“The In-Between” pavimenta a transição do hard rock para a sujeira stoner da Carbo

“The In-Between” pavimenta a transição do hard rock para a sujeira stoner da Carbo

30 de janeiro de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Com seu mais recente disco, “The In-Between”, o trio carioca Carbo deixa definitivamente para trás o hard rock puro e seus tempos com o nome Carbonara. Formada em 2011 em Volta Redonda por Leonardo Moore (guitarra e voz), Maria Mergener (baixo e voz) e Andre Leal (bateria), a banda gravou o álbum no Estúdio Jukebox, com uma força de Kleber Mariano na mixagem e masterização. A sensacional capa do trabalho é do próprio Leonardo. Neste disco, o power trio se aventura um pouco mais no campo do stoner rock, como podemos perceber já na faixa de abertura “Eletric Heritage” e no groove de “Borderline”.

Conversei com a banda sobre o álbum, os dias de hard rock sendo deixados para trás, a cena independente atual, o papel do mainstream no rock e muito mais:

– Como a banda começou?

Leonardo: A Carbo nasceu de uma outra banda que eu, o antigo baixista (Rillian) e um amigo nosso (outro André) tínhamos. Ela se chamava Carbonara e a gente fazia uns hard rocks cheio de fritação de guitarra e tal. A banda durou até 2010, acho… e aí depois eu e o Rillian decidimos gravar 4 das músicas da Carbonara pra registro, coisa póstuma mesmo, já que eu tinha que gravar a trilha pra uma animação que eu tava fazendo. Aí surgiu uma demozinha, que foi um cado elogiada. A gente acabou empolgando e resolveu continuar a banda. Como nome sempre foi uma tristeza pra gente, apenas retiramos parte do antigo nome pra ficar mais direto e batemos o martelo. Daí em diante foi caçar baterista e rever o som, que foi mudando bastante, até pelas trocas de formação que vieram a seguir. Foi marromeni issae (risos).

Maria: Quando eu entrei e o André voltou pra banda na bateria, entramos na fase mais grunge e stoner.

Leonardo: A banda já flertava com essas coisas a um tempo, mas acabou ficando mais forte nissae pela Maria curtir muito grunge também e o André ter mais influências 60/70.

– Já que falou nisso, quais as principais influências musicais da banda?

Leonardo: Bicho, isso aqui é uma miscelânea da porra (risos). A gente nunca parou na real e decidiu o tipo de som que a gente queria fazer… só fomos puxando influência… cada um das suas. Minhas, por exemplo, tem pitadas de tudo que escuto, de Paco de Lucia a Mastodon, mas algumas bandas, como Turbowolf, Queens of the Stone Age e Alice in Chains, por exemplo, certamente tem mais peso quando tô escrevendo algo.

Maria: Quando eu tento definir o som da banda, falo sempre de Alice In Chains e Queens of the Stone Age, mas também tem alguma coisa de Nirvana, Black Sabbath (entre os clássicos), e o Leo e o André trazem umas influências loucas das bandas alternativas que eles conhecem de todo canto do mundo (risos)

Leonardo: Nirvana tem um peso forte também… André pira bastante e eu fui curtindo cada vez mais (sabe como é, eu era da vibe mais hard rocker né (risos)).

– Vocês acabaram de lançar um disco. Podem de falar mais dele?

Maria: O disco é uma transição da fase hard rock da banda pra essa nova stoner/heavy rock. Tem músicas da fase antiga que foram totalmente transformadas e também músicas novas, que foram feitas pela formação atual. O álbum se chama “The In-Between”, em referência ao “entremeio” das mudanças de estilo. Tem muitos elementos de psicodelia, blues, southern e até algo de metal, todos flertando com o stoner rock que é a base da banda.

Leonardo: O álbum é um registro de uma transição… da transição da banda e de alguns momentos de um personagem implícito. Como a Maria falou, mostra muito bem a mudança de som da banda (de forma semi linear, pode-se dizer) e, como uma mixtape gravada ao longo de dias ou num tempo mais longo, vai mostrando a sequência de vibes e o caminho do personagem e tal… da alegria/escapismo até uma decadência da braba.

– O stoner rock pegou forte nas bandas novas que estão surgindo. Como vocês veem isso?

