Thee Dirty Rats: sobre garage primitivo, guitarras caseiras e gravação analógica

Thee Dirty Rats: sobre garage primitivo, guitarras caseiras e gravação analógica

29 de março de 2018 0 Por Paula Holanda

Fundado em 2014 por Luis Tissot (voz, cigar box) e Fernando Hitman (voz, bateria), o duo paulistano Thee Dirty Rats faz garage rock com influências de punk e new wave. O som da dupla é cru, rudimentar, e considerando sua formação — de um lado, três cordas ligadas em um pedal de fuzz; do outro, o jogo de bateria mais primitivo possível (bumbo, caixa, surdo e chimbal) — não poderia ser diferente.

Na discografia da Thee Dirty Rats, constam os EPs “The Fine Art of Poisoning 1 & 2” (2015) e “Traps and Mass Confusion” (2016), lançado em vinil pelo selo goiano Mandinga Records simultaneamente a uma turnê da banda pela Europa, e o LP “Perfect Tragedy” (2015), lançado em k7 pelos selos Woody Records (Estados Unidos) e Scrap Metal Dealer (Argentina). Duas das sete faixas de “The Fine Art of Poisoning 1 & 2” foram incluídas em um split com a banda argentina Sarcofagos Blues Duo, também lançado pelo Scrap Metal Dealer.

A Thee Dirty Rats ainda tem um outro split com a WI-FI Kills, projeto curitibano do músico e artista visual Klaus Koti (mais conhecido por sua one-man band O Lendário Chucrobillyman) intitulado de “WI-FI Kills on the planet of Thee Dirty Rats”. “Chop Your Fingers” e “Yeah Yeah It’s True”, as duas faixas que compõem a metade dos Dirty Rats, foram produzidas por Jim Diamond, ex-baixista da The Dirt Bombs e conhecido por seu trabalho com Sonics e White Stripes.

Abaixo, uma entrevista feita no Bar da Avareza, em São Paulo, pouco antes de a dupla se apresentar:

Ao longo da história, cigar boxes foram elaboradas por escravos africanos ou trabalhadores rurais norte-americanos em períodos de escassez de recursos e materiais. A construção da cigar box da Thee Dirty Rats vem de um contexto semelhante?

Fernando — Nós também temos e tocamos “instrumentos normais”, então a construção da nossa cigar box não foi por falta de opção. Foi proposital, nós realmente queríamos uma cigar box — mas queríamos criá-la com o que nós tínhamos, então não gastamos quase dinheiro nenhum na fabricação.

Luis — Nossa formação inicial tinha guitarra e bateria, depois começamos a tocar com baixo e bateria. Em se tratando da sonoridade, não ficamos satisfeitos com nenhuma das duas formações, então pensamos em fazer uma cigar box — é um instrumento que tem muita relação com a sonoridade que nós queríamos. Nós tínhamos recurso, então foi mais uma opção estilística.

Fernando — E a gente também queria aprender a construir uma cigar box. Mas queríamos fazer apenas com o que tínhamos, sem comprar nada, gastando o mínimo, sabe? Aí pegamos uma caixa de madeira que encontramos em um lugar aleatório e umas tábuas de janela velhas para o braço — no final das contas, gastamos uns R$8,00 construindo ela.

Luis — É, o captador era de um baixo quebrado e as tarraxas eram de uma guitarra que estava encostada no meu estúdio, o Caffeine Sound, em que gravamos quase todo o nosso material. A gente não gastou praticamente nada!

Vocês já tinham alguma noção de luteria antes de fabricarem o instrumento?

Luis — Não, nenhuma.

Fernando — A gente nunca tinha fabricado instrumento nenhum antes disso.

Luis — Sim, foi a primeira vez que tentamos fazer alguma coisa. Fizemos muito na base da tentativa e erro.

Fernando — Exato.

Vocês tiveram experiências com gravação analógica. Que diferenças vocês percebem entre gravação analógica e digital? Por que a escolha pela fita?

Luis — Nós já experimentamos o digital, mas o analógico tem muito mais a ver com a gente. Acho que tem muita relação com o nosso conceito, com a nossa sonoridade. Essa estética meio lo-fi, sabe? É o som que eu e o Fernando sempre escutamos, na real. Gostamos muito de garage rock, de artistas da década de 1990 que gravavam em gravador de k7 de quatro canais. E também tem a questão da limitação — no digital você pode ir para qualquer lado, porque é tudo muito mais fácil, e consequentemente você pode se perder muito fácil também. Sair do conceito inicial.

Fernando — Sim, você acaba pensando mais e corre o risco de fugir do que você realmente quer.

Luis — Em processos de gravação mais limitados, você tem que se virar para trabalhar no que você está gravando a partir dessa limitação. Isso acaba sendo extremamente criativo, muito mais criativo do que apelar para a perfeição dos processos digitais. No digital, a criação é tão rápida e eficiente que acaba se tornando meio banal.

Fernando — E nos processos analógicos, a gente mexe em pouca coisa depois da gravação. Então todas as decisões são tomadas bem antes.

Luis — Exatamente. As decisões são tomadas antes ou enquanto você está gravando. Isso é muito importante. Depois que o material está lá, gravado, você não vai sair editando, cortando e colando fita.

Luis Tissot

Essas limitações mudaram de alguma maneira a forma como vocês pensaram nas músicas da banda?

Luis — Não, nosso som funciona perfeitamente dentro dessas limitações.

Fernando — Na verdade, a gente já tinha essa ideia de sonoridade minimalista em mente e justamente por isso escolhemos gravar dessa forma, porque era um jeito bom para gravarmos esse tipo de música.

Luis — Exatamente. É óbvio que se você tiver uma orquestra completa, você não vai escolher gravar em quatro canais.

Fernando — Sim. Temos poucos instrumentos, por isso que escolhemos a fita, e não o contrário — nossas músicas são assim, não precisamos adaptá-las ao método de gravação.

Vocês também fizeram lançamentos em formatos analógicos. Lançar em k7 ou vinil tem trazido retorno? Em um contexto em que os consumidores de música estão cada vez mais adeptos às plataformas digitais, qual a importância do material físico para vocês?

Luis — Essa importância para nós é algo muito pessoal, tem mais relação com o nosso histórico de vida. É algo que sempre nos acompanhou no meio do punk e do garage rock. Eu já tive distribuidora de zine e k7, sou colecionador de vinil e o Fernando também, nós fazemos questão de comprar discos das bandas que gostamos. Então esse apego acaba sendo bem natural.

Fernando — É. Para nós, o material físico é muito importante e diferente. Eu gosto de colecionar discos e é muito legal ter um vinil da sua própria banda. Eu não pago por música na internet, então eu só sei consumir música assim. E ainda tem a questão da durabilidade — se você cuidar bem de um vinil, ele vai durar para sempre.

Fernando Hitman

A Thee Dirty Rats tem alguns lançamentos feitos por selos gringos. Me falem sobre a relação da banda com eles.

Luis — O legal é que depois da era do Myspace, uma época em que as pessoas realmente se comunicavam sobre música na internet, a única vez que um selo veio nos contatar do nada foi quando a Woody Records, que é um selo norte-americano de garage rock que lançou o “Perfect Tragedy”, nos mandou uma mensagem pelo Facebook dizendo que queria lançar 100 cópias em k7 do disco. E eles ainda fizeram 10 shapes de skate personalizados para a Dirty Rats, pintados à mão! Quem gerencia a gravadora é um casal, o cara cuida das fitas e a mulher pinta os shapes.

Fernando — É, foi muito louco, eu nunca vi isso na vida. Ganhamos cinco shapes de skate, acho que eles fazem de brinde.

Luis — Na real, o dono do selo tem uma loja de skate e vende as fitas por lá.

Fernando — Os shapes foram uma loucura, o maior sucesso. Vendemos muito rápido, em um segundo, lembra? E a gente nem fez nada, eles vieram do nada falar com a gente.

Que coisa. Vocês também já fizeram uma turnê pela Europa. Como o público europeu reage à Thee Dirty Rats?

Fernando — A recepção foi da hora, bem boa, bem boa. Todos os shows foram bons. O público europeu é bem doido, eles começam parados e de uma hora pra outra começam a fazer danças esquisitas. E os europeus são legais e te pagam muitas bebidas.

Luis — Teve um show que fizemos em uma squat anarcopunk bem interessante, uma das melhores recepções. Foi curioso, porque eles reagiram melhor do que o público dos bares e pubs mais relacionados à nossa sonoridade.

Fernando — Os punks piram na Dirty Rats, sempre curtem. Teve uma vez que a gente tocou numa squat rural, era uma fazenda no meio do nada da França, uma espécie de celeiro de pedra e serragem. Foi um puta show, deu uma galera, o lugar era gelado e virou um forno.

Eu vi que as faixas da Dirty Rats no split com a WI-FI Kills foram produzidas pelo Jim Diamond. Me expliquem como isso aconteceu.

Luis — Então, isso foi outra coisa bizarra. Ele que escreveu pra gente.

Fernando — Pois é, ele que propôs essa parceria.

Caramba! Que moral.

Luis — A gente é uma banda meio preguiçosa, a gente nunca escreve para ninguém. Não, isso nunca acontece. Quase sempre são os outros que vem até nós. Mas enfim, ele é de Detroit, mas estava na França quando nos convidou para fazer um single com ele.

Fernando — Foi muito legal.

Luis — A gente viajou de volta uns 1000 km só para gravar esse single. Mas valeu a pena.

Fernando — Nossa, quê isso. Valeu muito a pena.

Qual o truque de divulgação por trás de tanta gente foda oferecendo propostas para vocês?

Luis — Acho que o segredo é a não-divulgação. Se você não divulgar nada, as pessoas se interessam mais. Acho que o que mais importa é o boca-a-boca. Conversar pessoalmente, se fazer presente no bar. É isso que fica, no final das contas.