Maneiras de xingar: Titãs – “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (1991)

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Bolachas Finas, por Victor José

Após uma trinca de álbuns lendários e obrigatórios (Cabeça Dinossauro”, Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas” e Õ Blesq Blom”), os Titãs estavam naquela posição que toda banda almeja: não precisavam mais mostrar o seu valor. Afinal, quem é que contestaria naquela altura do campeonato a importância daqueles oito rapazes para a música popular brasileira?

“Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” veio em uma época em que a política do país – pra variar – estava em frangalhos. A “Era Collor”, mais precisamente. Falta de perspectiva, desemprego e aquela sensação de que todo mundo foi roubado e feito de idiota. Tudo isso deve ter feito a cabeça da banda, que não economizou na grosseria e lançou um disco bem no espírito do “foda-se”.

Bem, nem todo mundo curte esse álbum. A própria banda diz ser um dos trabalhos mais confusos, mas eu vejo de outra maneira. A época pedia isso, precisava disso. Obviamente, todos esperavam mais um trabalho coeso como “Õ Blesq Blom”, mas Titãs (naqueles tempos) não era uma banda muito adepta ao lugar comum, então nada de repetir fórmulas por conta do sucesso comercial.

Há uma coisa muito importante no disco logo de cara: Liminha não foi o produtor. Essa parceria brilhante, que rendeu a fase de ouro da banda se desfez nesse período, voltando somente no lendário Acústico MTV”. Sendo assim o grupo arriscou na produção e gravou numa casa alugada.

Na obra há uma unidade forte. Pela primeira vez o grupo inteiro assina todas as 15 faixas. Além disso arranjaram em conjunto, frisando a força das guitarras de Toni Bellotto e Marcelo Fromer.

Eles ousaram em lançar “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, ainda mais porque ali há letras escrachadas como ”Clitóris”, “Saia de Mim” e “Isso Para Mim É Perfume”, essa última com um irreconhecível Nando Reis cantando versos como “amor, eu quero ver você cagar”… Também há aquela brincadeira com palavras, como no caso de “Obrigado”, “Uma Coisa de Cada Vez” e “Não É Por Não Falar”. Também destaco as performances de Branco Mello, que achou neste disco um tom certeiro, como pode ser conferido em “Filantrópico” e “Flat-Cemitério-Apartamento”.

A respeito do som, dá para dizer que você pode esperar uma música pesada, carregada de guitarras sujas, um rock sem muita lapidação e que combina muito bem com um dia de revolta. Sim, esse disco é pra ser escutado alto, bem alto. É uma espécie de Titanomaquia” (seu sucessor) tosco. O teor das letras chega a ser meio juvenil e jocoso.

É óbvio que a mídia caiu em cima e criticou bastante o disco, que por fim apresentou vendas modestas. Mas acho que até eles mesmos sabiam que seria assim. O que faz desse trabalho ainda mais especial.

Ainda vale a experiência de ouví-lo, justamente porque este é o último álbum com a formação clássica. Isso porque Arnaldo Antunes pularia fora em 1992, para a tristeza de muita gente que, como eu, ama os Titãs desse período.

Talvez você deteste, talvez ame, não sei. O que eu sei é que esse disco é uma obscuridade que merece uma chance. Quem teria coragem de lançar isso hoje?

O futuro que já foi: Chemical Brothers – “Surrender” (1999)

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Chemical Brothers

Bolachas Finas, por Victor José

Apesar de considerar Dig Your Own Hole” (1997) o ápice criativo do Chemical Brothers, Surrender” (1999), além de também ser excelente, me marcou mais. Esse, que é o terceiro álbum da dupla, talvez tenha sido o primeiro disco que me fez voltar os olhos para a música eletrônica.

O som idealizado por Tom Rowlands e Ed Simons vai muito além das efêmeras batidas de pista de dança. O eco psicodélico de influências sessentistas, a euforia da Madchester e o tom melodioso do contemporâneo britpop dão ao Chemical Brothers um forte tempero exótico, credenciando o duo como um dos mais importantes e influentes grupos do gênero Big Beat, representado também por Prodigy e por Fatboy Slim. Por um momento, esse foi o som mais convicto do futuro.

Em “Surrender” temos uma banda recém-consagrada e ávida por atenção, ou seja, aquele era o momento essencial para não deixar a peteca cair. Sabendo disso, percebe-se como esse trabalho foi pensado com cautela e consequentemente importante tanto para o gênero quanto para a dupla.

Dá para dizer que esse é o disco mais popular da dupla, isso porque pelo menos dois hits de grande sucesso estão na tracklist. Além disso, as participações especiais de peso chamam atenção até mesmo do público que não se liga em música eletrônica. Por exemplo, a irresistível e já clássica “Let Forever Be”, com vocais de Noel Gallagher (Oasis), é algo extremamente memorável entre os hits dos anos 1990. A lisergia a la “Tomorrow Never Knows” combinada com a bateria dançante embalam até hoje uma infinidade de discotecagens por aí. Ainda dá certo e tudo indica que sempre dará.

Mesmo se não fosse um dos êxitos comerciais de “Surrender” “Out Of Control” continuaria sendo um destaque. Também conta com participações, dessa vez com os vocais de Bernard Summer e Bobby Gillespie, New Order e Primal Scream, respectivamente. Isso por si só já é histórico. Aquele baita groove mais parece um Depeche Mode com esteróides.

Orange Wedge” e seu baixão dá uma cadência ao álbum, descendo os BPMs. De uma forma mais chapada, o duo monta um crescendo em “Sunshine Undergound” e nos quase nove minutos dá uma aula de rave.

Coloridas, vibrantes e preenchidas de um ritmo inteligente, “Music: Response”, “Under The Influence” “Got Hint?” e “Surrender” apresentam a possibilidade de música dançante com notável criatividade. Pouca gente é capaz de fazer isso soar coisa séria, e ao mesmo temo é muito difícil ouvir cada um desses sons sem mover minimamente o corpo.

As participações continuam a colorir “Surrender” em “Asleep From Day”, desta vez com Hope Sandoval (Mazzy Star) nos vocais, em um dos momentos mais bonitos e relaxados do LP.

Mas para muita gente todos os holofotes se voltam para o super hit “Hey Boy Hey Girl”, uma espécie de hino de nicho. Dá até pra arriscar dizer que todo mundo que saiu alguma vez na vida na ~night~ ouviu essa música, se empolgou e acabou dançando, ao menos batendo o pé. Para o bem ou para o mal (isso para quem torce o nariz para o eletrônico) esse pode ter sido o último grande sucesso dos anos 1990, haja vista que foi lançado como single em maio de 1999.

Para encerrar o álbum, o Chemical Brothers vai de “Dream On”, com outra participação. Jonathan Donahue (Mercury Rev) faz os vocais, violão e piano. O LP encerra gerando boa impressão. Por fim, “Surrender” consegue manter a gigante reputação do duo, consolidada em “Dig Your Own Hole”, e ao mesmo tempo abocanha mais público com hits relevantes.

