Trainspotting: uma overdose de boa música

Trainspotting: uma overdose de boa música

7 de junho de 2016 1 Por Rafael Chioccarello

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Alguns filmes apelam para filosofia por meio da degradação humana. Mostram o lado mais cru, escatológico, lisérgico, perturbado, sexual e caótico do ser humano. E os junkies sempre estão lá, caindo pelas beiradas, vivendo aquele “fix” como se fosse o último sentimento de prazer e fúria que vão encontrar. Poderia passar uma lista maravilhosa com filmes que exploram esse universo mas vou citar alguns que basicamente me vieram na ponta da língua: Requiem For A Dream (2000), Paraísos Artificiais (2012), Scarface (1983), Medo e Delírio (1998), Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998), Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada e Prostituída (1981), Enter The Void (2009), Boogie Nights (1997), Gummo (1997) e Spun (2002).

Todos esses, além de envolverem uma história interessante que merece ser estudada e ter sua discussão estendida em mesas de bar, contam com trilhas sonoras nota 10. Mas talvez nenhuma tão marcante como a do filme de que falaremos hoje: Trainspotting (1996).

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O filme de 1996, baseado no livro de mesmo nome do irlandês Irvine Welch, lançado três anos antes, é sempre lembrado nas principais listas de melhores soundtracks da história da sétima arte. Em 2007, sua trilha sonora alcançou a sétima posição em uma lista feita pela revista Vanity Fair. Já a Entertainment Week, em sua lista de 100 trilhas, colocou o filme na décima sétima posição.

Mas antes de entrar na trilha, vamos entender um pouco do contexto histórico do filme. O roteiro cinematográfico foi escrito por John Hodge, e nele ele tenta contar a história de um grupo de viciados em heroína no fim dos anos 80 numa depressiva e melancólica Edimburgo. Assim, ele foca na vida desses indivíduos, suas passagens, transformações e sonhos. Tudo isso sob a perspectiva do vício em drogas, pobreza urbana, decadência humana e mostrando fragmentos da rica cultura da cidade.

Um roteiro tão rico colidindo com um livro tão profundo não poderia ter outro destino quando caiu nas mãos de Danny Boyle: virar ouro. Ele soube tirar o melhor dos personagens e explorar o melhor dos atores. Tem gente por aí que parece que tenta imitar o estilo de vida, visual e preferências musicais à partir desse filme. É até fácil identificar pela rua afora como esse filme foi importante e transgressor culturalmente.

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No casting principal temos:

  • Ewan McGregor como “Rent Boy” Renton
  • Ewen Bremner como Daniel “Spud” Murphy
  • Jonny Lee Miller como Simon “Sick Boy” Williamson
  • Robert Carlyle como Francis “Franco” Begbie
  • Kevin McKidd como Thomas “Tommy” MacKenzie

A trama gira em torno desta gangue de viciados com histórias de vida completamente fora do comum. Algo como se fosse uma recriação dos clubes dadaístas do começo do século XX. Aquele mesmo espírito de poesia, orgias, cabarés, artistas plásticos, bebedeiras e escritores.

Tudo isso com uma visão que mostra a outra ponta do século, seu final. Com um ambiente e mundo que enfrentam outros problemas, pesadelos, anseios e medos. O filme explora temas como a abstinência, a experimentação de drogas sintéticas, entre outros. Se nos séculos XVIII ao começo do XX a busca pelo conhecimento e encontrar os céus era regada a absinto, essa outra geração é testada pelo uso de sintéticos feito ratos de laboratório e uma indústria ainda mais poderosa por trás.

E a alienação é explorada de cabo a rabo, podemos ver pensamentos das vanguardas modernistas e pensadores do século XX nessa narrativa, como por exemplo Nietzsche e seu existencialismo e na falha pela procura por Deus. O tema da rehab, overdose, ansiedade e dificuldade em largar o vício e a crescente propagação da AIDS através de sexo desprotegido e agulhas compartilhadas não fica fora da agenda do filme.

