“Vou Rifar Meu Coração” (2012) – O brega como órgão pulsante da música brasileira

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Ano de lançamento: 2012
Direção: Ana Rieper

“Quando Nelson Gonçalves gravou ‘Negue’ era cafona. A Maria Bethânia gravou virou luxo. Nós não somos de uma elite. Nós não somos Buarque de Holanda. Somos pessoas de interior.” – diz Agnaldo Timóteo em determinado momento de “Vou Rifar Meu Coração”, documentário dirigido por Ana Rieper.

O grande trunfo aqui não é o destaque dado aos músicos mais consagrados do gênero como Odair José, Amado Batista, Nelson Ned, Wando e Lindomar Castilho (Waldick Soriano teve seu próprio documentário em 2008). Os artistas não falam de suas carreiras, mas sim da influencia que a música brega ou romântica tem na vida das pessoas. De como as letras são nada mais que um retrato verdadeiro da vida deles mesmos. E o melhor, a diretora reserva espaço para justamente os amantes do gênero, que nada mais são do que os personagens retratados nas próprias canções: o frentista abandonado, o bígamo que divide o tempo com duas esposas, o casal que se conheceu no bordel, entre tantos, junto aos elementos sempre presentes na trajetória dessas pessoas como o ciúme, a traição, a solidão e acima de tudo a paixão.

Feliz ainda por colocar o dedo na grande discussão sobre o que é a verdadeira música popular (qual a diferença com a consagrada “MPB de Ipanema” de determinados artistas?) “Vou Rifar Meu Coração” é um lindo documentário sobre pessoas, artistas e essa música tocada nos bordéis, boates noturnas, inferninhos, cabarés e é claro, nos bregas.

“Cidade Oculta” (1986) – Arrigo Barnabé, o doido-cafônico

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Cidade Oculta
Lançamento: 1986
Direção: Chico Botelho
Roteiro: Arrigo Barnabé e Luiz Gê
Elenco Principal: Arrigo Barnabé, Carla Camurati e Celso Saiki

“Senhoras e senhores, boa noite! Enquanto você e eu dormimos o sono dos justos, entre luzes e sombras de ruas perdidas, começam algumas de muitas histórias…”

Se o Luiz Gê e o Arrigo Barnabé sentassem juntos numa mesa de bar e decidissem escrever um filme policial que se passasse na São Paulo dos anos 80, com o protagonista como um ex-presidiário e criminoso que vive numa barca no Rio Pinheiros caçando tesouros jogados no esgoto, seria bem massa…

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Achando tesourinhos no rio Pinheiros…

Dodecafônico não só nas músicas, o filme do Chico Botelho é um espetáculo. Com uma interpretação dramática bastante exagerada que reflete o jeitão daquela galera do Lira Paulistana, um elenco incrível, uma fotografia impecável (pra quem curte SP pelo menos…) e a belíssima trilha sonora, o longa apresenta uma trama envolvente do início ao fim, com uma série de clichês ridículos de amor e traição, mas definitivamente dum jeito bastante original…

Enfim, já tendo dito acho que o suficiente sobre a trama, partamos ao que interessa!

A trilha sonora composta quase que inteiramente pelo Arrigo Barnabé (que nas músicas “Cidade Oculta” e “Ronda 2”, faz parceria com Roberto Riberti, Eduardo Gudin e Carlos Rennó), deixando pros outros somente “Pregador Maldito” do seu irmão Paulo Barnabé, “Mente, mente” do Robinson Borba e “Pô, Amar É Importante” do Hermelino Neder, é um retrato perfeito da lógica urbana de SP (ainda mais na época).

Com uma dodecafonia sinistra típica do compositor e uma letra que insiste em se meter no universo mais junkie da madrugada paulista, cabe muito bem no universo romântico/criminoso que o filme cria meio que fazendo uma paródia do estilo noir. “Ronda 2” por exemplo, a música que abre o filme, em versos como “Bares e clubes luzem sinais/Gangues de punks lúmpem demais/E prostitutas passam ao léu/E viaturas surgem no breu”, deixam isso bem claro.

É difícil dizer de alguma música que se destaque, contudo na minha cabeça, algumas marcaram mais forte… “Poema em Linha Reta” pra começar, a versão que o Arrigo fez pro incrível poema do Fernando Pessoa com uma insistência na repetição de algumas palavras, definitivamente deu uma baita força extra pros versos do português. “Pregador Maldito” do Paulo Barnabé e mais ainda “Pô, Amar É Importante” do Hermelino Neder, se destacam por apresentarem uma coisa mais pop, a do Hermelino, quase que uma new wave. Por fim, “Mente Mente” do Robinson Borba, também com uma pegada bem pop se torna muito especial pela voz do Ney Matogrosso que canta uma parte da música.

Assista o filme completo aqui:

Ouça a trilha sonora aqui:

E é, por hoje é só…

“Una Mujer Fantastica” (2017) – protagonista cantora ou músicas protagonistas?

