Toda uma banda em um violão: John Fahey – “The Dance of Death & Other Plantation Favorites” (1965)

Toda uma banda em um violão: John Fahey – “The Dance of Death & Other Plantation Favorites” (1965)

9 de fevereiro de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Expoente e precursor daquilo que nos EUA se chama de “American Primitive Guitar”, John Fahey (1939-2001) é um desses notáveis pouco badalados. Mesmo distante do grande público, o violonista é constantemente citado como grande referência por gente como David Gilmour, Pete Townshend e Thurston Moore. Até mesmo a revista Rolling Stone o elegeu como um dos melhores guitarristas de todos os tempos.

O que mais impressiona ao escutar qualquer som de Fahey é perceber como as tradições musicais dos EUA se aproximam de coisas como a música caipira do Brasil ou a guarânia paraguaia com tanta propriedade. Os sons mais ancestrais de qualquer país parecem vir de uma única fonte desconhecida. Seria isso produto do se chama de inconsciente coletivo? Quem sabe… talvez The Dance of Death & Other Plantation Favorites”, terceiro álbum do músico, possa ser um exemplo concreto disso.

O LP é resultado de uma sessão realizada em 22 de agosto de 1964 no Adelphi Studios, em Silver Spring. Muito pouco se sabe sobre esse disco. John Fahey tinha a fama de ser um cara bem recluso, discreto. Mas uma vez, relembrando a gravação que resultou no álbum, ele comentou: “Foi uma sessão interessante, foi a única vez que eu gravei sob efeito de maconha e uísque, então estava bem contente, você sabe…”

Dono de um estilo único e extremamente autossuficiente, John Fahey vinha explorando diferentes afinações e mesclando gêneros com uma habilidade de causar inveja. Fica evidente que ele procura combinar tudo aquilo que há de mais rústico no interior norte-americano: blues, folk, country… E o mais incrível é que a música do sujeito consegue ser isso tudo com apenas um violão. Tanto em “Wine and Roses” como em “Variations on the Coocoo” dá para reconhecer ecos de um country acelerado e um ar soturno do blues, como se fosse uma banda de cordas de um homem só. Realmente, parece algo que já se ouviu antes, mas não. Ali tem algo único.

Por outro lado, “How Long”, ao mesmo tempo em que caminha para um blues, curiosamente se assemelha de forma absurda com o som das nossas violas caipiras do Brasil. E não tem como não mencionar a importância das afinações malucas que Fahey costumava usar. Isso fazia toda a diferença em seu som, e agora se percebe de onde Sonic Youth tirou essa ideia, mesmo que de maneira sutil.

“Poor Boy” começa como se fosse uma canção folk como qualquer outra de Elizabeth Cotten ou desse pessoal bem das antigas, mas logo Fahey introduz um slide e tudo muda para um som inclassificável, ao mesmo tempo em que se comporta como algo estritamente tradicional. “What the Sun Said” é um catado de um monte de invenções. São dez minutos de um baita violonista brincando com instrumento, vendo o que sai.

“On the Banks of the Owchita” é a única faixa que contém mais de um instrumento. Nesta, Bill Barth faz um dueto de violão com Fahey. Outra pérola é “Dance of Death”, música que encerra o disco. Nela, o músico passeia por um bocado de variações e no fim parece que você já está escutando outra canção. Vale destacar o som gasto presente em todo o álbum. É uma mixagem que dá um charme ainda mais pitoresco ao registro. No fim das contas, o disco vibra ligeiramente sombrio mesmo sem parecer triste e brilhante mesmo sem soar feliz. É uma combinação equilibrada e muito bonita.

“The Dance of Death & Other Plantation Favorites” acabou saindo em 1965, pelo selo do próprio Fahey, o Takoma Records. Vendeu pouquíssimo, e hoje é item de colecionador. Apesar de ter sido reeditado em CD na década de 1990. Seu público era bastante restrito. Para se ter uma ideia, no lançamento de seu primeiro LP, Blind Joe Death”, foram prensadas somente cem cópias na primeira tiragem. Por algum motivo, ele acabou se tornando um daqueles gênios que acabam sendo de fato descobertos muitos anos depois. Até lá, foi uma escalada muito lenta e árdua, talvez por isso John Fahey tenha atingido status de lenda. Mas ele merece todos os elogios. É um mestre.

Ouça esse disco e tente classificá-lo. É impossível.