“20th Century Boys” (1999) – Um mangá pra lá de rock’n roll!

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

20th Century Boys
Autor: Naoki Urasawa
Desenho: Naoki Urasawa
Lançamento: 1999
Editora: Shogakukan

 

Tava eu assistindo “Meteoro” (um filme brasileiro, muito bom por sinal) na sala quando meu irmão me chama no quarto pra me mostrar um mangá que ele tinha achado. “20th Century Boys” (sim, o nome é uma referência à música do T-Rex!) de Naoki Urasawa, autor de títulos importantes como “Monster”, é por excelência um quadrinho pop. Com uma série de referências musicais que vão muito além do título, o mangá se passa simultaneamente em tempos diferentes, contando a história dum grupo de amigos e explorando a dualidade entre a infância e a vida adulta, dum jeito lindo que lembra a nostalgia das músicas do Jair Naves.

Os personagens principais passaram a infância no verão de 69 numa “base secreta” (um esconderijo feito pelos moleques com galhos e folhas num terreno baldio), ouvindo música na rádio, vendo revistas pornográficas roubadas dos pais e lendo toscos quadrinhos de heróis. Além disso, escrevem um louco livro das profecias de como o mundo seria ameaçado por um grande vilão no futuro e como eles salvariam a todos, tornando-se os heróis. Já em 97 eles são caras normais que seguem suas vidas sem as grandes ambições “infantis”. Kenji, o protagonista, vive a década de 90 tendo abandonado já uma carreira dos sonhos como guitarrista e cuidando da filha da sua irmã que sumiu enquanto trabalha numa loja de conveniências. Mas pera, vamos voltar: lembram da parte do “livro das profecias”? Então: nesse mesmo ano de 1997, um cara começa uma seita que vai ganhando cada vez mais seguidores e usa como símbolo um desenho feito pelas crianças na base secreta. A partir daí, revelando aos poucos os personagens e as lembranças de cada um, eles vão se reunindo e criando um grupo de resistência contra o cara da seita, que incorpora o “vilão” do livro que haviam escrito. Eles, mais por necessidade que por vontade, incorporam o papel dos heróis com o qual tanto sonharam.

Tá dito então!

Contudo, apesar de parecer ser o mais clichê da jornada do herói, seguindo o mesmo modelo que “Senhor dos Anéis”, “Harry Potter” e outros, a história contrapõe as noções de heroísmo na infância e na vida adulta de modo particularmente interessante e que emociona por tratar a realidade caótica que o cara da seita criou com a simplicidade da inocência infantil que foi afinal, quem bolou tudo.

O que alguns anos não fazem pra pele, né, Kenji?
Pra introduzir a importância da trilha!

Quanto à trilha (por mais que talvez seja meio estranho pensarmos nesse conceito, uma vez que não é um vídeo), boa parte da história se passa no final dos anos 60 e começo dos 70 e é cheia de referências musicais. Na base secreta, o rádio fica sempre ligado e foi quando os personagens ouviam “Jumping Jack Flash” na FEN (Far East Network, uma rádio americana) que o Kenji começou a se interessar pelo rock e pela guitarra (o instrumento da sua adolescência).

Outras referências importantes são o Woodstock, dito como o evento onde pessoas movidas pelo sonho hippie invadiram o festival, Robert Jonhson, o bluseiro que encontrou o diabo numa encruzilhada da estrada, e um pontual Creedence Clearwater Revival que é mais um detalhe que qualquer outra coisa.

Todavia, o auge musical do mangá é a composição do Kenji. “Bob Lennon”, música que recebe o nome em homenagem a dois grandes nomes da hipongagem (Bob Dylan e Jonh Lennon), é um hino do heroi marginal japonês à vida em sua cósmica simplicidade, com uma letra que parece ser um poema do Drummond. O mangaká Naoki Urasawa chegou inclusive a gravar a música e tocou na expo de Tóquio de 2012.

Bob Lennon

O sol se põe, e em algum lugar,sinto o cheiro do Curry cozinhar
O quanto nós teremos de andar até chegarmos em casa?
Irão os croquettes da minha loja favorita
Ter o mesmo gosto?E esperando por mim?

A noite se opõe sobre a terra
E agora, estou correndo para casa.

Eles dizem que os ogros estarão rindo no próximo ano
E eu digo, deixe eles rirem como quiserem
Eu continuarei falando sobre os 5 ou 10 anos no futuro
E 50 anos depois, eu ainda estarei com você

A noite se opõe sobre a terra
E agora, estou correndo para casa.

