underground.

Carolina: Em relação à gravação, foi um nova experiência já que nunca tínhamos feito um video totalmente história.

Aila: A Bruna, videomaker, veio com algumas ideias, junto da equipe dela, que enriqueceram bastante o roteiro.
Bom, isso foi a parte do roteiro. Antes de começarmos a gravar teve toda essa pré, a Bruna e a equipe são bem organizados, então quiseram trabalhar bem na ideia, no roteiro, nos reunimos algumas vezes para entrar nos detalhes antes de gravar de fato.

Carolina: A casa estava praticamente vazia, montamos tudo no dia com a galera da filmagem. A gravação começou de manhã e terminou altas horas da madrugada, isso dois dias seguidos. Foi bem cansativo, mas no fim valeu muito a pena.

Renata: Nós fizemos parte da produção, então compramos as coisas, fizemos as capas, aí a Bruna e sua equipe chegaram pra lapidar.

– E como foi escolhida a faixa para o clipe?

Aila: “Deixa Ela Entrar” é a nossa música de início de show, o público estava pedindo por um clipe dela. Além disso a gente queria um clipe pudesse ser feito dessa forma que a Carol falou, num formato história. “Deixa Ela Entrar” era a música que mais se encaixava numa história dentro do EP. A gente também cogitou “Ainda É Cedo”, “Dona de Mim” ou “Marcela”. Mas votamos e decidimos que “Deixa Ela Entrar” tinha mais a ver.

Carolina: Desde quando lançamos o EP, “Deixa Ela Entrar” foi uma das musicas que nós achamos que tinha bastante visibilidade, não é à toa que ela é a abertura dos nossos show (risos).

– No momento, vocês estão reformulando a formação, em busca de uma nova guitarrista base, correto?

Aila: Exatamente!

Carolina: Sim, não esperávamos isso… Mas por motivos maiores para a Jack, ela precisou nos deixar.

Aila: Mas estamos com algumas opções. Semana que vem começaremos os testes!

– Ou seja: em breve teremos novidades da banda. Estão com planos para novas músicas, novos trabalhos?

Aila: Queremos ter certeza que a nova venuziana vai nos complementar e queremos que o encaixe seja perfeito (risos)! Sim, estávamos planejando, ainda com a Jack, a gravação de uma versão de um clássico que tocamos nos shows… Mas devido a essa surpresa, tivemos que postergar um pouco. Assim que essa nova integrante entrar, vamos começar a trabalhar nisso.

Carolina: Estamos procurando urgente uma pessoa, pois nós temos muitos planos futuros, como mais um clipe, novas músicas e shows.

– Voltando ao EP, podem me contar mais sobre este trabalho lançado ano passado?

Aila: A gente a princípio ia lançar 2 singles, mesmo tendo uma quantidade de composições necessárias para lançar um EP. A princípio os singles seriam “Aumente o Ritmo” e “Heartbreaker”… Mas trocamos de produtor musical e ele viu muito potencial nas nossas outras composições. Então decidimos, com nossa antiga formação, juntar as músicas que mais tinham a ver em termos de temática e montamos o “rebELA”, um EP com músicas que abordam sobretudo a questão do poder feminino, e sobre o ato de se rebelar. “Deixa Ela Entrar” é a primeira faixa do EP, até mesmo pelo nome da música, é como entrar com o pé na porta.

Carolina: É um projeto que visa bastante a mulher, os problemas que passamos no dia dia e esperamos que nossa luta seja reconhecida por meio da música.

Aila: E teve todo um conceito por trás das artes, bem legal, uma capa pra cada música, e até a arte de capa do EP, da nave abduzido a galera.

Renata: Então, quando o nosso produtor veio conversar com a gente a ideia do EP, começamos a pensar num conceito pra ele. Desde a formulação da banda a gente procura ter um conceito forte em tudo que fazemos, não seria diferente pro EP. No início, escolhemos Venuz por fazer referência à deusa romana Vênus, que é a Afrodite grega. A deusa do amor, da beleza e da sexualidade. Representante do feminino. Usamos o nosso simbolismo que é o símbolo da mulher adaptado, e não esquecendo que Vênus é o planeta com a atmosfera mais pesada do sistema solar e a estrela que mais brilha do céu terrestre. Já tínhamos esse conceito de planeta muito latente, então na época do EP começamos a ter ideias com base nisso. Foi quando comecei a esboçar algo como: viemos de Venus pra abduzir e empoderar as mulheres terrestres, usando nossa música pra conquistá-las. Então comecei a montar uma série de capas que se relacionam também com as letras e nisso “rebELA” se torna uma grande historinha.

Aila: Inclusive a ideia da história de deixa ela entrar veio da capa que a Re fez, que era uma mão meio alien abrindo a porta, e revelando uma vovó numa cadeira de balanço ouvindo um rádio.

Renata: “Deixa Ela Entrar”: Na arte tem uma senhora sentada e um radinho, assim como no clipe. Um alien abrindo a porta, como se estivéssemos indo lá buscá-la, de Vênus. No clipe estamos montando um clã de mulheres, tudo está relacionado.

Aila: Uma alien, né (risos)

Renata: Deixando bem latente as referências com a letra também. Heartbreaker, a destruidora de corações. Na arte fizemos um pé de uma alien venuziana pisando em corações. Tudo num visual meio synthwave, cyberpunk. “Dona de Mim”: um exército de mulheres sendo recrutado por uma alien venuziana. A letra fala sobre ser dona das próprias decisões, da independência no trabalho. Tudo se relacionando, mais uma vez. A de Marcela foi a que o pessoal mais curtiu.

Aila: “Eles Diziam” e “Ainda é Cedo” também estão geniais

Renata: “Eles Diziam” são uns caras numa câmara dentro da nossa nave. É a nossa música com a letra mais pesada. É a capa mais pesada também. Não queremos generalizar, mas como somos uma banda feminista, nada mais justo que colocarmos os caras abusivos de molho na nossa nave e transformá-los em uma de nossas mulheres.

Aila: “Eles Diziam” a gente nem toca mais nos shows!

Renata: “Marcela” é a única capa que mostra nossa carinha alien. Fala sobre submissão da mulher, fala sobre empoderamento, se amar e se posicionar perante a essas questões. Nossa musa inspiradora na época foi a Marcela Temer e os discursos machistas acerca dela. Nada melhor que fazer a mulher alien venuziana empoderada, depois da abdução, por si só. Com a imagem dela, você consegue linkar a imagem com todas as capas e entender o storytelling.

Renata: Mostra nossa cara de perfil, no caso. “Dona de Mim” mostra um pouco do rosto.

Aila: Na real o nome Marcela, da música, é sobre “como não ser Marcela Temer”. Na época que compus estava na moda aquele jargão bela, recatada e do lar. Usei isso na letra. Eu acho que é a música que mais gostamos de tocar, né? Ela é bem swingada e tem uma energia muito maneira. A gente pensou seriamente em fazer um clipe dela, mas por se tratar de uma música de conteúdo explícito, mudamos de ideia (risos).

Aila: Qual que falta? “Ainda é Cedo”! Nosso fim de show

Renata: “Ainda é Cedo”! “Eles Diziam” a gente nem toca mais nos shows…

– Porque?

Renata: Por conta da letra.

Aila: Bom, a letra dela é bem pesada, como a Re falou. Certa vez tocamos num evento e o pessoal fez cara feia pra essa música… Antes de tocar ela, tava muito cheio na frente do palco e quando começamos “Eles Diziam”, pessoal começou a sair (risos). Era um evento meio conservador… A gente gosta de poder levantar nossas bandeiras, mas às vezes melhor ser menos direto, queremos conquistar a galera não só pelas letras, mas pelo som. E outra coisa engraçada também que nos fez tirar “Eles Diziam” do set: foi que a gente fez uma análise do público, e vimos que nosso público é maioria de homens heteros (risos). Então não queremos ofender nosso público também. Continuamos defendendo nossos ideais, mas queremos ser diplomáticas.

