Cantarolando: Moça, vai lá fazer seu roque! “I Wanna Be Your Joey Ramone”, de Sleater-Kinney

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Sleater-Kinney
Sleater-Kinney

Cantarolando, por Elisa Oieno

Estava conversando com uma amiga, que está à procura de uma guitarrista solo para uma banda. Ela logo em seguida me disse que está sendo bastante difícil, não só encontrar uma guitarrista que se encaixe no som e na proposta da banda, mas simplesmente encontrar uma guitarrista solo. A conclusão que se chega é que isso na verdade é um sintoma do quanto que as garotas ainda são desestimuladas a se aperfeiçoarem e a se projetarem como lead guitar, um território ainda tão masculino.

Pensando no aspecto histórico da herança desse desestímulo sobre as garotas, podemos citar do emblemático caso da irmã do Mozart, Marianne. Reconhecido como um dos maiores gênios prodígios da história da música, Wolfgang Mozart tinha uma irmã mais velha, potencialmente tão talentosa quanto ele – pelo menos é o que dizem os registros da época. Ela foi uma grande influência para Mozart, que a tinha como modelo. Desde criança, Marianne, assim como o irmão, realizava concertos de piano e harpa, e suas performances ganharam fama o suficiente para saírem em turnê pela Europa.

Porém, ao atingir a idade para se casar, ela foi pressionada a largar a música. O pensamento da época era que não é apropriado para uma moça crescida se ocupar com a música ao invés de cumprir seus deveres de esposa. O pai também desaprovava a escolha de Wolfgang de seguir a carreira musical, o que resultou numa briga entre eles, mas o jovem Mozart seguiu mesmo assim. Porém, Marianne acabou cedendo aos desejos da família – e da sociedade.

Há registros de trocas de correspondências entre Wolfgang e Marianne, em que ele elogia suas composições, o que demonstra que ela também compunha, porém estas acabaram se perdendo. Talvez teria sido uma compositora tão importante quanto o irmão, se tivesse tido o estímulo, o apoio e o reconhecimento.

Isso que aconteceu com a irmã do Mozart é muito comum, e de certa forma ainda ressoa. O resultado disso é poucas referências femininas nas artes e na música, gerando uma dissociação muito grande entre o que se admira e o que é possível se espelhar para ativamente criar e ser. Dito isso, voltemos para a breve ‘girl talk’ que tive no estúdio sobre mulheres guitarristas. E é aí que entra a música homenageada de hoje, da Sleater-Kinney. Carrie Brownstein é uma das guitarristas mais reconhecidas do indie.

A canção ‘I want to be your Johnny Ramone’ passa a ideia de uma garota olhando para um quarto cheio de pôsteres dos ídolos do rock – todos homens – e querendo ser como eles, nem que seja para ser admirada pela amiga ou namorada – ou amigo/namorado – tanto quanto eles. Esse é basicamente o resumo do sentimento de uma menina adolescente que sente um misto de atração sexual e vontade de ser esses garotos das bandas que tanto amamos.

Já falei sobre – a escassez de – referências femininas no rock outras vezes, e é uma tecla que já está ficando gasta de tanto bater. Nesse sentido, Sleater-Kinney é um daqueles grupos que fez um favor para diversas garotas se encorajarem a montar suas bandas e conseguirem se ver sendo fodonas com uma guitarra.

Construindo La Burca: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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La Burca

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o duo La Burca, que indica suas 20 canções indispensáveis.

L7“Andreas”
Amanda: Um marco na minha pequena vida musical, nunca mais fui a mesma depois que comecei a escutar essas mulheres e as vi pela tela da TV esfregando um modess na cara da sociedade no Hollywood Rock. Tinha uns 12 anos quando comprei o CD “Hungry for Stink”, deixava no repeat sempre. L7 foi uma referência forte na minha construção sonora. Uma tatuagem sonora. Acho que a música “Similar” é um exemplo.

Come“Hurricane”
Amanda: As linhas de guitarra preguiçosas/nervosas e vocal largado-chapado de Thalia Zedek me arrebataram nos anos 2000, época que descobri a banda. Inebriante essa canção. Tem um som inédito “El Topo”, que foi bem influenciado por essa fase, lembro que estava viciada no disco “Near Life Experience” quando compus.

