The Scuba Divers absorve influências de rock oitentista em sua incessante máquina de composições

The Scuba Divers

The Scuba Divers foi criada em 2014 pelos irmãos Maurício Teles (Baixo e Vocais) e Daniel Teles (Guitarra e Vocais), que desde então, nunca pararam de compor. A banda começou como um projeto de covers de músicas dos anos 80 que acabou se desenvolvendo e estabelecendo a atual formação, contando com Iury Cascaes (Guitarra e Vocais) e Gabriel Ramacciotti (Bateria). As influências oitentistas de pós-punk e new wave se misturaram então ao rock alternativo, grunge e shoegaze e resultaram no primeiro disco do quarteto, lançado este ano.

No álbum, as 11 faixas demonstram bem a salada musical rocker que inspira o grupo santista. “Desde o dia que criamos a banda eu já comecei a compor as primeiras tracks, “Snowflake” e “Fish People”, que estão no disco”, explica. “Diferente de muitas bandas, que acabam descartando o primeiro material como ‘experimental’ ou ‘imaturo’, a gente gostava pra caralho de todas as músicas e ficaríamos bem tristes de não incluir elas em release oficial, sabe? É o resultado do nosso primeiro ano de composição”.

Conversei com a banda sobre sua trajetória, a gravação do primeiro trabalho e suas impressões sobre a cena independente atual:

– Como a banda começou?

Maurício: Então, eu e meu irmão tínhamos uma banda juntos que tocava só covers dos anos 80, coisas de new wave, post punk, synthpop, essas coisas. Éramos em 4, eu no baixo e vocal, ele guitarra e vocal e mais 2 amigos no teclado e bateria. A gente chegou a tocar alguns showzinhos, mas depois de um tempo a banda acabou por que não ia rolar mais pra tecladista e tal. Daí a partir disso a gente pensou ”pô, por que não começamos a tocar coisas nossas mesmo?”

Daniel: Na verdade a vontade de tocar material próprio era algo que já rolava mesmo nessa banda tributo, mas nunca chegamos a colocar em prática. Aí quando os outros membros saíram e sobrou nós dois, a gente resolveu reestruturar tudo e discutir qual seria a proposta da banda. De começo nós sabíamos apenas que seria som autoral e que seguiria uma direção voltada para o rock alternativo. Foi nesse momento que a banda, pelo menos como ela está agora, nasceu. Mas a semente dela vem desde antes, todos os projetos que tive com meu irmão e etc.

– E de onde surgiu o nome da banda? O que ele significa pra vocês?

Maurício: Então, como eu falei lá em cima, a tecladista saiu e ficamos em três. A gente brincava muito com os nomes que a banda ia ter e um dia brincamos com o nome do baterista, que é Lucas Bacci, e usamos Lucas Bacci and The Scuba Divers, uma sátira àquelas bandas que são ”não sei quem e os não sei o que lá”.

Daniel: Tipo Lobão E Os Ronaldos.

Maurício: Sim. Só que aí o Lucas Bacci saiu (risos)! Aí sobrou The Scuba Divers, e analisando melhor depois a gente percebeu q além de sonoro, o nome era perfeito pra gente.

Daniel: Apesar de ele ter surgido meio aleatoriamente, combinou bastante, tanto pelo sentido literal, porque gostamos de ambiências submarinas, várias de nossas músicas remetem ao mar e etc, como “Fish People”, “Crabs”, “Bioluminesce”, é um tema recorrente… Ao mesmo tempo, também pelo sentido subjetivo de mergulho, você pode mergulhar no que você quiser, sentimentos, sonhos, ou no próprio som.

Iury: O fundo do mar remete a um mistério legal de ser explorado.

Daniel: Sim, exatamente. Então combinou legal pra caramba com muita coisa que a gente gosta de escrever sobre.

Iury: Sim, tem similaridade com o universo e o espaço, que são inóspitos também, o fundo do mar é uma coisa cabreira. Um scuba diver então é um explorador de coisas profundas. Temos muitas músicas que narram sonhos também e etc..

– Deixa eu voltar um pouco a algo que vocês falaram: como é ter banda com irmãos? A gente ouve que é algo 8 ou 80, ou se dão muito bem (como no AC/DC) ou é só quebra-pau (como no Oasis)…

Daniel: Acho que é ótimo ter um membro da banda que simplesmente mora comigo. Eu tenho uma ideia, já mostro pra ele, ai a gente acaba produzindo bastante coisa aqui. Na parte administrativa ajuda bastante, porque um lembra o outro das coisas pra fazer, a gente pratica músicas juntos e tal.

Maurício: Sim, e além disso não temos meias palavras um com o outro: se a gente acha q algo tá uma merda já falamos na lata. Não tem rodeio. Às vezes a verdade chateia um pouco, mas é bem melhor assim. Somos bem transparentes um com o outro pra que tudo flua da melhor forma possível.

– Quais as principais influências do som da banda?

