Tudo no talo: Yeah Yeah Yeahs – “Fever To Tell” (2003)

Bolachas Finas, por Victor José

Quando eu era moleque tinha essa coisa que muitos têm de buscar só velharias do rock para escutar e quase não dar atenção para o contemporâneo. Isso aos poucos foi mudando (ainda bem), e devo agradecer aos grupos do início dos anos 2000 por essa manobra em minha cabeça.

Não é novidade para ninguém que nessa fase a música pop já estava dissecada o suficiente a ponto de tornar o termo revival a máxima de todo um período. Por um lado isso é pobre, por outro, é absolutamente fantástico. Afinal, como dizia o mestre Chacrinha: “Nada se cria, tudo se copia”.

Então a partir daí falo do primeiro álbum do Yeah Yeah Yeahs, essa mistura de punk nova-iorquino, hard rock, new wave e um quê de eletrônico com noise. Desde já afirmo sem precisar pensar muito que Fever To Tell”, de 2003, é um dos melhores discos da década. Ali tem todos os chavões do rock ‘n’ roll de um jeito todo refeito e especial. É sujo, indecente, bruto, alto, cheio de arestas e bem dançante. Karen O com seu estilão todo bizarro canta com aquela sensualidade carregada e de modo tão incisivo que fica difícil não admitir que ali tem uma baita presença de expressão.

A guitarra de Nick Zinner, que também faz as vezes do baixo que não há, é uma cacetada como um bom punk e traz uma boa dose de noise. Isso resulta em uma maçaroca meio feia, mas que funciona bem. Isso sem falar das palhetadas para baixo do tipo “Last Nite”, algo que praticamente toda banda dessa fase explorou até a exaustão.

Brian Chase apresenta uma bateria quase livre, que faz toda a diferença no som do trio justamente por não trazer essa qualidade tradicional de manter uma levada óbvia, o que faz dele um contraponto perfeito entre Karen e Zinner.

Sobre a tracklist, o que se pode dizer é que no mínimo você não terá sono. A energia começa lá em cima e por pouco não atravessa as faixas de ponta a ponta num gás só. Em 2003 dava para fazer uma boa festa só com as sete primeiras músicas. Na verdade, não se pode esperar desse álbum nada mais que um rock certeiro – e isso já é algo louvável por si só.

Com aquela guitarra meio sintetizador, “Rich” traduz toda uma década de indie rock, sem grandes preocupações em soar maduro. Depois vem “Date With The Night”, que na verdade é um blues de pista de dança, pode notar. Quem hoje faz uma coisa dessas?

De tanta pilhação, as caóticas “Man” e “Tick” mal dão tempo de você digeri-las, mas nesse caso isso pareceu ser uma boa ideia. Karen O canta como um frontman de banda dos anos 1970 em “Black Tongue” e intercala com um refrão cheio de gemidos falsos – algo recorrente nesse disco.

“Pin”, um dos mais memoráveis singles do álbum, faz um contraste bem legal com as anteriores por apresentar uma melodia um pouco melancólica, enquanto que “Cold Light” poderia servir para um rápido e exagerado strip-tease.

A esquisita “No No No” faz as vezes de ponte entre essa parte mais festiva e o lado mais bem desenhado de “Fever to Tell”, isso porque logo em seguida vem a já clássica “Maps”, uma balada de primeira, onde tudo está no lugar certo, na medida certa e chega a emocionar. Não tem como não rever os anos 2000 sem esbarrar em “Maps”. Ainda hoje essa é uma música forte e convincente.

Embora “Maps” seja o ponto alto do disco, o YYY ainda gasta o resto do fôlego com a ótima e pulsante “Y Control” e nos coloca para descansar os ouvidos em “Modern Romance”, algo que lembra de longe aquelas coisas mais adocicadas dos também nova-iorquinos Velvet Undergroud. O álbum custa a se apagar, isso porque ainda tem uma faixa escondida que não faz aqueeeela diferença no produto final, mas que também não compromete.

Enfim, “Fever To Tell” é um belo exemplo de como foi essa fase em que fui adolescente. Hoje vejo essa época com mais carinho e percebo que, embora não houvesse todo aquele brilho de épocas mais remotas, ainda assim sobraram belos momentos. Yeah Yeah Yeahs começou a carreira com o pé direito, mostrando que você pode lavar, enxaguar, secar e passar o rock sem medo de encolher.


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