Com uma pequena ajuda dos amigos: David Crosby – “If I Could Only Remember My Name” (1971)

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Todo mundo que curte música pra valer tem uma lista mental daqueles discos considerados “xodó”. Normalmente nem são aqueles mais badalados de sempre, os mais citados em publicações, mas ainda assim aquilo tem um valor quase que inestimável. Não é assim? Poderia dizer que If I Could Only Remember My Name” (1971), de David Crosby, é um dos meus queridos.

Motivos não faltam para que esse LP não seja no mínimo curioso. Primeiro porque ele é o primeiro trabalho solo do músico (e que só lançaria seu sucessor em 1989); segundo porque não é bem um trabalho solo, levando em consideração o time avassalador que toca no disco; terceiro porque Crosby sempre obteve destaque sendo um cantor de harmonia, e nesse caso podemos ver como seria se ele tivesse seguido um caminho de frontman.

Resultado de imagem para david crosby 1971Outra coisa que deve ser ressaltada é que David Crosby, mesmo sendo um coadjuvante inato, é uma das pessoas mais importantes da história do rock. Um caso raríssimo de alguém que sempre esteve por perto de projetos fantásticos (vide The Byrds e Crosby, Stills, Nash & Young) e que manteve sua visibilidade com o carisma de sua figura, seu discurso e, claro, com o dom que é sua voz.

Embora ele soe incrível como sempre, dá para dizer que neste trabalho o instrumental feito pelos convidados divide a cena. Poucas vezes alguém conseguiu juntar tantos nomes relevantes de uma mesma cena em um disco. Os participantes são: Graham Nash e Neil Young (Crosby, Stills, Nash & Young); Jerry Garcia, Phil Lesh, Bill Kreutzmann e Mickey Hart (Grateful Dead); Joni Mitchell; Grace Slick, Paul Kantner, Jack Casady e Jorma Kaukonen (Jefferson Airplane); Gregg Hollie e Michael Shrieve (Santana); David Freiberg (Quicksilver Mesenger Service) e Laura Allan.

Mesmo que o título remeta à psicodelia e músicas chapadas de ácido, “If I Could Only Remember My Name” é um disco sério. Crosby tem esse ar de seriedade em seu som. Sua música sempre tem conteúdo e é repleta de sentimento verdadeiro, o que faz dele um dos mais notáveis e respeitados vocalistas e compositores de seu tempo. Aqui o clima é de maturidade hippie, como se essa galera tivesse passado (e passou mesmo) por muitas experiências transformadoras, mesmo que o folk ingênuo que abra a tracklist, “Music Is Love”, esteja aí para quase me desmentir.

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Mas sim, Crosby prefere seguir uma linha introspectiva e emocional, mais lúcida. Um exemplo disso é a belíssima “Traction in The Rain”. Ali percebe-se ecos de The Byrds, mas com uma roupagem adulta. Arrisco dizer que o disco está nesse grupo de trabalhos da mesma época que moldaram o que a gente chama hoje de adult compemporary, ou “música de pai”, se preferir. Mas neste caso não há maneirismos e nem cafonice do que essa vertente se tornou, é só coisa fina e de primeira.

A delicadeza é o tom de quase todo o disco, mas em “Cowboy Movie” Crosby destila a raiva de tempos turbulentos e canta uma letra cheia de críticas, embalada por uma levada improvisada por alguns dos membros do Grateful Dead. Jerry Garcia faz belos contrapontos com sua guitarra, aliás, sua presença é bastante forte no trabalho todo, em várias faixas percebe-se sua presença.

Em “Tamalpais High (At About 3)” David Crosby prova ser um monstro nas harmonias. Uma canção sem letra, apenas vocalização, que ele faz questão de dividir com seu parceiro Graham Nash. Essa combinação de alto nível de composição com o ar sério e misterioso me remete ao Milton Nascimento de Milagre dos Peixes”. Embora não se pareçam em quase nada, esse respeito pelos vocais é semelhante.

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“Laughing” cumpre seu papel de melhor canção do álbum. É absurdamente linda. Folk rock sem falhas, feito por quem ajudou a construir o que de fato é esse som. Uma aula de como soar bem. “What Are Their Names” é por si só um marco obscuro da história do rock. Isso porque está praticamente todas aquelas pessoas que citei antes fazendo um coro, o que é algo curioso de ouvir. Além disso, a faixa conta com uma trama interessante de guitarras feita por Garcia e Neil Young.

Resultado de imagem para david crosby nash 1971Ponto alto do disco, “Song with No Words (Tree with No Leaves)”, como o próprio nome já diz, traz uma melodia sem palavras. É outra obra-prima. O clima que ela transmite talvez seja único; equilíbrio perfeito entre delicadeza, emoção, melodia, harmonia e improviso. Ouça esse disco pelo menos por esta música.

A versão para a tradicional “Orleans” remete aos melhores momentos do Crosby, Stills, Nash & Young, porém construído por uma única pessoa. Já obscura “I’d Swear There Was Somebody Here” é um experimento vocal dedicado à sua namorada, que havia falecido. Talvez esse seja o mote que transforma esse disco tão introspectivo.

Na época do lançamento o disco foi bem recebido pela crítica e público, conseguindo a 12ª posição na Billboard e vendendo mais de 500 mil cópias. Apesar disso, o disco foi se tornando uma lenda cult, talvez pelo pouco apelo comercial. Porém com o passar dos anos a obra foi revisitada e mencionada por artistas, até mesmo o jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, talvez o mais famoso periódico católico, colocou este álbum na segunda colocação em uma lista dos “Melhores Álbuns Pop de Todos os Tempos”. Aí você percebe como esse disco realmente agrada públicos distintos.

David Crosby merece ser escutado com mais atenção, e “If I Could Only Remember My Name” é um retrato fiel do que ele significa para a música pop em geral. Obra fundamental.

Quando a fé é genial – John Coltrane – “A Love Supreme” (1965)

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John Coltrane

Poucos trabalhos musicais conseguiram unir a devoção espiritual e uma proposta estética distinta com tanto êxito. É o caso de “A Love Supreme” (1965), talvez o grande disco de jazz da década de 1960.

A afirmação sonora do quarteto formado por John Coltrane, McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria) é de uma qualidade brutal, capaz de nos fazer refletir, meditar, sorrir e vibrar. Pensa aí, quantos discos você já escutou e sentiu várias coisas ao mesmo tempo? Esses poucos são sempre uma preciosidade particular, embora provavelmente muita gente concorde comigo quando falo desse disco, especificamente. Este é um LP obrigatório. Não há restrições quando se trata de “A Love Supreme”.

Tocando com Miles Davis em um grupo fantástico e se apresentando noite após noite, os abusos com álcool e heroína começaram a prejudicar sua vida. A tal ponto que em 1957 chegou a ser demitido pelo próprio Miles. A partir daí, iniciou sua batalha contra o vício que devastava sua vida pessoal e profissional. Nesse mesmo ano experimentou um “despertar espiritual”, que segundo ele o conduziu a uma vida mais plena. Voltou para o trabalho com Miles um período (a tempo de produzir aquele que talvez seja o ponto máximo do jazz até hoje: “Kind Of Blue”), mas no início de 1960 sai de uma vez para formar seu próprio grupo. E deste contexto saiu sua maior obra, cinco anos depois.

Além do talento praticamente único para tocar o sax tenor, John Coltrane também é conhecido pela sua peculiar espiritualidade. “Eu acredito em todas as religiões”, dizia.  A relação de Coltrane com temas relacionados é tão forte que até mesmo existe uma seita, a Saint John Coltrane African Orthodox Church. É sério. O reverendo Franzo Wayne King é o pastor da congregação que mistura liturgia Africana com frases e músicas do saxofonista. “A Love Supreme” é uma espécie de “bíblia” para os membros, e tratam o LP como um objeto de estudo e veículo para a devoção. Isso tem algum nexo?

Bem, dizem que estava na ideia de concepção de “A Love Supreme” Deus e o físico alemão Albert Einstein, cujo trabalho John sempre manteve forte interesse. Unindo a ideia de uma força maior criadora, esoterismo e as infinitas possibilidades da Matemática, Coltrane tratou de fazer sua magnum opus: uma ode à sua fé no amor e em Deus.

Esse verdadeiro monumento é construído em quatro partes: “Acknowledgement”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”. São nesses 33 minutos, gravados em uma única sessão em 9 de dezembro de 1964, que John conseguiu o mais perfeito diálogo entre uma força sagrada e sua criatura, empregando a música como esse idioma tão misterioso. Quebras de tempo, improvisação, fraseados que beiram a fala, sutileza e potência… Não cabem adjetivos para o que fez aquele quarteto.