Daniel: Herdamos bastante coisa repertório que tínhamos na banda 80’s. The Smiths, The Cure, Tears For Fears, toda essa cena post punk e new wave, Devo e tudo mais. Mas a banda começou bem na época que comecei a me ligar em alternativo, noise, indie e eu comecei a mostrar muito disso pro meu irmão. Estávamos numa fase muito Placebo e Smashing Pumpkins, eu também estava ouvindo muito Pixies, Weezer, então começamos a misturar tudo isso. Quando o Iury entrou na banda ele acabou trazendo mais 90’s pra equação. Hoje em dia meio que bebemos de várias fontes, gostamos de coisas progressivas, experimentais, tanto quanto de punk rock e coisas mais diretas.

The Scuba Divers

– Como vocês definiriam o som da banda hoje em dia?

Iury: Então, existem mais influências no nosso som…

Maurício: Meio difícil rotular.

Iury: Eu gosto muito de música dos anos noventa. Tipo, gosto muito de Nirvana.

Maurício: Acho que a forma mais fácil e chamando de rock alternativo, que é meio q um gênero extremamente amplo. É um emaranhado de muita coisa!

Iury: E quando entrei na banda eu trouxe uma música, chamada “Dazed”, que tem muito do Nirvana, propriamente.
E o Rama que entrou agora na banda também tá trazendo influências novas… Daí quando você pega tudo isso, acaba refletindo no nosso som autoral. A gente tem músicas desde um punk rock safado até umas coisas mais post-punk.

Maurício: Sim, temos coisas que vão desde o noise rock, com um pouco de grunge até músicas mais românticas, shoegaze.

Iury: E pro futuro eu não duvido nada rolar umas músicas meio progão. (Risos)

Maurício: Provavelmente vá rolar um dia. Claro que não umas suítes de 20 minutos, mas a gente segue uma linha de pensamento que é não nos rotularmos, não colocar uma cerca na nossa criatividade.

Iury: A gente tem planos de fazer umas cosias mais intrincadas, mas estamos num trabalho contínuo de estudo e pesquisa, de composição, de evolução mesmo.

Maurício: Cada dia surgem músicas mais diferentes!

– Me contem um pouco mais sobre o disco.

Daniel: Desde o dia que criamos a banda eu já comecei a compor as primeiras tracks, “Snowflake” e “Fish People”, que estão no disco. Diferente de muitas bandas, que acabam descartando o primeiro material como “experimental” ou “imaturo”, a gente gostava pra caralho de todas as músicas e ficaríamos bem tristes de não incluir elas em release oficial, sabe? Então descartamos a possibilidade de um EP, onde muitas ficariam de fora. Esse disco é meio que as primeiras tracks nossas, mesmo. É o resultado do nosso primeiro ano de composição. As tracks são bem variadas, não existia um conceito ou fio condutor, tanto que é um dos motivos da capa ser uma colagem
são vários climas que interagem entre si, mesmo que o único fio condutor seja que todas saíram do mesmo conjunto de pessoas pensando e compondo.

– A banda toda trabalhou na composição das faixas ou elas já estavam prontas antes do disco começar a ser concebido?

Iury: Depende da música!

Maurício: Provavelmente metade do CD já estava composto quando a formação que gravou foi fixada.
A maioria delas são do Daniel Teles.

Maurício: Composto em partes, digo que já existiam as músicas, mas não completamente finalizadas. Quando o Iury entrou, ele adicionou todas as guitas novas nas músicas e tal, porque no começo era um trio, não tinha arranjo pra uma segunda guitarra.

Daniel: Exatamente, então apesar de eu ser quem assina autoria da maioria das tracks, todos contribuíram de alguma fora pro resultado final.

Maurício: Então em questão de música todos trabalharam nelas, mas em letra foi mais individual.

Daniel: E as ultimas tracks compostas já foram mais como banda e menos “eu compondo no meu quarto”.

Maurício: Exatamente, como o próprio Iury falou, ele chegou com “Dazed” pra trabalharmos… Acho que “The Stalker” foi a mais colaborativa de todas: o Iury chegou com uma ideia pra guitarra, o Daniel escreveu uma letra, eu criei um baixo logo no primeiro dia e tal. Foi bem bacana o processo.

– E vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Iury: Sempre! Na verdade a gente nunca parou de compor.

Daniel: Cara, temos material pra mais uns dois discos, nunca paramos de compor material.

Maurício: Até demais (risos).

Iury: Trabalhar em novas músicas é uma constante pra gente.

Daniel: Chegamos num ponto que o ensaio semanal não dá conta de ensaiar, arranjar, finalizar tudo, então nos reunimos às quintas aqui em casa para gravar demos e etc.

Iury: Com essas demos a gente vai experimentando um monte de coisas!

Daniel: Eu, meu irmão e o Iury sempre compusemos muito, agora o Rama entrou e ele compõe também, então a tendência é ter mais material ainda!

