The Scuba Divers absorve influências de rock oitentista em sua incessante máquina de composições

The Scuba Divers absorve influências de rock oitentista em sua incessante máquina de composições

17 de maio de 2017 0 Por João Pedro Ramos

The Scuba Divers foi criada em 2014 pelos irmãos Maurício Teles (Baixo e Vocais) e Daniel Teles (Guitarra e Vocais), que desde então, nunca pararam de compor. A banda começou como um projeto de covers de músicas dos anos 80 que acabou se desenvolvendo e estabelecendo a atual formação, contando com Iury Cascaes (Guitarra e Vocais) e Gabriel Ramacciotti (Bateria). As influências oitentistas de pós-punk e new wave se misturaram então ao rock alternativo, grunge e shoegaze e resultaram no primeiro disco do quarteto, lançado este ano.

No álbum, as 11 faixas demonstram bem a salada musical rocker que inspira o grupo santista. “Desde o dia que criamos a banda eu já comecei a compor as primeiras tracks, “Snowflake” e “Fish People”, que estão no disco”, explica. “Diferente de muitas bandas, que acabam descartando o primeiro material como ‘experimental’ ou ‘imaturo’, a gente gostava pra caralho de todas as músicas e ficaríamos bem tristes de não incluir elas em release oficial, sabe? É o resultado do nosso primeiro ano de composição”.

Conversei com a banda sobre sua trajetória, a gravação do primeiro trabalho e suas impressões sobre a cena independente atual:

– Como a banda começou?

Maurício: Então, eu e meu irmão tínhamos uma banda juntos que tocava só covers dos anos 80, coisas de new wave, post punk, synthpop, essas coisas. Éramos em 4, eu no baixo e vocal, ele guitarra e vocal e mais 2 amigos no teclado e bateria. A gente chegou a tocar alguns showzinhos, mas depois de um tempo a banda acabou por que não ia rolar mais pra tecladista e tal. Daí a partir disso a gente pensou ”pô, por que não começamos a tocar coisas nossas mesmo?”

Daniel: Na verdade a vontade de tocar material próprio era algo que já rolava mesmo nessa banda tributo, mas nunca chegamos a colocar em prática. Aí quando os outros membros saíram e sobrou nós dois, a gente resolveu reestruturar tudo e discutir qual seria a proposta da banda. De começo nós sabíamos apenas que seria som autoral e que seguiria uma direção voltada para o rock alternativo. Foi nesse momento que a banda, pelo menos como ela está agora, nasceu. Mas a semente dela vem desde antes, todos os projetos que tive com meu irmão e etc.

– E de onde surgiu o nome da banda? O que ele significa pra vocês?

Maurício: Então, como eu falei lá em cima, a tecladista saiu e ficamos em três. A gente brincava muito com os nomes que a banda ia ter e um dia brincamos com o nome do baterista, que é Lucas Bacci, e usamos Lucas Bacci and The Scuba Divers, uma sátira àquelas bandas que são ”não sei quem e os não sei o que lá”.

Daniel: Tipo Lobão E Os Ronaldos.

Maurício: Sim. Só que aí o Lucas Bacci saiu (risos)! Aí sobrou The Scuba Divers, e analisando melhor depois a gente percebeu q além de sonoro, o nome era perfeito pra gente.

Daniel: Apesar de ele ter surgido meio aleatoriamente, combinou bastante, tanto pelo sentido literal, porque gostamos de ambiências submarinas, várias de nossas músicas remetem ao mar e etc, como “Fish People”, “Crabs”, “Bioluminesce”, é um tema recorrente… Ao mesmo tempo, também pelo sentido subjetivo de mergulho, você pode mergulhar no que você quiser, sentimentos, sonhos, ou no próprio som.

Iury: O fundo do mar remete a um mistério legal de ser explorado.

Daniel: Sim, exatamente. Então combinou legal pra caramba com muita coisa que a gente gosta de escrever sobre.

Iury: Sim, tem similaridade com o universo e o espaço, que são inóspitos também, o fundo do mar é uma coisa cabreira. Um scuba diver então é um explorador de coisas profundas. Temos muitas músicas que narram sonhos também e etc..

– Deixa eu voltar um pouco a algo que vocês falaram: como é ter banda com irmãos? A gente ouve que é algo 8 ou 80, ou se dão muito bem (como no AC/DC) ou é só quebra-pau (como no Oasis)…

Daniel: Acho que é ótimo ter um membro da banda que simplesmente mora comigo. Eu tenho uma ideia, já mostro pra ele, ai a gente acaba produzindo bastante coisa aqui. Na parte administrativa ajuda bastante, porque um lembra o outro das coisas pra fazer, a gente pratica músicas juntos e tal.

Maurício: Sim, e além disso não temos meias palavras um com o outro: se a gente acha q algo tá uma merda já falamos na lata. Não tem rodeio. Às vezes a verdade chateia um pouco, mas é bem melhor assim. Somos bem transparentes um com o outro pra que tudo flua da melhor forma possível.