Mesmo que não seja amplamente reconhecido dessa forma, este é sim um trabalho fundamental para se compreender toda uma época, quando na virada do milênio as coisas no mundo da música pareciam meio caóticas e sem uma direção a ser tomada (o que permeia até hoje). É um bom disco para recomendar para quem nunca prestou atenção no Big Beat. E, além dos rótulos, é um bom disco por si só.

Reconhecimento tardio: Big Star – “Radio City” (1974)

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Big Star Radio City

Bolachas Finas, por Victor José

Se tivesse que apontar para “a banda mais injustiçada” de toda a trajetória do rock, sem dúvida essa seria Big Star. Com suas melodias absurdamente lindas, composições de alto nível, sonoridade direta e uma dupla de compositores de mão cheia, o quarteto de Memphis, Estados Unidos, e principal expoente do chamado power pop foi tudo isso, exceto um caso de sucesso.

Extremamente mal divulgado pela Ardent, o grupo não deslanchou, o que resultou em um injusto marasmo em termos de recepção do público. Dizem que o selo, que era subsidiária da Stax – uma gravadora predominantemente de black music –, não soube bem como vender o peixe daquele quarteto de rock. No caso do primeiro trabalho deles, o ótimo “#1 Record” (1972), a zica foi tamanha a ponto de o LP não ser encontrado nas lojas por conta de problemas com a distribuição. Chegou ao ponto de o público local sequer conseguir achar os álbuns para comprar. Sendo assim, as vendas daquele que álbum que um dia se tornaria um clássico obscuro foram ínfimas.

Para ajudar, Chris Bell, guitarrista e vocalista, já andava sofrendo de depressão e se viu desmotivado com aquele enorme fracasso, por isso abandonou o barco para seguir carreira solo. A banda chegou a ficar uns meses sem trabalhar em coisa alguma. Quase não rolava shows e o futuro era incerto. Mas eis que nesse cenário de deterioração, os remanescentes Andy Hummel (baixo), Jody Stephens (bateria e vocais) e o lendário Alex Chilton (guitarra e vocais) juntaram os cacos para fazer mais um álbum e tentar a sorte outra vez. Para isso banda apostou em um som mais roqueiro e agressivo, sem tantas melodias na tracklist e um clima mais solto. O resultado foi Radio City” (1974), um registro também antológico e para muito ainda melhor que seu antecessor.

Apesar de todos contribuírem para as composições, sabe-se que desde o início Bell e Chilton formavam uma dupla prodigiosa, como uma espécie de Lennon e McCartney fracassada em termos de reconhecimento. Com a saída de Bell, Alex Chilton imprimiu ainda mais sua vibe discretamente excêntrica.

Você logo de cara nota a diferença de timbres nas guitarras. Vale dizer isso desde já: provavelmente esse é o único disco que você vai escutar com esse som específico. A mixagem é um monumento por si só, e mesmo soando bastante limpa, em muitos momentos soa como uma porrada. A bateria é explosiva, a guitarra é cortante e o baixo aglutina tudo de modo que a gente pode falar de boca cheia que isso é um power trio.

“O My Soul” abre o disco com tudo. Apontando para uma direção mais direta e bastante diferente da onda prog da época, o Big Star parecia não ter medo de soar direto revisitando o rock básico. E com um compositor tão criativo como Alex Chilton, o resultado não poderia ser mais adequado. “Life Is White” seria extremamente segura e pop se não fosse aquela gaita estridente que chega a ser excessiva, mas parece que essa era a intenção. Essa banda tem dessas coisas, brinca com elementos sutis para de certa forma camuflar seu som extremamente pop.

Stephens assume os vocais em “Way Out West” e resulta em um dos melhores momentos do disco. Uma faixa com clima estradeiro e com um refrão que lembra muito (até demais) a “Primavera” de Vivaldi.

Um romantismo dilacerante toma conta da alma de Chilton quando canta na semiacústica “What’s Going Ahn”, uma faixa incrível, com um riff de guitarra choroso e a bateria solta, igualmente emotiva. As melodias costuradas entre os vocais e a guitarra conseguem te segurar firme do início ao fim sem qualquer dificuldade. Fechando o lado A, “You Get What You Deserve” também apresenta riffs pegajosos, e você nota muito facilmente de onde o R.E.M. tirou boa parte da inspiração.

“Mod Lang” é a mais roqueira e previsível de “Radio City”, embora nesse caso isso não significa desprestígio. Cumpre seu papel divertido. Depois disso vem aquela que talvez seja a melhor faixa do disco, “Back Of A Car”. Com uma guitarra incrível e a bateria cheia de energia, acho muito difícil alguém escutar isso e não gostar minimamente. Há quem diga que Chris Bell ajudou nessa composição, embora não creditado. Não há muitos erros para apontar na obra do Big Star, e essa música talvez sintetize o que o grupo criou em “#1 Record”, “Radio City” e no derradeiro e bem estranho “Sister Lovers”.

Um clima ameno (talvez psicodélico?) dá início à montanha russa que é “Daisy Glase”, algo que consigo imaginar o Wings fazendo com um pouco mais de retidão. Em “She’s A Mover” o Big Star volta a apostar no rockão com pegada sessentista e de novo abre alas para uma pérola: “September Gurls”, aquela que talvez seja o hino do gênero power pop. A faixa é um memorável caso de amor entre The Byrds e The Beatles, o que parece bastante óbvio, mas a música exatamente é isso. Um pop irresistível, como poucas vezes se ouviu. Ali há ecos de uma infinidade de bandas posteriores. Com essa música Big Star fez escola.

O disco encerra com duas baladas curtinhas, as belas “Morpha Too” e “I’m In Love With A Girl”, que soam como resquício da doçura do álbum de estreia. Mas fato é que “Radio City” encerra e você percebe que ouviu algo acessível, ao mesmo tempo diferente, pegajoso, profundo… e quem sabe ele não te conquista como conquistou Jeff Buckley, Teenage Fanclub, Lemonheads, Kurt Vile, Bangles, Dinosaur Jr., Pixies etc.

O disco naufragou da mesma forma que o primeiro, o que no fim das contas acarretou na saída de Andy Hummel. Como uma dupla, Chilton e Stephens gravaria o bizarro e interessantíssimo “3rd/Sister Lovers” em 1975, que por sua vez só sairia como um lançamento oficial em 1978. Apesar disso, a banda era vista como promissora pela crítica especializada, e ainda é, haja vista que esses três álbuns são citados vez ou outra entre os melhores de todos os tempos. Big Star é a prova de que o reconhecimento vem quando a criação de fato tem valor relevante. Indispensável para qualquer um que acredita na força das boas melodias e nas canções simples.

Texano de alma europeia: Scott Walker – “Scott 4” (1969)

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Scott Four - Scott 4

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se trata de música pop, poucas vezes a gente vai se deparar com algo tão melodioso quanto essa obra prima do excêntrico Scott Walker, um dos cantores/compositores mais enigmáticos de seu tempo. Seu quarto disco é um fiel retrato de beleza sonora, saturado de dramaticidade, lirismo, arranjos e uma atmosfera quase erudita. Por tanto cuidado com esses detalhes, as canções beiram a periferia da cafonice, há nelas tudo aquilo que poderia transformar a sonoridade em algo piegas, mas é aí que entra a genialidade de Walker: ele sabe ser empolado e soar perfeitamente adequado.

A qualidade da gravação é de impressionar qualquer um interessado nas possibilidades do pop. São dez músicas exemplares, de uma exposição melódica sem par.

Para situar o momento do álbum, é importante citar a prolífera carreira que o cantor vinha trilhando desde 19??, primeiramente com o Walker Brothers. Apesar de serem dos Estados Unidos, o grupo estourou mesmo no Reino Unido, chegando até mesmo a ter o maior fã clube oficial da Inglaterra, por volta de 1966. A voz floreada de barítono e seu ar de galã fez de Scott Walker um ídolo teen, embora fosse um cara muito tímido, recluso, sempre mais interessado no lado intelectual das coisas. Existencialista confesso (ávido leitor de Sartre e apreciador do cinema de Ingmar Bergman), sempre teve como ponto de partida em sua música a possibilidade de agregar referências que vinham de fora da esfera musical.

Problemas internos, a depressão de Scott e a guinada psicodélica puseram um ponto final no Walker Brothers. Livre das exigências do grupo, em 1967 iniciou as composições de seu primeiro trabalho solo, fortemente influenciado pelo belga Jacques Brel e climas orquestrais, algo que iria marcar com força os quatro primeiros discos de Walker. A aceitação foi imediata, e alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas, ficando atrás somente do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”.

Em seguida vieram mais dois excelentes álbuns, Scott 2 e Scott 3″. Curiosamente, na medida em que o compositor vinha refinando a qualidade de seus lançamentos, o distanciamento com o público se tornava mais evidente, o que de certa forma deve ter sido um alívio para ele, que sempre detestou os holofotes. Em 1969 foi lançada sua obra-prima, Scott 4″, que é uma espécie de síntese amadurecida dos três LPs anteriores, um pouco menos pomposo, porém permeado de composições intensas e interessante de cabo a rabo.

A começar pela épica “The Seventh Seal”, faixa claramente inspirada no filme O Sétimo Selo de Bergman e na atmosfera das lendárias trilhas sonoras estilo western do italiano Ennio Morricone.

Uma levada que lembra a vibe das músicas de Serge Gainsbourg embala “The Old Man`s Back Again”. As apaixonadas opiniões políticas de esquerda de Scott Walker não eram segredo quando essa faixa foi gravada, mas nesse caso ele critica o lado tirano do governo esquerdista. O subtítulo, “Dedicated to the Neo-Stalinist Regime” refere-se especificamente ao governo repressivo checo que derrubou a era da Primavera de Praga em 1968 com ajuda militar soviética. O “velho” seria o fantasma de Stalin.

“Boy Child” é uma música sem par, um daqueles casos irretocáveis de beleza. A sonoridade tem essa qualidade capaz de impressionar. Talvez seja a melhor faixa de todo o vasto catálogo de Scott Walker.

“Angels Of Ashes” e “On Your Own Again” esbanjam estilo. A sensação é a de que você está em uma outra época, num ambiente suntuoso, cheio de detalhes. Pode ser que isso acabe incomodando algumas pessoas, porque de fato Walker propõe (e consegue) elevar a estética do estado de beleza ao limite do pop.

O cantor brinca com as referências e faz um mundo inteiramente pessoal. Em “Get Behind Me” visita o gospel, já em “Rhymes Of Goodbye” redefine uma proposta country, enquanto que “Hero of The War” há um flerte com a levada primitiva do pioneiro Bo Diddley.

“Duchess” e “World’s Strongest Man” mostram como Walker vinha lapidando seu modo de soar acessível, aliviando consideravelmente a afetação vocal que antes se ouvia com frequência nos primeiros trabalhos.

“Scott 4” não foi um sucesso. Demorou um bom tempo para enxergar esse LP com a devida atenção. Com o passar dos anos, Scott Walker se tornou cada vez mais obscuro, recluso e experimental, tão avant garde a ponto de lançar álbuns com músicas de mais de 20 minutos de experimentos, como o ótimo Bish Bosch”, de 2012. Vale dizer que essa fase é igualmente interessante.

Atualmente houve uma renovação no interesse em torno do lendário texano com alma de europeu. Em 2014 Lançou com o Sunn O))) o Soused”, um ótimo disco, muito aclamado pela crítica e pelo público. E ao se deparar com esses trabalhos mais recentes e depois rever o contexto de “Scott 4″, fica uma pergunta muito difícil de responder: quem, além dele, conseguiu passear por essas vertentes com esse nível de qualidade?

Celebração baiana: “Doces Bárbaros” (1976)

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Doces Bárbaros

Bolachas Finas, por Victor José

Certa vez perguntaram a Milton Nascimento como era possível haver tantas parceiras entre músicos brasileiros, e o cantor simplesmente respondeu: “Porque a gente gosta disso”. Essa frase cabe perfeitamente no encontro dos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, o que resultou no “Doces Bárbaros”. Se separados eles já ditavam tendências, lotavam shows e rendiam notícias, juntos então, eram capazes de soar como um divisor de águas da MPB.

Ao longo dos anos anteriores, uma série de espetáculos reuniu os medalhões no palco. Em LP, Domingo” (1967), Tropicália ou Panis et Circencis” (1968), Barra 69″ (1972) e Temporada de Verão” (1974) já haviam mostrado que a afinidade entre esses músicos ia além da amizade que cultivavam fora dos palcos.

Já estava comprovado que parcerias agradavam o público. Por isso, em 1976, o selo Philips – naquele momento, dona de um catálogo absurdamente fantástico – voltaria a investir na fórmula apresentando ao público outra faceta da MPB: um raro caso brasileiro de supergrupo, ou seja, conjunto cujos integrantes já são reconhecidos por outros trabalhos.

A convocação dos Bárbaros partiu de Maria Bethânia. Conversando com o irmão Caetano, pediu para ele fazer a melodia de uma letra de sua autoria, intitulada “Pássaro Proibido”, a qual acabou se tornando uma das canções do grupo. Papo vai, papo vem e Bethânia conta que havia sonhado com a reunião daqueles quatro amigos no palco, uma possibilidade antiga que já vinha sendo alimentada principalmente por Caetano e Gil, que chegaram a cogitar algumas vezes formar uma “banda de brincadeira”, mas esperavam pelo momento certo para concretizar a ideia.

A parceria entre eles não poderia ter sido escolhida num período melhor. Com sucesso estabilizado e reconhecidos pelo público e pela crítica, os quatro atravessavam uma fase prolífera em suas respectivas carreiras solo. O quarteto podia gozar da livre e espontânea vontade de se curtirem, sem a obrigação de criar um disco inovador.

Sobre o nome, Caetano disse: “Após o exílio em Londres, eles retomaram uma linha de ataque contra nós, focando principalmente no fato de nós sermos baianos. Então fizeram um apelido, chamaram a gente de ‘baiunos’, deplorando que o Rio tivesse sido invadido por esses bárbaros. Foi aí que eu tive a ideia de chamar a gente de Doces Bárbaros”.

Um ano antes, Gil inaugurou a trilogia “Re” com o muito elogiado LP Refazenda”, no qual revisitou suas raízes e reinventou sua sonoridade. Posteriormente, Gil colhia os frutos do trabalho de estúdio com uma longa turnê pelo País.

Gal Costa investia no repertório do conterrâneo Dorival Caymmi. Ela havia estourado nas rádios e na televisão com “Modinha Para Gabriela”, o famoso tema de novela. Logo depois lançou o álbum Gal Canta Caymmi”, que renderia um show com o compositor.

Após dois anos de jejum fonográfico, Caetano matava a fome de seus fãs com Jóia” e Qualquer Coisa”, de 1975, discos mais acessíveis ao grande público e menos arrojados em relação à proposta estética, se comparados aos trabalhos anteriores, como o experimental Araçá Azul”.

Já Maria Bethânia se desvinculava gradualmente dos álbuns teatrais que marcaram o início de sua trajetória. Um ano antes tinha subido ao palco com Chico Buarque, encontro que renderia um LP de muito sucesso. E no começo de 1976, lançava Pássaro Proibido”, um marco que a consagraria definitivamente como cantora popular.

Apesar de alegarem que estavam comemorando dez anos de carreira solo, cronologicamente, o ano de 1976 estava fora de contexto. Bethânia tinha discos gravados há mais de onze anos. Gil iniciou sua discografia em 1963 com Gilberto Gil – Sua Música, Sua Interpretação”, lançado pela JS Discos. Caetano teve o primeiro compacto nas lojas em 1965, com “Cavaleiro / Samba em Paz”. Já a estreia solo de Gal Costa aconteceria somente em 1969, em LP homônimo.

A concepção era ambiciosa no formato e consistia em uma maratona de shows em diversas capitais, um álbum duplo e um documentário. A produção do espetáculo ficou por conta do empresário Guilherme Araújo, e a estreia do grupo aconteceu no dia 24 de junho de 1976, no Anhembi, em São Paulo.

Em uma das viagens da turnê, aconteceu um imprevisto que levaria o grupo à manchete dos jornais de Florianópolis e do Brasil. Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha. A notícia causou tanto alvoroço quanto o show e si. Recolhido em uma cadeia pública, por decreto de um juiz, Gil foi internado no Instituto Psiquiátrico São José, próximo a capital catarinense, onde ficaria recluso por cerca de duas semanas, para que em seguida se submetesse a tratamento ambulatorial no Sanatório Botafogo, no Rio de Janeiro.

Algum tempo depois da interrupção das apresentações, o Doces Bárbaros retomou os palcos e iniciou uma bem sucedida temporada no Canecão, do Rio de Janeiro, onde ficariam em cartaz por cerca de dois meses, com direito a recorde de bilheteria.

Embora naturalmente sobressaísse o espírito aberto e festivo de estarem juntos no mesmo palco, o espetáculo também continha outros grandes momentos. Lampejos de talento vocal e performático, com “Os Mais Doces dos Bárbaros” e “Fé Cega, Faca Amolada”, cantado por todos juntos com um entusiasmo arrebatador, ou em casos mais tranquilos, como “Esotérico”, composição de Gil interpretada por Gal e Bethânia com um quê de sensualidade desconcertante que as duas intérpretes gostavam de imprimir.

Gil e Caetano desejavam gravar o repertório em estúdio, mas Gal e Bethânia insistiram que fosse lançado ao vivo, e foi assim que aconteceu. Mesmo com a decisão de captar o clima do show, quatro das canções contidas no tracklist do LP foram gravadas em estúdio: “Esotérico”, “Chuckberry Fields Forever”, “São João Xangô Menino” e “O Seu Amor”, as quais também sairiam em compacto duplo em julho do mesmo ano.

O álbum duplo traz dezessete canções distribuídas em dezoito faixas, sendo quase todas até então inéditas e compostas, em grande parte, ou por Caetano ou por Gil. Apenas três fogem da regra: “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos), “Tarasca Guidon” (Waly Salomão) e “Atiraste Uma Pedra” (Herivelto Martins / David Nasser).

O disco foi sucesso comercial, mas não vingou aos olhos da crítica. Naquela altura da década de 1970, quando se falava de alguma obra do time da MPB, se esperava algo esteticamente rico, intrínseco, e não aquela imagem abusivamente festiva celebrada pelos baianos.

Tanto o espetáculo quanto o LP foram duramente criticados, sendo taxados de algo sem profundidade, raso, uma manifestação Flower Power fora de época. “Não se fazem mais baianos como os de antigamente?”, publicaria Walter Silva, o ferrenho crítico da Folha de São Paulo.

Ruy Castro também foi severo e cobrou mais respeito da trupe aos espectadores, que presenciaram alguns imprevistos no palco. Ele também pediria para os baianos ensaiar antes de entrar em cena. “De preferência, sem a presença do público, nem cobrando 80 cruzeiros por cabeça. Tropeçar nos fios e derrubar microfones não devia fazer parte da coreografia. Os quatro continuam a ser artistas extraordinários, mas cada qual no seu canto. Por enquanto, os Doces Bárbaros são apenas uma doce ilusão”, publicaria na época.

Talvez seja exatamente isso que o quarteto tenha significado: uma celebração despretensiosa no sentido estético e mais voltada à pura e simples curtição, ou seja, o contrário do que foi o Tropicalismo e todo seu engajamento, o oposto do que se esperava daquelas estrelas naquele momento de ditadura militar.

Mas o tempo foi o melhor remédio para apagar os preconceitos. Mesmo com todos os problemas técnicos e a estigma de soar escapista, o LP “Doces Bárbaros” acabou ganhando o devido reconhecimento de obra importante da discografia brasileira. Hoje ele é tido como um registro fonográfico histórico e único de um momento áureo, e, quem sabe, o último suspiro da linguagem abertamente hippie na música brasileira.

Mulheres no comando: L7 – “Bricks Are Heavy” (1992)

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Bolachas Finas, por Victor José

L7 foi talvez a banda inteiramente feminina mais importante dos anos 1990. Isso por si só faz desse grupo interessante. Na primeira metade de 1992, no auge da onda Nevermind”, Donita Sparks (vocal e guitarra), Suzi Gardner (vocal e guitarra), Jennifer Finch (baixo e vocais) e Demetra Plakas (bateria e vocais) apresentaram ao cenário grunge seu terceiro álbum e mais emblemático: Bricks Are Heavy”.

Embora a banda californiana tenha em suas raízes mais básicas o punk e o hardcore, neste disco elas colocam a estrutura do heavy metal na linha de frente, o que era de praxe naquela fase do rock. Dessa forma, o L7 conseguiu se aproximar da linguagem de contemporâneos como Soundgarden, Mudhoney e Nirvana, conseguindo um som pesado e ao mesmo tempo “radio friendly”.

Um dos aspectos que certamente fez a diferença no resultado final foi a escolha de Butch Vig (Nirvana, Smashing Pumpkins, Sonic Youth e Garbage) como produtor, que além de saber como fazer uma banda soar como um grunge mainstream sem perder a compostura, o hype em torno dele estava bastante alto. Fica bem evidente a mão de Vig em “Pretend We’re Dead”, o hit do LP. Uma produção caprichada, que empurra a potência da banda até um limite ainda não explorado por elas, com ênfase nas melodias e nos riffs mais cadenciados. Acabou se tornando um dos maiores clássicos de uma época.

Mas é claro que o tradicional ar punk do L7 – ainda que haja guitarras com timbre de heavy metal – ganha corpo ao longo de “Bricks Are Heavy”, como se percebe nas faixas “Slide”, “Mr Integrity”, “Shitlist” e na ótima “Everglade”, esta última sendo outro single de destaque do disco.

Por outro lado, as faixas “Wargasm”, “Diet Pill” e “Monster” (outro clássico alternativo dos anos 1990) se rendem à atmosfera do metal com muita personalidade e sem medo de soar acessível. Aliás, esse trabalho tem toda uma tracklist convidativa: cheia de melodia, riffs pegajosos, ritmos básicos e excelente qualidade. Na cena grunge, enquanto um monte de marmanjo adorava choramingar suas desgraças – o que não deixa de ser um recurso interessante –, o L7 decidiu trilhar um caminho mais coeso, direto, sem um pingo de frescura.

Depois de todo esse tempo, ao ouvir hoje “Bricks Are Heavy” e todas as suas ótimas 11 faixas, percebo como é difícil pensar em algum disco desse período que seja tão redondo como este. É certamente um dos melhores momentos do rock dos anos 1990, que mesmo não sendo pioneiro em algo específico mostrou o rock de uma perspectiva feminina. E isso se mostrava ainda mais intenso no palco, com shows cheios de energia, numa cena inegavelmente predominante de homens. A banda, feminista atuante, sempre deixou clara sua posição sobre o assunto e fazia questão de ressaltar isso em algumas letras. De fato essa não é uma banda “quadrada”, como sugere a gíria que dá título à banda.

“Bricks Are Heavy” foi um sucesso de crítica e público, alcançando o número 160 no Billboard 200, algo extremamente louvável para uma banda vinda do underground. Fizeram uma extensa turnê mundial e vieram parar aqui no Brasil no início de 1993, no fatídico Hollywood Rock. Abriram para o Nirvana com um setlist maravilhoso e ainda no fim tiveram a ousadia de tirar a roupa enquanto o show estava sendo transmitido ao vivo pela Globo.

Depois disso o L7 experimentou um pouco da fama e continuou lançando álbuns até 1999. O grupo parou em 2000 e voltou a se apresentar somente em 2014, com a formação clássica. Hoje o L7 é reverenciado como um ícone importante da força da mulher na música, sendo que poucas vezes se viu no rock um grupo feminino com tanta estatura. “Bricks Are Heavy” é um disco obrigatório.

Quando o pop ficou difícil: Jethro Tull – “Thick As A Brick” (1972)

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Jethro Tull - Thick As A Brick

Bolachas Finas, por Victor José

Toda banda de relevância tem um momento especial na carreira no qual tudo parece dar certo. Ian Anderson, o cabeça por trás do Jethro Tull, experimentou esse gosto no início da década de 1970. Após ter lançado o excelente e praticamente perfeito Aqualung” (1971), como o compositor poderia manter o nível? Pois a resposta veio no ano seguinte com um trabalho bastante ousado, seja na sonoridade como nas letras ou na arte gráfica.

Por um lado, como manda a cartilha do rock progressivo, Thick As A Brick” é sim um disco excessivo e cheio de cacoetes particulares daquele período, por outro lado, o que isso importa? O disco é ótimo e descreve muito bem uma época. Afinal, cabe complexidade no rock da mesma forma que cabe uma porção de artistas geniais que praticamente não sabem tocar. E isso é o que faz desse gênero tão incrível.

Enfim, esse é um álbum conceitual até a medula. Em “Aqualung” – ainda que Anderson negue até hoje – o grupo já estava experimentando ingressar nesse caminho ao abandonar a pegada de blues rock dos três primeiros LPs para canções com relativa relação entre elas. O grupo faria outros trabalhos com essa veia conceitual, embora nesse sentido “Thick As a Brick” seja o ápice, de longe.

Uma infinidade de músicos passou pelo Jethro Tull, mais ou menos uns 30. Para esse disco a formação foi com Martin Barre (guitarra e alaúde), John Evan (piano, órgão e cravo), Jeffrey Hammond-Hammond (baixo e vocais), Barriemore Barlow (bateria, percussão e tímpanos) e Ian Anderson (vocais, violão, flauta, violino, saxofone e trompete).

“Thick As A Brick” é composto por duas faixas (se fosse lançado na era do CD certamente seria somente um), sendo que cada face do vinil passa dos 20 minutos de uma piração muito bem delineada de hard rock, folk britânico e uma pitada de avant garde encharcado num prog meio sinfônico. Uma das coisas mais intrigantes do disco está ligada aos créditos da longa canção. Anderson divide a autoria da faixa-título (algo que seria traduzido como “Burro Feito Uma Porta”) com Gerald Bostock ou “Little Milton”, um suposto garoto prodígio de oito anos de idade que escrevera esse longo poema sobre o estranho processo de viver e a influência negativa da sociedade sobre as pessoas, de maneira a não permitir que elas pensem por elas mesmas.

Esse trabalho demanda paciência. É um tanto desafiador e difícil de escutar. Cheio de texturas, mudanças de ritmo, tonalidade e dinâmica, é capaz que a música que ali está seja capaz de afastar o ouvinte menos acostumado com esse tipo de coisa. Esse LP realmente exige de você, e dá até para ficar meio cansado no meio do processo, mas vale muito a pena. É daqueles que a gente leva tempo para assimilar por inteiro, e só depois disso que ele vai te fisgar. Vejo essa “aceitação gradual” como uma qualidade das mais difíceis de um artista conseguir.

Aliás, pode parecer estranho, mas apesar da sonoridade tão carregada de expressão, considero esse álbum mais voltado para as letras. Procure acompanhar os versos ou a tradução do que Anderson canta, é incrível. De fato o “garoto Bostock” fez um belo trabalho.

O projeto gráfico foi bastante ambicioso. A capa e o encarte formam uma espécie de jornal de 12 páginas chamado The St. Cleve Chronicle, claramente satirizando os tablóides britânicos. A manchete é sobre o garoto Gerald Bostock, que recebe uma premiação pelo controverso poema “Thick as a Brick”, no entanto o prêmio é anulado logo após Gerald tê-lo lido durante uma transmissão pela televisão.

Com uma boa ajuda da tendência da época, “Thick As a Brick” deu muito certo e o LP chegou ao primeiro lugar das paradas da Billboard. Não consigo imaginar isso acontecendo hoje de maneira nenhuma: um álbum em forma de tablóide com duas faixas de mais de 20 minutos ganhando disco de ouro. Vale só por essa curiosidade.

Como outros momentos da carreira do Jetrho Tull, “Thick As A Brick”, talvez o mais conceitual da era dos discos conceituais, precisa ser apreciado ao menos uma vez com atenção. Afinal, há muita gente que considera esse como um dos melhores de todos os tempos.

Alegria em estado bruto: Gilberto Gil & Jorge Ben – “Ogum Xangô” (1975)

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Bolachas Finas, por Victor José

Quando não é preciso provar mais nada, fazer o que der na telha é a melhor das escolhas.

Em meados dos anos 1970, já não restavam mais dúvidas da importância de Gilberto Gil e Jorge Ben. Oito anos depois da última grande revolução da MPB, o baiano que ajudou a universalizar a música feita no Brasil e o carioca que modificou o jeito de tocar violão gravariam mais uma vez seus nomes na arte, criando uma obra-prima impregnada de uma espontaneidade até hoje inigualável.

Há muito tempo os músicos se conheciam. A admiração era mútua, evidente até para quem não os conhecia a fundo. Suas carreiras se encontravam de tempos em tempos, como no programa Divino, Maravilhoso, no qual ambos se apresentavam, ou na versão de “País Tropical” presente no LP psicodélico de Gal, onde Gil e Caetano participam nos vocais.

Era inevitável a proximidade, estava certo que uma hora ou outra algo vindo dos dois viria à luz. A integralidade nordestina de Gil atrelada a estéticas modernas e o balanço essencialmente brasileiro e inconfundível Jorge desaguavam no mesmo lugar: uma fonte inesgotável de musicalidade, imagem e produto altamente criativo.

Em palco, o primeiro reconhecimento musical entre os dois de fato aconteceu no encontro das Semanas Afro-brasileiras, realizado no Museu da Arte Moderna de São Paulo.

E se dissessem que um mero encontro informal e improvável entre amigos desse a origem ao disco, todo mundo apostaria suas fichas: na música brasileira daquele período, para tudo se dava um jeito.

Quando o australiano Robert Stigwood, dono da gravadora RSO Records e produtor de filmes e peças como Saturday Night Fever” e Jesus Christ Superstar”, decidiu passar as férias na cidade maravilhosa com ninguém menos que o guitarrista Eric Clapton, a parceria começou se desenhar de verdade.

André Midani recebeu um telefonema do empresário informando sobre a viagem. Por camaradagem, Midani quis recepcioná-los organizando um jantar em sua própria casa. Para isso, o presidente da Philips convidou um time de primeira para passar a noite juntos: Rita Lee, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Gil, Jorge, Nelson Motta e Armando Pittigliani foram algum dos nomes que apareceram. No final das contas, até Cat Stevens acabou indo à casa do homem.

O ambiente não poderia ser melhor. Com tanta gente interessante num lugar só, era inevitável que algo especial acontecesse. E assim foi. Em meio à celebração e bom humor, alguém sugeriu fazer um som. Pittigliani foi buscar um tambor de percussão e não demorou para que uma roda de música fosse armada.

O resultado foi uma jam session para ninguém botar defeito. Eric, com uma bela guitarra branca, dedilhava livremente seus licks blueseiros enquanto Cat seguia o ritmo com seu violão folk. De repente, Gil e Jorge, tomados por alguma epifania exclusivamente deles, roubaram a cena.

Primeiro Cat Stevens disse “Não sou guitarrista para enfrentar isso” e abandonou o navio. Reconhecendo que seu blues não cabia naquela salada sonora, Clapton largou mão da batalha para ficar observando aqueles dois monstros se desafiando, frente a frente, encharcados de suor. E quem esteve presente diz que o que se seguiu ao longo da noite foi sem sombra de dúvida um dos pontos altos da música brasileira.

Gil e Jorge compunham uma complexa jam band de dois membros capaz de fazer a cabeça de qualquer bom entendedor. Criavam e viajavam numa assombrosa velocidade de raciocínio artístico. Jorge segurava a onda com seu ritmo variável e cheio de vitalidade enquanto Gil contornava e passeava pelas batidas com um senso melódico excepcional.

A batalha resultou em empate técnico e numa plateia igualmente talentosa extasiada por ter visto algo tão encantador, sobretudo o próprio Midani, que pediu aos dois que entrassem no estúdio para repetir aquilo que acabara de presenciar. Poucos dias depois, supervisionados por Paulinho Tapajós e Perinho Albuquerque, gravariam o mítico Gil & Jorge Ogum Xangô”.

Poucas pessoas estiveram envolvidas no projeto, a ideia era justamente apontar as atenções para aquelas duas figuras carismáticas e deixar que a criatividade falasse mais alto que a lógica. Para dar liga à receita, incluíram no time somente o baixista Luís Wagner e o percussionista Djalma Correa.

Com pouco ensaio e num curto período, gravaram o LP em tomadas enormes, algumas chegando a mais de dez, quase quinze minutos. Nos estúdios da Philips, os músicos buscaram repetir a magia daquela noite, travando outra vez um dialogo desvairado, com uma fluência permitida somente a eles.

Para quem não os ouviu na lendária festa, o resultado é único. Os mestres se fundem, duelam, brincam: Gil vira Jorge, Jorge vira Gil – Ogum, Xangô, harmonia e melodia.

Apesar da alta qualidade da gravação, Midani disse: “A gravação ficou maravilhosa. Mas o estúdio só reproduziu 40%, 50% do que tinha sido aquela noite em casa”. Imagina o clima que foi essa festa.

Na religiosa “Meu Glorioso São Cristovão”, eles constroem uma prece católica quase psicodélica, de ânimo pagão e cheio de sutilezas. Jorge declama uma oração enquanto Gil a desmonta compasso a compasso sem distorcer o sentido das palavras. A dançante “Essa é Pra Tocar No Rádio” ganha uma roupagem solta e despretensiosa, ao contrário da intrincada versão jazzística e levemente caipira que entraria mais tarde em Refazenda”, o próximo trabalho de Gil.