Iury: É que a gente se expressa com a música, né, então é algo bem natural ter sempre uma música saindo! Porque não é uma questão de sentar e compor “pra um novo CD ou EP”… E sim de botar pra fora o que temos em mente sob a forma de música!

Daniel: Acho que é ótimo como banda, a gente vai se aperfeiçoando, a parte triste é que vai demorar demais pra gravarmos tudo, vai doer no coração montar a tracklist do próximo disco!

Maurício: Pois é, a gente gosta muito de 95% das músicas que fazemos, esperamos que o publico também goste quando um próximo álbum for lançado. Mal lançamos esse e já ansiamos pro próximo! (Risos)

– E vocês acreditam ainda na aceitação do formato álbum? Hoje em dia, com o streaming, muitos artistas estão apostando em singles, EPs e etc, já que as playlists estão sendo mais procuradas do que discos completos.

Iury: Nós também lançamos singles, só que a gente não reduziu nossos lançamentos a somente esse formato. Não sei, eu particularmente “acredito” no formato álbum: eu gosto de pegar um álbum pra escutar, ver a capa, dar uma olhada nas artes e tudo mais. Só que de acordo com a indústria não é tão funcional assim…

Daniel: A gente tem um background que sabemos que não é o do público comum, de apreciar o álbum como uma obra completa, conceitual e não um aglomerado de faixas.

Iury: Mas mesmo assim “acredito” também que tem muita gente que ainda curte um álbum inteiro, e que as pessoas que vão gostar do nosso som provavelmente são assim. Mas também não tem problema se ouvirem as músicas soltas – ficamos felizes que entrem em contato com o nosso trampo e que nos mandem feedback de qualquer maneira.

Daniel: Então optamos pelo disco por questões artísticas antes de levar em consideração o marketing da coisa. Ainda assim, como o Iury falou, lançamos os singles individualmente, planejamos gravar clipe, estamos nas plataformas de streaming… Ter o disco completo não impede de focar o marketing num grupo delas.

Daniel: Dá quase na mesma para fins práticos, mesmo que muitos ouvintes não passem da 5ª track, se ele curtir, ele vai ter mais.

The Scuba Divers

– Como vocês veem a cena independente hoje em dia?

Daniel: Comecei a ter mais contato com ela de uns tempos pra cá quando comecei a organizar o festival Alternapalooza, que foca em som alternativo, indie, autoral. Inicialmente eu era meio pessimista, mas muita gente começou a me procurar, eu mesmo comecei a ir atrás de coisas novas e comecei a descobrir muita gente com trampo foda interessada. Acho que com a internet a gente acabou só decentralizando a cena local, física sabe Lançamos o disco por selos do RJ, de BH. Esse tipo de cena interestadual tá ganhando bastante força. Chamamos bandas de outra cidade pra tocar aqui, eles chamam a gente, vai todo mundo se acertando e as coisas rolam.
No festival rolou banda de Recife, que doideira, sabe? Acho que a cena underground como ela geralmente é vista meio que deu uma esfriada, mas só porque ela acabou escoando para outros meios, não porque falta vontade das bandas ou as bandas não correm atrás e etc.

– Mas é utopia pensar em uma nova dominação do alternativo, como aconteceu aqui nos anos 90, com bandas como Planet Hemp e Raimundos indo até no Faustão?

Daniel: Ninguém poderia prever que o Nirvana seria um sucesso mundial, as tendências da moda são algo que como músico eu não tenho como analisar, é mais um lance de sociologia. Acredito que tentar replicar o que aconteceu não vai dar certo. Se o alternativo emergir dessa forma novamente, com certeza será de maneira espontânea e por outras razões. Vejo muita gente “vou fazer igual tal banda pra dar certo também”, mas o contexto que essas bandas estouraram era completamente outro.

Maurício: Pois é, não existe fórmula pra dar certo. Por mais que, por exemplo, você queira estourar a todo custo e sua banda comece a fazer um som comercial que está super na moda, até dessa forma não é certeza de você vingar. Acho que o lance é você ir fazendo um trabalho que faça sentido pra você, que seja sincero e que você não desista. Acho que não existe sorte na música, existe força de vontade e perseverança. E talento, claro (risos). Quando alguma oportunidade surgir, tem que estar preparado pra lidar com ela!

– Quais são os próximos passos da Scuba Divers?

Maurício: Agora com o nosso primeiro álbum lançado e com a troca de baterista, nosso objetivo é ir divulgando nosso som, estamos atrás de casas de show, divulgando a notícia pela internet. Temos ideias para videoclipes e estamos vendo meios de viabilizar a produção deles!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Maurício: Uma banda que foi uma boa surpresa pra mim foi a eliminadorzinho, de SP. A conheci em uma edição do Alternapalooza, a banda é formada por um ex-membro da Calvin Voichoski & The Hello Titos.

Daniel: Gosto do Não Ao Futebol Moderno, do gorduratrans, a Amandinho é uma banda bem divertida também.

Maurício: A eliminadorzinho tem um som shoegaze muito gostoso de ouvir, muito feeling!


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