Pode chover
Podem ocorrer tempestades
Lanças poderão cair
Então vamos todos voltar para casa
E agora, estou correndo para casa

A noite chega para todos
E todo o mundo
Está correndo para casa
Rezo para que
Esses dias
Continuem para sempre…

Bom galera, segue aqui em link o primeiro capítulo pra quem quiser ler online (juro que vale muito a pena!):

https://mangahost.org/manga/20th-century-boys-mh31897/1#1

Valeu! Espero que curtam!

“Harold and Maude” (1971) – Um filminho feliz com musikitchas felizes

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Harold And Maude (Ensina-me A Viver)
Lançamento: 1971
Diretor: Hal Ashby
Roteiro: Colin Higgins
Elenco Principal: Ruth Gordon, Bud Cort e Vivian Pickles

Pra curte a brisa hippie diboísta do Cat Stevens, esse é o melhor filme, já que além das músicas do próprio, o enredo em si também é absurdamente lindjo e diboistão.

Tem um cara que vive só com a mãe (o pai morreu) numa mansão gigante, sempre em meio a jantares e ocasiões sociais supérfluas. Cansado dessa futilidade burguesa e com um estranho fetiche pela morte, ele forja suicídios pra mama (ela já nem dá bola, acostumada com a estranha mania do filho) e curte dá uns rolê indo por aí em funerais aleatórios. A mãe “preocupada”, esperando que o filho tenha mais “responsabilidade e ambição”, manda o garoto pro psicólogo, tenta meter ele no exército e fica tentando achar uma mina pra ele em estranhos sites de namoro. O cara contudo tá tacando o foda-se na melhor expressão niilista e num dos funerais que vai, encontra uma simpática senhora que assalta carros pra voltar pra casa e devolve no dia seguinte, quando depois da cerimônia o carro roubado é o seu, ele vai reclamar com a velha e ela acaba pedindo uma carona. O cara topa, leva ela em casa (um antigo vagão de trem, encostado num canto da estrada) e recusa a oferta pra entrar e tomar um chá, prometendo voltar outro dia.

<3

por dentro!

Ele volta, conhece a casa, toma um gostoso chá de vó com a maluca, dança (por insistência da senhora que mata o jeito quebradão do cara) e acaba obviamente se apaixonando, com seus vinte e poucos anos, pela hippie quase octogenária. A doida bem loka e feliz que faz por sinal, qualquer um se apaixonar, ao longo da semana quando se passa o longa e que é a última dos seus 79, tira cada vez mais o cara do seu jeito tímido e apático pra apresentá-lo ao fantástico mundo da louca e linda felicidade rebelde, simples e magnífica (tipo Mogli e Baloo: eu uso o neeeecessário!), que manda pra casa do caralho todas suas “angústias” existencialistas.

A música, nesse filme, que inclusive é parte importante da introdução do Harold (o garotinho) ao mundo dos felizes, é lado a lado com as cambalhotas que o casal inter geracional dá no mato, a responsável pelo clima good vibes. A trilha com músicas do Cat Stevens (e alguns clássicos do séc. XIX), deixa qualquer um chapadão num clima bem gostosinho e alegrinho (como sempre fazem as músicas dele).

Com letras que resumem bastante a filosofia da velha, a parte sonora do musical desafia qualquer tipo de “grande filosofia” e sorri boba um sorriso apaixonado, gostoso e aconchegante, cantando músicas como “If You Want To Sing Out” e “Don’t Be Shy” que dizem dos modos mais profundos e poéticos possíveis, exatamente o que se propõe nos títulos e inspiram o espectador a pular por aí cantando alto (como se faz no filme).

 

Segue em link o filme completo e a trilha sonora.

Filme:

Trilha (em playlist):

https://www.youtube.com/playlist?list=PL02CB3E1F7937EF4F

Ouçam, assistam e curtam!

Valeu!

“A Noite do Espantalho” (1975) – Um road movie rural com Sergio Ricardo + Alceu Valença + Geraldo Azevedo

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

A Noite do Espantalho
Lançamento: 1974
Diretor: Sergio Ricardo
Roteiro: Jean-Claude Bernadet, Maurice Capovila, Nilson Barbosa e Sergio Ricardo
Elenco Principal: Geraldo Azevedo, Rejane Medeiros, Emanuel Cavallcanti e Tereza Melo

Sabe o maluco que quebrou o violão no festival da Record de 67?

Então, acabou que além de músico, o cara é diretor de cinema e arrasa nos filmes que nem com o violão quebrado.

E porra, músicos são amiguinhos! O filme de 75 do Sergio Ricardo (o cara do violão), conta com a participação do Alceu Valença e do Geraldo Azevedo (é meio difícil às vezes saber quem é quem…) que dão pro já psicodélico longa uma cara ainda mais louca que marca a tela com a cara do cinema novo brasileiro.

Girando em torno do conflito entre os trabalhadores rurais e o senhor de terra (senhor feudal? quase…), passando pelas motos dos jagunços contratados a fim de impedir as revoltas camponesas, o filme mostra de modo meio realista e meio que cheio de metáforas e atuações dionisíacas, como se dá a questão da divisão da terra no sertão brasileiro (spoiler: é uma merda). “A Noite do Espantalho” ainda trata de questões românticas explorando alguns dos personagens mais a fundo, mostrando inclusive suas angústias políticas.

 

Dirigido pelo Serginho, o filme conta com músicas de sua autoria compostas exclusivamente pro musical e que se encaixam na história num modelo meio de ópera, musicando as falas dos personagens em sua quase total discursividade e se apropriando muitas vezes do recurso do coro (teatro grego no sertão?) na voz da multidão.

Segue em link o filme completo e a trilha sonora.

Filme:

Trilha:

Assistam, ouçam e curtam!

Valeu falow!

“Wristcutters: A Love Story” – Um road movie com o Tom Waits num post mortem dos suicidas

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Sinestesia, por Guilherme Gagilardi

Wristcutters: A Love Story (Paixão Suicida)
Lançamento: 2006
Direção: Goran Dukik
Roteiro: Goran Dukik e Etgar Keret
Elenco principal: Tom Waits, Patrick Fugit, Shannym Sossamon e Shea Wigham

Um road movie

com música do Gogol Bordello

e o Tom Waits no elenco!

Tá, agora a parte bad da coisa: o filme se passa num lugar meio várzea, meio terra de ninguém: um post mortem dos suicidas (mas não, o filme não romantiza nem estimula o suicídio).

Beleza, pós introdução sucinta, passemos ao filme!

Zia, um recém-chegado nesse mundo várzea, ainda angustiado com o fora que levou ele pra lá e vendo que aquele lugar era ainda mais bosta, que lá o seu trabalho era mais bosta, sua solidão era mais bosta e o cara com quem dividia o quarto nos fundos da pizzaria onde trabalhava era ainda mais bosta que a poeira do seu quarto de vivo, encontra num bar um maluco russo-americano que lembra o Iggy Pop e morreu em um palco jogando a cerveja nas cordas da guitarra. O nome dele é Eugene e ele vive nessa terra de ninguém com toda sua família.

O novato, puto do vida (ou da morte, sei lá), pensando em se matar de novo, entra num mercado pra comprar queijo e encontra um antigo “amigo” que conta pra ele sobre a mina que tinha lhe dado o fora: Ela tinha ficado bem bad depois da morte do Zia e se matou também uns meses depois. Agora, com esperanças de encontrar a mina que, pelo menos segundo o seu raciocínio e a história do mercado, teria se arrependido do fora, o calouro decide ir procurar-lá e chama o russo. Eugene topa porque não tem porra nenhuma melhor pra fazer e lá se vão os dois pela estrada ouvindo Gogol Bordello.

Encontram uma mina pedindo carona, Mikal, que diz estar em busca dos “homens de branco”, os caras que controlam aquele lugar e que podiam tirá-la de lá, pois estava nesse universo por engano. Formado o trio, o filme segue num esquema bem quadradão de road movie, acompanhando o desenvolvimento e as desavenças dos personagens durante a viagem.

Contudo, o que definitivamente dá pra esse esquema quadradão um tempero especial é a voz absurdamente rouca do lindão gostosão Tom Waits, que aparece no longa deitado no meio da estrada, cansado de procurar seu cachorro sumido (uma referência a “Rain Dogs”, talvez?), quando é quase atropelado pelo trio e os leva até o seu acampamento (que por sinal, dá nome ao conto de Edgar Keret que inspirou o filme: Kneller’s Happy Campers).

É talvez já seja meio óbvio que um filme com o Tom Waits tenha uma trilha do caralho. A primeira música, que toca enquanto o Zia arruma o quarto antes do “suspiro final” por sinal, é desse beatnik do chapéu coco.