Um filme que com certeza devia passar nas escolas como exemplo para discussões mais profundas sobre os efeitos das drogas e falta de cuidado nas relações sexuais e suas graves consequências. Temos que parar de por uma venda nos olhos e achar que não mostrando o podre, dificultamos o acesso. Menos hipocrisia e mais educação. Fica aqui registrado o desabafo.

Após anos de discussão se o filme deveria ou não ter continuação, Danny Boyle e os atores originais da saga resolveram atender os pedidos. Então, coloca na agenda que o dia chegou: 27/01/2017 entra em cartaz no Reino Unido Trainspotting 2. Já os norte-americanos terão que aguardar até dia 03/02 para assistir o cômico drama.

Os principais atores inclusive retornarão e já estão escalados. Quem participa e também e é homenageado com um personagem na continuação é o escritor do livro, Irvine Welsh, que no filme interpretará Mikey Forrester.

Mas estamos aqui para comentar da trilha sonora, altamente elogiada mundo afora, então vamos lá!

A trilha sonora foi lançada em um disco no dia 9 de julho de 1996, junto do filme. Porém, com a paixão do público por ela e algumas faixas executadas no filme não estando presentes, foi decidido lançar o volume II. Este que veio ao mundo no dia 21/10/1997, com o bônus de conter canções que não necessariamente estrelaram no longa mas que foram utilizadas nos primeiros atos com intuito de inspirar os diretores. A EMI, querendo explorar ainda mais a coletânea, em 2003 lançou uma segunda re-edição do primeiro disco.

Sendo assim, nesse texto tentarei falar um pouco das faixas presentes nos discos, já que ambos têm uma tracklist e uma riqueza de artista que deixa muito filme ganhador de Globo de Ouro jogado na sarjeta.

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A primeira canção é “Lust For Life”, do Iggy Pop em sua carreira solo. Bom, para quem não sabe, essa canção veio ao mundo no ano 1977 e foi co-escrita por ninguém mais ninguém menos que David Bowie. É considerada uma das melhores músicas de todos os tempos pela Rolling Stone. Então, quem sou eu para me atrever a falar mal dela? É inclusive impossível não associar a canção ao filme e nossos desordeiros de primeira. Ela tem um swing, uma batida e deixa qualquer um tentando imitar o mestre Iggy Pop. As cadeiras não ficam paradas, né, Vinny? Você fica alucinado com a percussão, guitarra e vocais quase sussurados de Iggy. Ela te induz à loucura e é um convite para o caos.

Em seguida temos outro querido de David Bowie, Brian Eno. Aliás, um dos que fez uma das mais bonitas homenagens através de uma singela carta divulgada pela imprensa no leito de morte de Bowie. Ele e David trocavam e-mails periodicamente cheios de piadas e confissões. “Deep Blue Day” foi lançada originalmente em 1983 para o álbum Apollo: Atmospheres and Soundtracks. Brian é um homem a frente de seu tempo e em 1983 estava se aventurando pela música experimental ambiente. Ela parece narrar um dia na Terra vista direto do espaço sideral. Quem sabe influenciado por David Bowie em “Space Oditty” (1969)?

Em seguida temos “Trainspotting” do Primal Scream. Composta especialmente para a trilha, ela viaja pelos mesmos devaneios do icônico álbum Screamadelica” (1991) e seu acid house psicodelico. Ela viaja pelo campo tribal e ao longo dos seus 10 minutos e meio conduz a levada psicodélica alucinógena. É perfeita para o filme pois de certa forma tenta traduzir os efeitos das drogas no organismo. A guitarra somada aos beats eletrônicos combinados aos tambores da percussão e seus teclados criam uma atmosfera entorpecente.

“Atomic” é uma canção escrita por Debbie Harry e Jimmy Destri para o álbum “Eat To The Beat” do Blondie, lançado em 1979. Como a banda não autorizou Danny Boyle e sua trupe a utilizar a canção, o diretor mexeu seus pauzinhos e convocou o grupo Sleeper – uma banda de brit pop do começo dos anos 90 que durou pouco tempo – para regravá-la. É inclusive interessante ouvir as duas canções. Uma com uma levada total new wave (Blondie) com os ânimos à flor da pele, outra mais introspectiva e britânica (Sleeper). A versão do Sleeper parece influenciada por grupos como Jesus And Mary Chain, com um baixo marcante, sem deixar de prestar uma digna homenagem a disco music, visto que o recurso dos sintetizadores não é deixado de lado.

Para não sair do contexto anos 80 do filme, logo em seguida temos New Order com “Temptation”, single do grupo lançado em 1982 pelo selo emblemático Factory Records. Dançante e obscura, a faixa te conduz para uma tempestade de emoções. É interessante ver como a banda ainda estava numa levada Joy Division nessa faixa, bem diferente dos hits pop do grupo. Dã! É quase a mesma banda, mas ouvindo ela você vai entender a transição que estou dizendo. É uma balada apocalíptica, triste e densa.

Em seguida temos “Nightclubbing” do Iggy Pop (mais uma vez). Faixa presente no primeiro disco solo do artista, The Idiot” (1977), produzido por David Bowie. Ele inclusive escreveu essa música em parceria com Iggy. A faixa já ganhou versões de grupos como The Human League, Grace Jones, Trent Reznor (NIN), Peter Murphy (Bauhaus). O hit “Closer” do Nine Inch Nails contém samples do baixo e bateria da canção. Essa levada discoteca pode colocar na conta do Bowie mais uma vez. Conseguir transformar aquele Stooge sujo em um showman dos dance clubs é em parte mérito do músico. As performances de Iggy quando ele performa essa canção são impagáveis e impossíveis de ser repetidas. Ele dança literalmente no swing da batida como fosse um animal selvagem pronto para o acasalamento.

“Sing”, presente no disco Leisure” (1991) do Blur, é a próxima canção do disco. O curioso é que a canção sequer foi lançada como single no trabalho dos ingleses. Ela é praticamente um B-Side ou música para rechear o disco para quem olha o disco por cima e não o vê como single de trabalho. Para mim esse fato me motiva mesmo a conferir a canção. Ela é uma balada de 6 minutos, pesada, densa e cheia de recursos como teclado, guitarra viajante e intervenções. Ela é psicodélica, ao mesmo tempo em que flutua num mar de calmaria. Não conheço a obra completa do conjunto, mas posso me arriscar a dizer que é uma das mais diferentes e bem construídas em termos de atmosfera da trupe de Damon Albarn.

Em seguida a gente tem aquela faca enfincando no peito que é “Perfect Day” do Lou Reed. Lançada como lado B do single “Walk On The Wild Side” em 1972, a canção que entrou em Transformer” (1972) é com certeza uma das grandes contribuições e legado que Lou deixou para o mundo. Tanto que, em 1995, até o Duran Duran resolveu até regravá-la o que os levou para o vigésimo lugar das paradas do UK naquele ano. A poesia de Lou é de certa forma transgressora e diferente do que as pessoas estão acostumadas: ela coloca o dedo na ferida, debocha, humilha, maltrata e extrai uma verdade sob seu olhar perante a sociedade. A “Perfect Day” pode ser interpretada de várias formas, como uma balada romântica ou como uma grande ironia de um romance mal acabado. E essa é a genialidade de Lou, saber trabalhar com a dualidade do mundo e deixando isso aberto para seu ouvinte explorar da maneira que melhor lhe couber.

“Mile End” é a nona canção da trilha. A canção do Pulp é leve, te convida para um passeio a céu aberto. As vezes fico triste em ver como o Pulp é pouco lembrado, citado ou valorizado no Brasil. Essa canção tem um quê de The Cure indo de encontro com Bowie somado ao espírito boêmio inglês.

Logo em seguida temos “For What You Dream Of”, uma parceria do Bedrock com a participação de KYO. Sim, chegamos ao campo da música eletrônica tão efervescente no UK. A canção é um trance/house e mostra ritmo extenuante de nossos personagens. Principalmente para traduzir a relação deles com os sintéticos, é como um mergulho no mundo das anfetaminas.

