Tracklist: FIDLAR — “FIDLAR” (2013)

Tracklist: FIDLAR — “FIDLAR” (2013)

13 de setembro de 2017 0 Por Paula Holanda

 

O LP de estreia da banda de garage e skate punk FIDLAR — sucessor dos EPs “DIYDUI” (2011), “Shit We Recorded In Our Bedroom” (2012) e “Don’t Try…” (2012) — integra facilmente as minhas listas de álbuns preferidos da década e de melhores álbuns de estreia da história. Em atividade desde 2009 e influenciados por nomes como Black Lips, Jay Reatard e Thee Oh Sees, o quarteto — formado por Zac Carper (voz, guitarra), Brandon Schwartzel (voz, baixo) e os irmãos Elvis (voz, guitarra) e Max Kuehn (bateria) — grava seus trabalhos em casa e faz parte de uma cena californiana mais recente, que engloba bandas como The Growlers e together PANGEA.

O interessantíssimo cenário da Califórnia — berço de clássicos do surf (Beach Boys, The Surfaris, The Lively Ones), terra de ícones do punk (Bad Religion, Minutemen, Dead Kennedys) e do hardcore old school (Descendents, Adolescents, os trabalhos de Keith Morris — que além de ter cantado no Black Flag, formou o Circle Jerks e integrou o supergrupo OFF!) e casa de antigas e novas figuras emblemáticas do garage punk (de The Mummies a Shannon And The Clams) — não poderia ser um contexto mais propício para a formação do FIDLAR, que incorpora elementos de todos esses gêneros.

Em 2003, durante a adolescência, Elvis e Max — que fazem música desde crianças e são filhos de ninguém menos do que Greg Kuehn (T.S.O.L., X) — criaram uma banda punk chamada The Diffs, que abriu para nomes como Agent Orange, The Adicts e The Germs. Elvis passou a estagiar na gravadora Kingsize Soundlabs, em Los Angeles, onde gravaram bandas como Wilco, The Vines e Jesus And Mary Chain e onde Zac Carper trabalhava como engenheiro de som. Zac, Elvis e Max formaram o FIDLAR (que antes se chamava “Fuck The Clock”) e Zac chamou Brandon para integrá-lo como baixista. Zac e Brandon eram melhores amigos e moraram juntos dentro de um carro velho em Silver Lake, bairro comercial no centro de Los Angeles, sob a miséria e o vício em cocaína.

“FIDLAR” é um álbum que tem as festas, as drogas e o skate como conceitos centrais. A princípio, eu achava que se tratava apenas de mais um bom álbum feito por um grupo de jovens irresponsáveis e zés-droguinha, mas ele ficou com uma carga consideravelmente mais pesada para mim depois que passei a pesquisar a fundo sobre a história da banda. Em 18 de março de 2013, pouco depois do lançamento do debut, Zac Carper recebeu uma ligação angustiante durante uma turnê que o FIDLAR estava fazendo com Wavves e Cheatahs pela América do Norte. Zac estava lutando contra o vício em heroína e descobriu por telefone que sua primeira namorada, grávida, sofreu um aborto espontâneo e faleceu após uma overdose — foi ele quem apresentou a heroína à garota.

O vício em drogas de Carper, que está sóbrio há mais de três anos, quase acabou com sua banda (e sua vida) múltiplas vezes. Zac fez uma tatuagem do mapa do Havaí, onde nasceu, para cobrir as marcas de agulha em seu antebraço esquerdo. Após a morte de sua namorada e de seu filho que sequer nascera, o vocalista e guitarrista tornou-se alcóolatra e passou a beber latas de cerveja e doses de vodka barata como café da manhã. A violenta imersão de Carper nas bebidas e narcóticos e suas múltiplas passagens em clínicas de reabilitação causou uma sensação de instabilidade entre ele e o resto da banda, que não tolerava mais ter que lidar com um junkie desafortunado como colega de trabalho — por mais que este fosse um grande amigo.