Ramones“53rd e 3rd”
Amanda: Os Ramones construíram toda a minha base para fazer música. Eu pensava, também posso criar, caramba! Esse som é um deles, um épico punk e tem todo o contexto junkie psicótico do Dee Dee. Eu sempre racho o bico na última estrofe porque é absurda e lembro que não podemos nos levar a sério o tempo todo com nossas letras. Bom, tomara que ele não tenha puxado a navalha de fato, né. “Gonzo Truth”, que é uma canção relativamente calma nossa, tem uma batida da bateria em “slow motion” inspirada nesse som, por exemplo.

Wipers“Soul’s Tongue”
Amanda: Esse som me leva para passear por dunas sonoras da alma e me inspira em vários momentos, Greg Sage é uma escola foda. Tem umas linhas de som instrumental livres que faço pra me soltar e que formam sons depois que vem dessa linguagem, bom, pelo menos eu tento e vou continuar tentando! (risos)

Patti Smith“Wings”
Amanda: O que falar dessa mulher e da sua importância na nossa (r)existência musical/ artística como como ser humana? She is a benediction. Obrigada pelas asas & baladas, Patti ❤

Mercenárias“Imagem”
Amanda: Esse som é fantástico e ímpar, gosto muito do tom da voz da Rosália. Aos poucos começo a cantar uns trechos dos sons em português, e Mercenárias me “ajudam” nessa transição. Sempre escuto pra dar um gás no pt/br e lembrar das origens também (risos)!

Durutti Column“Sketch for a Dawn I”
Amanda: Esses dias coloquei pra Duda (nova batera) escutar, e ela falou: “É daí que vem os graves que vc sempre pede”! Os tum-dum-dum dos tons, sempre marcantes na hora de construir as minhas baterias mentais…(risos). Na real, o álbum “LC” do Durutti Column é o meu preferido de todos os tempos. Me pega de um jeito atemporal, adoro a “fragilidade” tão intensa dos sons desse magrinho querido.

The Index“Israeli Blue”
Amanda: Quando decidi assumir o violão folk e esboçava formar a La Burca, vinha escutando incessantemente essa banda psych-garageira. Puta som visceralzão, só lançaram 2 discos no final dos 60´s. Me apaixonei por eles e sempre retorno pra me revigorar no violão, embora o som deles seja com guitarra. Mas faço essa conexão sempre entre Index e violão.

Hazel“Day Glo”
Amanda: Som que me abraça e faz eu voltar no tempo de descobertas sonoras: melódico, pungente e grunge. Puta-que-o-pariu, que trio, ou melhor, que quarteto com o louco dançarino! As linhas de vocal intercaladas entre a baita batera Jody e do guitarrista Pete são fodas demais pro meu coração, muita criação grungística veio daí. Banda muito querida na minha vida.

Dead Moon“Clouds of Dawn”
Amanda: Essas bandas de Portland, vou falar, viu (Wipers e Hazel too)! Passava horas nas tardes distraídas e descompromissadas de minha adolescência ouvindo esse trio maravilhoso! Vi eles no doc “Hype” e chapei no som meio garageiro tosco bem tocado. Gosto muito dos vocais do casal, é muito emocionante. Esse som me acompanha há muito tempo e não abro mão.

The Slits“Dub Beat”
Jiulian Regine: O que me agrada na pesquisa rítmica de Palmolive é a experimentação dentro do gênero post-punk, a cada disco percebe-se fisicamente a liberdade de investigação, rompendo todas as limitações e queimando todas as bandeiras com gosto e bruxaria.

Autolux – “Listen To The Order”
Jiulian Regine: Os grooves de Carla Azar são verdadeiras fontes de inspiração e pegada, muita dinâmica, notas fantasmas e muita precisão. Escuto sempre com a alma toda, com segurança e alegria nas composições dela.

Babes In Toyland – “Hello”
Jiulian Regine: Lori Barbero trás uma pegada que é muito natural pra mim, tanto nos timbres quanto no estilo, que é um flerte ao metal.

Blood Mary Una Chica Band“Take Me”
Jiulian Regine: A Mari me trás uma mistura de influências que vem do blues ao garage fuzz, se decupar o trabalho dela você encontra muita influência que se atravessa e resulta sempre em trabalhos fantásticos. Absorvo sempre a riqueza da simplicidade do que é possível fazer para acompanhar um beat predominante que é o da guitarra, ou violão, no caso da La Burca. E não confunda simplicidade com facilidade!

