Valciãn Calixto ataca o machismo em seu single “Núcleos de Um Romance Engavetado”

Valciãn Calixto ataca o machismo em seu single “Núcleos de Um Romance Engavetado”

5 de janeiro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

O multimídia Valciãn Calixto não pára de soltar novo material. o piauiense já lançou um livro, “Reminiscências do caseiro Genival“, faz parte da banda Doce de Sal e lança seu segundo single, “Núcleos de Um Romance Engavetado“, parte de seu primeiro álbum solo. A previsão é para o primeiro semestre de 2016.

“Núcleos de um Romance Engavetado” traz sete minutos de pequenas histórias que mostram o machismo em todas suas vertentes e os abusos que atormentam as mulheres diariamente. “São vários recortes de supostas vivências de mulheres que um dia eu conheci, seja por estórias que chegaram aos meus ouvidos ou fatos que eu mesmo presenciei”, explica .Conversei com o artista sobre seu novo single, a música “Teoria do Abacaxi” e as expectativas para seu primeiro disco:

– Fale um pouco mais de “Núcleos de Um Romance Engavetado”, seu segundo single.

Então, “Núcleos de um Romance Engavetado” traz vários recortes de supostas vivências de mulheres que um dia eu conheci, seja por estórias que chegaram aos meus ouvidos ou fatos que eu mesmo presenciei. Já próximo das gravações pensei em ter alguns amigos, cada um explorando um contexto, um dos muitos núcleos da música para dar vida à faixa, provocar uma espécie de diálogo. Acabou que ficou algo como “homens falando sobre mulheres de uma maneira não machista”, ou pelo menos a tentativa disso.

– Você acredita que a música em geral ainda é um meio dominado pelo machismo e a misoginia?

É sim, mas falando apenas pela perspectiva desse ano no Brasil, por exemplo, tivemos a Ava Rocha e Elza Soares como premiadas pelo APCA, sem contar as finalistas indicadas: Gal, Karina Buhr, Letuce, Tulipa. Pegando o viés da Literatura nacional também, o prêmio Sesc desse ano nas categorias conto e romance, as vencedoras foram mulheres, Sheila Smanioto e Marta Barcellos, a Micheliny Verunschk levou o Prêmio São Paulo de Literatura, estou citando esse segmento para mostrar que já é um sintoma essa apropriação da mulher aos meios ainda dominados em grande parte por nós, homens. Ainda tem a Maria Valéria Rezende, homenageada da Flipobre 2015 , que desbancou o Chico Buarque vencendo o prêmio Jabuti de ficção. A coisa tá se equiparando, mesmo que sob efeitos da frase geiseliana: lenta, gradual e insegura.

– Agora, me fale um pouco de “Teoria do Abacaxi”.

“Teoria do Abacaxi” tem esse nome esquisitão e tudo, mas é das músicas que mais me alegra saber que eu a compus, apesar de ser uma letra resumida, breve, a canção já não é tanto, pois beira os seis minutos. A música resume bem o quanto somos vítimas diretas de todas as nossas relações pessoais, você nunca sabe o que esperar de ninguém, não deve esperar nada, como diz a letra, porque as pessoas são inconstantes em seus pensamentos e atitudes, não sei se isso se configura bipolaridade, mas enfim, conte apenas consigo mesmo, no final tudo o que sobra é você, suas ideias, seus projetos, seus sonhos, seus mundos imaginários, suas músicas, seus discos, o que for.

– O que podemos esperar de seu primeiro disco?
Esperar o que ninguém imagina, embora isso soe pretensioso demais, mas vai ter canções em que o sincretismo entre ritmos será inédito até pra mim que ainda não senti as faixas todas prontas, há duas músicas, por exemplo, onde eu e meu irmão baterista quebramos nossos próprios preconceitos e paradigmas para fundir rock, swingueira e axé music, isso porque crescemos ouvindo essas coisas nas rádios do Piauí, os anos 90 por aqui foram dominados boa parte por Axé e Pagode, então inconscientemente temos muito dessa rítmica, desse swingue, de modo que nada mais natural usar isso no que fazemos que é compor , tocar, gravar e lançar. A toda essa mistura citada eu costumo chamar de Axé Punk, então será um disco passeando pelo “Afropunk”, “Axé Punk”, “Rock Alternativo” e “Spoken Word”, parece muita coisa falando assim, mas serão apenas dez faixas.
– Como foi (ou está sendo) o processo de gravação do disco? As versões disponíveis dos dois primeiros singles já são as que ouviremos no álbum?
Não houve uma pré-produção tal como conhecemos, muito porque eu ainda não tenho uma banda fixa para esse que é um projeto solo meu, diferente da Doce de Sal, minha banda. Todavia, foi um processo rápido a meu ver, no momento já há nove faixas prontas, faltando um arremate ou outro. Gravei os instrumentos todos de harmonia como guitarras, baixo, violão e teclado, meu irmão fez as baterias todas, para algumas músicas contei com participações nos vocais, “Núcleos de um Romance Engavetado” é um exemplo, esse processo todo demorou dois meses apenas, depois o Arthur Raulino, que está produzindo o disco precisou fazer uma cirurgia e as gravações pararam um pouco, mas até fins de janeiro penso que já terei tudo finalizado. E sim, as versões disponíveis de “Teoria do Abacaxi” como de “Núcleos…” já são as definitivas sim, pelo menos eu acho (risos), vai que eu dou a doida e acrescento um loop eletrônico em “Núcleos…”, vamos ver.
– Quais são suas principais influências musicais?
Ultimamente tenho escutado muitas mulheres, o que tem me influenciado em músicas como “Teoria do Abacaxi”, por exemplo, com aquele final tranquilão, então desde Cher, Isobel Campbell a Sasha Keable e Mara Pavanelly tou ouvindo bastante, acho que pelo modo que elas escrevem as composições, o Hélio Flanders está numa fase de ler muitas poetisas como Angélica Freitas e Yoko, eu tou mais nessa vibe de ouvir cantoras como a Ala.Ni. E para citar o outro gênero vou por aqui C.W. Stoneking que descobri esse ano e também já é constante nas minhas playlist do Youtube.
Valciãn Calixto
– Como você começou sua carreira?
Começou talvez, quando minha mãe trabalhava como costureira em um enorme galpão de uma empresa aqui do Piauí. A única distração dela e suas companheiras de trabalho era um rádio que tocava em todo galpão e pelo que ela conta, na época tocava muito Legião Urbana e Roberto Carlos na programação, Fagner vez ou outra. Ela costuma dizer: “agora faz sentido, é por isso que tu gosta dessas músicas, ouviu demais quando tu tava na minha barriga” (risos). Daí que meu pai é músico há trocentos anos, criou a mim e meus irmãos com música, o que não significa que tenhamos vivido abastadamente, óbvio, pelo menos com dignidade sim, então ali por volta dos 18 anos, com toda esse pré-caminho, pré-atalho, montei a Doce de Sal que existe até hoje com o Lucas Martins e o Guilherme Filho, baterista e baixista, respectivamente. Com a banda fiz e faço bons shows e amigos por aí, contudo esse ano me dediquei a gravar finalmente um trampo solo que é esse disco que vai sair com fé em todas as forças ocultas do universo no início de 2016.
– Como seu som solo difere do que você faz com a banda?
O som da Doce de Sal tem só dez mil vezes mais distorção, basta sacar aqui no link: https://soundcloud.com/doce-de-sal/contradicaomp3. Então para esse trabalho solo busquei soar mais leve, claro que em alguns momentos eu sentei o dedo, mas é isso, usei teclados, violão de aço, a mixagem é mais clean também. Há também o fato de que a Doce de Sal nas composições aborda mais assuntos referentes a Teresina, à vida que levamos aqui na aldeia (risos).
Valciãn Calixto
– Quais seus planos para 2016?
O objetivo principal é fazer o disco ser notado, resenhado nos sites ditos especializados para que o meio independente da música brasileira conheça meu trabalho, o que já tem sido bem difícil apenas com as divulgações dessas duas faixas. Penso que com o disco cheio a coisa possa mudar de cor, no momento estou me agarrando a isso, o que até pode parecer ingênuo, até o lançamento do álbum estou tentando selos alternativos, concomitantemente travar amizade com artistas que eu considero e possuo afinidade e aí de repente desenrolar, quem sabe, uma minitour. Isso tudo é o tipo da coisa que não vai depender só de mim, eu acho, pois quando você envia todo o material do seu disco, desde release, fotos, links para a redação de um site como a Rolling Stone, por exemplo, dificilmente vão divulgar seu trabalho, principalmente se você é navegante de primeira viagem, sendo você de onde é, mas claro que não me iludo, eu penso em sites menores, que possuem um público mais ‘nichado’, por assim dizer e, ainda estes são difíceis também, geralmente os jornalistas desses sites fazem assessoria para outros artistas e aí rola uma espécie de assessoria cruzada tipo: “você publica meu cliente no seu site que eu divulgo o seu no meu”, enfim, nada tem sido fácil tampouco impossível, né, essa entrevista com vocês do Crush em Hi Fi é uma prova de que estou no caminho.
 – Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
O Félix Robatto com as guitarradas lá do Pará, Banda Fôrra e o Rieg, ambos da Paraíba e a Escalier de Minas.