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Una Mujer Fantastica (Uma Mulher Fantástica)
Lançamento: 2017
Direção: Sebastián Lelio
Roteiro: Sebastán Lelio e Gonzalo Maza
Elenco Principal: Daniela Vega, Francisco Reyes e Luis Gnecco

Se eu tô vendo um filme e começa de repente a tocar “Time” do Alan Parsons Project, eu penso “porra, tá aí um que merecia um texto pro Crush em Hi-Fi…”. Digamos que o que aconteceu quando assisti ao chileno “Una Mujer Fantastica” (“Uma Mulher Fantástica”) vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro…

Una Mujer Fantastica“, do Sebastián Lelio, é um manifesto político, romântico e musical. Começa parecendo um simples romance, fofo, gostoso: um senhor duns 60 anos, simpático e apaixonado, e uma cantora duns 30 anos, também apaixonada; os dois programando uma viagem pra Foz do Iguaçu… O estranho porém, é que a grande virada do filme acontece logo depois de apresentar o casal apaixonado, ainda na primeira meia hora. A morte inesperada do cara é um choque definitivo e é a partir daí que o resto acontece.

A família do cara (o irmão, ex mulher, filhos que tinha desse antigo casamento e etc.), passa a fazer o possível pra impedir a nossa protagonista cantora, de manter algo do morto, ou de sequer ir no funeral, só porque ela é transexual. A partir daí tudo se desenvolve em volta dessa questão da transfobia, exibindo nas telas as agressões físicas e verbais que ela sofre, e as mil crises de identidade da personagem.

A música entra justamente aí.

Como elemento central na vida da protagonista, a parte musical do filme é o conforto dela, é onde ela afirma sua identidade, apesar das crises, é onde ela exprime a raiva, o amor, o ódio, a felicidade e tudo o mais.

Com uma voz incrível, cantando tangos em bares e óperas incríveis, a Marina (a protagonista), aparece numa cena em desespero total, puta da vida, entrando na casa do professor de canto pra ensaiar. O cara entende na hora que a questão não é de ensaio, mas mesmo assim toca a música. A ária italiana “Sposa Son Disprezzata”, composta por Geminiano Giamelli e usada por Vivaldi na ópera “Bajazet”, vai da Marina cantando no apartamento do professor, até uma cena bastante simbólica dela andando na rua, quando um vento forte aparece e a partir dum momento, não a deixa mais andar pra frente…

É, dessa parte do filme só achei esse vídeo de sei lá onde, que tem também um trailer, além da cena em questão…

Cheio de simbologias desse tipo, sempre muito metafóricas, tem outros sons que chamam bastante a atenção. “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, que acompanha uma cena dentro do carro, traz toda a questão das crises de identidade da personagem, com uma espécie de ironia, já que definitivamente não é a princípio, um som que parece remeter a qualquer tipo de crise.

Dancinha romântica com fundo de Alan Parsons…

Ainda com “Time” do Alan Parsons e mais música clássica, o filme demonstra uma clara atenção à parte sonora do audiovisual.

Como se não fosse o bastante, além das músicas que foram apropriadas pelo longa chileno, várias foram compostas sob encomenda, pelo moderno músico eletrônico Matthew Herbert. O cara que já trabalhou com nomes como Björk, foi escolhido pelo diretor Sebastián Lelio, segundo o mesmo por sua “capacidade de misturar tradição com inovação sem problemas”. Aparentemente, de fato deu certo…

Segue em link o trailer e a trilha sonora.

Trailer:

Trilha sonora:

Acabo o artigo deixando com vocês essa matéria pra refletir um pouco:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/12/1944176-transexual-e-morta-a-pauladas-em-quarto-de-hotel-na-zona-norte-de-sp.shtml

“Fritz The Cat” (1972) – Crumb animado, musicado e sempre controverso

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Fritz, The Cat – O Gato Fritz
Lançamento: 1972
Direção: Ralph Bakshi
Roteiro: Ralph Bakshi
Elenco principal: Skip Hinnant, Rosetta LeNoire e Jonh McCurry

“Fritz, The Cat” é um filme de Ralph Bakshi, grande diretor de animações malucas das décadas de 70 e 80, uma adaptação pras telonas das histórias do personagem Fritz, The Cat, do cartunista rabugento Robert Crumb. Ligando as diversas que histórias que o Crumb escreveu sobre o personagem, o diretor apresenta pra quem assiste, uma paródia de toda a “vanguarda-hippie-artística-intelectual-revolucionária”, que na visão do autor, não passava dum bando de babacas com discursos vazios pra levar universitárias pra cama e suprir suas culpas burguesas.

Tirando um sarro também de todos as outras “tribos urbanas” da época (porque é isso que o Crumb, o senhor da rabugentice, faz deixando o Bukowsky no chinelo), a história se ambienta sempre num universo duma Nova York Junkie da década de 70, com pessoas em becos injetando heroína, policiais idiotas invadindo festas, pseudo-intelectuais discutindo drogas e etc. onde a música rola solta, sempre na pegada dum jazz bebop ou dum blues (o Crumb era apaixonado por ambos os estilos e chegou a escrever um quadrinho que é de fato uma pesquisa sobre toda a história do blues).

A maioria dos sons foi composta para o filme, pelos trilheiros Ed Bogas e Ray Shanklin, com direito a uma participação do próprio Crumb na composição da música tema do Fritz. Contudo, o filme ainda assim conta com outros sons, de artistas famosos tais como Billie Holliday e Bo Diddley e de alguns caras mais undergrounds, como Cal Tjader (um importante expoente do jazz latino), The Watson Sisters (um grupo de R&B do começo dos anos 60) e Charles Earland (multi-instrumentista de jazz, blues e funk).

O curioso, é que o Crumb odiou o filme. Logo após a estréia, o autor lançou tiras do personagem que satirizavam o diretor Ralph Bakshi e pouco depois disso, uma história com a morte do Fritz, já que o personagem havia sido “estragado” pela versão em cinema.