“2:1” da Elastica retrata o lado do rock alternativo do UK no começo dos anos 90, aquela confusão entre punk rock, post-punk e rock alternativo. A canção é agradável e passa uma sensação de perdido no tempo e no espaço. Aliás, vale a pena conferir os discos da banda, é bastante bem feito e serve de registro para toda uma época “esquecida”.

Quem também aparece na trilha é a banda Leftfield com a canção “A Final Hit”, um trip-hop que faz um elo com o house progressivo. A sensação que a canção te passa é a de navegar pelas ondas eletromagnéticas do autoconhecimento. Ela te perturba e viaja também utilizando recursos oriundos do Drum & Bass.

A canção te prepara para o petardo que está por vir, a clássica “Born Slippy. NUXX” do Underworld. Uma canção que eu acho um tremendo escândalo em formato de música, ela consegue misturar o melhor do mundo da eletrônica. E o mais engraçado é que a música foi criada feito uma piada interna. Inclusive por conta disso se assustaram quando a canção começou a ter atenção da mídia. Em entrevista para o The Guardian eles inclusive disseram que era para soar como um diálogo de um alcóolatra. Já o sufixo .NUXX em seu fim é inspirado em um erro de computador. Afinal de contas em 1996 tínhamos que conviver – diariamente – com os bugs do Windowns 95, não é mesmo?

Damon Albarn, bem antes de se arriscar a lançar álbuns de estúdio solo, já lançava algumas canções soltas. Uma delas entrou na trilha de Trainspotting: “Closet Romantic”. Uma aterrorizante canção estilo anos 20, que poderia ter entrado na trilha de algum filme p&b. Tem barulhos de carrossel, é orquestrada e é conduzida por um violino. Ah, tudo isso com intervenções de seu vocal característico. Uma viagem sem fim.

Para não cansar vocês, vou apenas citar por cima alguns destaques do segundo álbum lançado em 1997. “Choose Life” do PF Project, por exemplo, conta com trechos das falas de Ewan McGregor em um remix disruptivo:

Iggy Pop (“The Passenger”), Underworld (“Dark & Long”, “Born Slippy.NUXX (Darren Price Remix)”), Primal Scream (“Come Together”) e Sleeper (“Statuosque”) voltam a emplacar outras músicas nesse segundo disco. A ópera “Carmen Suite N0. 2” de Georges Bizet também dá o tom na trilha.

Era mais do que obrigatório ter ao menos uma canção de David Bowie na trilha sonora depois de tudo que escrevi sobre ele e sua influência em tantas faixas. E a escolhida foi “Golden Years”, uma dançante canção lançada em 1975 para o disco Station To Station”. É um funk de primeira, com o ritmo conduzido por um potente baixo. E para combinar com o filme, essa música foi lançada durante o pico de seu vício em cocaína.

Representando a “breguice” da música dos anos 90, uma música que podia ser tocada após Scatman, temos Ice MC com “Think About The Way”, com sotaque jamaicano, beats de música eletrônica de rave e vocal que bebe do soul. Sim, tudo muito brega mas duvido ficar parado.

Outra pérola da trilha é “Our Lips Are Sealed” de 1983, que ilustra bem a transição da New Wave para a disco. Ela é viajante e te conduz para a pista de dança junto ao curioso grupo, Fun Boy Three. O visual dos integrantes não poderia ser menos característico.

Temos também uma canção que veio a se tornar um clássico do Joy Division, “Atmosphere”. Os versos que falam sobre o perigo te transmitem a sensação de conforto e destruição entre uma dose a mais de droga e outra. A vida por um fio, assim como foi a vida de Ian Curtis e suas crises de epilepsia. A música age como uma overdose de morfina em suas veias.

Para fechar a segunda trilha, temos “Inner City Life” do Goldie. Um dos mestres dos DJs icônicos da era rave inglesa, ele prezava pela mistura entre estilos como jungle e drum & bass. A curiosidade é que ele é tão simbolo na cultura do UK que chegou a fazer uma pontinha nos filmes James Bond – O Mundo Não é o Bastante” (1999) e em Snatch” (2000).

Agora é aguardar para ver se tanto a trilha como o segundo filme irão estar à altura do clássico. Esperamos que sim! Que venha (logo) Trainspotting 2.