Mas não para por aí: a música tema do filme, “Through the Roof’n Underground”, é um absurdo de bom da música pra ouvir viajando (em qualquer sentido possível pra palavra…) e é duma banda que entende do assunto: a big band Gogol Bordello, que compôs o tal som e que vêm trabalhando num projeto de música punk-cigana desde 1999. Composta por imigrantes de vários cantos do mundo, a banda é “chefiada” pelo vocalista Eugene Hütz (vale dizer que no filme, a música aparece tocando numa fita da ex-banda do Eugene, o que meio que permite concluirmos que o nome é uma homenagem do diretor Goran Dukik ao músico) que é de família cigana e sabe do que diz quando diz de estrada.

Além disso, o filme ainda conta com um pontual Joy Division tocando no fundo numa cena de bar e várias outras músicas que aparecem sempre de modo um tanto quanto superficial, mas que divertem quem curte o som.

Segue em link a trilha sonora e o filme completo. Assistam, ouçam e curtam!

Filme completo (em playlist do Youtube):

Trilha sonora (também em playlist):

“Get Crazy” – Uma comédia idiota dos anos 80 com um Lou Reed de óculos escuros

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Get Crazy (Get Crazy – Na Zorra do Rock)
Lançamento: 1983
Direção: Alan Arkush
Roteiro: Danny Opatoshu
Elenco Principal: Malcolm McDowell, Daniel Stern e Allen Garfield

Get crazy and get high…

 

Curte um um bagaço idiota? Então “Get Crazy” é pra tu!

Curte Lou Reed? É pra tu também então!

A sinopse de “Get Crazy”, que aqui ganhou o bizarro subtítulo “Na Zorra do Rock”, é bem simples: Num teatro de sucesso que passa por dificuldades financeiras, os funcionários trabalham no dia 31 de dezembro de 1981 preparando o show de Ano Novo. Um babaca escroto podre de rico que já trabalhou na tal casa de shows, quer comprar o lugar pra construir um tipo de shopping meio estranho, mas o dono se recusa a vender, mesmo depois duma oferta absurda. O filho do dono contudo, se interessa pela oferta absurda e entra num esquema com o escroto podre de rico pra destruir o lugar com uma bomba.

Ao longo do dia, os funcionários vão recebendo os músicos que vão se apresentar durante o show da virada (tirando um sarro de todas as “tribos” da cultura urbana novaiorquina dos anos 80), enquanto o dono do teatro, se recuperando dum infarto que tivera mais cedo após briga com o escroto podre de rico, contata um músico famoso que vivia recluso sem se apresentar há muito tempo e explica que poderia ser o último show que ele assistiria, que tinha tido um infarto e que qualquer hora podia “bater as botas”. O cantor recluso, interpretado pelo grande, querido e sempre de óculos escuros Lou Reed, lembra a figura do Dylan em alguns momentos da sua carreira (a homenagem chega ao ponto duma cena reproduzir a capa dum disco do anasalado), e aceita na hora o convite. Sai de casa com a guitarra em mãos, compondo a música dentro dum táxi que dá voltas e voltas por uns lugares bastante aleatórios pra chegar no teatro. Ainda há tempo da última cena, com os créditos passando junto com isso aqui:

 

Só digo uma coisa, não digo nada, e digo mais, só digo isso…

Os músicos que fazem parte do show são em alguma medida referências á ídolos pop da época: um sex-symbol arrogantão que lembra o Jagger, uma vocalista de banda que mistura Debbie Harry e Pat Benatar, um punk louco que fica acorrentado pra não quebrar nada, que é uma mistura de Iggy Pop e Sid Vicious, e um bluseiro que lembra o icônico Muddy Waters (por sinal, no filme aparecem na voz desse cara uns sons do Muddy).

O filme, com uma linguagem humorística meio típica dos anos 80 (lembra pacas o “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu”), se apropria ainda de alguns recursos metalinguísticos, criando uma espécie de tiração de sarro de si próprio, com letreiros como “boy meets girl” que parecem fazer uma referência ao esqueleto das comédias românticas (e poxa, em alguma medida, esse aqui não deixa de ser uma).

Sobre as músicas, além da faixa do Lou Reed, acho legal de destacar o ramônico “Chop Suey”, no filme interpretado pela girl-band da mina que é a mistura da Debbie e da Benatar, que lembra, por sua vez, a banda pop the Go-Gos.

Galera, é isso, quem curte uma comédia oitentista, assiste lá!

Segue como sempre, link pro filme e pra trilha!

Filme:

Trilha sonora (em playlist) (a playlist não contém todas as músicas, juro que tentei, mas não consegui achar tudo…):

Ah! E um agradecimento especial ao amigo Frank Nabeta que me mostrou o filme e com quem discuti sobre, possibilitando minha análise num nível mais profundo!