Segue em link o trailer e a trilha sonora.

Trailer:

Trilha sonora:

“The Song Remains The Same” (1976) – um show de rock e cenas absurdas

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The Song Remains The Same
Lançamento: 1976
Direção: Peter Clifton e Joe Massot
Roteiro: Peter Clifton
Elenco Principal: Jonh Bonham, Robert Plant, Jimmy Page e Jonh Paul Jones

 

O filme que recebe o nome da música do Led Zeppelin e também do show gravado no Madison Square Garden, mistura as cenas do show, com cenas ficcionais que funcionam independentemente, meio como se cada uma fosse um clipe da música que acompanha.

Totalmente sem sentido nenhum, as cenas absurdas, psicodélicas e muito chapadas, encaixam muito bem com o estilo absurdo, psicodélico e totalmente chapado do som do Led. Cheios de cores e efeitos visuais, meio que tem um “clipe” pra cada membro da banda, e o resto das músicas acompanham o próprio Madison Square Garden.

“No Quarter”, a que acompanha o John Paul Jones (baixista/tecladista), começa com um trem do metrô chegando numa estação, passa pro show, passa pra ele tocando órgão numa igreja, passa pruns caras com mascaras assustadoras perseguindo pessoas na rua, depois pra ele chegando em casa, brincando com os cachorros e os filhos e depois volta pro show. O ponto é que mesmo isso parecendo no mínimo pouco psicodélico, é definitivamente bastante psicodélico! Os cortes rápidos, as sobreposições de imagens, e mais outros efeitos, fazem da parte visual uma intensificação da viagem lisérgica que é “No Quarter”.

“The Song Remains The Same” e “Rain Song”, são as do Robert Plant (orgasmáticas como ele, por sinal…) e o acompanham no que parece uma espécie de viagem medieval: ele montado num cavalo andando pelas pradarias da Grã Bretanha, entrando num castelo onde luta com espadas, encontro com a princesa e tudo o mais. Novamente talvez isso pareça não psicodélico suficiente, mas novamente, a composição da música muito louca, com efeitos visuais bem lokos, criam o mesmo efeito lisérgico. Vale lembrar também, que “Rain Song”, é uma música que tem uma psicodelia diferente, uma coisa mais suave, que não deixa de jeito nenhum de ser intensa, mas é uma intensidade suave, gostosa, romântica.

“Moby Dick”, o famoso solo de batera de 10 minutos (ou mais, a variar da versão, porque esses cara são tudo doidjo), é obviamente a que dá conta de mostrar o John Bonham (o baterista) em seus loucos carros, pilotando uma moto numa estrada deserta, destruindo tijolos com uma britadeira, cuidando dumas vacas, dançando com sua mulher, tocando bateria com o filho, tocando bateria no show em questão e o mais dahora de tudo, correndo num dragster, um daqueles carros absurdamente rápidos, que dão a largada com uma explosão brutal e freiam com um para-quedas! Essa de fato não conta com nenhum efeito visual lisérgico ou coisa do tipo (acho que em alguma medida isso tem a ver com o fato de ele ser um cara com uma cabeça meio diferente do resto da banda, menos ligado em exoterismos e coisas do tipo), mas dizer que não é uma cena psicodélica seria de qualquer modo ridículo, a começar porque essa coisa que eu to fazendo até agora de dizer “o que é” e “o que não é” psicodélico, é mó caretice da porra, mas também porque mesmo mantendo a caretice da porra, existem outros elementos que compõe a psicodelia no caso. A velocidade muito presente em todas as coisas com motores (e principalmente no dragster), sempre juntas das caretas malucas e felizes do baterista, encaixam lindamente no ritmo frenético do solo e criam uma atmosfera absurdamente maluca.

Por fim, mas não menos importante, “Dazed and Confused” fica sendo a do Jimmy Page (o guitarrista). Essa, claramente doidona, é uma cena noturna, com lua cheia, mago segurando um lampião no topo duma montanha, com rostos que vão se transfigurando e efeitos de luz mutcho crazys. Vale dizer que o som que acompanha, não é “Dazed and Confused” inteira, mas só aquela parte do solo de guitarra tocado com arco de cello (eu acho que é um arco de cello…).

A parte de tudo isso, tenho a dizer somente que é um filme muito sensorial e que sem exageros, assisti-lo é uma experiência única e que te toma por inteiro. Não é o tipo de coisa pra você fazer enquanto lê um livro ou coisa do tipo, isso não dá muito certo…

Segue em link o trailer e a trilha sonora. Valeu!

Trailer:

Trilha sonora:

“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009) – A sofrência em primeira pessoa

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“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”
Lançamento: 2009
Direção: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes
Roteiro: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes
Elenco: Irandhir Santos

Muito lindo, reflitão, cheio de clichês, mas muito real e super sofrência.

José Renato (Irandhir Santos) é um geólogo que atravessa o sertão fazendo estudos para um possível canal a ser construído no “Rio das Almas” (uma alusão ao São Francisco). Inteiro com câmera em primeira pessoa (passa na tela, o que seria a visão da personagem), as imagens acompanham sempre a narração da voz melancólica do protagonista que nos conta entre análises do solo, sobre as pessoas que esse canal desabrigaria, sobre o fora que levou pouco antes de partir nessa pesquisa de campo, sobre a relação que tinha e sobre todo o resto das coisas do mundo. A partir dessas narrações e de algumas cenas de entrevistas colhidas ainda nos anos 90, com pessoas que de fato não são atores (o filme transita sempre entre a ficção e o documentário), o brasileiríssimo “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, traz uma série de reflexões de cunho filosófico e sociológico.

