Trilha pop e girl power marca o pesadelo patriarcal de “Handmaid’s Tale”

Trilha pop e girl power marca o pesadelo patriarcal de “Handmaid’s Tale”

12 de setembro de 2017 0 Por Natália Rodrigues

“Imagine um futuro distópico onde os comentaristas de portais venceram”. A definição simplista, mas ilustrativa, resume bem o que você vai encontrar em “Handmaid’s Tale”. A premissa pode desencorajar, eu sei, mas a série, baseada no livro de Margaret Atwood, de 1985 – publicado no Brasil como “O Conto da Aia” – não decepciona. Menos ainda a trilha. Por isso, se for preciso, treine o estômago e a paciência aquiaqui e aqui e encare a maratona de 10 episódios da temporada de estreia.

Deixando o simplismo tragicômico de lado, a série apresenta uma sociedade construída da noite para o dia, em uma América dos dias atuais tomada por um regime totalitário e teocrático. Na República de Gilead, como passa a ser chamada, as mulheres se tornam propriedade do Estado e não têm direitos. As handmaids (aias), uma das castas de mulheres, têm como única função procriar para famílias de homens poderosos e suas esposas estéreis.

Rejeitada pela Netflix e transmitida pelo serviço de streaming Hulu, “Handmaids’s Tale” garante lugar entre as mais importantes distopias de todos os tempos – pessoalmente, perde só para “1984”, o livro, e 2016, o ano. A maneira inteligente como usa flashbacks e memórias das personagens para costurar as duas realidades, antes e depois do novo regime, é, talvez, a grande sacada do produtor Bruce Miller. A introdução gradativa dos fatos que levaram à nova ordem – com cenas que ora revolvem o estômago, ora causam uma estranha e incômoda familiaridade – naturaliza o absurdo tornando-o assustadoramente real e próximo. A ‘distopia futurística’ dá lugar à distopia nossa de cada dia.

O mérito, em parte, fica com a escolha da trilha. Não se trata apenas de uma lista de boas músicas – isso, séries recentes como Mr. Robot”, Big Little Lies” e Stranger Things” também fizeram muito bem. Tampouco se deve a uma seleção ousada e obscura. Pelo contrário, a trilha é repleta de clássicos do pop anos 60, 80 e 90. Essas escolhas ‘seguras’, familiares, assim como toda a série, que não para em nenhum momento para mastigar a história pra quem assiste, são autoexplicativas. São um lembrete constante de que aquele mundo bárbaro e estranho  é também o nosso.

Enquanto as personagens se veem forçadas a aceitar a dominação do patriarcado extremista –  sob ameaças de punições, como (ALERTA DE SPOILER) ter um olho ou o clitóris removido – a música é a resistência. O grito entalado. É essa a sensação quando, depois do choque inicial (que só piora), ouvimos a letra provocativa de “You Don’t Own Me”, da Lesley Gore, no fim do primeiro episódio.

É também esse sentimento que temos quando, no terceiro episódio, as personagens de Elisabeth Moss (Offred) e Samira Wiley (Moira), em um dos flashbacks, escutam “Fuck The Pain Away”, da Peaches, enquanto correm – talvez o melhor uso da música. E da palavra ‘fuck’. A cena antecede um dos primeiros confrontos das personagens com a nova realidade. De novo, o medinho de ser surpreendido com algo semelhante enquanto ouvimos de boas nossa playlist diária é inevitável.

Em outro flashback no mesmo episódio, as personagens têm mais um forte indício de que a treta estava ficando SÉRIA. A cena mostra a polícia distribuindo tiros para reprimir um protesto. O caos, que mais uma vez soa bastante familiar, tem como trilha uma versão de “Heart of Glass”, da Blondie e Philip Glass, com arranjos dramáticos de violino que parecem tirados de alguma adaptação dos romances de Jane Austen para o cinema.

Mas nem só de TENSÃO se constrói a trilha de “Handmaid’s Tale”. Ela também é usada para lembrar um tempo em que as coisas eram menos complicadas e as personagens viviam suas vidas normalmente, sem sequer imaginar o que as esperava. Um desses flashbacks (que poderia ser embalado por passarinhos cantando) usa “Daydream Believer”, dos Monkees (que dá quase na mesma), para passar a sensação de nostalgia e inocência ao mesmo tempo.

Em um dos pontos altos da temporada, a música é usada pra acender aquela chaminha de esperança em meio ao absurdo e ao caos. “Nothing’s Gonna Hurt You Baby”, do Cigarretes After Sex, é uma das poucas escolhas ‘contemporâneas’ para a trilha. A música do EP “I.”, lançado em 2012, tem a dose perfeita de melancolia para um momento de conexão não-física entre dois personagens separados pelos recentes acontecimentos.

Voltando aos clássicos, a entrada apoteótica de Offred no bordel, onde os comandantes secretamente exploram mulheres que de alguma forma se opuseram ao sistema, tem como trilha “White Rabbit”, do Jefferson Airplane. A referência à chegada de “Alice ao País das Maravilhas” é óbvia e mesmo assim reveste a cena de mistério, já que, assim como Offred, nós também somos apresentados pela primeira vez a este outro lado de Gillead. A última vez que ouvi Jefferson Airplane coroando uma cena tão simbólica foi no final de Friends”, quando toca “Embryonic Journey” – nesse caso, ainda rola aquele apertinho no peito toda vez que ouço.

A trilha ainda tem Nina Simone (que toca em um dos momentos mais bonitos da série, e, por esse motivo, preferi não dar detalhes para evitar spoilers), Simple Minds, Jay Reatard, Penguin Cafe Orchestra, Tom Petty, Kylie Minogue, SBTRKT. E tem playlist prontinha no Spotify. Praise be!