“Heavy Metal: Universo em Fantasia” (1981) – O crème de la crème do metal!

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Heavy Metal: The Movie (Heavy Metal – Universo em Fantasia)
Lançamento: 1981
Direção: Gerald Potterton
Roteriro: Jean Giraud, Daniel Goldberg, Len Blum
Elenco Principal: Don Francks, Caroline Semple e Richard Romanus

A animação baseada nas histórias da revista em quadrinhos Heavy Metal das décadas de 70 e 80 é uma trip pop mutcho crazy. Um astronauta volta do espaço e entrega à filha uma joia encontrada em sua missão. O artefato começa a flutuar e mata o homem que o trouxe à Terra derretendo-o, e então se põe a conversar com a menina.

A joia verde, que se revela como sendo a fonte de todo o mal e uma exterminadora de dimensões completas, passa então a contar pra filha do astronauta sua trajetória através do tempo e espaço com histórias que demonstram seu poder destruidor e corruptivo.

O filme segue indo de Nova York até lanchonetes inter-galácticas, composto por uma série de sketchs baseadas nas histórias e nas artes de Richard Corben, Angus McKie, Dan O’Bannon, Thomas Warkentin e Berni Wrightson com uma liguagem que é 70% ficção científica, 30% pornografia e 100% pop-surrealista, sempre com a trilha, obviamente heavy metal! Vale dizer também que a estética do filme lembra bastante a do cartunista francês Moebius, que escreveu algumas histórias para a revista e que compõe a equipe de escritores do roteiro, assinando este sob o seu nome de verdade: Jean Giraud.

A little porn…
A little science fiction

Com Black Sabbath, Nazareth, Cheap Trick, Grand Funk Railroad, Black Oister Cult, Devo e vários outros (na moral, acho que tem pelo menos 10 bandas/artistas na trilha), o filme faz como promete o título e arrasa musicalmente com la creme do metal, embalando o som numa psicodelia visual bem loka!

Segue em link a trilha sonora (não consegui achar versão online do filme!) e o trailer.

Trilha:

Trailer:

“Jesus Christ Superstar” (1973) – O Jesus hippie na visão de Judas

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Jesus Christ Superstar (Jesus Cristo Superstar)
Lançamento: 1973
Diretor: Norman Jewison
Roteiro: Norman Jewison e Melvyn Bragg
Elenco Principal: Carl Anderson, Yvonne Elliman, Ted Neeley

Magic Bus…

Tá aí um muito bom!

O filme “Jesus Cristo Superstar”, de 1973, começa com um grupo hippie de teatro chegando no deserto em um ônibus saído dum som do The Who, tirando de lá todas as peças que vão compor o cenário e montando tudo. Um homem vestido com uma roupa vermelha, interpretando Judas, começa a cantar uma música para Jesus, suplicando que não acreditasse no que os outros diziam sobre suas origens divinas, que aquilo não ia acabar bem, que era uma “traição a causa”. Sem fazer mais referências ao fato de que tudo é uma peça interpretada pelos caras que desceram do ônibus, o musical continua apresentando uma releitura do texto bíblico, com algumas variações e algumas citações exatas do Novo Testamento, e se propõe a uma visão crítica à figura de Jesus como um superstar (exatamente como entendemos o termo nos dias de hoje), com seguidores que o seguem por razões as mais superficiais e mesquinhas, sem realmente se importarem com a filosofia de vida e política pregada pelo tal messias.

Cristo (cujas falas no disco são interpretadas pelo Ian Gillan, vocalista do Deep Purple) é posto no filme com um caráter mais humano (sem transformar numa coisa imbecil), com dúvidas de cunho existencial a respeito do que é dito sobre ele e de sua relação com os apóstolos. Ao mesmo tempo, o personagem se mantém fiel à construção bíblica, aparentando calma e sabedoria, respondendo sempre sem ser ofensivo, mas com palavras que provocam reflexões aos acusadores. Vale dizer ainda que parte de sua humanização se dá por conta de como se constrói sua relação com Maria Madalena, esta aparecendo com a única que o compreende (não, esse filme não é um drama adolescente), como em “Everything’s Alright”, quando o tranquiliza e parece afastá-lo de seu compromisso divino de “guiar” a humanidade e dizer a todos o que fazer a todo momento.

