Um ode ao rock triste em tempos de pós-psicodelia

Fotografia de @ciaospiriti

Vivemos na geração da pós-psicodelia, com muitas cores, brilhos, canções felizes e lisérgicas. Falamos muito sobre uma liberdade em tons de Woodstock, onde questões sociais são abordadas superficialmente para não estragar a boa onda, os conflitos internos se resolvem momentaneamente com um drink bacana e todos os problemas aparentemente se resolvem com um discurso alto astral. Encarar a própria humanidade fica cada vez mais impossível.

Em meio à composições que falam de uma realidade quase distópica e carregadas de uma positividade inalcançável, ainda existe quem canta tudo que ninguém quer ouvir, existe quem fala dos desconfortos e conflitos insuportáveis da existência. Essa ascendência de bandas com temática crua e realista, em paralelo à onda tropical e colorida, mostra que falar sobre tristeza é um ato de resistência, um grito de quem não aguenta mais uma realidade florida que não pertence.

Estamos sufocados na obrigatoriedade de sermos felizes o tempo todo, cercados de feeds simétricos com pessoas festivas em fotos descoladas, os eventos têm cada vez mais glitter e nem sempre isso representa nosso estado de espírito. Nos sentimos desconfortáveis ao falar sobre nossas angústias por medo de ser taxados de “onda negra” ou “pessoa tóxica”. No meio dessa demanda por perfeição, sentir tristeza, dor, ou qualquer tipo de sentimento negativo soa completamente errado, mas a realidade é que todos sentimos as piores angústias e, encará-las frente é a melhor forma de enfrentá-las, encarar com música, é parte de uma cura.

Na geração em que vivemos, existe tanta alusão à uma positividade utópica na música, que as vezes tenho dúvidas sobre o quanto as pessoas estão dispostas a escrever com profundidade, a encarar suas dificuldades de forma realista e se curar através do auto-conhecimento. Parece que todo mundo quer se anestesiar de maneira psicodélica em uma ilusão de realidade que não faz parte. Mas isso não é um problema, fugir do mundo real é necessário para sobreviver, mas em que ponto essa fuga virou uma constante?

Quando eu estava saindo da adolescência, conheci Violins. Estava me reconhecendo ideologicamente, com uma depressão que mal entendia e conflituosa com todas as minhas crenças pessoais, escutei o álbum Redenção dos Corpos” e chorei bastante, aquilo traduzia tudo que eu sentia e não conseguia expressar, todo meu sufoco ficou mais poético e menos insuportável. Eu lia as letras da banda por horas como se fosse um livro, isso me ajudou a entender que eu não era anormal, que se aqueles caras conseguiram transformar aqueles conflitos em algo tão bonito, eu também poderia.

Violins, em 2005

Para quem teve o punk como escola, falar de ódio, tristeza e decadência social não é novidade. O punk ensina como peneirar todo o “caos mental geral”, transformar a “rebeldia contida” em luta e fazer uma “canção para esquecer”.

Bandas gringas com ar de tristeza sempre foram mais populares, a MTV trouxe o shoegaze à tona no Brasil e o grunge explodiu nos anos 90, mas nem todo mundo tem o privilégio ser ser bilíngue. Nos anos 2000, o idioma morto, ou o bom português do Ludovic, trouxe composições mergulhadas em conflitos e melancolia, somado à essência do punk. Cada música do Ludovic é um expurgo. As letras de Jair Naves falam de uma forma tão crua sobre sentimentos e decadências que, nos ouvidos de quem não está acostumado a encarar as próprias fragilidades, pode soar incômodo. As performances ao vivo da banda são um momento de alívio para quem se sente deslocado em meio às demandas sociais de perfeição, muitos desses deslocados são os que, hoje, deram continuidade à toda essa chama depois de quase uma década da última ascensão do rock triste no Brasil.

Ludovic, em 2005

Bandas como Gorduratrans, Lupe de Lupe, El Toro Fuerte, Enema Noise e Raça trazem novamente essa temática na contramão da onda “good vibes” que assola a cena musical. Selos e coletivos como Geração Perdida e Bichano Records ajudaram a dar espaço e visibilidade para esses artistas que ainda são controversos para muitos.
Talvez, todo esse renascimento de bandas e músicos aparentemente “tristes” no Brasil, reflete que o superficial não fala mais por nós, que estamos cansados de esconder nosso lado mais obscuro por medo das reações sociais, que a trivialidade musical já não preenche. Não é porque somos o país do carnaval que precisamos estar sempre em festa e conformismo. Mergulhar a fundo e sem medo em composições que falam do ser humano com genuinidade, sem máscaras e sem glamour, pode significar uma nova etapa para a música brasileira.
Aos poucos, estamos aprendendo a lidar com nossos demônios de forma poética. Assumir as próprias fraquezas é resistir.

Fiz uma playlist para o Spotify do Crush Em Hi-Fi para embalar a melhor bad vibe possível, só com bandas nacionais do tal “rock triste”. Segue a playlist e o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify, pegue a sua bebida, cigarros, cartelas de remédios ou água com gás e dá o play.


3 thoughts on “Um ode ao rock triste em tempos de pós-psicodelia”

  1. Nossa só senti falta de uma banda: Menores Atos, o disco animalia deles é o botão de emergência!
    Pra quem gostar do Chuva existe o fullheart primera banda do vocal e letrista Rodrigo Chinho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *