The Hangovern aposta que o velho e bom classic rock ainda pode ser surpreendente em seu EP

The Hangovern aposta que o velho e bom classic rock ainda pode ser surpreendente em seu EP

7 de março de 2016 0 Por João Pedro Ramos

O quarteto The Hangovern tem os pés bem fincados nas raízes classic rock de bandas como Led Zeppelin. Na visão de Leandro Dart (vocal), Marcelo Frey (guitarra), Rafael Romano (baixo) e Leandro DeVilla (bateria), o rock ainda pode ser surpreendente utilizando o mesmo formato clássico que atraiu multidões para estádios nos anos 70.

Com um EP na bagagem, elogiado por Cláudio Cesar Dias Batista, uma das peças do surgimento d’Os Mutantes, o grupo pretende não tirar o pé da estrada em 2016. “Nossa vontade maior é fazer muitos shows. Em várias cidades. Estamos lutando para isso. Mas o grande objetivo é gravar um single com duas músicas, que já estão prontas”, revela Leandro.

Conversei com o vocalista sobre sua carreira, a paixão etílica do grupo e o motivo das letras em português não estarem mais em alta no rock nacional hoje em dia:

– Como surgiu a banda?
A The Hangovern nasceu em 2012. Foi um encontro entre mim, Leandro Dart, e o guitarrista Marcelo Frey. Coisa do destino. De cara, a gente se deu bem e, melhor ainda, começamos a compor com incrível sinergia. Um complementa o outra. Depois, vieram o Leandro DeVilla (batera) e o Rafael Romano (baixo). Mas a cozinha atual da banda tem o Rafael Sianno (baixo) e Don Bronzatto (bateria). Mas os dois tiveram que sair por questões pessoais. Tudo na paz.

– E o nome Hangovern, de onde veio?
Como bons pés de cana que somos, o termo ressaca sempre foi muito recorrente… E eu quis fazer uma brincadeira com a palavra hangover (ressaca em inglês). Mas como este também é o nome original do filme “Se Beber Não Case”, veio a ideia de juntar com To Govern. Logo, The Hangovern quer dizer uma ressaca governamental, que é o que temos hoje em boa parte do mundo. Vivemos uma grande ressaca governamental.

– Ou seja, muito da banda é baseado no álcool, certo?
(Risos) É uma “inconsequência” natural do músico, da boemia, das noites de rock. Mas álcool é pra celebrar! É muito bom erguer uma taça e brindar! Somos movidos a ampolas de Heineken e goladas de Jack Daniels. Menos o Don Bronzatto, que prefere ser o motorista da rodada vitalício.

– Me fale mais sobre o primeiro disco da banda.
A melhor coisa do EP é que ele foi gravado muito rápido. A gente sabia o que queria, sabíamos exatamente que som alcançar. O resultado dele foi muito satisfatório. Lógico que poderíamos ter ido além, mas o fator money é sempre um complicador. Mas a certeza de que foi um trabalho bem-sucedido se dá na surpresa positiva que ele causa nas pessoas. É um trabalho muito honesto com o rock n’ roll. E o bom ouvinte reconhece isso. Nosso maior prêmio com esse EP foi, com certeza, uma resenha feita, de forma espontânea, pelo CCDB (Cláudio Cesar Dias Batista), fundador dos Mutantes, ao lado dos irmãos Arnaldo e Sergio. Foram elogios vibrantes. Com o aval de um mestre, é bom ter a certeza de que estamos no caminho certo.