Contudo, Judas, que se opõe a Maria (inclusive num sentido bem escroto de menosprezá-la por sua profissão), aparece sempre criticando o messias e puxando-o para uma obrigação sociopolítica de luta contra a opressão romana e conversando com ele (putasso!) pedindo, até por medo do que poderia acontecer a Cristo, que deixasse de lado aquela história de Deus. É Judas o real protagonista nessa experiência musical/interpretação do texto bíblico. O filme é o Novo Testamento sob a sua ótica, a história de Jesus contada por um homem!

Judas e Jesus

O traíra é posto nessa versão de modo diferente do comum (assim como parte significante dos personagens), com questões existenciais (novamente, não é remake de “As Melhores Coisas do Mundo”) sobre sua amizade com o messias e sobre o que fazer frente à transformação dum movimento político num grupo de adoração religiosa, com as melhores músicas e com a maior profundidade emocional. Ele não é um cara mau ou avarento, é um cara que pensa por si mesmo e que fica mais que chocado vendo todo mundo seguindo Cristo de modo irracional e assustador, um cara que trata das coisas num nível humano e sem celebrações divinas.

Quem compôs as músicas da trilha do filme foi a dupla Andrew Lloyd Weber e Tim Rice. Andrew é o cara top top dos musicais da Broadway, tendo participado da composição das músicas de peças como “Cats” (1981) e “O Fantasma da Ópera” (1986), e realizou além dessa uma série de parcerias com Tim.

O estranho (na real nem tão estranho…) é que mesmo sendo bastante fiel ao texto do Novo Testamento, mesmo tendo tocado no assunto da religião e tendo apresentado o tal texto pra toda uma geração, o filme sempre gerou um desgosto dos grupos religiosos, protestos e tentativas de proibir quando “Jesus Cristo Superstar” é levado ao teatro. “Tenho certeza de que a senhora jamais daria dinheiro a alguém que estivesse preparando uma violência contra o senhor seu pai ou algum de seus entes queridos. Mas eu me sinto assim quando vejo os cartazes anunciando esse espetáculo de horror, com os dizeres ‘promovido pelo Ministério da Cultura’”, dizem os autores duma petição online aqui no Brasil dirigida à Ministra da Cultura (na época, 2014, Marta Suplicy). Contudo, no ano de estréia do filme (1973), o papa Paulo VI numa pré-exibição encorajou veementemente o lançamento de filme, dizendo que iria espalhar a figura de Jesus.

Segue como sempre, os links pra trilha sonora e pro filme completo!

Trilha sonora:

Filme completo (legendado):

É isso.

Assistam e curtam!

P.S.: O Herodes é genial… Hahaha!

O Século XX animado e musicado na animação “American Pop” (1981)

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American Pop

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

American Pop (American Pop)
Lançamento: 1981
Diretor: Ralph Bakshi
Roteiro: Roni Kern
Elenco Principal: Mews Small, Ron Thompson, Jerry Holand

O bisneto no fundo; o bisavô na frente.

Fugindo do Pogron russo de 1903, uma mãe e seu filho chegam nos EUA sem nada e começam a trabalhar: a mãe com costura e o filho distribuindo panfletos num bar. Ela morre e a criança passa a viver com o homem que o contratara. A partir disso, o órfão começa a frequentar os palcos do bar, sempre na cochia, até que por convívio com o universo dos shows começa a se apresentar. Vai pra primeira guerra, volta vivo, continua a cantar, se envolve com a máfia (seu “tutor” era parte dessa), se casa e tem filhos.

Seus filhos tem filhos e esses também tem. É por esse fio genealógico que corre o filme, contando a história americana do século XX (até a década de 80, quando o filme foi feito), através de hits da música pop de cada época, sempre se encaixando na vida do protagonista da vez (o filme conta com um protagonista para cada uma das quatro gerações), misturando o som com as situações vivenciadas por cada um, que de modo geral representam as vivenciadas pelos jovens da geração representada.

Desde um jazz que antecede (e muito) o be-bob do Thelonious Monk até uma proto new-wave, o filme passa por músicas famosas (afinal, foram hits), de conhecimento mais que popular, como “Sing, Sing Sing”, de Benny Goodman, “Somebody to Love” de Jefferson Airplane, “This Train” de Peter, Paul and Mary, “Take Five” de David Brubeck Quartet, “Turn Me Loose” de Fabian e “Don’t Think Twice” de Bob Dylan, dentre várias outras, sempre compondo junto a ilustração fantástica dos filmes de Ralph Bakshi (que faz uma ponta no filme, como o pianista que diz à mulher do órfão que seu som será um hit), cenas psicodélicas e absurdamente lindas. Contudo, é interessante dizer que nos créditos, a autoria das músicas é dada a personagens ficcionais!