As coisas mudaram definitivamente quando o frontman — que, a essa altura, pensava em se matar todos os dias — recebeu uma outra ligação memorável, dessa vez do Billie Joe Armstrong (sim, o vocalista do Green Day), que é fã do FIDLAR e também passou por um histórico de dependência química. Billie, que por horas explicou a Zac sobre os benefícios da sobriedade (com base em sua própria vivência), foi a pessoa que o ajudou quando nenhuma outra estava ali para ajudá-lo, e o impediu de cometer suicídio ou de morrer de overdose no período que possivelmente foi a fase mais complexa e obscura de sua vida. Agora, Zac segue um estilo de vida consideravelmente mais saudável e aparece vestindo camisas com estampas do straight edge.

O (antes divertido) álbum homônimo do FIDLAR — expressão do skate californiano resultante do acrônimo para o mantra “Fuck It, Dog, Life’s A Risk” — ganhou para mim uma interpretação mais sombria após o conhecimento dessa sequência de infortúnios. Seja sob um viés feliz, seja sob um viés infeliz, “FIDLAR”, que saiu nos Estados Unidos pela Mom+Pop Records (Metric, Wavves, Courtney Barnnett), no Canadá pela Die Alone Records (Dune Rats, Cerebrail Ballzy, The Wytches) e no Reino Unido pela Wichita Recordings (Best Coast, Cloud Nothings, Girlpool) continua sendo um dos meus álbuns preferidos dos últimos cinco anos. São 14 músicas autorais (fora “Cheap Cocaine”, uma faixa escondida no final de “Cocaine”, e as faixas bônus “Shitty Jobz” e “I’m Going Nowhere”, que foram lançadas no Japão) sobre viver inconsequentemente, e cada uma delas é um belo soco na cara. “Too” (2015), segundo álbum da banda, além de ser sonoramente diferente do primeiro, é quase que conceitualmente oposto ao mesmo — faixas como “Stupid Decisions” e “Bad Habits” agora demonstram uma maior carga de preocupação e arrependimento (e uma menor carga de diversão) relativa ao vício em drogas.

1. “Cheap Beer”
“Cheap Beer” foi uma excelente escolha para a faixa que dá início ao álbum. Talvez eu trocasse por “White On White”, mas ainda assim, achei uma excelente escolha. “Cheap Beer” lembra muito a clássica “Police Truck” e, na minha opinião, é a melhor performance de Zac Carper do álbum. A música fala sobre se embriagar, usar drogas e se divertir com seus amigos em corridas de carro. Pra quem gosta de Dead Kennedys, Circle Jerks e Gang Green.

2. “Stoked And Broke”
“Stoked And Broke” é uma faixa sobre fazer o que você quer sem se arrepender ou se importar com a opinião dos outros. De construção simples, as estrofes da música são intercaladas por solos curtos de guitarra feitos por Elvis. Pra quem gosta de The Hives, The Vines e Ty Segall.

3. “White On White”
“White On White” é sobre estar desempregado e desabrigado e ser obrigado a servir ao exército militar. É uma música extremamente dinâmica e de construção impecável, principalmente em relação às linhas de guitarra. Para
mim, é bem difícil escolher a melhor faixa do álbum, mas essa talvez seja a minha preferida. Pra quem gosta de punk e hardcore dos anos 80 em geral.

4. “No Waves”
Uma das faixas mais populares de “FIDLAR”, “No Waves” foi lançada no EP “Don’t Try…” e regravada para o LP. Apesar de soar agitada e feliz, a música já dá indícios da depressão e dos problemas com drogas de Zac Carper. O eu-lírico não consegue mais surfar, está cansado do skate — que enxergava como uma atividade paralela ao surfe — e se sente fraco, entediado e impotente. Ele está em reabilitação e acredita que está estragando a sua vida com o excesso de bebida e de drogas. Pra quem gosta de Nobunny, Black Lips e The Orwells.