Casal gravado pelo geólogo. Serão obrigado a sair de onde moraram toda a vida por conta do canal…

Com uma pegada de road movie, uma boa parte do filme é a paisagem da estrada sempre igual vista pelo para brisa do geólogo. Contudo, apesar de isso poder parecer um tanto quanto entediante, o rádio sempre ligado garante um outro ritmo, bem mais gostoso.

Cheio de clássicos da sofrência, cantados sempre com aquela voz meio trêmula que beira um choro, a música completa muito mais que bem todo o tom de “paixonite + pénabunda + solidãodaestradadosertão”. Mas o auge com certeza, é um sapateiro que aparece como um dos que serão desalojados, cantando “Meu Último Desejo” do Noel Rosa.

Além dessa, o filme ainda tem “Sonhos”, “Morango do Nordeste”, “Esta Cidade É Uma Selva Sem Você”, as estrangeiras “Échame A Mi La Culpae “Un Chant D’Amour”, e mais muitas outras pra chorar e muito.

Segue em link o trailer e a trilha sonora.

Trailer:

Trilha Sonora:

“As Patricinhas de Beverly Hills” (1995) e a estranha música dos anos 90

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Clueless (As Patricinhas de Beverly Hills)
Lançamento: 1995
Direção: Amy Hickerling
Roteiro: Amy Hickerling
Elenco Principal: Alicia Silverstone, Stacey Dash e Brittany Murphy

 

Assistido na companhia do Thiago Lastrucci, da Pierina Ludovice e do Hector Munhoz. Segue comentário da Pie acerca do filme:

“As Patricinhas de Beverly Hills é um filme interessante no qual podemos nos inspirar para sermos boas patricnhas e aprendermos sobre o karma e o amor entre pessoas diferentes”

P. Ludovice, 16/02/2018

Bem bostão. Uma comédia da década de 90 tirando um sarro do comportamento egocêntrico e arrogante de adolescentes mimados e podres de rico. Cher (Alicia Silverstone) é uma patricinha de Beverly Hills, presa no mundo do próprio umbigo e que não levanta um dedo pra nada, absurdamente estúpida, sem noção, que só faz merda, mas de verdade, acredita que é a melhor pessoa do mundo e que faz tudo pelos outros. Acompanhando a personagem, o filme vai mostrando como esse estilo de vida acaba levando-a à decadência e como ela sai disso duma maneira interessante.

Bom, não tendo dito nada no último parágrafo e com a fantástica justificativa de que bem, o filme também não fala porra nenhuma (!), sigamos adiante pra tratar do que importa. Apesar de a história de fato não chamar atenção por qualidade de roteiro, a trilha desponta com a guitarra meio punk, meio pop, que marca os anos 90.

Com David Bowie, The Muffs, Beast Boys, Radiohead, Supergrass e mais uma porrada de bandas das quais nunca ouvi falar, a música acompanha mais que bem toda a estética do filme de 95, que faz questão de expor ao máximo o estilo genial e cômico da época. Calças super largas, camisas gigantes, a ascensão do skate, o boné virado pra trás e tudo aquilo de que hoje em dia geral ri, mas sabe que na real é muito foda.

uma profunda análise crítica sobre a moda dos anos 90 pela boca da protagonista…

Abrindo o filme tem “Kids in America“, pra já estourar com o pique noventista (e vale por sinal, ressaltar que essa aparece também na trilha do filme do “Jimmy Neutron“…). Do Bowie aparecem duas: “Fashion”, uma bem mais experimental que o resto da trilha sonora, e “All The Young Dudes”, numa versão da banda inglesa World Party e que acompanha a narração da protagonista desprezando a tal moda descrita no parágrafo acima.

De resto, assistam pra descobrir!

Segue o trailer e a trilha sonora. Valeu!

Trailer:

Trilha sonora:

Tracklist — “Scott Pilgrim vs. The World” Soundtrack (2010)

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Scott Pilgrim vs the World

O universo de Scott Pilgrim começou com uma série de história em quadrinhos criada pelo cartunista canadense Bryan Lee O’Malley (autor também de “Seconds”, “Lost At Sea” e “Snotgirl”, seu mais recente trabalho) e publicada em seis volumes (de 2004 a 2010). Em 2010, a narrativa recebeu “Scott Pilgrim vs. The World”, uma adaptação ao cinema dirigida por Edgar Wright e estrelada por Michael Cera e Mary Elizabeth Winstead, e o jogo “Scott Pilgrim vs. The World: The Game”, desenvolvido pela Ubisoft Montreal e disponível para Playstation 3 e Xbox 360

O protagonista Scott Pilgrim (Michael Cera) é baixista da Sex Bob-Omb, uma banda fictícia de garage punk formada também pelo vocalista e guitarrista Stephen Stills (Mark Webber) e pela baterista Kim Pine (Alison Pill). Scott se apaixona por Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), uma americana que acaba de se mudar para o Canadá e trabalha como entregadora da Amazon. Para relacionar-se com Ramona, Scott tem que derrotar seus sete ex-namorados do mal.

Em “Scott Pilgrim”, a música é um fator importantíssimo para a construção da narrativa — para alguns, o elemento central da história pode ser o relacionamento entre Scott e Ramona, mas a Sex Bob-Omb me soa como um componente tão essencial quanto. Nos quadrinhos, as músicas da Sex Bob-Omb têm seus acordes transcritos aos que quiserem aprendê-las. No filme, nenhuma das canções criadas para os quadrinhos foi aproveitada — todas as faixas da Sex Bob-Omb feitas para a adaptação foram compostas por Beck e cantadas pelos atores que integram a banda fictícia.

Scott Pilgrim é recheado de referências à cultura pop e à música alternativa, tanto nos quadrinhos quanto na adaptação ao cinema. Para além das faixas cuidadosamente selecionadas para musicar o filme, todo o trabalho de sonoplastia é impecável — existe uma preocupação evidente com a ambientação sonora e com o som dos objetos durante todo a narrativa. Os efeitos audiovisuais são o grande forte da adaptação — que, na minha opinião, é muito inferior aos quadrinhos em relação ao conteúdo.

Em “Scott Pilgrim vs. The World”, outras bandas fictícias receberam produções de bandas reais, como a Clash At the Demonhead — com composição de Metric — e a Crash and the Boys — com composições de Broken Social Scene. Alguns temas que não entraram na OST também foram feitos por artistas conhecidos, como a trilha do jogo fictício “Ninja Ninja Revolution”, arranjada pelo produtor americano de hip-hop Dan The Automator, e a música da banda fictícia The Katayanagi Twins, composta pelo produtor japonês de música eletrônica Cornelius.

Produzida por Nigel Godrich, produtor e engenheiro musical inglês, a trilha sonora de “Scott Pilgrim vs. The World” tem uma edição deluxe com versões das músicas da Sex Bob-Omb cantadas pelo Beck. Algumas faixas da Sex Bob-Omb que aparecem no filme não integram a trilha — “Indefatigable” e “No Fun” — e algumas demos do Beck não entraram no filme — “Gasoline Eyes” e “Disgusting Rainbow”. Nigel ainda fez uma segunda trilha com todo o film score da adaptação. A Anamaguchi, banda americana de música eletrônica, compôs e executou a terceira trilha sonora da franquia — essa, para “Scott Pilgrim vs. The World: The Game”. As três trilhas oficiais foram lançadas em CD e vinil pelo selo nova-iorquino ABKCO Records (Rolling Stones, The Animals, The Kinks).

1. “We Are Sex Bob-Omb”, Sex Bob-Omb (Beck)
“We Are Sex Bob-Omb” foi a faixa escolhida para musicar o primeiro ensaio da Sex Bob-Omb visto por Knives Chau (Ellen Wong III), a namorada colegial chinesa de Scott, cena que dá abertura para os créditos iniciais do filme. Nos quadrinhos, “we are Sex Bob-Omb” (“nós somos a Sex Bob-Omb”) é um bordão de Kim Pine, que sempre apresenta a banda em diferentes variações — “we are Sex Bob-Omb and we’re here to make money and sell out and stuff” (“nós somos a Sex Bob-Omb e estamos aqui para ganhar dinheiro, nos vender, entre outras coisas), “we are Sex Bob-Omb and we’re here to make you think about death and get sad and stuff” (“nós somos o Sex Bob-Omb e estamos aqui para fazer vocês pensarem em morte, ficarem tristes, entre outras coisas”), etc. No filme, Scott apresenta a banda uma única vez, antes da performance de “Threshold”. Para quem gosta de Death From Above 1979, Thee Oh Sees e Ty Segall.

2. “Scott Pilgrim”, Plumtree
A Plumtree é uma banda de twee e power pop canadense da cidade de Halifax, formada em 1993 pelas irmãs Carla (voz, guitarra) e Lynette Gillis (bateria), Amanda Braden (voz, guitarra) e Nina Martin (voz, baixo). Em 1995, Nina foi substituída por Catriona Sturton. Em julho de 2000, a banda fez suas últimas apresentações — uma delas, testemunhada por Bryan Lee O’ Malley, foi o que inspirou o cartunista a criar o quadrinho. “Scott Pilgrim”, composição de Carla e primeira linha de baixo feita por Catriona, é um single de “Predicts the Future” (1997), terceiro LP do grupo. O título da canção surgiu da fusão dos nomes de dois amigos da banda, Scott Ingram e Philip Pilgrim. No filme, a faixa está presente em uma das cenas iniciais e Scott aparece vestindo uma camisa da banda. Para quem gosta de CUB, Tiger Trap e Go Sailor

3. “I Heard Ramona Sing”, Black Francis
“I Heard Ramona Sing” é uma homenagem de Black Francis, vocalista e guitarrista dos Pixies, aos Ramones, uma de suas principais influências. A faixa faz referência também aos Menudos, nos versos “I hope if someone retires, they pull another Menudo” (“espero que se alguém se aposentar, eles atraiam outro Menudo”) — “Ramona” é um nome latino, tal qual o grupo Menudo, que sempre trocava seus integrantes por membros mais novos. A faixa foi lançada no álbum “Frank Black” (1993) e é trilha para a cena em que Scott procura por Ramona na festa de sua amiga Julie (Aubrey Plaza). Para quem gosta de Pixies, David Bowie e Sonic Youth.

  1. 4. “By Your Side”, Beachwood Sparks
    “By Your Side” é cover da cantora de soul Sade feito pela banda americana de alt-country Beachwood Sparks, e foi lançado no álbum “Once We Were Trees” (2001) e é trilha para o primeiro beijo de Scott e Ramona. Para quem gosta de Wilco, Apples in Stereo e The Flying Burrito Brothers.

5. “O Katrina!”, Black Lips
Black Lips
é uma banda americana de garage rock formada em Atlanta, em 1999, e seus integrantes são muito familiarizados com conceitos relativos à história e geografia. “Arabia Mountain” (2011), por exemplo, é um álbum com produção de Mark Ronson que faz referências (líricas e estéticas) ao Oriente Médio e à Ásia Meridional. “O Katrina!”, lançada no álbum “Good Bad Not Evil” (2007), é uma música sobre o furacão Katrina, que em 2005 devastou a região metropolitana de Nova Orleans e evacuou mais de um milhão de pessoas. No filme, a faixa aparece em uma discotecagem para primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. Para quem gosta de The Orwells, The Growlers e Allah-Las.

6. “I’m So Sad, So Very, Very, Sad”, Crash and the Boys (Broken Social Scene)
“I’m So Sad, So Very, Very Sad” é a primeira música tocada por Crash and the Boys na primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto e tem duração de 13 segundos. Para quem gostou do show de uma nota só dos White Stripes.

7. “We Hate You Please Die”, Crash and the Boys (Broken Social Scene)
“We Hate You Please Die” é a segunda música da Crash and the Boys na apresentação da primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. A banda dedica a canção a Wallace Wells (Kieran Culkin), colega de quarto de Scott, e deixa Stephen Stills inseguro em relação à competição — da qual, no entanto, Sex Bob-Omb torna-se vencedora. Para quem gosta de Japandroids e White Stripes.

8. “Garbage Truck”, Sex Bob-Omb (Beck)
A Sex Bob-Omb começa a tocar “Garbage Truck” na Batalha Internacional de Bandas de Toronto diante de uma tentativa desesperada de Scott de evitar um diálogo entre Ramona e Knives. A apresentação é interrompida Matthew Patel (Satya Bhabha), primeiro ex-namorado do mal de Ramona. Para quem gosta de garage rock em geral.

9. “Teenage Dream”, T. Rex
T. Rex, que começou com o nome de Tyranossaur Rex, é uma banda londrina de glam rock formada em 1967. A faixa “Teenage Dream” foi lançada no álbum “Zin Alloy And The Hidden Riders Of Tomorrow” (1974) e é trilha para a cena em que Scott pega um metrô após terminar com Knives. Para quem gosta de Queen, Rolling Stones e Mott The Hopple.

10. “Sleazy Bed Track”, The Bluetones
The Bluetones
é uma banda de indie e britpop formada no distrito de Hounslow, em Londres, em 1993. “Sleazy Bed Track” foi lançada no álbum “Return to the Last Chance Saloon” (1998) e aparece rapidamente na cena em que Scott e Ramona jantam juntos pela primeira vez. Para quem gosta de britpop em geral.

11. “It’s Getting Boring By The Sea”, Blood Red Shoes
Blood Red Shoes
é um duo britânico de indie rock formado em 2004 em Brighton, na Inglaterra, por Laura-Mary Carter (voz, guitarra) e Steven Ansell (voz, bateria). “It’s Getting Boring By The Sea” foi lançada no álbum “Box Of Secrets” (2008) e aparece em uma discotecagem para o evento em que Sex Bob-Omb faz o show de abertura para Clash at the Demonhead. Para quem gosta de Bloc Party, Yeah Yeah Yeahs e The Subways.

12. “Black Sheep”, Clash At the Demonhead (Metric)
Metric
é uma banda canadense de indie e poptron formada em Toronto, em 1998. “Black Sheep”, lançada no álbum “Fantasies” (2009), recebe uma versão interpretada por Envy Adams (Brie Larson) no show da Clash At the Demonhead. Para desenhar Envy, Bryan Lee O’Malley se inspirou em fotos de Emily Haines, vocalista do Metric. Para quem gosta de Yeah Yeah Yeahs, Tokyo Police Club e Cansei de Ser Sexy.

13. “Threshold”, Sex Bob-Omb
A Sex Bob-Omb toca “Threshold” na segunda fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto, em um confronto contra a The Katayanagi Twins. Para quem gosta de Ty Segall, Thee Oh Sees e Death From Above 1979.

14. “Anthems for a Seventeen Year Old Girl”, Broken Social Scene
Broken Social Scene
é uma banda canadense de indie rock formada em 1999, em Toronto, que arrisca-se a experimentar diversos subgêneros musicais — shoegaze, dream pop, post-rock, art rock, entre outros. “Anthems for a Seventeen Year Old Girl” é uma faixa acústica que flerta com folk e sadcore e tem vocais de Emily Haines. É trilha da cena em que Scott encontra Knives após a segunda fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. Para quem gosta de Crywank, Sufjan Stevens e Fleet Foxes.

15. “Under My Thumb”, Rolling Stones
“Under My Thumb”, dos Rolling Stones — banda clássica que dispensa apresentações — foi lançada no álbum “Aftermath” (1966) e aparece no filme quando Ramona termina com Scott. Para quem gosta de rock clássico em geral.

16. “Ramona” (versão acústica) e 17. “Ramona”, Beck
“Ramona” aparece no filme pela primeira vez quando Scott toca um trecho da música para Ramona no primeiro jantar do casal. A versão acústica toca após Ramona terminar com Scott e a versão original aparece nos créditos finais. Para quem gosta de Elliot Smitt, David Bowie e Sparklehorse.

18. “Summertime”, Sex Bob-Omb
“Summertime” é uma faixa da Sex Bob-Omb que aparece nos créditos finais. A música seria tocada durante o filme em um ensaio da Sex Bob-Omb, mas foi interrompida por Ramona. No entanto, “Summertime” recebeu um videoclipe como material extra. Para quem gosta de Ty Segall, Thee Oh Sees e Death From Above 1979.

19. “Threshold” (8-bit), Brian LeBarton
A versão 8-bit de “Threshold”, rearranjada pelo tecladista e compositor de música eletrônica Brian LeBarton, de Los Angeles, aparece nos créditos finais do filme. Para quem gosta de música eletrônica e trilhas de games.

Ouça a trilha sonora completa aqui:

“Piratas do Rock” (2009): a primeira vez que vi meu pai chorar

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Piratas do Rock

The Boat That Rocked (Piratas do Rock)
Lançamento: 2009
Diretor: Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco Principal: Tom Sturridge, Philip Seymour HoffmanBill NighyRhys IfansNick FrostKatherine ParkinsonTalulah RileyTom BrookeChris O’DowdRhys DarbyWill AdamsdaleTom Wisdom and Ralph Brown

Antes do Big Boy aqui nas rádios tupiniquins nos anos 70 e bem antes do refrão “Kiss FM: depois de um rock, sempre vem outro rock”, na Inglaterra o filho do blues já tocava via antena. Contudo, em 1966, durante o auge do pop rock inglês, a tal música era ainda muito mal vista no país da rainha, e estações como a BBC tocavam o som “degenerado” apenas uma hora por dia. Mas o rock é o rock, não é? Foi respondendo a essa pergunta que malucos se jogaram em barcos no mar fora da região da legislação britânica e transmitiram Kinks, Turtles, Who, Stones e mais uma porrada de coisa.

O filme “Piratas do Rock” de 2009, remonta esse cenário e mostra a vida dentro dum desses barcos e a guerra constante com o parlamento. Carl (Tom Sturridge), um “fine young man” que foi recentemente expulso da escola por ter sido encontrado fumando maconha, é mandado pela mãe para o barco onde é esperado por Quentin (Bill Nighy), seu padrinho e comandante da rádio e do navio. É nessa marítima estação roqueira que o menino se envolve com o bando de caras, no melhor espírito camaradagem cuzona, num ambiente 100% da zuera, 50% da parceragem e 50% da cuzisse dos fura-olhos (mas porra, todo mundo tem aquele amigo cuzão e fura-olho). Sobre o título, é em parte por conta de todo esse espírito sempre cheio de rock, desafiando um parlamento babaca, que meu pai chorou na última cena (eu e meu irmão, com uns 12 anos, achamos aquilo incrível). Contudo, devo parar por aqui, a fim de não dizer mais nada sobre o final…

Obviamente que a trilha é do caralho! Com Cream, Who, Turtles, Otis Redding, Hollies, Jeff Beck, Jimi Hendrix, Procol Harum, Cat Stevens e mais uma porrada de coisa (ao todo o filme conta com mais de 30 sons diferentes), o musical recria fantasticamente o ambiente sessentista do rock britânico. Vale, contudo, ressaltar algumas das músicas, em parte por elas mesmas, em parte pelas cenas que acompanham.

“Lazy Sunday Afternoon” da banda Small Faces, toca no longa numa cena que explica a alma do rolê dos caras do barco. Eles andando juntos, a cada corte de cena mais bêbados e desalinhados, marchando no ritmo da música é o tipo de imagem que faz todo mundo lembrar de algum rolê da hora que tenha dado com os parças.

“Sunny Afternoon” do Kinks, é outra que toca mostrando o espírito do barco. Ao som desse som é que eles jogam futebol no convés e obviamente perdem a bola pra Poseidon. Além disso, a música ainda acompanha a reação do público em solo, em todos os lugares da Inglaterra, dançando fantasticamente a linda música.

Sem enrolar muito, só pra falar de mais uma, vale citar “So Long Marianne” do canadense Leonard Cohen, o som que acompanha ninguém mais ninguém menos que a jovem Marianne (Talulah Riley), sobrinha do capitão Quentin, quando ela faz uma visita ao barco e é apresentada ao jovem Carl.

Ainda, o filme é cheio de pequenas referências imagéticas ao rock’nroll. Os próprios radialistas, há quem diga que sejam homenagens aos membros da banda The Turtles (sua música “Eleanor”, toca no musical). Além disso, há uma cena que “lembra de leve” o encarte do disco “Eletric Ladylandda banda Jimi Hendrix Experience: o cara que faz o programa da meia noite, Gavin (Rhys Ifans), conhecido como sex symbol, aparece em seu quarto rodeado por uma série de mulheres nuas (uma vez por semana o barco recebe um grupo de fãs da rádio).
             

Segue em link o filme e a trilha sonora!

Filme: http://putlockers.fm/watch/EdZD29xp-the-boat-that-rocked.html

Trilha sonora:

Bom, é isso aí galera. Ouçam, assistam e curtam!