Os filhos e netos, porém, apesar de sua sempre muito forte relação com as notas (de qualquer instrumento que fosse), nunca conseguem alcançar a fama e passam a vida nos bastidores, por motivos diversos, relacionados à guerras, abuso de drogas, máfia e etc. (Vale dizer, os mesmos que os levam ao universo musical). Cabe ao bisneto tentar virar o jogo…

Segue o link para o filme completo (numa versão meio bosta, mas tá aí…):

Velvet Goldmine enche a tela de glitter em um panorama não-oficial do glam de Ziggy Stardust

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Velvet Goldmine

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Velvet Goldmine (Velvet Goldmine)
Lançamento: 1998
Diretor: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes e James Lyons
Elenco Principal: Ewan McGregor, Jonathan Rhys Mayers, Toni Collette e Christian Bale

Recomendações…

O glam rock da década de 70: marcado por guitarras distorcidas dum jeito que até o Hendrix se tivesse visto ia olhar feio, glitter no ar misturado com o O2, sapatos plataformas que levavam pra ainda mais longe as cabeças dos popstars e uma androginia que enojava os velhos caretas esforçados em esconder as ereções que o pau bombava quando passavam os proto-Bowies pela rua. Foi o movimento performático que ,dando o próximo passo na rebeldia roqueira, inventou o comportamento desregrado, romântico e desesperado que gritava nas noites como um beatnik bêbado mandando o refrão “paz & amor (inc.)” pra tonga da mironga do kabuletê, do qual participaram Brian Eno, T-Rex, David Bowie, Iggy Pop, Sweet, Lou Reed, Suzi Quatro, New York Dolls e mais uma galera aê.

O glam é também o protagonista do filme “Velvet Goldmine”, de 1998. A história, que segue um modelo de investigação jornalística com referência à “Cidadão Kane”, é sobre um jornalista que, dez anos após o falso assassinato do popstar Brian Slade (Jonathan Rhys Meyersdurante um show, é convocado pelo editor-chefe pra fazer uma matéria sobre o cantor: o que aconteceu com ele? Por que forjou a própria morte? Onde tava?.

O jornalista Arthur Stuart, interpretado pelo Christian Bale (sim, é o Batman), através de entrevistas com pessoas que fizeram parte do passado do “morto”, vai montando a história do cara e lembrando de sua própria ligação com o universo do glam: a rebeldia contra os pais caretas, a fuga de casa quando os mesmos o descobrem gay, sua fissura pela figura do popstar sobre o qual está escrevendo, seu convívio com personagens importantes da cena da época, a homofobia regente versus a androginia do movimento, etc.

(Um parênteses: homofobia esta que até hoje ainda é a mesma, que ainda mata e contra a qual é necessário manter uma luta constante, do modo que cada um puder, em função dum dia onde ninguém acorde com medo de beijar um namorado (a) em público, devido à possibilidade de apanhar dos tacos de neo-nazis escrotos)

Voltando aos primeiros parágrafos sobre a história, vale dizer que vários dos personagens que aparecem, são referências explícitas à músicos e pessoas que fizeram parte do movimento cultural.

Brian Slade: David Bowie (na fase Ziggy; o falso assassinato no palco é uma referência ao momento em que durante um show, Bowie declarou que aquele seria o último do Ziggy Stardust, o que todos entenderam como “é o meu último show”).

Curt Wild: Iggy Pop

Mandy Slade: Angela Bowie

Jerry Devine (o empresário): Tony Defries (empresário da companhia que representava o Bowie e o Iggy)

Jack Fairy: Brian Eno

(fonte pra lista e lista mais detalhada: http://www.5years.com/velvetfilm2.htm)

Bom, agora já tendo dito um pouco e talvez até mais que se devesse a respeito do enredo, sigo para entrar no assunto que deveria, quem sabe, ter sido o foco desde o início: a trilha sonora. Embora Brian Slade seja fortemente baseado em David Bowie, o próprio Bowie não gostou do roteiro e vetou a proposta de que suas músicas aparecessem no filme. A trilha sonora é absurdamente boa e é um elemento essencial ao filme (sério?), que junto com o figurino (indicado ao Oscar em 1999) e os cenários compõe a energia roqueira andrógina que o filme passa não só no nível do roteiro. Ela inclui músicas de glam rock e faixas influenciadas pelo glam.

