Um review por dia: conheça o incansável canal Legal Records

Um review por dia: conheça o incansável canal Legal Records

24 de outubro de 2019 1 Por João Pedro Ramos

Ernesto Morgan e Lucas Bellator, da Legal Records, estão a todo vapor: 5 a 6 vídeos por semana com reviews de discos independentes e mainstream, opiniões e discussões sobre o mundo da música e o que mais vier à cabeça da dupla. Quanto aos críticos e haters que vieram junto do crescimento do canal, “que se lasquem”.

Iniciado em 2018, o canal do Youtube fala de música de todos os estilos e dá o mesmo valor para artistas como Beyoncé e Negra Jaque. “A intenção sendo que quem assiste o vídeo da mais conhecida se sinta convidado a ver a da menos conhecida”, conta Lucas. O duo não tem medo de falar bem de discos massacrados pela crítica quando este os agrada, mas também não tem dó de falar mal de algo que consideram ruim. “É muito difícil um review ser bem aceito no Brasil. A galera é muito clubista”, conta Ernesto. “É sempre importante não falar mal, sempre importante não apontar o dedo, sempre importante ter uma falsa modéstia. Antes da gente não tinha alguém disposto a levar as pedradas (risos)”.

– Primeiro eu queria que vocês tentassem definir pra mim: o que é a Legal Records?

Lucas: Pra mim a LR é uma entidade. A gente começou ela por que percebemos que dentre todos nossos amigos, só a gente ficava tanto tempo falando de música e teorizando sobre a indústria e etc. Eu pessoalmente percebi sempre um descaso dentre o jornalismo musical de ponta para com o independente, então quando eu e o Ernesto começamos a definir a ideia, o independente já era o nosso “foco”. O que ela se tornou depois de 9 meses de canal é algo que eu me orgulho de chamar de veículo. Aqui a gente fala de lançamentos, sempre, focando nas novidades da indústria em pequena e grande escala. Ouvindo o que é possível e dando nossa opinião sincera. Por fim, acho que as nossas teorizações sobre a indústria lá nas conversas iniciais se infiltrou no canal também. Por meio de vídeos ensaiando sobre os mais diversos temas, seja coisas como estratégias de bandas ou como colocar teu som no Spotify…

– A primeira vez que vi o nome do canal, achei que era um selo, ou algo assim. Ainda tem gente que confunde?

Ernesto: Tem gente que confunde e isso é bem benéfico, na minha opinião. A gente tem um monte de pretensões. O selo Legal Records é uma delas sim. Não queremos afobar, fazer algo mal feito e irrelevante. Mas na hora certa…

– Vocês citaram que o foco é no independente, mas vocês não se resumem a isso, falando também de artistas mais conhecidos e até dos mais mainstream. Como vocês escolhem o que vai ser pauta no canal?

Lucas: Falar de coisas mais ou menos mainstream é uma forma de dar espaço pro independente. O nosso lance justamente é dar o mesmo espaço pra uma Beyoncé ou pra uma Negra Jaque. A intenção sendo que quem assiste o vídeo da mais conhecida se sinta convidado a ver a da menos conhecida. Mas respondendo diretamente a tua pergunta, a escolha é um misto do que nos interessa, o que a galera não para de falar e pedir e de trazer joias desconhecidas.

– Como vocês veem o balanço da cena independente com o mainstream hoje em dia, especialmente a queda desenfreada do rock da grande mídia e o surto que muitos roqueiros têm com essa queda?

Ernesto: Cara, nem acho que exista um balanço. O que é mainstream tem mercado. O que é independente não tem. Refiro-me, claro, ao independente “raiz”. Não ao independente super conhecido, com uma verba aqui, com um contato de distribuição ali… Falando da parte do rock, não vejo queda desenfreada. Acho que rola uma queda sim, mas paulatina. O lance é observar os nichos. Pra uma boa parte da galera o rock é irrelevante já faz muito tempo, e, quando ele se torna relevante, num grande festival, por exemplo, não faz diferença pra esse nicho. A real é que se tu observar, os nichos são bem separados em certo ponto, e o sucesso de um não suprime o outro. O rock não é menos importante, mas a galera do rock é mais chata com isso. Simples assim. E digo mais: Se não tem uma grande banda de rock nova sendo fortemente ouvida por todos os jovens, é porque não tem uma grande banda de rock fazendo um bom som realmente comercial pra essa época. Porque quando o rock chega à “grande mídia” é sempre numa versão de mais fácil assimilação.

– Recentemente vocês sem querer acabaram sendo colocados em uma discussão graças a um post de uma review do disco da Céu, “Apká”, em um grupo do Facebook. Alguns comentavam que vocês não poderiam fazer a resenha de um disco se não conhecem a discografia completa do artista. Queria saber a opinião de vocês sobre esse comentário.

Lucas: Eu acho que sempre vai ter gente pra criticar. Nesse caso específico que tu mencionou, teve muita crítica positiva que a gente levou em consideração. Mas não acho que tu tenha que ouvir a discografia de alguém pra comentar um disco. Acho que esse tipo de comentário inclusive beira o elitismo, por que os caras assumem que todo mundo consome música da mesma forma que eles. A gente vive uma playlistização crescente de álbuns, e na real muita gente sempre consumiu música pela metade: só pela rádio, só por mixtapes ou por aí vai.

– Eu acredito que existem os dois tipos de resenhas, e ambas são válidas e diferentes.

Lucas: É, eu penso igual. Esse meu “pela metade” é bem entre aspas, inclusive. “Pela metade” no ponto de vista de quem faz aquele tipo de comentário querendo invalidar o nosso conteúdo. E a própria Céu gostou da review, então que se lasque, em linguagem amigável (risos).

– Isso é outro ponto que eu acho interessante no canal: muitas vezes as resenhas fogem daquele “papo de entendidão”, o que faz com que elas sejam bacanas até pra quem não é tão aprofundado em teorias, discografias, cenas e afins.

Ernesto: O lance do ponto de vista é algo bem maleável. Tem vezes que entendemos mais profundamente do assunto e queremos mostrar isso. Outras vezes entendemos, mas queremos fazer um vídeo mais divertido, mais pra galera. E tem outras vezes que realmente caímos de paraquedas em um lançamento, normalmente coisas que a galera pede, e admitimos que não somos o público daquilo. E ainda tem aquelas vezes que nos interessamos por algo muito diferente, muito experimental, e que não entendemos nada, mas resolvemos dar uma impressão mesmo assim. O lance é a sinceridade na abordagem. A gente sempre mandou a real…

– Eu queria saber um pouco mais sobre o canal desde seu começo e como tem sido a resposta do público desde então.

Lucas: É legal que desde o início tivemos uma resposta interessante no independente. Os primeiros vídeos já foram bem de views e a gente logo conseguiu uma interação legal com a cena. Principalmente na nossa rede mais forte, o Twitter. A gente ainda crê estar no começo da jornada, mas acho que nossos primeiros passos estão no caminho certo. Nosso conteúdo não tem muito precedente no Brasil, então entendemos que não vai viralizar do nada

– Temos poucos canais que fazem o que gente como o Anthony Fantano e o ARTV, por exemplo, fazem lá fora. Porque vocês acham que isso ainda não foi absorvido por aqui?

Ernesto: Porque ninguém tinha abraçado essa causa como nós. Já tinha gente fazendo conteúdo? Tinha. Mas não com a nossa frequência, com nosso esmero e, principalmente, com a nossa consistência. E acho que tem um motivo pra isso. É muito difícil um review ser bem aceito no Brasil. A galera é muito clubista. É sempre importante não falar mal, sempre importante não apontar o dedo, sempre importante ter uma falsa modéstia. Antes da gente não tinha alguém disposto a levar as pedradas (risos).

– Mas eu não vejo vocês sendo tão “duros” com as críticas, com algo que vejo muito nas redes sociais: o ódio pelo ódio. Hoje em dia é “cool” odiar, especialmente coisas que são populares. Vocês elogiaram o novo disco do blink-182, por exemplo…

Lucas: Mas a gente elogiou apontando todos os lances que não desceram. É de dar a análise real, sem muito medo
Tipo a nossa review do novo Humberto Gessinger. Quando tu te propõe a dar uma análise real e pé no chão, dificilmente vai ter ódio ali. Então a gente tenta ser real nesse sentido. Casar o que gostou e o que não gostou num mesmo vídeo. Claro que tem alguns que a gente é mais duro. Tem um vídeo chamado “Jaden Smith Destruiu Minha Alma”, afinal de contas (risos)

– Quais são os planos para o futuro da Legal Records?

Lucas: Cara, um plano é o nosso Melhores do Ano. Temos uns planos bem legais pra dizer quais os nossos preferidos desse primeiro ano. Não vou adiantar muito, só te dizer que não adianta esperar por esse evento em 2019 ainda.

Ernesto: Outro plano que temos é estarmos fisicamente presentes cobrindo alguns eventos muito em breve. Assim que a elite responder nossos emails (risos).

– Nos últimos tempos já começaram a aparecer vídeos que fogem um pouco das reviews. Podemos esperar mais tipos de vídeos em 2020, então.

Lucas: É possível! A improvisação é algo que gostamos de ter a mão.

– Que conselho ou dica vocês dariam para alguém que está pensando em criar conteúdo sobre música?

Lucas: Não da bola pra quem fala mal. Consistência é chave, e é isso!

Ernesto: O mesmo conselho que eu daria pra quem quer criar conteúdo de qualquer área: faça algo diferente daquilo que já existe.

– Pra finalizar, gostaria que cada um de vocês recomendasse um disco que os leitores deveriam ouvir de cabo a rabo assim que terminarem de ler a entrevista e o motivo.

Lucas: Eu vou de “GINGER”, do Brockhampton. Um dos discos que mais gostei desse ano e uma das nossas reviews mais completas até o momento.

Ernesto: Da minha parte, mas acho que o Lucas vai concordar, diria pra ouvirem o Saúde, do Raça, que foi uma das mais gratas surpresas que tive esse ano. Realmente não dei muito pelo disco quando ouvi falar e quando parei pra ouvir a banda simplesmente foi me dobrando.