– Quais as principais influências do som da banda?

Daniel: Herdamos bastante coisa repertório que tínhamos na banda 80’s. The Smiths, The Cure, Tears For Fears, toda essa cena post punk e new wave, Devo e tudo mais. Mas a banda começou bem na época que comecei a me ligar em alternativo, noise, indie e eu comecei a mostrar muito disso pro meu irmão. Estávamos numa fase muito Placebo e Smashing Pumpkins, eu também estava ouvindo muito Pixies, Weezer, então começamos a misturar tudo isso. Quando o Iury entrou na banda ele acabou trazendo mais 90’s pra equação. Hoje em dia meio que bebemos de várias fontes, gostamos de coisas progressivas, experimentais, tanto quanto de punk rock e coisas mais diretas.

The Scuba Divers

– Como vocês definiriam o som da banda hoje em dia?

Iury: Então, existem mais influências no nosso som…

Maurício: Meio difícil rotular.

Iury: Eu gosto muito de música dos anos noventa. Tipo, gosto muito de Nirvana.

Maurício: Acho que a forma mais fácil e chamando de rock alternativo, que é meio q um gênero extremamente amplo. É um emaranhado de muita coisa!

Iury: E quando entrei na banda eu trouxe uma música, chamada “Dazed”, que tem muito do Nirvana, propriamente.
E o Rama que entrou agora na banda também tá trazendo influências novas… Daí quando você pega tudo isso, acaba refletindo no nosso som autoral. A gente tem músicas desde um punk rock safado até umas coisas mais post-punk.

Maurício: Sim, temos coisas que vão desde o noise rock, com um pouco de grunge até músicas mais românticas, shoegaze.

Iury: E pro futuro eu não duvido nada rolar umas músicas meio progão. (Risos)

Maurício: Provavelmente vá rolar um dia. Claro que não umas suítes de 20 minutos, mas a gente segue uma linha de pensamento que é não nos rotularmos, não colocar uma cerca na nossa criatividade.

Iury: A gente tem planos de fazer umas cosias mais intrincadas, mas estamos num trabalho contínuo de estudo e pesquisa, de composição, de evolução mesmo.

Maurício: Cada dia surgem músicas mais diferentes!

– Me contem um pouco mais sobre o disco.

Daniel: Desde o dia que criamos a banda eu já comecei a compor as primeiras tracks, “Snowflake” e “Fish People”, que estão no disco. Diferente de muitas bandas, que acabam descartando o primeiro material como “experimental” ou “imaturo”, a gente gostava pra caralho de todas as músicas e ficaríamos bem tristes de não incluir elas em release oficial, sabe? Então descartamos a possibilidade de um EP, onde muitas ficariam de fora. Esse disco é meio que as primeiras tracks nossas, mesmo. É o resultado do nosso primeiro ano de composição. As tracks são bem variadas, não existia um conceito ou fio condutor, tanto que é um dos motivos da capa ser uma colagem
são vários climas que interagem entre si, mesmo que o único fio condutor seja que todas saíram do mesmo conjunto de pessoas pensando e compondo.

– A banda toda trabalhou na composição das faixas ou elas já estavam prontas antes do disco começar a ser concebido?

Iury: Depende da música!

Maurício: Provavelmente metade do CD já estava composto quando a formação que gravou foi fixada.
A maioria delas são do Daniel Teles.

Maurício: Composto em partes, digo que já existiam as músicas, mas não completamente finalizadas. Quando o Iury entrou, ele adicionou todas as guitas novas nas músicas e tal, porque no começo era um trio, não tinha arranjo pra uma segunda guitarra.

Daniel: Exatamente, então apesar de eu ser quem assina autoria da maioria das tracks, todos contribuíram de alguma fora pro resultado final.

Maurício: Então em questão de música todos trabalharam nelas, mas em letra foi mais individual.

Daniel: E as ultimas tracks compostas já foram mais como banda e menos “eu compondo no meu quarto”.

Maurício: Exatamente, como o próprio Iury falou, ele chegou com “Dazed” pra trabalharmos… Acho que “The Stalker” foi a mais colaborativa de todas: o Iury chegou com uma ideia pra guitarra, o Daniel escreveu uma letra, eu criei um baixo logo no primeiro dia e tal. Foi bem bacana o processo.

– E vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Iury: Sempre! Na verdade a gente nunca parou de compor.

Daniel: Cara, temos material pra mais uns dois discos, nunca paramos de compor material.

Maurício: Até demais (risos).

Iury: Trabalhar em novas músicas é uma constante pra gente.

Daniel: Chegamos num ponto que o ensaio semanal não dá conta de ensaiar, arranjar, finalizar tudo, então nos reunimos às quintas aqui em casa para gravar demos e etc.

Iury: Com essas demos a gente vai experimentando um monte de coisas!

Daniel: Eu, meu irmão e o Iury sempre compusemos muito, agora o Rama entrou e ele compõe também, então a tendência é ter mais material ainda!

