Texano de alma europeia: Scott Walker – “Scott 4” (1969)

Texano de alma europeia: Scott Walker – “Scott 4” (1969)

29 de junho de 2017 2 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se trata de música pop, poucas vezes a gente vai se deparar com algo tão melodioso quanto essa obra prima do excêntrico Scott Walker, um dos cantores/compositores mais enigmáticos de seu tempo. Seu quarto disco é um fiel retrato de beleza sonora, saturado de dramaticidade, lirismo, arranjos e uma atmosfera quase erudita. Por tanto cuidado com esses detalhes, as canções beiram a periferia da cafonice, há nelas tudo aquilo que poderia transformar a sonoridade em algo piegas, mas é aí que entra a genialidade de Walker: ele sabe ser empolado e soar perfeitamente adequado.

A qualidade da gravação é de impressionar qualquer um interessado nas possibilidades do pop. São dez músicas exemplares, de uma exposição melódica sem par.

Para situar o momento do álbum, é importante citar a prolífera carreira que o cantor vinha trilhando desde 19??, primeiramente com o Walker Brothers. Apesar de serem dos Estados Unidos, o grupo estourou mesmo no Reino Unido, chegando até mesmo a ter o maior fã clube oficial da Inglaterra, por volta de 1966. A voz floreada de barítono e seu ar de galã fez de Scott Walker um ídolo teen, embora fosse um cara muito tímido, recluso, sempre mais interessado no lado intelectual das coisas. Existencialista confesso (ávido leitor de Sartre e apreciador do cinema de Ingmar Bergman), sempre teve como ponto de partida em sua música a possibilidade de agregar referências que vinham de fora da esfera musical.

Problemas internos, a depressão de Scott e a guinada psicodélica puseram um ponto final no Walker Brothers. Livre das exigências do grupo, em 1967 iniciou as composições de seu primeiro trabalho solo, fortemente influenciado pelo belga Jacques Brel e climas orquestrais, algo que iria marcar com força os quatro primeiros discos de Walker. A aceitação foi imediata, e alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas, ficando atrás somente do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”.

Em seguida vieram mais dois excelentes álbuns, Scott 2 e Scott 3″. Curiosamente, na medida em que o compositor vinha refinando a qualidade de seus lançamentos, o distanciamento com o público se tornava mais evidente, o que de certa forma deve ter sido um alívio para ele, que sempre detestou os holofotes. Em 1969 foi lançada sua obra-prima, Scott 4″, que é uma espécie de síntese amadurecida dos três LPs anteriores, um pouco menos pomposo, porém permeado de composições intensas e interessante de cabo a rabo.

A começar pela épica “The Seventh Seal”, faixa claramente inspirada no filme O Sétimo Selo de Bergman e na atmosfera das lendárias trilhas sonoras estilo western do italiano Ennio Morricone.

Uma levada que lembra a vibe das músicas de Serge Gainsbourg embala “The Old Man`s Back Again”. As apaixonadas opiniões políticas de esquerda de Scott Walker não eram segredo quando essa faixa foi gravada, mas nesse caso ele critica o lado tirano do governo esquerdista. O subtítulo, “Dedicated to the Neo-Stalinist Regime” refere-se especificamente ao governo repressivo checo que derrubou a era da Primavera de Praga em 1968 com ajuda militar soviética. O “velho” seria o fantasma de Stalin.

“Boy Child” é uma música sem par, um daqueles casos irretocáveis de beleza. A sonoridade tem essa qualidade capaz de impressionar. Talvez seja a melhor faixa de todo o vasto catálogo de Scott Walker.

“Angels Of Ashes” e “On Your Own Again” esbanjam estilo. A sensação é a de que você está em uma outra época, num ambiente suntuoso, cheio de detalhes. Pode ser que isso acabe incomodando algumas pessoas, porque de fato Walker propõe (e consegue) elevar a estética do estado de beleza ao limite do pop.

O cantor brinca com as referências e faz um mundo inteiramente pessoal. Em “Get Behind Me” visita o gospel, já em “Rhymes Of Goodbye” redefine uma proposta country, enquanto que “Hero of The War” há um flerte com a levada primitiva do pioneiro Bo Diddley.

“Duchess” e “World’s Strongest Man” mostram como Walker vinha lapidando seu modo de soar acessível, aliviando consideravelmente a afetação vocal que antes se ouvia com frequência nos primeiros trabalhos.

“Scott 4” não foi um sucesso. Demorou um bom tempo para enxergar esse LP com a devida atenção. Com o passar dos anos, Scott Walker se tornou cada vez mais obscuro, recluso e experimental, tão avant garde a ponto de lançar álbuns com músicas de mais de 20 minutos de experimentos, como o ótimo Bish Bosch”, de 2012. Vale dizer que essa fase é igualmente interessante.

Atualmente houve uma renovação no interesse em torno do lendário texano com alma de europeu. Em 2014 Lançou com o Sunn O))) o Soused”, um ótimo disco, muito aclamado pela crítica e pelo público. E ao se deparar com esses trabalhos mais recentes e depois rever o contexto de “Scott 4″, fica uma pergunta muito difícil de responder: quem, além dele, conseguiu passear por essas vertentes com esse nível de qualidade?