5. “Whore”
“Whore” é uma música sobre beber em casa, sozinho e em situação de vulnerabilidade após uma traição. Essa talvez seja a música mais consistente do álbum, construída por cima de linhas sólidas de guitarra base e bateria. Pra quem gosta de Thee Oh Sees e garage rock do início dos anos 2000.

6. “Max Can’t Surf”
Originalmente lançada no EP “DIYDUI”, “Max Can’t Surf” é uma música bem-humorada sobre o baterista da banda e foi regravada para “FIDLAR”. A faixa mais surf punk do álbum, para quem gosta de Wavves e Best Coast.

7. “Blackout Stout”
“Blackout Stout” é uma das minhas preferidas. Foi lançada no EP “Don’t Try…”e é outra música que já demonstra alguns sinais de angústia e desconforto em relação ao uso excessivo de drogas. A faixa fala sobre sentir-se perdido e sem rumo e acordar no carro de um traficante. Soa muito como “Southern Comfort”, dos Orwells e é indicada para quem gosta, obviamente, de The Orwells.

8. “Wake Bake Skate”
Lançada no EP “DIYDUI”, “Wake Bake Skate” é mais uma música sobre se drogar sem restrições, andar de skate e sentir que a sua vida está uma verdadeira bagunça. É uma faixa bem animada e divertida, em que a banda soa muito integrada. Para quem gosta de Wavves, Bass Drum Of Death e garage punk em geral.

9. “Gimme Something”
“Gimme Something”, que antes de ser lançada oficialmente, se chamava “Bummed”, conta a história de um desempregado viciado em drogas que vive no fundo de um caminhão. A faixa tem timbres mais acústicos e, a partir dela, o álbum passa a ter uma pegada mais leve, lenta e descontraída. Para quem gosta de country, rock ‘n roll e música tradicional americana em geral.

10. “5 To 9”
“5 to 9” é uma música sobre não ter carro ou dinheiro e beber e se drogar com os amigos — acho que, a essa altura, vocês já entenderam que “FIDLAR” é um álbum meio monotemático. É uma faixa que dura um minuto, mas que se fosse mais longa, talvez não fizesse muito sentido. Mais uma para quem gosta de Ty Segall, Black Lips e The Orwells.

11. “LDA”
“LDA” — sigla para “Legal Drinking Age”, ou “Idade Legal Para Beber” — é uma música sobre completar 21 anos (nos Estados Unidos, essa é a idade permissiva para o uso de bebida alcóolica) e não mais precisar de uma identidade falsa. É uma história real sobre um amigo de Elvis e Max que entregou a Elvis — que é o vocalista nessa música — sua identidade falsa quando completou 21 anos. Para quem gosta de rock ‘n roll e música tradicional americana em geral.

12. “Paycheck”
O eu-lírico de “Paycheck” está de ressaca, estirado no chão de uma casa vazia, e se drogou tanto que não sabe se vendeu ou doou sua TV. A faixa tem bases instrumentais mais densas e parece ter influências de grunge e stoner rock. Para quem gosta de Nirvana e Queens Of the Stone Age.

13. “Wait For The Man”
“Wait For The Man” é uma música sobre fazer a ponte entre um jovem e um traficante, originalmente lançada no EP “DIYDUI”. Soa como o trabalho de bandas mais clássicas como Ramones e Dead Kennedys por conta das bases
simples, mas também carrega marcas de bandas de garage punk mais novas. Para quem gosta de punk em geral.

14. “Cocaine”
“Cocaine” é uma música sobre vício em cocaína e faz referência às canções “Cocaine”, de Jackson Browne, e “Cocaine Blues”, originalmente escrita nos anos 40 por T. J. & Red Arnall e interpretada por nomes como Bob Dylan, Johnny Cash e Keith Richards. Semelhante à “Paycheck”, a faixa tem uma construção mais pesada e densa do que o restante do disco e é indicada para quem gosta de stoner rock e rock ‘n roll. “Cheap Cocaine”, faixa escondida no final de “Cocaine”, conta a história de quando Zac Carper morou dentro de seu carro.

Ouça o disco completo: