Cantarolando a natureza sazonal das coisas em “Turn! Turn! Turn!”, do Byrds (1965)

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The Byrds

A coluna de hoje está homenageando a canção “Turn! Turn! Turn!”, invocada pelos Byrds. O hit de 1965, além do icônico som daquela Rickenbacker de 12 cordas e das lindas harmonias vocais que são a marca registrada dos Byrds, carrega em si uma sabedoria milenar.

A letra se refere a uma passagem da Bíblia, do livro Eclesiastes 3:1-8. Se formos ver, a idéia é muito parecida com um dos pensamentos que se desenvolveu no taoísmo, no sentido de que nada é permanente nem absoluto, mas sim, as coisas funcionam num eterno fluxo entre dois opostos, no tempo em que devem ocorrer, conforme o ritmo que própria Natureza ditar. O símbolo do yin-yang ilustra isso direitinho [aliás, o cara que inventou esse símbolo é o melhor designer de todos os tempos, não acham?].

A passagem da Bíblia é a seguinte:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

A letra de “Turn! Turn! Turn!” é praticamente uma transcrição dessa passagem, exceto pelas respostas “vire, vire, vire”, as quais acabam dando um movimento para a música com a imagem literal de giro, retorno, fluxo. Quase que numa ciranda, dando um sentido concreto à idéia da letra.

Além disso, também acrescentou-se uma última frase após o “tempo de paz”: eu juro que não é tarde demais. Essa última frase deu o tom da intenção pacifista da música. Isso porque um pedido de paz é uma afirmação de sua posição política – algo muito importante na época, especialmente entre os artistas folk, no contexto da guerra do Vietnã. Essa versão da letra foi originalmente escrita pelo cantor folk Peter Seeger, conhecido por seu engajamento político e lutas pelos direitos civis nos EUA.

A versão de Peter Seeger é tipicamente folk (veja aqui), já a do Byrds, arranjada pelo guitarrista Jim McGuinn, dá à canção a estrutura de rock, formando o característico folk-rock da banda. A batida, que ele chama de estilo “samba”, dá uma cara meio psicodélica e fluida para a faixa.

O mais legal desse tipo de música é seu caráter atemporal e a ideia libertadora. Dá para cantar essa letra como se fosse um hino, cuja lição principal seria aprendermos a viver com esperança, o desapego, coragem para mudanças e confiança na Natureza (ou no Tao, ou em Deus – filosoficamente falando, excluindo qualquer sentido religioso aqui, porque né, convenhamos, as estruturas de são capazes de corromper até as coisas mais neutras, mas não entremos nesse mérito).

Ou, melhor ainda, dá pra simplesmente cantar essa canção a plenos pulmões porque ela é bonita demais. Aproveitem.