Iury: É que a gente se expressa com a música, né, então é algo bem natural ter sempre uma música saindo! Porque não é uma questão de sentar e compor “pra um novo CD ou EP”… E sim de botar pra fora o que temos em mente sob a forma de música!

Daniel: Acho que é ótimo como banda, a gente vai se aperfeiçoando, a parte triste é que vai demorar demais pra gravarmos tudo, vai doer no coração montar a tracklist do próximo disco!

Maurício: Pois é, a gente gosta muito de 95% das músicas que fazemos, esperamos que o publico também goste quando um próximo álbum for lançado. Mal lançamos esse e já ansiamos pro próximo! (Risos)

– E vocês acreditam ainda na aceitação do formato álbum? Hoje em dia, com o streaming, muitos artistas estão apostando em singles, EPs e etc, já que as playlists estão sendo mais procuradas do que discos completos.

Iury: Nós também lançamos singles, só que a gente não reduziu nossos lançamentos a somente esse formato. Não sei, eu particularmente “acredito” no formato álbum: eu gosto de pegar um álbum pra escutar, ver a capa, dar uma olhada nas artes e tudo mais. Só que de acordo com a indústria não é tão funcional assim…

Daniel: A gente tem um background que sabemos que não é o do público comum, de apreciar o álbum como uma obra completa, conceitual e não um aglomerado de faixas.

Iury: Mas mesmo assim “acredito” também que tem muita gente que ainda curte um álbum inteiro, e que as pessoas que vão gostar do nosso som provavelmente são assim. Mas também não tem problema se ouvirem as músicas soltas – ficamos felizes que entrem em contato com o nosso trampo e que nos mandem feedback de qualquer maneira.

Daniel: Então optamos pelo disco por questões artísticas antes de levar em consideração o marketing da coisa. Ainda assim, como o Iury falou, lançamos os singles individualmente, planejamos gravar clipe, estamos nas plataformas de streaming… Ter o disco completo não impede de focar o marketing num grupo delas.

Daniel: Dá quase na mesma para fins práticos, mesmo que muitos ouvintes não passem da 5ª track, se ele curtir, ele vai ter mais.

The Scuba Divers

– Como vocês veem a cena independente hoje em dia?

Daniel: Comecei a ter mais contato com ela de uns tempos pra cá quando comecei a organizar o festival Alternapalooza, que foca em som alternativo, indie, autoral. Inicialmente eu era meio pessimista, mas muita gente começou a me procurar, eu mesmo comecei a ir atrás de coisas novas e comecei a descobrir muita gente com trampo foda interessada. Acho que com a internet a gente acabou só decentralizando a cena local, física sabe Lançamos o disco por selos do RJ, de BH. Esse tipo de cena interestadual tá ganhando bastante força. Chamamos bandas de outra cidade pra tocar aqui, eles chamam a gente, vai todo mundo se acertando e as coisas rolam.
No festival rolou banda de Recife, que doideira, sabe? Acho que a cena underground como ela geralmente é vista meio que deu uma esfriada, mas só porque ela acabou escoando para outros meios, não porque falta vontade das bandas ou as bandas não correm atrás e etc.

– Mas é utopia pensar em uma nova dominação do alternativo, como aconteceu aqui nos anos 90, com bandas como Planet Hemp e Raimundos indo até no Faustão?

Daniel: Ninguém poderia prever que o Nirvana seria um sucesso mundial, as tendências da moda são algo que como músico eu não tenho como analisar, é mais um lance de sociologia. Acredito que tentar replicar o que aconteceu não vai dar certo. Se o alternativo emergir dessa forma novamente, com certeza será de maneira espontânea e por outras razões. Vejo muita gente “vou fazer igual tal banda pra dar certo também”, mas o contexto que essas bandas estouraram era completamente outro.

Maurício: Pois é, não existe fórmula pra dar certo. Por mais que, por exemplo, você queira estourar a todo custo e sua banda comece a fazer um som comercial que está super na moda, até dessa forma não é certeza de você vingar. Acho que o lance é você ir fazendo um trabalho que faça sentido pra você, que seja sincero e que você não desista. Acho que não existe sorte na música, existe força de vontade e perseverança. E talento, claro (risos). Quando alguma oportunidade surgir, tem que estar preparado pra lidar com ela!

– Quais são os próximos passos da Scuba Divers?

Maurício: Agora com o nosso primeiro álbum lançado e com a troca de baterista, nosso objetivo é ir divulgando nosso som, estamos atrás de casas de show, divulgando a notícia pela internet. Temos ideias para videoclipes e estamos vendo meios de viabilizar a produção deles!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Maurício: Uma banda que foi uma boa surpresa pra mim foi a eliminadorzinho, de SP. A conheci em uma edição do Alternapalooza, a banda é formada por um ex-membro da Calvin Voichoski & The Hello Titos.

Daniel: Gosto do Não Ao Futebol Moderno, do gorduratrans, a Amandinho é uma banda bem divertida também.

Maurício: A eliminadorzinho tem um som shoegaze muito gostoso de ouvir, muito feeling!