Em “Acknowledgement” Coltrane experimenta empregar a voz, entoando o nome do álbum como uma espécie de mantra, enquanto a banda entra em uma atmosfera cheia de groove latino. A voz do sax é apaixonada, determinada, de modo que parece um pastor pregando um evangelho. Pode parecer viagem, mas se você pensar que Coltrane tinha em mente justamente tocar sobre o “amor supremo”, me parece bastante razoável essa perspectiva.

As cores da música árabe (o que não é necessariamente coincidência, pois sabe-se que John flertou com o islamismo fortemente) dão forma ao belo desenho que é “Resolution”. A banda brilha com uma intensidade absurda. É uma música sem falhas, executada em sua perfeição. Ninguém poderia fazer melhor que aquelas quatro pessoas. Esse tempero do Oriente Médio com o escuro que o jazz evoca faz do tema irresistível. É como um riff de rock, pode morar na sua cabeça por dias.

“Pursuance” já começa com um solo destruidor de bateria e descamba para o virtuosismo sem soar excessivo. O tempo é rápido, a força é total e aqui o sax de Coltrane soa como o fluxo de consciência, mas de alguém que sabe pra onde ir. Sua dicção através de seu instrumento é fantástica. Destaque também para o belo solo de baixo que encerra a faixa.

Eis que chega “Psalm”, que talvez seja a mais refinada demonstração artística de uma fé pessoal, livre de imagens pré-concebidas. De fato, a faixa que encerra “A Love Supreme” é um arranjo baseado em um poema que Coltrane fez para Deus e imprimiu no álbum. Ele toca quase exatamente cada nota para cada sílaba do poema, baseando suas frases nas palavras.

Eis aqui o poema. É de chorar:

Depois disso, o que mais precisa ser dito? Ouça já esse gênio!

De 60 anos pra cá: álbuns essenciais de 58, 68, 78, 88, 98 e 2008

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Quem diria, um ano da coluna Bolachas Finas! Como estamos em clima de ~comemoração~ aqui vai um texto um pouco diferente. Dessa vez falo um pouco sobre discos relevantes de 1958, 1968, 1978, 1988, 1998 e 2008. Que tal?

Enfim… De sessenta anos pra cá muita coisa mudou e muita coisa perdurou. Sim, são detalhes aparentemente óbvios, mas que enriquecem ainda mais a qualidade do velho e a proposta do novo. Quero dizer, o seu eu de 1958 poderia escutar o então moderno Lady In Satin” de Billie Holiday e se apaixonar (ou não) pelas canções, mas naquele momento você não teria como afirmar que aquele disco é um dos maiores monumentos da história do jazz cantado. E hoje podemos perceber esse grande álbum resvalando em uma enxurrada de coisas, de Aretha Franklin a Janis Joplin e Amy Winehouse.

O mesmo aconteceu com 2008, ou 1998… O que uma obra como “Moon Safari” do Air consegue comunicar? Será que artistas revisitarão aquele som daqui 30 anos, olhando aquilo como algo cheio de pioneirismo? Existem coisas que só o tempo é capaz de avaliar.

Pois bem, aqui vai uma breve lista com alguns desses “discos especiais”:

“Canção do Amor Demais” – Elizete Cardoso (1958)

É “apenas” o marco zero da bossa nova. Composições de Vinicius de Moraes e Tom Jobim com o revolucionário violão de João Gilberto, tudo isso pela primeira vez… Não é pouca coisa! A “Santíssima Trindade” do gênero faz uma cama generosa para a potente e dramática voz de Elizete Cardoso, que com sua pegada de “era do rádio” manda muito bem em todas as 13 faixas. Canção do Amor Demais” é um disco fundamental, daqueles que você precisa saber da existência. O álbum não fez sucesso logo de cara, a prensagem inicial foi de 2 mil cópias, e sua grandeza só foi reconhecida quando a bossa nova explodiu fora do Brasil. Isso precisa ser preservado no imaginário popular brasileiro. Destaque para “Chega de Saudade”, “As Praias Desertas” e “Canção do Amor Demais”.

“Astral Weeks” – Van Morrison (1968)

O segundo LP da carreira-solo do irlandês Van Morrison é tido até hoje como um dos melhores álbuns de todos os tempos. Logo é fácil notar a potência artística do trabalho: uma mistura de folk com a improvisação do jazz e arranjos inventivos. O jeito de Morrison cantar, que une gospel, soul e pop (meu Deus, sempre me lembra demais Mick Jagger!), é emocionante, perfeito para aquela atmosfera meio relaxada. Astral Weeks” foi concebido em apenas três sessões, o que endossa o tom de improviso da base instrumental. Apesar de ser um trabalho de um artista essencialmente inclinado para a veia singer/songwriter, o resultado sonoro é impressionante, e toda a banda consegue destaque. Esse é pra ouvir muitas vezes. Destaque para “Astral Weeks”, “Sweet Thing” e “Cyprus Avenue”, que assim como “Madame George” Morrison empregou a técnica literária do fluxo de consciência para produzir a letra.

“The Last Waltz” – The Band (1978)

Considerado por muita gente como um dos espetáculos mais venerados da história do rock, o último show da canadense The Band foi muito mais que isso. Foram mais de quatro horas de música, com direito a convidados como Paul Butterfield, Eric Clapton, Neil Diamond, Bob Dylan, Emmylou Harris, Ronnie Hawkins, Dr. John, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters, Ronnie Wood e Neil Young. O concerto foi tão chique que foi servido um verdadeiro banquete para as 5 mil pessoas presentes no Winterland Ballroom, em São Francisco (era Dia de Ação de Graças). Poetas declamando e baile dançante também fizeram parte do roteiro. Sobre a música… olha, realmente esse show é uma covardia. O repertório de primeira linha passa por toda a carreira do grupo e ainda visita versões dos artistas convidados. Imperdível e obra de arte fundamental para entender a realeza que já foi o rock ‘n’ roll. Martin Scorsese transformou a noite num dos documentários de música mais aclamados do cinema, que por sinal é realmente lindo. Destaque para “Up on Cripple Creek”, “Mannish Boy”, “Helpless”, “The Night They Drove Old Dixie Down” e “I Shall Be Released”.

“Daydream Nation” – Sonic Youth (1988)     

         

Mais de meio mundo passou por esse disco para fazer o som da década posterior. Talvez o mais importante LP do Sonic Youth, Daydream Nation” de certa forma sedimentou a proposta da banda e elevou seu som inventivo e ruidoso em status de obra-prima. Todas as faixas são relevantes, e ali é fácil notar algo estranhamente acessível, bizarro e ao mesmo tempo (até então) novo. O casamento das guitarras de Lee Ranaldo e Thurston Moore impressiona até hoje, e o carisma do vocal falado de Kim Gordon cai como uma luva, muito embora no fundo eu sempre esteja inclinado a acreditar que o ritmo sólido de Steve Shelley (aliado ao baixo constante de Kim) seja o segredo dessa banda incrível. Em Sister” (1987) o SY apontava para essa sonoridade, porém em “Daydream Nation” a afirmação musical é mais contundente e segura. Discaço que parece jamais envelhecer. Destaque para “Teen Age Riot”, “The Sprawl” e “’Cross The Breeze”.

“The Miseducation of Lauryn Hill” – Lauryn Hill (1998)

Esse enorme sucesso de público e crítica da ex-vocalista do influente grupo de rap Fugees ainda soa incrível e já é um trabalho de indiscutível importância. A mistura de hip hop, r&b, reggae, gospel e soul rendeu uma enxurrada de Grammys (cinco no total) e, até hoje, oito milhões de cópias vendidas somente nos Estados Unidos. Hill conseguiu com sua salada musical mostrar os limites do rap e como esse gênero consegue ser tão flexível e ainda assim íntegro, algo como o Exile on Main St.” da década de 1990: uma reverência aos gêneros norte-americanos mais tradicionais em uma roupagem adequada ao seu tempo. É impressionante pensar que agora esse álbum já tem 20 anos! Mais um que você precisa ter na estante ou no celular. Destaque para “Everything Is Everything”, “Lost Ones” e “To Zion”.

“Fleet Foxes” – Fleet Foxes (2008)

Revisitar o passado foi a tônica da década de 2000. Enquanto uma penca de grupos persistia até saturar no post-punk e proto-punk até mais ou menos 2007, o Fleet Foxes veio com essa pegada completamente “fora da curva”. Essa atmosfera de Crosby, Stills & Nash com Fairport Convention, quem diria, deu tão certo a ponto de chamar atenção desse público reticente em relação ao folk rock. A verdade é que a banda faz um som verdadeiramente bonito, e é difícil não respeitar esse tipo de coisa. Robin Pecknold, líder da banda, além de talentoso vocalista é um compositor de mão cheia. Melodias e harmonias memoráveis, algo não tão explorado de uns anos pra cá, e sim, isso já é um incrível mérito. Revisitar é bom, mas poucos fazem isso com o devido respeito e capacidade. Seria essa obra aspirante a clássico? Destaque para “White Winter Hymnal”, “Your Protector” e “Quiet Houses”.

A raiz da questão: Buddy Holly & The Crickets – The “Chirping” Crickets (1957)

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Ele está impregnado em nossas vidas desde que apareceu. A gente pode nem sempre notar sua presença, mas quando escutamos maneirismos no vocal de algum cantor ou cantora ocidental lá está Buddy Holly, fazendo escola com seu modo soluçado de apimentar e uma canção. Quando alguém empenha a função de frontman e guitarrista, lá está ele também, indiretamente evocado. Quando você observa as vitrines das lojas de instrumentos musicais e se depara quase que fatalmente com uma guitarra Stratocaster, lá está ele também, homenageado de modo subliminar. Ou então se você tem esse visual meio desajustado e nerd e acha que tem algo a dizer por meio das suas canções, é muito provável que seu cérebro esbarrou em algum momento nesse sujeito.

Bastou um ano e meio para que o texano Buddy Holly se tornasse um dos maiores compositores da história da música do século XX. Tratando-se de rock, talvez tal feito tenha se repetido apenas uma vez, com o surgimento dos Sex Pistols duas décadas depois.

Buddy Holly também foi um dos pioneiros no uso de técnicas de gravação alternativas, como a dobra de vocal, palhetadas em primeiro plano e uso controlado de reverb (vide como o efeito entra e sai da bateria em “Peggy Sue”). Outra coisa bastante notável é que ele ia um pouco além da fórmula do blues, ou seja, às vezes inseria um acorde inusitado na música que acabava fazendo toda diferença.

Enfim, pensando nisso vamos falar do único e sensacional álbum de Buddy Holly & The Crickets: “The “Chirping” Crickets”. Lançado em novembro de 1957, esse monumento do rock é uma espécie de síntese do que esse gênero significa. “The “Chirping” Crickets” está para a música pop como A Primeira Noite de Um Homem” (1967) está para a Nova Hollywood. Assim como o filme, tudo o que você precisa saber para entender o contexto está lá muito bem inserido. Alguém pode argumentar dizendo que o rock mudou muito, a ponto de bandas muitas vezes não terem nenhum traço dos pioneiros… Olha, sem caras como Holly, Sigur Rós não existiria nem em pensamento, pois não teria My Bloody Valentine, que por sua vez não teria assimilado Brian Eno, que por sua vez não passaria por Velvet Underground, tampouco por Bob Dylan, que por sua vez não seria quem foi sem Buddy Holly.

Algo como “Oh Boy!” vai muito além do simples sentimento de juventude. Isso é uma afirmação artística até então quase inédita, de modo que chega a soar surpreendentemente estarrecedor, se levarmos em consideração o contexto da época. Aí temos um jovem falando de algo do seu convívio para uma infinidade de jovens. Lembrem-se: antes do rock, ser menor de idade era o mesmo que não ter voz. Quanto a música pode estar atrelada a essa conquista?

Considerando a sonoridade apenas, o álbum é um trabalho incrível de ponta a ponta. “That’Il Be The Day” é um verdadeiro standard do século XX. A guitarra magra de Buddy Holly, combinada com seus vocais expressivos dão um ar cool um pouco diferente de Chuck Berry, por exemplo. Enquanto Berry investia numa sonoridade mais erótica e selvagem, Holly tinha mostrava o rock ‘n’ roll básico com uma sofisticação irresistível.

As baladas também ganham lugar de destaque, como é o caso de “An Empty Cup”, que além de mostrar o cativante feeling vocal de Holly, também indica o bom guitarrista imortalizado como o primeiro herói munido de uma Fender Stratocaster.

Todos sabem que ele foi uma das principais influências dos Beatles, e ouvindo “Maybe Baby” é fácil saber o motivo. A faixa poderia estar em qualquer disco da fase engravatada do quarteto de Liverpool. Os Stones também beberam muito dessa fonte, tanto que “Not Fade Away” foi escolhida para ser um dos primeiros singles do grupo, sendo executada ao vivo até hoje. E aqui no álbum dos Crickets a canção não tem a mesma malícia dos ingleses, mas brilha com o vocal soluçado e o clima despretensioso.

O curioso em Buddy Holly é que seu som não é tão vibrante como Little Richard, por exemplo, mas em “Rock Me My Baby” tem muito do espírito daquelas festas de salão dos anos 1950. Aliás, é uma faixa meio Elvis Presley.

“The “Chirping” Crickets” é de certa forma bastante diversificado. Seu resultado é uma salada de country com r&b e blues muito bem estruturada. Se você curte sons antigos é quase certo que vai querer repetir tudo de novo e de novo e de novo… Esse cara tem carisma! Queria voltar no tempo e escutar tudo isso pela primeira vez. Imagina?

Após sua saída dos Crickets, Buddy ainda faria mais um disco solo, igualmente excelente e ainda mais sofisticado e pop, porém um acidente de avião tiraria sua vida aos 22 anos. Mas o “estrago” já estava feito: a música jamais seria a mesma.

O som caleidoscópico do Jefferson Airplane

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Um dos motivos pelo qual estou falando sobre o Jefferson Airplane é porque aqui no Brasil parece que a banda ainda não foi completamente assimilada. É um caso muito parecido com o de outros grupos como Allman Brothers Band ou Roxy Music, que pra música pop mundial são tão influentes como aqui é pra nós os Novos Baianos ou Titãs.

Formado em 1965, em São Francisco, o grupo liderado por Marty Balin (vocais) e Paul Kantner (guitarra e vocais) foi um dos precursores do que mais tarde viria a ser chamado de rock psicodélico. Na época do “Verão do Amor”, em 1967, a banda esteve no auge e conseguiu emplacar no rádio sucessos como “Somebody to Love” e “White Rabbit”, clássicos que hoje são praticamente as únicas músicas lembradas pelo público em geral.

O Airplane sempre foi inventivo, tanto em estúdio quanto ao vivo. Jorma Kaukonen (guitarra), Jack Cassady (baixo) e Spencer Dryden (bateria) tinham inclinação para improvisos e enriqueciam o som do grupo com influências do jazz e do blues enquanto Balin e Grace Slick entrelaçavam suas vozes com a guitarra Rickenbaker de 12 cordas de Kantner. Era como se estivessem reinventando harmonias incessantemente. Considerando a influência do LSD no período, essa estranha junção soava como um casamento entre The Byrds com Cream e mais alguma coisa levemente caótica.

O grupo durou até 1974. Por conta da relativa vida curta, pode-se dizer que muitos músicos passaram pelo Jefferson Airplane, e com essa constante entrada e saída de integrantes, gradativamente, o grupo se transformou no Jefferson Starship, o qual não vale muito a pena perder tempo, com exceção de alguns poucos momentos de inspiração.

A fase áurea da banda vai de 1966 a 1969.

“Jefferson Airplane Takes Off” (1966)

O debut da banda ainda não contava com Grace Slick nos vocais e Spencer Dryden na bateria. Signe Anderson e Skip Spence (mais tarde fundador do Moby Grape) eram os donos das posições, respectivamente. Quanto à sonoridade do disco, é notável a predominância do folk rock nas canções, o que acabou resultando num ponto positivo. “Takes Off” é agradável do início ao fim e, como em grande parte das estreias musicais, é um pouco contido se comparado aos demais trabalhos. A ótima “Let Me In” mostra exatamente pra qual direção o rock‘n’roll americano estava apontando naquela época de transição, enquanto “It’s No Secret” revela a competência de Marty Balin como vocalista e fazedor de melodias pegajosas. Destaque também para a elegante “Come Up the Years”.

“Surrealistic Pillow” (1967)

Muitos são os motivos pra este trabalho ser considerado o ponto alto do Jefferson Airplane. A cena de São Francisco estava ainda mais efervescente, as composições eram mais coesas, o então novo baterista Spencer Dryden era mais adequado à sonoridade dos demais músicos e a entrada de Grace Slick de fato transformou o grupo em algo maior. O disco é excelente de ponta a ponta e não é exagero afirmar que o resultado final é um dos melhores da história do rock. Basta escutar o início de “She Has Funny Cars” e se entregar ao repertório, que vai da sutileza acústica de “How Do You Feel” e “Comin’ Back To Me”, às mais roqueiras “1/3 of a Mile in 10 Seconds” e o hit “Somebody to Love”, que chegou a entrar no Top 10 das rádios. Tem a também clássica “Plastic Fantastic Lover”, com participação de Jerry Garcia, do The Grateful Dead, no violão, e a obra-prima “White Rabbit”, onde a banda – sobretudo Grace – alcança um resultado ímpar que sobreviveu ao tempo. “Surrealistic Pillow” foi um grande sucesso, vendendo mais de um milhão de cópias na época do lançamento e transformando o Jefferson Airplane numa sensação nos EUA. Referência de um dos períodos mais prolíferos da música Pop. Perfeito.

“After Bathing at Baxter’s” (1967)

Quando se fala de alternative rock é fácil vir em mente grupos como Sonic Youth. Por que não Jefferson Airplane? Contradizendo ao título do álbum anterior, “After Bathing at Baxter’s” é mais surrealista e pode ser tido como exemplo de como um produto de sucesso pode se transformar em algo mais difícil de digerir, no bom sentido. Tirando “Martha”, que de certa forma repete a fórmula dos dois primeiros, este LP é muito mais agressivo que os anteriores e é mais próximo de como soavam nos palcos, talvez por isso seja o favorito de muita gente. E desta vez está escancarada nas músicas a influência do LSD sobre a banda, basta ouvir “Two Heads” ou a muito bem construída “Won’t You Try/Saturday Afternoon”, que divide com “The Ballad of You & Me & Pooneil” o posto de melhor canção do álbum. Vale lembrar também de “Young Girl Sunday Blues”, que é um rock irresistível. Outro ponto a favor é o baixo de Jack Cassady, que se destaca ao longo das canções e culmina na “Watch Her Ride”, um dos singles escolhidos pra promover o disco. Tem umas doideiras que muita gente desacostumada com sons psicodélicos julgará pura bobagem, como a colagem de bizarrices em “A Small Package of Value Will Come to You, Shortly” e o improviso “Spare Chaynge”, mas em “Baxter’s” o Airplane definitivamente está mais solto.

“Crown of Creation” (1968)

A faixa-título é um bom pretexto pra apresentar a banda a alguém que nunca escutou nada deles. “The House at Pooneil Corners” tem uma atmosfera furiosa e densa, enquanto por outro lado há algumas canções com a roupagem mais enxuta, o que dá pra notar em “Lather” – com direito a solo de nariz – e na ótima balada “Triad”, composta por David Crosby. “Greasy Heart” é uma daquelas que agradam logo na primeira audição, sem muitas firulas. Há também um pouco da estranheza, como em “Would You Like a Snack” e “The Saga of Sydney Spacepig”. “Crown of Creation” segue a linha de “Baxter’s”, apesar de parecer um pouco menos caleidoscópico.

“Volunteers” (1969)

A essa altura o Airplane havia alcançado o topo da maturidade, e ao mesmo tempo iniciara o processo de auto-destruição. Jorma Kaukonen e Jack Cassady já tinham começado a tocar paralelamente com o Hot Tuna, Marty Balin há tempos não contribuía tanto nas composições e Spencer Dryden já estava de saída pra dar lugar a Joey Covington. Apesar do clima tempestuoso, a banda lançou um dos seus trabalhos mais aclamados pela crítica e público. Dá vontade de escutá-lo novamente assim que termina. “We Can Be Together” é um hino pacifista que para alguns pode parecer meio datado, mas a melodia arrebatadora fala mais alto. “Wooden Ships” é especial por ser de longe o momento mais emotivo da carreira do Jefferson Airplane. Outras faixas, como “Eskimo Blue Day” e “The Farm” mantém o ouvinte satisfeito, mas o ponto alto é a faixa-título. Escrita por Balin, “Volunteers” é dois minutos de um rock direto e que curiosamente tem como base praticamente o mesmo riff de “We Can Be Together”, uma espécie de auto-homenagem. A banda soa mais habilidosa do que em qualquer outro disco anterior a esse, e a guitarra de Jorma Kaukonen tem presença decisiva em praticamente todas as faixas.

Após esses LPs, o Airplane começaria a se desmantelar, a começar pela saída de Marty Balin, um dos fundadores. Lançariam “Bark” (1971) e “Long John Silver” (1972), que também são bacanas, mas aí a banda já não era mais a mesma. No início de 1974 foi anunciado oficialmente o fim. Em 1989 houve uma reunião do grupo com a formação clássica e o lançamento de um álbum homônimo, o qual jamais deveria ter sido lançado.

Além dos trabalhos de estúdio, a banda tem bons discos ao vivo lançados oficialmente: “Bless It’s Pointed Little Head” (1969), “Thirty Seconds Over Winterland” (1973), “2400 Fulton Street” (1987) e “Live at The Fillmore East” (1998).

Pra conhecer melhor a banda, vale a pena o DVD “Fly Jefferson Airplane”, com entrevistas, apresentações de TV e clipes, além da leitura da biografia escrita por Jeff Tamarkin chamada “Got a Revolution! – The Turbulent Flight of Jefferson Airplane”.

Renascimento doloroso: John Lennon – “Plastic Ono Band” (1970)

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Poucas vezes uma obra foi tão determinante para me fazer entender que a música é, primeiramente, algo de extrema intimidade, pessoal por essência. Fazer dessa qualidade uma reafirmação é muito difícil, ainda mais sendo uma das pessoas mais famosas do mundo e recém ex-beatle. Coragem define este disco.

Seco, extremamente enxugado, quase esvaziado, melancólico, desesperado, reflexivo e redentor. Assim é Plastic Ono Band”, essa obra-prima sem igual.

O que mais me impressiona neste disco é que, ao contrário dos trabalhos mais emblemáticos do início da carreira solo de seus ex-companheiros de banda (como é o caso dos também incríveis Ram” e All Things Must Pass”, de Paul McCartney e George Harrison, respectivamente), John parece não ter feito um enorme esforço para tirar da cabeça essas canções. Tudo parece ser bem natural, espontâneo, de coração e em um nível genial. Claro que houve ajuda para fazer este disco sair do papel. Phil Spector, que assina a produção, foi esperto e manteve seu temperamento musical discreto. Ou seja, em “Plastic Ono Band” você não terá nada de “wall of sound” e aquela porrada de músicos tocando em mono. O LP é extremamente básico, porém de um modo original. Pegue como exemplo “Hold On”: guitarra, baixo, bateria e voz embalados por uma letra claramente voltada para o próprio autor. A temática do trabalho é John Lennon, do início ao fim.

Na comovente “Mother”, Lennon exorciza seus traumas de infância e chega a partir nosso coração com versos como “Mama don’t go, daddy come home”. Não restam dúvidas de que John vivia um período muito complicado. Mesmo que ele não quisesse dar o braço a torcer (algo que ficou muito claro na lendária entrevista publicada na revista Rolling Stone em 1970), o fim dos Beatles foi uma verdadeira porrada na alma daquele que fundou o maior fenômeno da história da cultura pop.

Beirando os 30 anos, Lennon atravessou essa difícil fase como pôde. Até que acabou embarcando numa espécie de terapia alternativa chamada “grito primal”, onde o paciente é encorajado a reviver e a expressar seus sentimentos básicos e que o terapeuta considera que podem ter sido reprimidos. O psicanalista americano Arthur Janov, criador dessa terapia, teve Lennon como paciente, e sobre isso disse certa vez: “Nunca vi tanta dor em toda a minha vida! Toda a dor de não ter sido amado fica gravada no cérebro, nos músculos, nos ossos das pessoas”. Agora, voltando para “Mother”, podemos perceber como tudo isso se encaixa: observe como é descarnado de qualquer tipo de filtro de ego aqueles berros no final da canção… se ainda estivesse nos Beatles muito provavelmente essa música não seria gravada.

Em “Isolation”, outra canção de apertar o coração, mostra Lennon guiado por poucas notas do seu piano enquanto observa o comportamento das pessoas em geral. E a letra é tão honesta que não há como fugir da mensagem. Pouca gente nesse mundo é capaz disso, esse incrível dom de saber abrir a cabeça das pessoas com poucas palavras.

Em tempo, vale ressaltar o trabalho impecável de Ringo Starr e Klaus Voormann na bateria e no baixo, respectivamente. Sem a simplicidade dos dois amigos de longa data de John (Ringo não precisa apresentar, já o alemão Klaus é o sujeito que fez a capa do LP Revolver” (1966), camarada de Lennon e dos Beatles desde os tempos de Hamburgo), talvez “Plastic Ono Band” teria resultado em “apenas” um excelente disco.

Em dois momentos cruciais do LP não é Lennon quem pilota o piano. Em “Love”, uma canção absurdamente linda sobre o que é o amor, é Spector quem guia John. Um dos clássicos do catálogo de sua carreira solo, “Love” é limítrofe: alguns podem achar piegas, outros podem passar despercebido por esse adjetivo fácil e notar que afinal, o que ele canta ali é fundamental. Algo tão certeiro quanto a letra de “Imagine”. Como ele conseguia fazer isso?

Em “God”, com Billy Preston no piano, John joga o famoso balde de água fria nos fãs dos fab four: “I don’t believe in Beatles/ I just believe in me/ Yoko and me/ And that’s reality/ The dream is over… Na verdade, é uma letra duríssima que não deixa passar despercebido nem Dylan, nem a Yoga, nem Elvis, nem Jesus e tampouco Deus. Nem precisa mencionar o tipo de discussão que essa música gerou, ainda mais vindo de um cara que quatro anos antes havia dito que “os Beatles são mais populares que Jesus Cristo”.

A pegada iconoclasta também dá as caras em “I Found Out”, com um jeito mais rock ‘n’ roll, o que ele sentia mais a vontade de fazer. A faixa pode ser considerada o resultado de uma década na qual o compositor passou por diversos gurus em busca da iluminação, com meditação, drogas e a Terapia Primal. Na música ele deixa de lado esta série de falsos ídolos que ele tinha acumulado ao longo dos anos e os rejeita. A guitarra de John soa excelente, assim como em “Well Well Well”, outro rock mais direto e com direito a berros que chegam a parecer Kurt Cobain em seus melhores momentos.

“Look At Me” tem aquele dedilhado tão característico que pinta as faixas “Julia” e “Dear Prudence”, do White Album” (1968), e a melodia é de uma melancolia verdadeiramente dolorida. Esta poderia estar em um hipotético trabalho dos Beatles, assim como “Remember”, que de certa forma traz a pulsação de “I Found Out” e a reflexão de todo o resto do trabalho. Um belo registro.

“Working Class Hero” é um dos melhores momentos da carreira de John. Um simples folk onde ele destila todo seu lado amargo de ver o mundo em uma letra espetacular e atemporal. Apenas por essa já valeria a pena dar uma chance para esse disco, mas “Plastic Ono Band” é um desfile de clássicos geniais.

O disco acaba com a triste “My Mummy’s Dead”, uma quase vinheta lo-fi, sem pretensão alguma de soar maior que aquilo. É apenas um adorno.

O LP foi recebido com elogios. No começo de 1971 o álbum chegou ao número oito no Reino Unido e foi para o número seis nos Estados Unidos, passando 18 semanas no Top 100.

“Plastic Ono Band” é figura presente em praticamente todas as listas de melhores discos.

Em 2000 a revista Q colocou o trabalho no 62º lugar na sua lista dos 100 Maiores Álbuns Britânicos de todos os tempos. Em 1987, foi classificado como o 4º na lista da Rolling Stone dos 100 melhores álbuns do período entre 1967 e 1987. Em 2003, ele foi colocado no 22º posto na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, também da Rolling Stone. Em 2006 “Plastic Ono Band” foi escolhido pela Time como um dos 100 melhores de todos os tempos.

Este é um trabalho irretocável de um dos maiores artistas da História. Sempre que alguém questionar a importância dos Beatles ou a qualidade de Lennon como compositor, diga apenas: “Plastic Ono Band”.

A beleza do fim: Beck – “Sea Change” (2002)

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Beck Sea Changes

Considerando a cena do pop rock, pouca gente consegue soar tão convincente e ao mesmo tempo tão livre quanto Beck. Pensa bem, quantos têm essa habilidade incrível? Bowie, Björk, Kate Bush… Dá para contar nos dedos.

Beck transmite aquela sensação rara que nos dá a impressão de que ele é capaz de fazer qualquer coisa soar bem. Não é nada fácil brincar com gêneros, transformá-los em grandes álbuns e praticamente reinventar algo firmemente estabelecido, o que pôde se percebido em Mellow Gold” (1994) e na obra-prima Odelay” (1996). Que diabo é aquilo? Rock, rap, blues, folk… Aquilo é Beck. Talvez inconscientemente, ele, mais do que ninguém, apontou para o hibridismo sugerindo ser este o caminho a ser explorado no futuro.

E na virada do milênio Beck estava com uma carreira consolidada, recheada de bons discos, premiações e alguns milhões de cópias vendidas. O grande público comprou sua ideia maluca, e cada trabalho era uma verdadeira surpresa, como Midnite Vultures” (1999), uma releitura de sons da música negra, como funk e soul. Eis que em 2002 ele surge completamente diferente, com um dos discos mais lindos das últimas décadas.

Embora pareça desconexo na discografia de Beck até então, Sea Change” pode ser visto como uma evolução do compositor, que nunca escondeu sua queda por violões e melodias mais explícitas, como podemos conferir no incrivelmente tosco One Foot In The Grave” (1994), trabalho com pegada lo-fi voltado ao folk torto que ele gostava de assumir.

Em “Sea Change” temos uma quantidade absurda de emoção, arranjo de cordas, grandes vocais e um Beck mais maduro, sério e melancólico. Pode ter certeza que ninguém esperava um disco como este.

Naquele período o cantor enfrentava o fim de um relacionamento que durou nove anos, o que logo de cara fez muita gente comparar “Sea Change” com Blood on the Tracks” (1975), emblemático álbum de Bob Dylan que também foi inspirado em uma separação. Na verdade, nem é preciso saber dessa informação para sentir isso nas faixas. Beck traduziu essa situação com uma rara habilidade. É um disco fácil de ouvir e assimilar, e embora tenha essa densa carga de lágrimas ele emana esse forte magnetismo que as melodia tocantes carregam. Tudo é bonito: os vocais, as letras, as cordas, a simplicidade da banda e a incrível produção de Nigel Godrich. Vale destacar seu papel nesse trabalho, isso porque há por trás de praticamente todas as faixas uma atmosfera muito sutil e peculiar, e pode ter certeza que esse resultado vem da mão de Nigel, que já trabalhou com nomes de peso como Paul McCartney, R.E.M., Radiohead e Roger Waters.

Perceba em “The Golden Age” a carga daquele som. Tão simples e tão cheio, coeso, bonito e direto. É um belo jeito de abrir um disco. Esta já é um clássico contemporâneo. Você que conhece o trabalho de Beck antes de “Sea Change”, imagina a estranheza que deve ter sido escutar essa beleza logo de cara? A maturidade sonora é gritante (não confundir aqui com simplicidade).

Uma espécie de groove sombrio dita as regras em “Paper Tiger”, uma das melhores da track list. Um arranjo de cordas absurdo dá uma cor inédita em qualquer canção já feita por Beck até então.

“Guess I’m Doing Fine” meio que reassume a roupagem de “The Golden Age”, quase que uma música irmã. Outro sucesso, outra grande música, outro momento deparada obrigatória no catálogo do compositor. Com uma melodia dessa grandeza é muito difícil dar um tiro fora.

O momento mais tocante do álbum está reservado para “Lonesome Tears”, que faz jus ao título e realmente emociona. São vários os motivos para te levar a este estado de espírito, seja a letra escancaradamente pessoal, o modo que ele canta, o arranjo de cordas choroso, a dinâmica sinuosa… Essa é difícil de passar ileso, sério.

“Lost Cause”, outro grande sucesso, ainda soa adequada ao contemporâneo (o disco todo na verdade). Uma assumida desilusão encarna no espírito de Beck com uma forte convicção, o que reforça a assinatura autobiográfica em “Sea Change”­ – só tendo vivido aquilo de fato para fazer coisas como “Lost Cause” se mostrar como algo real. Esse mesmo estado de espírito soa forte em “Already Dead” e seu interessante arranjo de violão.

Seguindo a mesma pegada quase “road movie” de “The Golden Age” e “Guess I’m Doing Fine” temos outra excelente faixa, “End Of The Day”. E aqui fica evidente que este disco é bom justamente porque é bom por si só. Não se trata de novidades atrás de novidades, como nos outros álbuns de peso de Beck. Em “Sea Change” as coisas funcionam porque são orgânicas, os sentimentos não estão encobertos, e é isso que fascina.

Com um lindo arranjo de cordas fornecido por David Campbell, pai de Beck, “It’s All In Your Mind” vem como um ressurgimento. Isso porque ela já havia sido lançada como single em 1995, sendo uma sobra das gravações de “One Foot In The Grave”. E isso é muito curioso, porque comparando as duas podemos ver como existem várias personas em Beck: enquanto que a versão de 1995 soa como uma demo atraente, a faixa de 2002 é um artista por inteiro. Grande momento.

É inevitável não o comparar com Nick Drake em “Round The Bend”. A densidade da orquestra que preenche a faixa e até mesmo a melodia lembram muito “River Man”, clássica canção do cantor britânico. Mas mesmo que soe parecido, não é um caso constrangedor.

Dá até para achar um resquício de Coldplay (da fase boa) em “Sunday Sun”, que com sua batida eletrônica se mostra como o momento mais destoante de “Sea Change”, ainda que muito bem assimilado por todo o restante do trabalho. O refrão é arrebatador.

Ainda que realmente boas, sinto as duas últimas, “Little One” e “Side Of The Road”, meio que sobrando na tracklist. Mas merecem atenção, sobretudo a última, pelo trabalho de slide e aquele pouco de blues que persiste em Beck Hansen, esse artista incrível.

Há quem diga que este seja o melhor trabalho dele, há quem ache esse disco meio fora da curva, há quem considere “Sea Change” um dos melhores discos da década, assim como tem gente que considere este como um dos melhores álbuns de todos os tempos (como foi o caso da Rolling Stone e outras revistas).

De certa forma, o fim do relacionamento fez muito bem a Beck, que conseguiu ainda mais sucesso com esse trabalho e mostrou ao mundo talvez a única persona que ele ainda precisava escancarar: aquela do homem vulnerável perante os sentimentos.

Megalomania: Emerson, Lake & Palmer – “Brain Salad Surgery” (1973)

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ELP Brain Salad Surgery

 

Um disco como Brain Salad Surgery” ainda faz sentido hoje? Bem… até onde eu sei, música não tem idade, e o que hoje é considerado datado amanhã será a fonte de inspiração para uma galera totalmente repaginada. E não sou eu quem está dizendo isso. Ouça os maneirismos dos anos 1980 berrando a todo vapor em produções mais recentes, como vem acontecendo de uns anos para cá em trabalhos de nomes como Daft Punk, Lady Gaga ou Rihanna. Para muita gente pode parecer que não, mas por um bom tempo – talvez por quase toda a década de 1990 e um pouco de 2000 – esses timbres que agora fazem a cabeça de muita gente eram tidos como algo ridículo, sem a mínima chance de voltar a ser moda. Pois bem, a música pop lambeu suas feridas e aí está, mais uma vez: baterias eletrônicas exageradamente encharcadas de eco, palminhas falsas, teclados a la Alpha FM e aquela frivolidade tão polêmica. Agora, dizer se isso é bom ou ruim não é inteligente, mas cabe ao artista saber inserir esses elementos, certo?

E o que isso tem a ver com Emerson Lake & Palmer? Tudo! Afinal, estou me referindo ao modo de revisitar coisas que no fundo sempre estiveram disponíveis e vivas. Basta alguém pegar uma ideia qualquer para percebermos que tudo se trata da mesma coisa.

Aliás – é impressionante pensar nisso em 2017 –, em 1973, ano em que o rock progressivo atingiu seu auge, LPs contendo faixas com quase meia hora de duração chegavam a liderar a lista da Billboard. Isso significa que as pessoas tinham saco para ouvir toda aquela complexidade em uma proporção de cultura de massa. O jeito de se curtir um som era completamente diferente: você já deve ter ouvido alguém com mais de 50 anos dizer que chamava os amigos em casa para apagar as luzes e escutar faixa a faixa de Dark Side Of The Moon”, e depois discutir aquilo como se fosse um filme.

E você se lembra do começo desse texto, quando eu disse que atualmente há um interesse no ar pela sonoridade da década de 1980? Pois veja que o ELP (sigla para o nome do grupo) passava por esse mesmo tipo de transformação, haja vista que apontavam seus interesses para a música clássica, sinfônica (o disco Pictures At Na Exibition”, de 1971, é uma releitura de uma suíte de mesmo nome, composta pelo russo Modest Mussorgsky em 1874). Isso significa que essas coisas meio “cerebrais” combinavam com a vibe de parte da galera jovem da época, que curtia um pouco de complexidade e divagações vagarosas.

A ideia por trás do trio formado por Keith Emerson (piano e teclados), Greg Lake (vocais, baixo, violão e guitarra) e Carl Palmer (bateria), embora extravagante e pomposa, nunca foi segredo para ninguém: expandir os limites do rock ‘n’ roll, fazendo música sinfônica com apenas três peças. Hoje isso pode soar meio bobo, mas deu certo e conquistou um enorme público, chegando a ser uma das bandas mais lucrativas do mundo em sua época. Emerson, Lake & Palmer foi um verdadeiro fenômeno, e “Brain Salad Surgery” foi o pico criativo do trio.

Na época de seu lançamento, em 1973, o grupo havia lançado quatro excelentes álbuns de sucesso, e este quinto LP viria a ser seu ápice estético, inserindo naquele som o que havia de mais moderno em termos de eletrônica a partir do uso e abuso de sintetizadores Moog, sendo Emerson o primeiro e único músico a utilizar o protótipo Constellation, apresentando pela primeira vez um sintetizador polifônico.

As cinco faixas do disco (sendo uma delas uma suíte de quase 30 minutos) são impressionantes. Todas apresentam uma sonoridade corajosa, tentando empurrar ao máximo os limites dessa formação de rock sem guitarra elétrica (salvo uma hora ou outra). “Brain Salad Surgery” poderia ser definido em três palavras certeiras: virtuosismo, melodia e dramaticidade.

A abertura fica por conta de “Jerusalem”, releitura completamente transformada de uma das músicas tradicionais mais famosas da Grã-Bretanha, algo que o ELP sabia fazer com excelência. O sempre belo vocal de Greg Lake contrapõe a massa sonora formada pelos sintetizadores e órgãos de Keith, enquanto que a bateria de Carl Palmer – um dos maiores bateristas da história do rock – remonta essa peça de um jeito incrivelmente inventivo. A faixa chegou a ser lançada como single, mas, embora tenha chamado atenção do público, foi muito mal nas rádios britânicas, que se recusaram a tocar esse “sacrilégio”, um verdadeiro hino tido como um patrimônio cultural remexido de modo tão fora dos padrões. Até a BBC baniu.

Em seguida vem “Toccata”, outra releitura, desta vez do argentino Alberto Ginastera (que aprovou a versão, dizendo pessoalmente a Keith Emerson que eles haviam capturado a essência da composição ‘como ninguém jamais havia feito’). Caótica, frenética, urgente e intensa. É uma verdadeira porrada na cabeça. Um peso real sem guitarras. Sim, esse é um som muito nerd, mas é impressionante… lembre-se que são três caras fazendo essa barulheira (e reproduziam a mesma coisa ao vivo). Há espaço para um baixão espetacular, sintetizadores com sons de trompete, solo de tímpanos e uma parte bizarra – que chega a ser cômica – de bateria, onde Carl Palmer utiliza programação eletrônica de sons MIDI para criar um ambiente sci-fi, algo quase impensável na época. É a vanguarda flertando com o rock em um nível controverso. Dá para fazer um nó na cabeça com esse som.

Como era praxe nos álbuns anteriores, Greg nos dá uma trégua e apresenta uma daquelas indescritíveis baladas que ele fez. “Still… You Turn Me On”, guiada por um belo violão, é um daqueles momentos memoráveis dos anos 1970, quando era comum se deparar com melodias de cair o queixo aliadas a uma inocência típica daquela fase. Se alguém soube fazer bem isso, esse alguém foi Greg Lake, dono de uma voz incrível e também de grande esperteza: todo mundo sacava que ter essas baladas entre esse monte de maluquice sonora também garantiria um grupo de pessoas a fim de escutar algo romântico. Deu muito certo.

“Benny The Bouncer” traz ao LP um pouco de descontração, com aquele som de piano de bordel, uma pegada meio jazzy e um vocal escrachado. A letra fala de Benny, um segurança de balada que, ao se encontrar com Sidney, o beberrão, entra em uma briga e é morto por um golpe na cabeça. No céu, arranja um bico como segurança de Jesus.

O lado B inteiro é dedicado àquela que talvez seja o maior feito artístico da banda: “Karn Evil 9”. Dividida em “First Impression”, “Second Impression” e “Third Impression”, esta suíte vai além dos limites de uma composição de rock. Fico imaginando como foi possível eles juntarem tudo aquilo e lembrar como se toca ao vivo (vale destacar que existem imagens disponíveis do trio ensaiando essa música para ser gravada, o que, para os músicos que estão lendo isso, é um documento fascinante). “Karn Evil 9” emociona, empolga, intriga, irrita, acalma, mete medo e euforia. Keith Emerson mostra todo seu brilhantismo e versatilidade no Moog, no piano, órgão Hammond; Greg Lake, sempre muito seguro, toca um baixo incrível e depois vai para a guitarra, fazendo solos dignos daquele período com tantos guitar heroes; Carl Palmer praticamente reinventa o modo de tocar bateria em uma banda de rock, seu estilo é único. Ali tudo funciona do jeito mais ELP de ser: megalomaníaco. É nesta faixa que está o verso “Welcome back my friends to the that never ends”, obrigatória na abertura das apresentações do grupo.

Também vale a pena falar da arte da capa, desenvolvida pelo artista plástico H. R. Giger, famoso por desenhar nada mais nada menos que o visual do filme “Alien – O Oitavo Passageiro”.

“Brain Salad Surgery” fez grande sucesso, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, o que resultou em uma turnê mundial. Com o passar dos anos, o desgaste do sucesso e a mudança de comportamento do público em geral, o Emerson, Lake & Palmer foi decaindo até praticamente não fazer mais sentido. Novas vertentes, principalmente o punk, meteram o pé na bunda da maioria dessas bandas hoje consideradas “cabeças-de-chave” daquele período. Da mesma forma, a sonoridade e a proposta artística daquilo que ofereciam foi simplesmente deixada bem lá no fundo do baú dos excessos, mofando ao lado de muitas outras coisas que tiveram o mesmo destino, como as bandas de new romantic dos anos 1980.

Neste momento que estamos vivendo uma ebulição de bons e maus ressurgimentos, creio que seja questão de tempo ver novas bandas com essa proposta repaginada. Por enquanto, o que resta é esse fóssil do rock ‘n’ roll, com o atual status de fascinantemente inadequado e que já chegou a soar como as trombetas do futuro. Queira ou não queira, o ELP é gigante na história.

Sons de desespero: Led Zeppelin – “Presence” (1976)

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Led Zeppelin Presence

Existem raros casos em que a obra completa de um determinado grupo ou artista é praticamente irretocável, incontestável em termos de importância histórica e cultural, quase imune ao ranço daqueles que insistem em torcer o nariz. O Led Zeppelin é um desses exemplos.

Tenho ouvido muito toda a obra da banda, mas muito mesmo, como há tempos não fazia com tanta intensidade. Então naturalmente quis escrever algo sobre, mas logo veio uma dúvida pertinente… Como falar dessa banda sem se repetir? Como abordar esse tema tão dissecado sem chover no molhado? Eis que descobri a resposta: Presence”.

Em sua curta trajetória devastadora, o Zeppelin produziu oito álbuns, todos excelentes, a grande parte deles fundamentais. Mas “Presence” sempre foi aquele LP meio negligenciado, o patinho feio que ninguém liga muito. Que injustiça.

Após Physical Graffiti” (1975) consagrar Jimmy Page (guitarra), Robert Plant (vocais), John Paul Jones (baixo e teclados) e John Bonham (bateria) como “a banda da década”, estava claro que não precisavam provar mais nada para ninguém. O quarteto havia realizado uma dezena de turnês, recorde após recorde, vendas absurdas, seis álbuns excelentes, chegando ao ponto de se tornarem lendas precocemente. O mais bizarro é que jamais tiveram apoio da crítica especializada (que insistia em descer a lenha no trabalho do grupo) e de adventos tão indispensáveis para uma banda divulgar seu trabalho, como singles, clipes e aparições em programas de TV. Naquela altura tudo ia bem, não havia como melhorar, porém, todo império tem seu fim, e no caso do Led, o começo da queda ladeira abaixo foi exatamente este período.

A zica que viria a persistir até o fim da banda – com a morte de Bonham – começou com um grave acidente de carro. Em 4 de agosto de 1975 Plant e sua família estavam de férias na Grécia, quando o carro que dirigia derrapou para fora da estrada e rolou a ribanceira. O acidente deixou Plant e sua esposa Maureen bastante feridos, entretanto os filhos escaparam do pior e sofreram apenas alguns arranhões. O vocalista quebrou um tornozelo e um cotovelo, que custaram mais de dois anos de recuperação total. O cantor passou um tempo em uma cadeira de rodas, o que afetou diretamente os planos futuros do Led Zeppelin, fazendo com que o grupo cancelasse uma turnê mundial.

Durante um período em convalescença Plant escreveu algumas letras e, quando Jimmy Page juntou-se com ele estas composições foram concretizadas. Os dois prepararam material suficiente para os ensaios, período que durou um mês.

“Presence” foi gravado no prazo de três semanas no Musicland Studios em Munique, Alemanha, com Plant em uma cadeira de rodas. Esta gravação foi a mais rápida desde “Led Zeppelin I”. Uma parte da pressa em gravar o álbum se deu pelo fato do Led ter reservado o estúdio antes dos Rolling Stones, que gravariam o álbum Black and Blue” logo em seguida. Ao chegar no local para iniciar os trabalhos, os Stones ficaram espantados, pois o Led havia gravado o álbum em apenas 17 dias.

Para Jimmy Page o trabalho foi ainda mais intenso, que além de assinar a produção do álbum ficou acordado dois dias para gravar os overdubs de guitarras. Ele inclusive chegou a dizer que trabalhou de 18 a 20 horas por dia para concluir as mixagens.

Talvez pela pressa de ter que concluir logo o trabalho ou talvez pelo período de ansiedade, “Presence” apresenta uma tracklist direta, crua, o que faz deste o disco mais hard rock da discografia do Led. São sete músicas que trazem um pouco daquela energia intensa dos primeiros trabalhos, mas com uma sonoridade mais polida.

De todas, a dolorosa “Achilles Last Stand” destoa como o grande trunfo. Essa porrada de estatura épica dura pouco mais de dez minutos e representa uma banda buscando atingir a força máxima. É como se eles quisessem deliberadamente compensar o hiato forçado pelo acidente de Robert com um som de assimilação instantânea e impressionante. A cozinha formada pela bateria impecável de Bonham lado a lado com o baixo galopante de John Paul Jones serve os vocais melancólicos de um Plant menos agressivo como de costume, enquanto que Jimmy Page constrói uma parede de guitarras incríveis, como uma espécie de orquestra. Para quem curte solos, isso aqui é uma coisa única. Um dos pontos máximos do Led Zeppelin.

“For Your Life” é um hard rock básico com um pouco de funk, uma faixa sem aquele brilho intenso de sempre, mas que ao mesmo tempo é ótima. A banda, mesmo em desvantagem, consegue entregar algo que ainda hoje quase nenhum grupo de renome consegue: esse som cru, bem tocado, ao mesmo tempo bem arranjado e criativo no modo de abordar um gênero básico. Led Zeppelin tem muito dessa excelência inata, justificada pela capacidade técnica dos quatro membros, extremamente capazes em seus respectivos papeis, a ponto de agradar vários nichos: músicos exigentes, músicos toscos, ouvintes desinteressados, saudosistas, moderninhos e os aficionados mais xiitas.

O groove certeiro de “Royal Orleans” mais parece uma prova de evolução e maturidade. Olhando para trabalhos anteriores com essa pegada funk (“The Crunge”, “Trampled Under Foot” etc.) percebe-se que ao chegarem em “Presence” o ritmo cadenciado flui naturalmente, afiado e extremamente competente, embora sem aquela vitalidade radiante dos primeiros anos. Já “Nobody’s Fault But Mine” é um rock de saltar às vistas. Cheio, pesado e certeiro, essa releitura completamente remodelada da faixa homônima do bluesman Blind Willie Johnson é o Led que estamos acostumados. O peso do riff de Page dita o caminho que toda a banda segue em linha reta, sem falhas e vibrante. Ótima música ao vivo.