Trilha pop e girl power marca o pesadelo patriarcal de “Handmaid’s Tale”

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“Imagine um futuro distópico onde os comentaristas de portais venceram”. A definição simplista, mas ilustrativa, resume bem o que você vai encontrar em “Handmaid’s Tale”. A premissa pode desencorajar, eu sei, mas a série, baseada no livro de Margaret Atwood, de 1985 – publicado no Brasil como “O Conto da Aia” – não decepciona. Menos ainda a trilha. Por isso, se for preciso, treine o estômago e a paciência aquiaqui e aqui e encare a maratona de 10 episódios da temporada de estreia.

Deixando o simplismo tragicômico de lado, a série apresenta uma sociedade construída da noite para o dia, em uma América dos dias atuais tomada por um regime totalitário e teocrático. Na República de Gilead, como passa a ser chamada, as mulheres se tornam propriedade do Estado e não têm direitos. As handmaids (aias), uma das castas de mulheres, têm como única função procriar para famílias de homens poderosos e suas esposas estéreis.

Rejeitada pela Netflix e transmitida pelo serviço de streaming Hulu, “Handmaids’s Tale” garante lugar entre as mais importantes distopias de todos os tempos – pessoalmente, perde só para “1984”, o livro, e 2016, o ano. A maneira inteligente como usa flashbacks e memórias das personagens para costurar as duas realidades, antes e depois do novo regime, é, talvez, a grande sacada do produtor Bruce Miller. A introdução gradativa dos fatos que levaram à nova ordem – com cenas que ora revolvem o estômago, ora causam uma estranha e incômoda familiaridade – naturaliza o absurdo tornando-o assustadoramente real e próximo. A ‘distopia futurística’ dá lugar à distopia nossa de cada dia.

O mérito, em parte, fica com a escolha da trilha. Não se trata apenas de uma lista de boas músicas – isso, séries recentes como Mr. Robot”, Big Little Lies” e Stranger Things” também fizeram muito bem. Tampouco se deve a uma seleção ousada e obscura. Pelo contrário, a trilha é repleta de clássicos do pop anos 60, 80 e 90. Essas escolhas ‘seguras’, familiares, assim como toda a série, que não para em nenhum momento para mastigar a história pra quem assiste, são autoexplicativas. São um lembrete constante de que aquele mundo bárbaro e estranho  é também o nosso.

Enquanto as personagens se veem forçadas a aceitar a dominação do patriarcado extremista –  sob ameaças de punições, como (ALERTA DE SPOILER) ter um olho ou o clitóris removido – a música é a resistência. O grito entalado. É essa a sensação quando, depois do choque inicial (que só piora), ouvimos a letra provocativa de “You Don’t Own Me”, da Lesley Gore, no fim do primeiro episódio.

É também esse sentimento que temos quando, no terceiro episódio, as personagens de Elisabeth Moss (Offred) e Samira Wiley (Moira), em um dos flashbacks, escutam “Fuck The Pain Away”, da Peaches, enquanto correm – talvez o melhor uso da música. E da palavra ‘fuck’. A cena antecede um dos primeiros confrontos das personagens com a nova realidade. De novo, o medinho de ser surpreendido com algo semelhante enquanto ouvimos de boas nossa playlist diária é inevitável.

Em outro flashback no mesmo episódio, as personagens têm mais um forte indício de que a treta estava ficando SÉRIA. A cena mostra a polícia distribuindo tiros para reprimir um protesto. O caos, que mais uma vez soa bastante familiar, tem como trilha uma versão de “Heart of Glass”, da Blondie e Philip Glass, com arranjos dramáticos de violino que parecem tirados de alguma adaptação dos romances de Jane Austen para o cinema.

Mas nem só de TENSÃO se constrói a trilha de “Handmaid’s Tale”. Ela também é usada para lembrar um tempo em que as coisas eram menos complicadas e as personagens viviam suas vidas normalmente, sem sequer imaginar o que as esperava. Um desses flashbacks (que poderia ser embalado por passarinhos cantando) usa “Daydream Believer”, dos Monkees (que dá quase na mesma), para passar a sensação de nostalgia e inocência ao mesmo tempo.

Em um dos pontos altos da temporada, a música é usada pra acender aquela chaminha de esperança em meio ao absurdo e ao caos. “Nothing’s Gonna Hurt You Baby”, do Cigarretes After Sex, é uma das poucas escolhas ‘contemporâneas’ para a trilha. A música do EP “I.”, lançado em 2012, tem a dose perfeita de melancolia para um momento de conexão não-física entre dois personagens separados pelos recentes acontecimentos.

Voltando aos clássicos, a entrada apoteótica de Offred no bordel, onde os comandantes secretamente exploram mulheres que de alguma forma se opuseram ao sistema, tem como trilha “White Rabbit”, do Jefferson Airplane. A referência à chegada de “Alice ao País das Maravilhas” é óbvia e mesmo assim reveste a cena de mistério, já que, assim como Offred, nós também somos apresentados pela primeira vez a este outro lado de Gillead. A última vez que ouvi Jefferson Airplane coroando uma cena tão simbólica foi no final de Friends”, quando toca “Embryonic Journey” – nesse caso, ainda rola aquele apertinho no peito toda vez que ouço.

A trilha ainda tem Nina Simone (que toca em um dos momentos mais bonitos da série, e, por esse motivo, preferi não dar detalhes para evitar spoilers), Simple Minds, Jay Reatard, Penguin Cafe Orchestra, Tom Petty, Kylie Minogue, SBTRKT. E tem playlist prontinha no Spotify. Praise be!