Renata: “Ainda é Cedo” é a capa que eu mais gosto. A letra fala sobre uma criança que desde muito cedo se rebela e vai à luta. Tentei retratar uma criança vivendo num mundo de caos, esperando ser abduzida por nós.
E não podemos esquecer: nosso hit, nosso primeiro single, primeiro clipe. “Aumente o Ritmo”.

Aila: Ahhh, SIM, “Aumente o Ritmo”! Foi a única música que eu não fiz a letra. Essa foi melodia e letra da Jack!

Renata: “Aumente o Ritmo” que iniciou essa história toda. Praticamente nossa única música que é sobre amor.

Aila: A Jack e Eu nos completávamos nas composições… Ela conseguia falar de amor muito bem, minha letras sempre foram mais rebeldes. Espero que a nova guitarrista consiga compor sobre amor, ou vou precisar abrir meu coração (risos)!

Renata: No vídeo, mostra nós tocando em uma festa. Essa música ‘gruda’ na mente. Então, nada mais justo que ser a fita que colocamos pra abduzir e conquistar as pessoas. Todas as capas tem a mesma paleta do cores e identidade.

Aila: Por isso é bom ter uma guitarrista que também é designer (risos)!

Renata: Usei o simbolismo do triângulo de Penrose nas capas. Ele é conhecido como objeto impossível. Cada pessoa tem uma visão diferente do mundo, ninguém é perfeito, mas estamos buscando sempre a perfeição, mesmo que inalcançável. O triângulo mostra que a perfeição depende do ponto de vista, que é impossível alcançar a perfeição e que não precisamos disso, podemos vê-la de diferentes modos.

Renata: Sem mencionar que o triângulo faz alusão ao órgão sexual feminino. E por fim: nossa capa final, que materializa todas as histórias que contem acima das outras capas. Somos nós pilotando nossa nave de Venuz, abduzindo e salvando as mulheres desse mundo hostil. E uma filha de mulheres esperando serem abduzidas.

– Já que vocês citaram novamente a busca por uma guitarrista, aproveitem para falar aí o que essa nova guitarrista precisa ter, vai que ela está lendo esse post?

Renata: Ela tem que somar com a gente, ter o mesmo sonho, mesmo brilho no olhar. Tem que ser mulher cis ou trans, claro! Tem q tocar guitarra e fazer backing, e se compor vai ser lindo. E ter disponibilidade pra estar com a gente, pra fazermos planos. Ela tem q amar nosso projeto e nossas músicas também!

Venuz

– Como vocês veem a cena independente hoje em dia e como se veem dentro dela?

Aila: A gente tá bem criteriosa no teste para nova guitarrista e backing, estamos fazendo um mega processo seletivo para ter certeza que a nova integrante não irá nos deixar na mão. Se tem uma coisa que nos chateia bastante é a saída de alguém. Não é a primeira vez que trocamos de membro, e todo esse processo além de ser cansativo e atrasar nosso avanço, é como começar um novo relacionamento. Nós vemos a Venuz como um namoro a 5.
A cena hoje está bem mais unida que alguns anos atrás. Eu não fazia parte da cena antigamente, mas convivi com muitas pessoas que me falaram disso. E hoje o advento da internet nos ajuda bastante, Toda essa variedade de mídias!

Renata: Então, eu acho que grandes movimentos surgem de momentos políticos e socioeconômicos ruins, e eu acho que estamos exatamente num momento ótimo pra isso. Acho que tem muita coisa boa surgindo na cena independente, bandas, iniciativas, eventos. O Akasha Rock Fest, Rock SA, A Ferramenta, o Alternativo Rock Club são iniciativas que estão mexendo muito com a cena Underground. Tem surgido muitas bandas de mulheres também e isso é lindo! Acho que tem espaço pra todo mundo e é fundamental que as pessoas compareçam nos shows e se não puderem, divulguem! Já nos ajuda muito! E também temos que fazer valer o lema: ninguém sai do show do ninguém!!

Aila: Antigamente a gente nem sonhava em ter plataforma de streaming e hoje não vivo sem Spotify, por exemplo.

Renata: Exato!

Aila: Antigamente você tinha que ficar distribuindo CDs, e torcer pra pessoa parar pra ouvir. Hoje você manda um link pra todos contatos do WhatsApp e tchanam!

Renata: Além do custo absurdo da geração de CDs físicos.

Aila: E nesse sentido os nossos amigos e amigas de banda nos ajudam muito fazendo uma mega rede e um ajudando o outro a divulgar. Hoje acordei com um story do Emanuel da Bruto Amor tocando “Deixa Ela Entrar” no violão e dando uma moral linda pra gente. Fiquei emocionada!

Renata: Exatamente!

– Que bandas e artistas vocês citariam como maiores influências da Venuz?

Aila: The Runaways, sem dúvida!

Renata: Eu gosto muito do Hole, da Orianthi, da Lita Ford, Da Joan Jett, da Lady Gaga.

Aila: E aqui no Brasil a Pitty. Acho que cada uma de nós possui referências diferentes e isso que dá nossa essência. Lady Gaga! É muito louco sermos uma banda de rock clássico e meio hard rock na qual todas integrantes são fãs dessa mulher incrível (risos).

Renata: Eu, por exemplo, amo Guns’n’Roses, Alice In Chains, coisas mais anos 90, grunge…

Aila: A gente já até fez uma versão de “Shallow”… Mas depois da versão da Paula Fernandes a gente achou melhor nem tocar mais também (risos)! Eu sou little Monster, mas gosto muito de metal industrial, gothic metal, hard rock, música cafona dos anos 80…

Renata: “Shallow”, mas sem ser juntos (risos). Eu também sou metaleirinha (risos). Eu também gosto de música eletrônica, pop… Acho que essa variedade que dá nossa identidade.

Aila: Quem sabe a nova guitarrista entrando e sendo mais heavy metal a gente fique mais pesada…

Renata: Ou mais pop!

Aila: Ou mais pop! Adoro (risos)!

Renata: Por isso que eu odeio rotular na hora de: vocês tocam o que? Odeio responder essa (risos).

Aila: Acho que depende do trabalho, né. “rebELA” acabou sendo bem hard rock, mas pro próximo trabalho talvez mude. “Quero Que Tu Vá” já mudou, foi um single à parte do EP.

Renata: Mas todas tem nossa essência. Um cover de um funk. Cover não, versão (risos)

Aila: “Quero Que Tu Vá” tava mais punk rock talvez ou até metal, sei lá (risos)

– Quais os próximos passos da banda?

Aila: Bom, achar essa nova cara metade pra ocupar o lugar da Jack, gravar essa nova versão e trabalhar em novas composições. Já temos 5 na gaveta e gostaríamos de compor mais, pra formar um EP.

Renata: Acho q o próximo e definirmos nossa nova venuziana e gravarmos a nova música e vídeo dessa versão. Queremos voltar a fazer muitos shows também, espaçamos mais por conta dessa troca de guitarrista, inclusive só temos dois marcados e vão der a despedida da Jack.

Aila: E queremos muito uma tour fora do estado. A nova guitarrista tem que ser bem aventureira pra embarcar nessa com a gente!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Aila: Uma banda que gostamos muito e além de ter afinidade musical com a gente também troca uma energia legal é a Radioativa. Vamos tocar com eles agora em agosto. Acho muito incrível também que conheci o Felipe Pessanha antes mesmo de ter banda, nós dois fazíamos Economia na UFRJ. Os dois abandonaram e hoje se dedicam mais a música. É muito legal ver essas histórias de repetindo e se cruzando. Uma verdadeira sintonia de artista (risos).

Renata: Gosto muito também da Radiofront, eles sao muito bons e amigos nossos! Também gostamos muito da Melyra, uma banda de metal só de mulheres e da Blastfemme, que é formada pela maioria feminina!