Maria: Eu acho sensacional. É uma forma de rock que tá emergindo com força e que abre espaço pra bandas que tem sons mais alternativos, sujos, psicodélicos, mas que agradam o público da mesma maneira que os estilos convencionais.

Leonardo: Stoner tá um termo um pouco tendência, né? (risos) É meio que um resgate, eu acho bacana. O único problema, pra mim é que o rótulo fica vago – são muitos stoners diferentes debaixo da mesma bandeira, fica difícil saber. O nosso puxa pra uma onda mais 90, flerta ali com o grunge e tal. O que não é um problema de verdade. O que eu mais curto é que a ascensão disso traz um bocado de atenção, até de hype mesmo, pra alguns elementos bem bacanas dos roques né, um pouco de experimentação, psicodelia, de veias temáticas e tal. Acho legal não perder isso não, faz parte do que fez do roque o que ele é hoje e eu acho essa valorização bacana. Sem contar que o stoner dá uma enaltecida na sujeira, isso muito me agrada (risos)

Carbo

– Isso que você falou eu tenho visto mesmo, um retorno da psicodelia nas bandas independentes, que antes investiam bastante em punk e em letras mais engraçadinhas. Acho que são ciclos que de tempos em tempos mudam.

Maria: Acho que é isso mesmo. Nada se cria, tudo se copia. As bandas atuais tão revivendo influências de sons mais antigos, incorporando elas nessa gama enorme de sons que se encaixam no stoner.

Leonardo: Pêndulo, né… Acho que ir contrafaz parte do que é feito no rock. Até mesmo dentro do próprio rock, rola aquilo de querer ir contra a  corrente, a tendência. Eu acho que é doido por que se diversifica e tal.

– Como vocês veem a cena independente brasileira hoje em dia?

Leonardo: Cara, eu tenho visto muita coisa foda nessa cena… eu tenho visto produção de muita qualidade, muita banda boa, muito blog e site fazendo uns trampos animais. A única coisa que eu tenho visto e que me deixa triste é que os eventos em si não estão sendo tão valorizados… Não é sempre, não é em todo lugar, mas é uma discussão que sempre rola por aqui na cidade, por exemplo. O rock feito hoje não é do mainstream, o que é muito compreensível, mas a falta de presença no próprio meio underground acaba reduzindo a participação na coisa que é mais importante no rock, que é a cultura da parada mesmo, a vivência. Rock é um gênero musical sim, mas não se limita a isso, e essa coisa de só curtir o som pelo seu fone é bem paia, bem cancerígeno pra cena toda. Não sei se é uma falta de conexão com o público, se é por uma comodidade paia, se é a falta do espetáculo ou evento que era antes, ou da própria cultura mas sei que é algo essencial e que tá meio que em falta.

Maria: Eu vejo a cena independente como uma promessa, algo que pode dar muito certo. As bandas cada vez mais se unem em coletivos, turnês colaborativas, zines, rádios e eventos de todos os tipos. Vai nascendo um sentimento de coletividade e cooperação; como todos sabem a brabeira que é ter uma banda independente no Brasil, acaba que geral vai se ajudando, subindo uns com os outros. Temos muitas bandas fodas com potencial pra rodar o país e até fora dele, e algumas já estão chegando lá.

Maria: É, falta mais animação do público pra ir aos shows underground.

Carbo

– E como se resolve isso? Como fazer as pessoas “se animarem” e as bandas se unirem? Como fazer essa cena crescer?

Maria: Na minha opinião, parte da solução tá sendo via internet. As bandas divulgam às vezes exclusivamente online os shows e mesmo assim conseguem público (quando conseguem). Pras bandas, a ideia é ter um material interessante e saber divulgá-lo. Pro público, a mensagem tem que ser de incentivo. O problema não é falta de dinheiro, porque tem até show de graça por aí – o problema é a preguiça. Mas os fãs de sertanejo e funk lotam as casas; os roqueiros tem que se mobilizar mais. Às vezes, pagar 10 reais pra entrar em um show de uma banda independente não vai ser um esforço muito grande pro cara que vai, mas pra banda, qualquer cabeça a mais sendo batida pelo nosso som já faz a diferença.