Deap Vally“Baby Can I Hell”
Jiulian Regine: Julie Edwards me faz investigar a postura corporal, acima de tudo. Uma potência performática!

The Coathangers“Hurricane”
Jiulian Regine: Essa música me faz pensar no timbre, com cadência rápida e suja sem perder a nitidez, chimbal aberto no groove todo com dinâmica sucinta. Tenho a impressão de que Rusty adoraria conhecer La Burca (risos).

Carangi“Seven”
Jiulian Regine: A Carol Doro é um orgulho, além de ser aquariana do mesmo dia que eu (risos) temos muito em comum, incluindo nosso amor pelos batuques. Gosto de como ela soa na bateria, com essa pegada de grunge delicioso que ela trouxe para o Carangi, com essa banda eu fecho os olhos e mergulho nas cores dos timbres dos pratos que ela tanto escolhe com atenção. Em todos os níveis a La Burca me proporciona investigar esses timbres mais abertos de pratos e chimbal, com a caixa mais seca e precisa. A relação é direta.

Sleater-Kinney“Steep Air”
Jiulian Regine: Bom, a Janet me faz querer rudimentos e mais rudimentos, amo a forma como ela traz as viradas pra dentro dos grooves, não só como delimitação das partes mas como composição das frases.

Lava Divers“Done”
Jiulian Regine: A Zump me encanta, quando você a vê tocando você sente todo o amor e toda a forma de expressão através da bateria, eu costumo fechar os olhos e viajar.

Hangovers“V de Vinagre”
Jiulian Regine: Ai ai, Liege. Determinação (se for pra definir e olha que definições não me convém). Pegada forte, dança de bumbos, sempre atenta aos timbres. Poderosa!

Conheça Chase Marie, a transgênera que faz barulho com o duo Siamese Spots

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A recém-formada dupla Siamese Spots, de Tulsa, Oklahoma, começou a fazer seu barulho no final de 2014. Juntando riffs poderosos e girl power, a banda já começou sua carreira com o pé na porta com o single “Banter”.

A dupla é formada por Chase Marie e Tahlia, que escrevem todas as canções e se revezam nos instrumentos. Juntas, elas fazem um som competente que remete ao começo dos anos 2000, com riffs bem arquitetados que grudam na cabeça sem dó e mudanças de andamento que remetem ao stoner rock. Ouça o single “Banter” aqui:

Conversei com as meninas e elas falaram um pouco sobre suas influências, rock e o disco que está por vir.

– Quais são suas principais influências?

Sleater-Kinney, St.Vincent, Queens of The Stone Age, Kate Moss.

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– Chase, o fato de ser transgênera afeta sua música de alguma maneira?

Acho que afeta principalmente na profundidade das letras, às vezes, mas isso é um tópico pessoal demais para se falar. Mas na maior parte do tempo, fazemos músicas como qualquer pessoa que não seja transgênera ou homossexual.

– Muitas pessoas continuam com o velho papo de que o rock está morto, e dá pra perceber que o estilo não alcança mais o topo das paradas como antigamente. O que você acham disso?

Independente do que está no rádio ou não, o verdadeiro rock sempre terá um lugar na música. É um gênero que compila cinco outros gêneros dentro de si, de modo que ele é meio que obrigado a seguir em frente. Mesmo que o que toca no rádio seja basicamente lixo a maior parte do tempo…

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– O que vocês diriam para jovens músicos que, como vocês, estão começando?

Sempre seja destemido, sempre continue quando os outros disserem que não, sempre defenda o que você acredita. Eu sei que soa brega, mas é verdade. O verdadeiro sucesso está na perseverança, e naqueles que se respeitam.

– Quando o primeiro disco vai sair? Podem me adiantar algo sobre ele?

Nós estamos nos estágios iniciais de pré-produção, atualmente. Temos uma parte do álbum já escrita, por isso esperamos tê-lo em mãos por volta do meio do ano de 2015. Mas você também pode esperar alguns novos vídeos este ano, através de nossa nova conta VEVO que será lançada dia 20 de janeiro.

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