O mesmo se dá com a épica “Taj Mahal”, que voltaria com outra roupagem um ano depois no LP África Brasil”. Como se a música não tivesse mais fim, Jorge sobrevoa montado na melodia pegajosa do seu refrão onomatopéico – o mesmo “tê, tê, teteretê” que seduziu Rod Stewart a adaptar aquela sequência de notas para a disco music safada “Da Ya Think I´m Sexy?”. Em 1978, Jorge Ben encaminhou processo contra Rod. O autor da música, Carmine Appice, foi declarado culpado pelo ocorrido. Como punição, Rod teve que concordar em doar os royalties de sua canção para a UNICEF e cantá-la no The Music for UNICEF Concert”. O show foi um sucesso, mas Jorge nunca recebeu um tostão pelo plágio.

Gil exibe vitalidade no belo afoxé “Filhos de Gandhi” e Jorge rebate munido do singelo e delicioso samba-rock “Quem Mandou (Pé na Estrada)”, com suas infinidades de “eu te amo, eu te quero”. O delírio sonoro de “Jurubeba”, também de Gil, é uma peça bem acabada da liberdade no sentido mais literal e musical possível. Flutuam no ritmo nordestino do triângulo de Djalma enquanto viajam nos multi-benefícios da planta do sertão brasileiro.

Composição de Gil nos tempos de exílio, “Nega (Photograph Blues)”, é o híbrido mais bem acabado onde tudo se encaixa perfeitamente. É nessa faixa que está destilada a essência do encontro: a versatilidade de Gil com o cadencioso ritmo de Jorge como se tudo fosse uma única coisa. Um raro presente embrulhado num inglês sobrecarregado de sotaque.

Por mais que Midani julgasse estritamente necessário que o trabalho saísse, aquele álbum duplo com apenas nove músicas obteve pouca repercussão no mercado, o que já era de se esperar. Em LP, “Gil & Jorge” nunca fora reeditado. Porém, a crítica foi generosa com o resultado, ao julgar que aquela uma hora e meia de música era pura e irretocável. De fato, a despretensão que faz deste disco mágico e único na discografia brasileira.

Ainda que impopular nas vendagens, “Gil & Jorge” se transformou em um clássico cult, sendo reconhecido até pelo público internacional como um dos pontos altos da música brasileira. Depois disso, tanto o baiano quanto o carioca passariam a buscar em suas carreiras uma trilha mais sóbria e popular: Gil revisitaria suas origens nordestinas e Jorge abraçaria de vez a guitarra elétrica.

Tudo no talo: Yeah Yeah Yeahs – “Fever To Tell” (2003)

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Bolachas Finas, por Victor José

Quando eu era moleque tinha essa coisa que muitos têm de buscar só velharias do rock para escutar e quase não dar atenção para o contemporâneo. Isso aos poucos foi mudando (ainda bem), e devo agradecer aos grupos do início dos anos 2000 por essa manobra em minha cabeça.

Não é novidade para ninguém que nessa fase a música pop já estava dissecada o suficiente a ponto de tornar o termo revival a máxima de todo um período. Por um lado isso é pobre, por outro, é absolutamente fantástico. Afinal, como dizia o mestre Chacrinha: “Nada se cria, tudo se copia”.

Então a partir daí falo do primeiro álbum do Yeah Yeah Yeahs, essa mistura de punk nova-iorquino, hard rock, new wave e um quê de eletrônico com noise. Desde já afirmo sem precisar pensar muito que Fever To Tell”, de 2003, é um dos melhores discos da década. Ali tem todos os chavões do rock ‘n’ roll de um jeito todo refeito e especial. É sujo, indecente, bruto, alto, cheio de arestas e bem dançante. Karen O com seu estilão todo bizarro canta com aquela sensualidade carregada e de modo tão incisivo que fica difícil não admitir que ali tem uma baita presença de expressão.

A guitarra de Nick Zinner, que também faz as vezes do baixo que não há, é uma cacetada como um bom punk e traz uma boa dose de noise. Isso resulta em uma maçaroca meio feia, mas que funciona bem. Isso sem falar das palhetadas para baixo do tipo “Last Nite”, algo que praticamente toda banda dessa fase explorou até a exaustão.

Brian Chase apresenta uma bateria quase livre, que faz toda a diferença no som do trio justamente por não trazer essa qualidade tradicional de manter uma levada óbvia, o que faz dele um contraponto perfeito entre Karen e Zinner.

Sobre a tracklist, o que se pode dizer é que no mínimo você não terá sono. A energia começa lá em cima e por pouco não atravessa as faixas de ponta a ponta num gás só. Em 2003 dava para fazer uma boa festa só com as sete primeiras músicas. Na verdade, não se pode esperar desse álbum nada mais que um rock certeiro – e isso já é algo louvável por si só.

Com aquela guitarra meio sintetizador, “Rich” traduz toda uma década de indie rock, sem grandes preocupações em soar maduro. Depois vem “Date With The Night”, que na verdade é um blues de pista de dança, pode notar. Quem hoje faz uma coisa dessas?

De tanta pilhação, as caóticas “Man” e “Tick” mal dão tempo de você digeri-las, mas nesse caso isso pareceu ser uma boa ideia. Karen O canta como um frontman de banda dos anos 1970 em “Black Tongue” e intercala com um refrão cheio de gemidos falsos – algo recorrente nesse disco.

“Pin”, um dos mais memoráveis singles do álbum, faz um contraste bem legal com as anteriores por apresentar uma melodia um pouco melancólica, enquanto que “Cold Light” poderia servir para um rápido e exagerado strip-tease.

A esquisita “No No No” faz as vezes de ponte entre essa parte mais festiva e o lado mais bem desenhado de “Fever to Tell”, isso porque logo em seguida vem a já clássica “Maps”, uma balada de primeira, onde tudo está no lugar certo, na medida certa e chega a emocionar. Não tem como não rever os anos 2000 sem esbarrar em “Maps”. Ainda hoje essa é uma música forte e convincente.

Embora “Maps” seja o ponto alto do disco, o YYY ainda gasta o resto do fôlego com a ótima e pulsante “Y Control” e nos coloca para descansar os ouvidos em “Modern Romance”, algo que lembra de longe aquelas coisas mais adocicadas dos também nova-iorquinos Velvet Undergroud. O álbum custa a se apagar, isso porque ainda tem uma faixa escondida que não faz aqueeeela diferença no produto final, mas que também não compromete.

Enfim, “Fever To Tell” é um belo exemplo de como foi essa fase em que fui adolescente. Hoje vejo essa época com mais carinho e percebo que, embora não houvesse todo aquele brilho de épocas mais remotas, ainda assim sobraram belos momentos. Yeah Yeah Yeahs começou a carreira com o pé direito, mostrando que você pode lavar, enxaguar, secar e passar o rock sem medo de encolher.

Inglês até os dentes: The Kinks – “Face To Face” (1966)

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The Kinks - Face To Face

Bolachas Finas, por Victor José

Tem como não gostar de Kinks? Essa banda seminal encarnou praticamente tudo que importa do espírito do rock britânico dos anos 1960, mas, diferentemente dos parceiros de época Beatles, Stones e The Who, não atingiu aquela enorme massa de sucesso. Apesar disso, pode-se dizer que ainda sim esta é uma das maiores bandas de todos os tempos sem sombra de dúvida, e divide com o The Animals (e quem sabe o The Hollies) esse estranho e não tão justo posto de bandas britânicas definitivas da década de ouro do rock que todo mundo conhece pelo menos uma música.

Mas o mais interessante do legado do The Kinks é que a cada nova vertente que aparece no rock você percebe uma banda ou outra que os idolatra. Perceba o power pop do The Knack, o indie a la “You Really Got Me” da sueca The Hives ou a personalidade inglesa até a medula nas principais obras do Blur… Tudo isso é muito The Kinks. A banda atravessa os anos renovado e cada vez mais bem assimilado.

Poderia escolher praticamente qualquer álbum da banda para comentar, mas escolho Face To Face”, seu quarto LP, por ser o meu favorito e porque vejo nele um período de transição muito evidente, o que o torna ainda mais interessante. Há o melhor dos dois mundos de Kinks nesse disco. “Face To Face” está para The Kinks como Rubber Soul” está para The Beatles. Pelo menos eu vejo assim. Ainda há aquela urgência dos primeiros trabalhos, mas já notamos uma banda mais refinada, variando nos estilos, buscando se inserir na nova onda de experimentações sonoras e se saindo muitíssimo bem.

Ray Davies – como sempre – estava afiadíssimo nas composições e produziu alguns de seus momentos mais memoráveis.  Pela primeira vez, toda a tracklist leva sua autoria. Outra coisa curiosa sobre esta obra é que muito a consideram como o primeiro álbum conceitual da história, ou seja, todas as músicas contribuem para um tema específico, como acontece com clássicos como Tommy” e The Wall”. No caso de “Face To Face”, o tema explorado foi basicamente a sociedade inglesa e seus costumes e, ao contrário dos clássicos álbuns conceituais, não há nada de repetições de temas e dramáticas overtures ou interlúdios, pelo contrário, você escuta as 14 faixas em uma tacada só, sem encheção de linguiça e não cansa um segundo. Cada canção funciona muito bem sozinha, se considerar fora dessa pegada conceitual.

“Party Line” abre o LP com bastante força, direto, sem maiores pretensões. Essa na verdade é uma parceria entre os irmãos Davies, que no fim acabou não sendo creditada no encarte. “Rosy Won’t You Please Come Home” traz um ritmo dançante embalado pela bateria sempre bem destacada de Mick Avory e por um cravo meio empolado tocado pelo mestre Nicky Hopkins. Essa música é uma daquelas que tem a incrível capacidade de grudar em sua cabeça pelo resto do dia, semana ou mês. Uma curiosidade: essa canção foi inspirada principalmente pela irmã de Ray e Dave Davies, Rosy. Ela e seu marido, Arthur Anning, tinham se mudado para a Austrália em 1964, o que deixou Ray profundamente triste. No dia que eles se mudaram, Ray Davies teve um surto de choro em uma praia. Dave contou uma vez que ele correu para o mar gritando e chorando. Além disso, a partida de Rosy e Arthur inspiraria mais tarde a banda na concepção de outro grande álbum da banda: Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire)”, de 1969.

Um dos singles para o disco, “Dandy” traz uma ótima letra de Ray, cheia de sarcasmo. Dizem que esta canção fala indiretamente de seu irmão, Dave Davies, o guitarrista da banda. A acidez para com os outros não para por aí, isso porque “Session Man” é um retrato de ninguém menos que Jimmy Page. E pelo visto a banda detestava o então músico de estúdio. Para se ter uma ideia, veja o que Ray já disse sobre isso: “Quando gravamos “All Day And All Of The Night” nós tivemos que gravá-la às 10 horas da manhã, porque tínhamos um show naquela noite. Tudo foi feito em três horas. Page estava fazendo uma sessão no estúdio ao lado, e veio para ouvir o solo de Dave. E ele riu, ficou tirando sarro. E agora ele diz por aí que tocou aquele solo! Então eu acho que ele é um cuzão. Dave é um grande guitarrista. Ele tem suas limitações, mas nunca recebeu o devido reconhecimento. Ele tocou isso com 16 anos de idade. Ele criou um som”.

Embalada pelo belo baixo de Peter Quaife, “Too Much On My Mind” apresenta um ar de folk rock bem dentro dos padrões da época, enquanto que em “Rainy Day in June” e “Fancy” a banda arrisca algo mais experimental com sonoplastias de trovões e cítaras, premeditando os anos psicodélicos (algo que o Kinks nunca chegou a cavar a fundo).

O rock básico dá as caras em faixas incríveis como “House in The Country”, “Holiday in Waikiki” e “You’re Lookin’ Fine”, que mostram a capacidade do grupo de transitar entre a busca de maturidade musical e a rebeldia inerente do rock, sem abrir mão da qualidade. O mesmo ocorre com as mais melodiosas “I’ll Remember” e “Most Exclusive Residence For Sale”, esta última com uma letra hilária sobre um sujeito que compra uma casa suntuosa por puro capricho do status e não consegue manter o estilo de vida.

A super inglesa “Little Miss Queen Of Darkness” traz esse ritmo ligeiramente jocoso, cheio de irreverência e um solo de caixa irresistível. Dá até para dizer que ela faz um belo par com a mais famosa do disco, “Sunny Afternoon”. Um dos pontos altos do catálogo do grupo, essa canção alcançou o primeiro lugar nas paradas do Reino Unido, o que animou bastante Ray, que via nesse novo jeito de compor sua força principal. “Não havia escrito nada por um tempo”, comenta Ray. “Eu estava doente e vivia numa casa muito decorada, tinha paredes laranja e móveis verdes. Minha filha de um ano de idade estava engatinhando no chão e eu escrevi o riff de abertura. A única maneira que eu poderia interpretar como eu me sentia era por meio de um aristocrata decadente. Eu o transformei [o protagonista da faixa] em um canalha que brigou com sua namorada depois de uma noite de embriaguez e crueldade”, disse.

Apesar das ótimas críticas, “Face To Face” não foi um sucesso de vendas, o que viria a se repetir em vários dos melhores trabalhos do Kinks. Talvez o público estivesse mais sedento por folk rock e pirações psicodélicas, que já estava começando a pipocar com força em 1966. Mas fato é que pouco importa o desempenho da banda nas paradas de sucesso. Hoje todos concordam que ali está uma das obras mais importantes da música pop. E termino como comecei: tem como não gostar de Kinks?