Leonardo: Pergunta complicada (risos), mas acho que é trabalhando bem mesmo, dialogando e sendo transparente e autêntico no trabalho todo, saca? É um processo. Eu sou otimista quanto ao futuro da cena, sou otimista quanto ao futuro do gênero. Acho que tem muita coisa boa a ser oferecida e que esse trabalho consegue sim o seu espaço. Claro que rola uma parte de ‘reeducar’ talvez, ou até mesmo das bandas descobrirem linguagens novas…sei lá. Mas quando o discurso da banda se afina com o que o público quer falar e não tem voz, isso rola lindamente. É se sentir representado. Acho que isso já está acontecendo, acho que a ascensão do termo stoner, o underground fervilhando e a atmosférica mais enérgica são parte disso já.

– Voltando: o hard rock que vocês faziam antes ainda tem espaço no som da banda? O Carbonara ainda vive no Carbo?

Leonardo: Bicho, acho que eu não vou conseguir me livrar disso nunca. Eu curto mesmo, comecei a ver e ouvir rock com Guns, por um primo meu. E parte imensa do que eu toco e curto esbarrou ali de alguma forma. Dá pra ver quando eu faço um solim, dá pra ver nuns riffs e no vocal… acho que isso não vai sair muito da gente não. Pelo menos, de mim, eu duvido muito que saia completamente… afinal sempre vai tocar um Bon Jovi e você vai estar bebaço pra cantar até ficar rouco (risos).

– Como é o processo de composição do Carbo?

Maria: Basicamente, alguém chega com um riff e uma letra, ou só uma base instrumental, e vamos fazendo jams até a música ficar completa. Aí, como diz o André, chega o Leo com as ideias dele e muda tudo até estar completamente diferente da música original (risos). Quando a música é minha, caso de Heavy Rain, eu levo a música e só construímos o arranjo. Mas se o Leo que levou a base, demooooora……. (risos)

Leonardo: (risos) Eu nem refuto, que sou chataço mesmo. Reviso letra e arranjos inúmeras vezes.

Andre: Às vezes fica melhor, às vezes pior (risos). Eu geralmente associo um riff a uma ideia e construo o resto da música e letra a partir dessa ideia ou tema mesmo.

Leonardo: Andre, sempre melhor. SEMPRE. SEM PRE. Só dá mais trabalho, muito mais (risos).

– Vocês acham que a presença da Mtv Brasil antiga e das rádios rock que rolavam antigamente fazem falta para a cena independente? Faltam veículos mais “mainstream” que deem força?

Leonardo: Até certo ponto faz falta sim, acho que principalmente na produção das coisas, mas elas foram embora por não serem adaptáveis né… Afinal de contas, o pessoal passou a consumir cada vez menos rádio e TV pra ficar cada vez mais nas interwebs. Aqui o DIY tem mais vez…ele só encontra um mar de informação (risos). Talvez com veículos desse tipo a cena conseguisse mais destaque sim, não ser tão marginalizada e ia ser doido. Contanto que pra isso a cena não precisasse perder a essência, não precisasse se desfazer do seu jeito de se expressar. Paia demais ocê ter que não xingar numa música de protesto pra ser trilha de um filme ou novela, né…

– Quais os próximos passos da banda?

Maria: Estamos com planos pra shows e mini tours de lançamento do CD, passar um tempo divulgando o “The In-Between”, esse novo trabalho, mas na real, já temos gás pra voltar a compor novos sons hahaha então singles e segundo CD com certeza estão no futuro da banda.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Leonardo: Começa você, Maria… você que é mais moderninha hipster (risos).

Maria: Cara, indico algumas da cena do RJ, que é onde eu atualmente moro, tipo Stereophant, Vênus Café e Barizon.

Leonardo: Piro em Barizon…show deles é animal…sassinhora!

Andre: Eu curto demais a Muff Burn Grace de SP, Cattarse de Porto Alegre, Hierofante de SP, Jimmy Chong do Rio… Tudo dentro do nosso nicho!

Leonardo: Tenho escutado demais Colour for Shane, Munoz, My Magical Glowing Lens, Graveyard, Deaf Kids, Sick Visions, 5,6,7,8’s, Cancer Bats, Kylesa, Cantrell, Queens of the Stone Age e o primeiro do Turbowolf, sempre mistureba da porra.