The Hangovern

– Quais são as maiores influências musicais da banda?
Essa a gente responde com gosto:
82% de Led Zeppelin
8% de Stones
3% de Black Sabbath
3% de Elvis
3% de Black Crowes
0,9 % de Uriah Heep
0,1% de Rush (para o Rafael Sianno abrir um sorriso)

– Como vocês se sentem quanto a ser uma banda independente hoje em dia no Brasil?
O Brasil é um país com muitos roqueiros. Gente que ama o rock. Mas a nossa mídia, gente com um pensamento ultrapassado que ainda dá as cartas, marginalizou o rock. Resultado: Pode-se dizer que, literalmente, 99,9% do rock é independente no Brasil. A gente se sente em um “não-lugar”. A The Hangovern existe e sobrevive graças ao meio digital, onde a cultura de audição e relação com as bandas é diferente do espaço tradicional. Lógico que seria lindo ter a experiência do passado, com música tocando na rádio, clipe na MTV, festivais na TV aberta, mas isso, como falei, é passado. A nós, que nos expressamos em língua inglesa, há ainda a possibilidade de interagir com um público maior. Mas para um banda, hoje, conseguir algo, ela precisa de um capital pra investir forte em divulgação. Sem isso, fica muito difícil botar a cara para fora do bueiro.

– E você acha que muitas bandas desistiram de fazer rock em português?
Não. Acho que as pessoas estão desistindo em geral. Desistindo de fazer algo autêntico. A necessidade de agradar, de ser aceito a qualquer custo, de fazer parte de uma cena, faz com que a ideia de produto sobreponha a assinatura artística. Eu, Leandro Dart, não sou xiita, nem hipócrita. A música é uma manufatura, tem que ser vendida (e não ter um aspecto de música feita para vender). Essa é a diferença: a venda ser consequência da qualidade. A verdade é que faltam boas letras em português. Faltam os poetas do rock. A língua portuguesa é linda, riquíssima. Muita gente tem maltratado a língua. Nós escolhemos o inglês porque soa melhor com a nossa sonoridade. Somente por isso. A língua inglesa ajuda muito na questão melódica.

– Mas você quis dizer que as bandas que cantam em inglês não são autênticas?
Boa sinuca (risos). Não quis dizer que cantar em inglês é uma fuga para maquiar a falta de criatividade. Até porque é mais difícil ter uma boa pronúncia, soar natural, do que simplesmente escrever meia dúzia de groselhas que rimam em inglês. Eu defino a autenticidade por um único coeficiente: O AMOR. Eu não acredito muito na reinvenção do rock. O que poderia vir de novo? Estou louco para estar errado, mas essa esperança não me move. Logo, eu acredito nas bandas que tocam com a amor, naquelas em que você percebe a alegria, a satisfação em botar a cara pra bater, a irreverência e um certo descaso com a opinião pública. Ser autêntico hoje, pra mim, é mais do que ser de vanguarda, mas ter a honestidade artesanal com aquilo o que você produz.

The Hangovern

– Como é o processo criativo de vocês?
A nossa fábrica tem uma mecânica simples e eficiente. O Marcelo Frey (guitarrista) é a força motriz da The Hangovern. Ele traz riffs maravilhosos e muitas vezes, também, músicas completas, inclusive com letras. Eu entro mais com a parte das letras e condução harmônica das músicas. O Sianno (baixista) é uma espécie de maestro, quando ele tem ajudado muito a conceituar os arranjos, além de preencher muito bem as músicas com suas linhas de baixo. E o Don Bronzatto é Keith Moon que sempre sonhamos. O cara que detona, que fá ritmo vibrante, que bota o som pra frente. É mais ou menos assim (risos).

– Quais são os próximos passos da banda em 2016?
Nossa vontade maior é fazer muitos shows. Em várias cidades. Estamos lutando para isso. Mas o grande objetivo é gravar um single com duas músicas, que já estão prontas. Músicas que são ainda melhores que as cinco do EP. O que podemos adiantar é que são inspiradas em Black Sabbath e The Who.

– E pra finalizar, recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!
Com certeza, da nova geração, Rival Sons, Alabama Shakes, Far From Alaska (direto do Brasil) e Black Bonzo (Suécia). Mas a verdade é que a gente escuta muito som das antigas. Estamos em direção a 1920 (risos). Também Orchid, Graveyard, Ray Lamontagne e Sharon Jones!