O rock ‘n’ roll dos anos 1950 é revisitado em “Candy Store Rock”, que já dá pistas do viria a ser In through The Outdoor” (1979), o último disco do Zeppelin. Plant encarna um Elvis dos tempos de Sun Records, com direito a eco na voz e tudo. É uma faixa segura, sem grandes emoções. Um rock ‘n’ roll que não compromete e pouco acrescenta, para falar a verdade. Mas é uma boa faixa, apesar da falta de ímpeto.

Bonham brilha em “Hots On For Nowhere”, que literalmente salva a canção. Se não fosse as alterações que ele propõe ao longo dos quase cinco minutos talvez essa seria a música capaz de pôr em cheque a fidelidade de “Presence”. Ainda bem que não é o caso, no fim das contas é um momento agradável.

Quando a gente começa a achar que o disco vai derrapar na pista a banda apresenta essa verdadeira aula de blues. “Tea For One” – que no fundo é uma irmã caçula de “Since I’ve Been Loving You”, do III” (1970) – encerra o LP com o que parece ter significado para aqueles quatro caras o esforço de produzir algo novo quando as coisas pareciam estar ruindo. Um sentimento de melancolia extremamente adequado ao contexto em que o Led estava inserido. Page faz um trabalho de mestre e põe tudo de si naqueles fraseados tristes.

“Presence” é o melhor disco do Led Zeppelin? Claro que não. Mas funciona. Perceba como deveria ser difícil para aquele grupo seguir em frente tentando superar disco após o outro. Claro que uma hora as coisas começariam a ficar escuras. Aconteceu com os Beatles em Let It Be”, com o Pink Floyd em The Final Cut…” Excesso de drogas, libertinagem, muita grana envolvida, acidentes, ego inflado até o teto. Acho que tudo isso te coloca em uma posição horrorosa de desespero, e uma hora você terá que passar por uma provação. “Presence” é isso para o Zeppelin, uma provação com nunca eles haviam passado. Talvez por isso Page considere esse o principal trabalho da banda.

Mesmo tendo se tornado o álbum com as vendas mais baixas, banda passaria por essa turbulência, mas aos poucos sucumbiria por outros motivos (morte do filho de Plant e de John Bonham, por exemplo). “Presence” é um belíssimo começo de um fim amargo.

Cinnamon Tapes inicia caminhada com excelência confessional e crueza sutil

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Cinnamon Tapes

É fato que me alegra muito perceber que os lançamentos que mais gostei em 2017 são de artistas da cena independente, basicamente do mesmo rolê que costumo frequentar, ou seja, pessoas potencialmente próximas, fazendo música pela música, livres. Outra coisa que me chama atenção é que todos esses projetos são liderados por mulheres. Já era tempo de ver isso acontecer.

Não que isso seja algo extremamente inusitado, longe disso, mas não é preciso se esforçar muito para perceber que a predominância do viés masculino nas artes é brutal, a ponto de parecer boicote. Acha exagero? Então tenta contar quantas diretoras de cinema de renome você conhece, ou quantas guitarristas, pintoras, grafiteiras, romancistas… Bem, como tudo nessa vida carece de um meio termo (Aristóteles e Sidarta não podem estar errados), estamos sendo presenteados com um período de gratas mudanças de comportamento, ao menos nesse aspecto de gêneros. E o tema deste texto é um belo exemplo disso.

Fruto de Susan Souza, cantora, guitarrista, violonista e compositora, o Cinnamon Tapes chega até nós como um projeto contundente, bem-acabado e belo. Esta muito claro que em Nabia” (Balaclava Records) cada canção foi pensada, repensada e aprimorada com muito cuidado, até chegar a este resultado incrível.

O lançamento funciona bem considerando cada faixa separadamente, mas também traz requintes de um álbum conceitual. Isso porque Nabia seria uma personagem, uma espécie de alter ego de Susan, que já afirmou que “Ela [Nabia] é um tipo de sereia mística que se permite viver em terra firme e suas vivências são contadas nas músicas”. Sendo assim, tudo que está ali parece ser verdadeiro, vivido por Susan e transmutado em arte.

Brisa, umidade, azul, zodíaco, sal, ciclos, areia, lágrimas, caminhadas, petricor, escuridão, isolamento, esperança, esoterismo e mulher. Pessoalmente falando, essa enigmática figura evoca todos esses elementos. Está tudo lá, no som e nas palavras.

Apesar de ser fácil notar que em toda a tracklist há uma profunda marca da individualidade da compositora, não posso deixar de ressaltar a importância do produtor e baterista do play, Steve Shelley, o impecável membro do Sonic Youth, que ornamentou o álbum com aquela perspicaz expressividade tão marcante que ele carrega (quem manja de SY sabe do que estou dizendo). Há uma sinergia muito bonita entre os dois em todo o disco, tudo executado e pensado de forma vaporosa, discreta. O peso está na mensagem que fica. Afinal, um bom disco guarda essa habilidade. O discurso musical de Nabia é bastante pessoal, sem aquela maquiagem pesada, quase nu, o que por si só o torna um projeto notável.

A primeira coisa que senti quando ouvi “Sol” foi uma mistura de acolhimento e conforto com uma instantânea identificação. A letra é humana, despida de artifícios, um som extremamente certeiro, honesto e puro, como pouco se ouve de uns tempos pra cá. Que música incrível. Ela fica na sua cabeça e persiste como um sabor agradável.

“Road” é outra faixa impecável e que resume o trabalho de forma certeira: sons limpos de guitarra, bateria minimalista, baixo profundo e uma dobra de vozes bem destacadas. Aliás, o grave e belo vocal de Susan é o que tem de mais denso em todo esse conjunto. Embora o timbre não seja similar, é inevitável deixar de pensar em algum momento em Cat Power, talvez pelo fato de que Steve também a produziu, no início da carreira.

Em “Estrela” temos uma densa melancolia com um quê de astrologia e um cenário de depressão, falando de quadratura de Plutão e diabo. Talvez seja o momento mais vulnerável de “Nabia”, na verdade, talvez seja o momento mais vulnerável que escutei há um bom tempo, o que é artisticamente muito bom. Não há como não deixar de se comover minimamente com esse som. Susan faz letras corajosas. “Faz quantos anos que este minuto existe?”, um belo verso.

A levada arrastada de “Skull” embala uma letra cheia de duras confissões e uma atmosfera de tons escuros. O sentimento transborda. Acho que muita gente que curte aquele clima do pós-punk vai curtir essa faixa. O mesmo acontece com “Lua”, e aí notamos como Steve Shelley é um baita produtor: poucos elementos, uma grande quantidade de espaço, sutileza e dinâmica. Você pode até achar que isso é fácil de se conseguir, mas se assim fosse seria mais comum encontrar álbuns tão redondinhos como este.

As agradáveis “Sacred Waves” e “Salty Eyes” incorporam uma persona ligeiramente inclinada ao folk rock, chegando a resvalar em Neil Young e até no sadcore dos anos 1990. A sensação é de estar caminhando na beira de uma praia, com aquele sol tímido pouco colorido. A envolvente trama de guitarras forma uma paisagem quase etérea em “Cinnamon Sea”, e não há como deixar de reparar na alta carga de PJ Harvey e Sonic Youth que a compositora carrega na bagagem, independe de Shelley estar na jogada. As referências estão acentuadas em todo o disco, porém “Nabia” tem uma cara, um corpo e uma voz autênticos.

“Ventre” fecha a tracklist exaltando a feminidade com uma intenção redentora, guiada por um belo piano. É um ótimo desfecho. Aí então você para e pensa nessas nove faixas e percebe que Nabia, essa personagem quase arquetípica, parece ter travado uma conversa franca, aberta, como poucas pessoas são capazes de fazê-lo. Isso é um dom. Um dom ainda maior quando você fala por meio da língua da arte.

Pegando o taoísmo emprestado, acima de tudo, “Nabia” é um álbum “yin”, com uma estética legítima, decorado de introspecções notáveis e uma linguagem arrebatadora. Faz falta ouvir coisas novas que priorizam o espaço, o silêncio, a natureza dos timbres de cada elemento que ali está, e isso este álbum supre com maestria. Com certeza um dos melhores discos do ano. Mulheres, continuem assim. Susan, continue assim.