Os músicos ingleses que tocaram sob o nome de The Venus in Furs na trilha sonora foram Thom Yorke e Jonny Greenwood, do Radiohead, Clune, da David Gray Band, Bernard Butler, do Suede, e Andy Mackay, da Roxy Music. Os músicos americanos que tocaram como o Wylde Ratttz (a referência aos Stooges) de Curt Wild na trilha sonora foram Ron Asheton dos próprios Stooges, Thurston Moore e Steve Shelley, do Sonic Youth, Mike Watt, do Minutemen, Don Fleming, do Gumball, e Mark Arm, do Mudhoney. Além dos clássicos do glam, a trilha sonora apresenta novas músicas escritas para o filme do Pulp, Shudder to Think e Grant Lee Buffalo.

Os três membros do Placebo também apareceram no filme, com Brian Molko e Steve Hewitt como membros da Flaming Creatures (Malcolm e Billy, respectivamente) e Stefan Olsdal como o baixista da Polly Small.

Seguem os links pro filme e pra trilha sonora em playlist no YouTube:

Filme:

Trilha: 

Assistam, dancem, ouçam e curtam pacas!

“O Fantasma do Paraíso” (1974), o caldo Knorr sabor pop-rock de Brian de Palma

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Phantom Of The Paradise

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Phantom Of The Paradise

Phantom of The Paradise (ou Fantasma do Paraíso)
Lançamento: 1974
Diretor: Brian de Palma
Roteiro: Brian de Palma
Elenco Principal: Paul Williams, Willian Finley, Jessica Harper

This movie is the story of that search, of that sound. Of the man who made it, the girl who sang it and the monster who stole it.” (Trecho da abertura)

O filme de Brian de Palma, que por alguma razão (Deus sabe qual…), ganhou bem menos repercussão que os outros do diretor, é uma mistura digna de caldeirão de bruxa da história alemã sobre o jovem Fausto, que desiludido com a razão científica faz um pacto com o sete-pele em troca da realização de todos seus desejos; do romance do inglês Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”, que conta a história dum fine young man cheio de medo da velhice e que de tanto medo, faz um pacto com o tinhoso: sua alma pela eterna juventude; e do famoso musical “O Fantasma da Ópera”, a história dum homem que escondido num teatro auxilia uma jovem em sua carreira no coral.

A releitura mistura tudo num caldo Knorr sabor pop-rock, receita especial do queridíssimo Paul Williams (que no filme, faz o papel do antagonista, um influente produtor musical, em busca de um som pra abrir sua nova casa de shows), indo de uma coisa que é meio glam, meio proto-punk, como “Life at Last”, até baladas românticas, como “Old Souls”, sempre encaixando nas letras referências ao já cá invocado Lucifernandis.

Sobre as referências, ainda, assim como em vários dos filmes do diretor mas agora de modo mais leve, esse conta com uma cena hitchcockiana. Quem for ver vai sacar.

Pronto: tendo dito quase tudo, talvez caiba ainda dar uma palhinha no que diz respeito à história. Winslow Leach é um músico underground (tipo mais underground até que os caras que dão entrevista pro blog) que em meio à nostalgia dos anos 70, que tentava recriar os anos 50, compõe num modelo clássico de ópera, dividindo sua cantata em várias músicas ligadas pelo fio duma releitura que o personagem faz do Fausto. Depois duma apresentação dum grupo pop produzido por Swan, o antagonista, um zelador limpa o palco e Swan do camarote ainda observa o lugar do show. É aí que o mega-hyper-super-underground Leach senta no piano e, balançando os cabelos em gestos desvairados e românticos, toca a primeira música de sua grande ópera.

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Death Records, a gravadora do Swan.

O produtor musical, em busca do som para inaugurar a sua nova casa de shows e decidido de que a nostalgia dos anos 50 era coisa do passado, comenta com seu fiel escudeiro Philbin que a música tem que ser a que o louco tocava no piano. Contudo, como um bom produtor babaca, Swan elabora um plano digno do demo pra tirar Winslow da jogada e botar sua música na voz de alguém que fosse mais rostinho bonito. A história continua (seria meio bosta se acabasse por aqui…) sempre com a música em foco, que vai em alguma medida explicando o filme.

Além de tudo, o longa é coberto com a linguagem pop do neon e do rock performático, com situações, cenários e figurinos meio psicodélicos e teatrais que dão pro filme um jeito de show (e em algum sentido, de fato é um show), transformando a chatice de assistir tudo sentado numa experiência de fato eletrizante.

Segue a trilha sonora em playlist do Youtube: