“Una Mujer Fantastica” (2017) – protagonista cantora ou músicas protagonistas?

“Una Mujer Fantastica” (2017) – protagonista cantora ou músicas protagonistas?

20 de abril de 2018 0 Por Guilherme Gagliardi

Una Mujer Fantastica (Uma Mulher Fantástica)
Lançamento: 2017
Direção: Sebastián Lelio
Roteiro: Sebastán Lelio e Gonzalo Maza
Elenco Principal: Daniela Vega, Francisco Reyes e Luis Gnecco

Se eu tô vendo um filme e começa de repente a tocar “Time” do Alan Parsons Project, eu penso “porra, tá aí um que merecia um texto pro Crush em Hi-Fi…”. Digamos que o que aconteceu quando assisti ao chileno “Una Mujer Fantastica” (“Uma Mulher Fantástica”) vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro…

Una Mujer Fantastica“, do Sebastián Lelio, é um manifesto político, romântico e musical. Começa parecendo um simples romance, fofo, gostoso: um senhor duns 60 anos, simpático e apaixonado, e uma cantora duns 30 anos, também apaixonada; os dois programando uma viagem pra Foz do Iguaçu… O estranho porém, é que a grande virada do filme acontece logo depois de apresentar o casal apaixonado, ainda na primeira meia hora. A morte inesperada do cara é um choque definitivo e é a partir daí que o resto acontece.

A família do cara (o irmão, ex mulher, filhos que tinha desse antigo casamento e etc.), passa a fazer o possível pra impedir a nossa protagonista cantora, de manter algo do morto, ou de sequer ir no funeral, só porque ela é transexual. A partir daí tudo se desenvolve em volta dessa questão da transfobia, exibindo nas telas as agressões físicas e verbais que ela sofre, e as mil crises de identidade da personagem.

A música entra justamente aí.

Como elemento central na vida da protagonista, a parte musical do filme é o conforto dela, é onde ela afirma sua identidade, apesar das crises, é onde ela exprime a raiva, o amor, o ódio, a felicidade e tudo o mais.

Com uma voz incrível, cantando tangos em bares e óperas incríveis, a Marina (a protagonista), aparece numa cena em desespero total, puta da vida, entrando na casa do professor de canto pra ensaiar. O cara entende na hora que a questão não é de ensaio, mas mesmo assim toca a música. A ária italiana “Sposa Son Disprezzata”, composta por Geminiano Giamelli e usada por Vivaldi na ópera “Bajazet”, vai da Marina cantando no apartamento do professor, até uma cena bastante simbólica dela andando na rua, quando um vento forte aparece e a partir dum momento, não a deixa mais andar pra frente…

É, dessa parte do filme só achei esse vídeo de sei lá onde, que tem também um trailer, além da cena em questão…

Cheio de simbologias desse tipo, sempre muito metafóricas, tem outros sons que chamam bastante a atenção. “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, que acompanha uma cena dentro do carro, traz toda a questão das crises de identidade da personagem, com uma espécie de ironia, já que definitivamente não é a princípio, um som que parece remeter a qualquer tipo de crise.

Dancinha romântica com fundo de Alan Parsons…

Ainda com “Time” do Alan Parsons e mais música clássica, o filme demonstra uma clara atenção à parte sonora do audiovisual.

Como se não fosse o bastante, além das músicas que foram apropriadas pelo longa chileno, várias foram compostas sob encomenda, pelo moderno músico eletrônico Matthew Herbert. O cara que já trabalhou com nomes como Björk, foi escolhido pelo diretor Sebastián Lelio, segundo o mesmo por sua “capacidade de misturar tradição com inovação sem problemas”. Aparentemente, de fato deu certo…

Segue em link o trailer e a trilha sonora.

Trailer:

Trilha sonora:

Acabo o artigo deixando com vocês essa matéria pra refletir um pouco:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/12/1944176-transexual-e-morta-a-pauladas-em-quarto-de-hotel-na-zona-norte-de-sp.shtml