Pink Floyd sampleou a voz de Stephen Hawking em “Keep Talking” (1994)

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Em 1994, o Pink Floyd, grupo inglês de rock progressivo, terminava de gravar o que seria seu último registro de estúdio, o aclamado “The Division Bell”. Assim como todos os discos dos ingleses, esse possui músicas que marcam a criatividade de uma banda, mesmo após quase 30 anos de existência. “High Hopes”, a última música do disco, cuja letra deu nome a “The Endless River”, disco de sobras lançado em 2014, é um dos pontos altos não apenas do disco, mas também da extensa discografia da banda. Outras músicas que fizeram bastante sucesso foram “Take it Back”, “What Do You Want From Me” e “Keep Talking”.

Também em 1994, a British Telecom lançou uma peça publicitária que tinha a participação do físico teórico e cosmólogo Stephen Hawking, então com 54 anos. No anúncio, feito pela agência Saatchi & Saatchi, Hawking começa falando: “por milhões de anos a humanidade viveu como os animais. E alguma coisa aconteceu, que permitiu usarmos o poder da nossa imaginação: nós aprendemos a falar”. Com aproximadamente 1 minuto e meio, a mensagem foi tão forte que fez David Gilmour, vocalista, guitarrista e principal compositor do grupo, considerar como uma das melhores peças publicitárias já feitas.

Em uma entrevista de rádio, o músico contou que “ele [Hawking] sofre de uma doença degenerativa, está numa cadeira de rodas, não pode falar, e sua voz é sintetizada por uma coisa computadorizada feita especialmente pra ele. Eu acho que ele só consegue mover um dedo, bem pouquinho, e seu trabalho é feito apenas com isso”. O comercial foca no poder da fala, de como ela possibilitou fazermos o impossível, também de como a falta dela causa destruição, guerras e sofrimento, e da importância de continuarmos conversando. “Sua voz estava no anúncio, e esse anúncio quase me fez chorar. Eu nunca senti isso antes”, prossegue, “[esse] foi o comercial de televisão mais poderoso que eu já vi na minha vida. Eu achei fascinante.”

Após este choque inicial, Gilmour achou interessante usar a voz de Hawking em uma de suas novas músicas. Entrou em contato com a agência de publicidade e perguntou se ela poderia disponibilizar a voz usada no comercial. Com o material em mãos, a voz foi modificada, para encaixar no tempo da música, e a música foi adaptada, para que tudo fizesse sentido. O resultado é simplesmente uma música belíssima que fala muito sobre um problema bastante atual: a falta de comunicação entre as pessoas, entre os povos, entre países. Precisamos conversar mais, pois só o poder da conversa pode construir o impossível.

Tricky transformou o grunge do Alice in Chains em um trip hop com pitadas globais

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Quando Tricky lançou “Adrian Thaws” em 2014, seu 11º registro fonográfico e que também leva seu nome de nascimento, houve uma tour mundial, que passou pelo Brasil. Convidou Mallu Magalhães pra gravar “Something In The Way”, tomando o lugar de Francesca Belmonte na divulgação de seu álbum por aqui. Ele também já teve um relacionamento amoroso com Bjork e é um dos muitos pais do trip hop, ao ter participado dos dois primeiros álbuns do Massive Attack.

Continuando com a herança do hip hop, suas composições se baseiam em samples, muitas vezes de artistas extremamente consagrados, como Michael Jackson e Alice In Chains. E esse texto é exatamente sobre essa interessante mistura pessoal de Seattle com os guetos londrinos. “Heaven Beside You”, a música sampleada, faz parte do terceiro disco do Alice in Chains. A música que fez sucesso tanto como single, no lançamento do álbum, quanto na participação da banda no “MTV Unplugged”, em 1996.

Essa fusão mostra a genialidade de um artista seguro de si, que sabe extrair o melhor para sua obra, independente do estilo e da exposição da música original, fazendo tudo soar novo, como se fosse feito para ele.

Tricky se apropria dos 5 segundos iniciais em “Keep Me In Your Shake”, fazendo um loop que se repete por 47 segundos enquanto o músico acende um baseado e reclama da segunda (Can’t wait for Sunday / It’s heartbreak Monday). Adicione ao itinerário da nossa viagem a Nigéria, país de Nneka, que divide os vocais e tem, em seu currículo, a música “Viva Africa”, tema da Copa do Mundo de 2010. Perceba que a conexão mundial segue fluindo.

Curiosamente, no canal de You Tube do artista, o sample não está presente. Foi substituído por uma guitarra com melodia parecida com a criação de Jerry Cantrell, mantendo boa parte da sua essência.

O funk dos anos 90 deve muito a Léo Canhoto e Robertinho e suas faixas de bangue bangue

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Léo Canhoto e Robertinho

Léo Canhoto e Robertinho foram muito importantes para a história da música sertaneja brasileira. A dupla, formada em 1968 em Goiânia, foi uma das primeiras a adotar o agora quase obrigatório visual extravagante com jóias, cabelos compridos, óculos escuros e etc. Foram também a primeira dupla caipira a ganhar um disco de ouro pela vendagem de seu primeiro LP, em 1969.

Um grande diferencial da dupla eram as faixas (ou vinhetas) de diálogo canhestro de filmes imaginários de bangue bangue, com bandidos como Jack, o Matador, Roque Bravo e o “Homem Mau” (a inspiração tinha ido embora, aparentemente) que chegam à cidade e saem matando todo mundo, sempre com uma tirada na ponta da língua e um efeito sonoro de tiro dos mais clássicos.

Mal sabiam eles que seriam a base para muitos sucessos do funk carioca no final dos anos 80 e começo dos anos 90. Essas faixas foram encontradas nas grandes peregrinações por samples de DJs como DJ Cuca, que produziu a “Melô do Valentão”, com samples de Léo Canhoto e Robertinho e suas frases memoráveis. A partir daí, muitos DJs saíram correndo atrás dos discos da dupla, que sempre continham pérolas praticamente prontas para a produção de funks divertidíssimos.

E foi daí que surgiram hits como “Melô da Lagartixa” e “De Quem É Essa Mulher”, de Ndee Naldinho, “Montagem do Gaiteiro”, de Adriano DJ, “Jack Matador” e “Jack Não Morreu”, de Pipo’s, “Montagem Botequeiro”, de Big Roggy DJ e a popular “Montagem Roque Bravo”.

“Hotline Bling”, do Drake, e o ótimo sample de Timmy Thomas, “Why Can’t We Live Together”

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Drake

Um dos grandes hits do final de 2015 e começo de 2016 é “Hotline Bling”, do rapper canadense Drake. Fugindo um pouco do rap, a música traz uma levada mais ~sensual~ e puxa pro R&B clássico dos anos 90 com influência do trap e fará parte do quarto disco do artista, “Views From The 6”, a ser lançado ainda este ano.

O sample que permeia toda a canção em versão acelerada é do hit “Why Can’t We Live Together”, de Timmy Thomas, lançada em 1972 como carro-chefe do disco de mesmo nome. A música, criada em uma noite de improviso pelo cantor, também atingiu em cheio as paradas da Billboard e ganhou versões de gente como Santana, Lucky Peterson, Joan Osbourne, Mike Anthony e Sade.

“Funky Drummer”, de James Brown, é oficialmente a música mais sampleada de todos os tempos

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“Funky Drummer” é oficialmente a música mais sampleada de todos os tempos, com quase 2.000 samples. A música de James Brown, gravada em 1969 em Cincinnati, Ohio, foi lançada pela King Records em um single em 1970. A música é uma daquelas clássicas de James Brown onde o Godfather se comporta praticamente como um maestro, e seus vocais são basicamente uma condução aos membros da banda. O nome da música é graças aos solos do baterista Clyde Stubblefield.

São quase 2.000 samples, então não dá pra citar todos aqui, mas vamos a alguns que usaram toda a ginga de Brown e sua banda:

“Let Me Ride”, de Dr. Dre feat. Snoop Dogg, Jewell e Ruben Cruz

“Fight The Power”, do Public Enemy

“Mama Said Knock You Out”, do LL Cool J

“Save Me”, de Nicki Minaj

“Fuck The Police”, do NWA

O tema das Meninas Superpoderosas

“Scarlet Begonias”, do Sublime

“Run’s House”, do Run DMC

“Shadrach”, dos Beastie Boys

“Give The Drummer Some”, dos Ultramagnetic MCs

“The Magic Number”, do De La Soul

“The Next Movement”, do The Roots

“Kick the PA”, por Korn e Dust Brothers

“I Am Stretched On Your Grave”, de Sinéad O’Connor

“Separate/Together”, do A Tribe Called Quest

“Freedom ’90”, do George Michael

“Shirtsleeves”, do Ed Sheeran

“Pânico na Zona Sul”, dos Racionais MC’s

“Original Gangster”, do Ice T

E isso são apenas alguns dos que já samplearam a música. A lista completa você encontra aqui. (Vai demorar pra você ouvir tudo, já vou avisando!)

 

 

Os ingredientes que ajudaram a criar o megahit “The Rockafeller Skank”, de Fatboy Slim

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Fatboy Slim

Em 1998, era difícil ligar qualquer rádio FM e não ouvir “right about now/ the funk soul brother/ check it out now/ the funk soul brother”, refrão repetido à exaustão em “The Rockafeller Skank”, música do disco “You’ve Come a Long Way, Baby” que levou Fatboy Slim ao estrelato e ao topo das paradas. Esta explosão pop do DJ deve muito à seis músicas que foram sampleadas e ajudaram a montar o quebra-cabeça bem sucedido que deu fama e fortuna à Norman Cook.

A guitarrinha base repetida por toda a música vem de “Sliced Tomatoes”, dos Just Brothers, música com inspiração surf lançada em 1972:

Outro riff usado na música é o de “Beat Girl”, de John Barry, tema do filme de mesmo nome lançado em 1960. Se você é fã da série “Os Normais”, deve lembrar que essa música também foi usada como trilha em diversos episódios das aventuras de Rui e Vani:

Já o ~refrão~ saiu de “Vinyl Dogs Vibe”, dos Vinyl Dogs com participação de Lord Finesse, lançada em 1997. É só dar o play que você já vai reconhecer a voz.

A versão do Art Of Noise para o clássico “Peter Gunn Theme” rendeu mais um riff que Fatboy usa em “The Rockafeller Skank”. A esquizofrênica cover de 1986 está presente no disco “In Visible Silence”.

E, finalmente, um dos maiores hits de todos os tempos e uma das 500 melhores músicas de todos os tempos segundo a revista Rolling Stone gerou a viradinha de bateria do hit do Fatboy Slim. Sim, ele saiu diretamente de “I Fought The Law”, do The Bobby Fuller Four, música que foi coverizada por muita gente… inclusive o The Clash!

Os samples que KLJay usou para criar “Capítulo 4, Versículo 3”, dos Racionais MC’s

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“Capítulo 4, Versículo 3” foi um dos maiores sucessos de “Sobrevivendo no Inferno”, o disco dos Racionais MC’s de 1997 que estourou e colocou as quilométricas letras de Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e do DJ KLJay na boca de todo o Brasil. A música chegou a ser apresentada ao vivo no VMB de 1998, um lugar onde normalmente o quarteto não apareceria nem amarrado.

Desvendaremos agora alguns dos samples que KLJay usou para montar essa música que foi um dos passaportes que levaram os Racionais MC’s a serem o grupo de rap paulista mais conhecido do país:

O sample que vem logo após a participação de Primo Preto (aos 0:23) vem diretamente da banda War e sua “Slippin’ Into Darkness”, do disco “All Day Music”, de 1971.

Já a batida característica que acompanha Mano Brown em toda a música vem de Tom Scott and the L.A. Express e sua “Sneakin’ In the Back”, de 1974. Dá o play que você vai reconhecer logo de cara:

O famoso e belo “Aleluia” que aparece na música dos Racionais vem da gargante de ninguém menos que Sade Adu, em sua música “Pearls”, do disco de 1992 “Love Deluxe”.

Já o baixo cheio de groove veio dos Ohio Players em “Pride and Vanity”, de 1972, tirada do disco “Pleasure”.

E, finalmente, o “Filha da puta / Pá, pá, pá” é sampleado de “Eles Não Sabem Nada”, do MRN. O disco que contém a música é “Só Se Não Quiser”, lançado em 1994:

Quando os Mamonas Assassinas enfiaram Rush e Dream Theater em sua “Bois Don’t Cry”

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Mamonas Assassinas

O sample desvendado de hoje não é exatamente um sample. É mais uma… “inspiração”. Uma “influência”. Ou, se você quer falar o nome certo: um pequeno plágio. Uma chupinhadinha entre colegas de profissão.

Quando o primeiro disco do quinteto de Guarulhos Mamonas Assassinas saiu, em 1995, todo mundo sabia de cor e salteado as letras do grupo. TODAS. Do começo do disco, com a Chili Pepperiana “1406”, até seu final, com o pagode-rock “Lá Vem o Alemão” (com língua presa vinda diretamente do Raça Negra), os Mamonas dominaram as paradas e podiam tocar o disco inteiro na TV sem medo, sempre dando recordes de audiência e rios de dinheiro para os envolvidos.

Em “Bois Don’t Cry”, uma canção que passeava pelo brega e brincava com o maior hit do The Cure em uma letra dolorosa sobre traição, Dinho e seus amigos colocaram metais característicos (que acabaram sendo sampleados em alguns funks como “Agora Eu Tô Solteira”, da Gaiola das Popozudas), vocal chorado com piadas adolescentes e um final mais pesado (como era comum nas composições do grupo):

O sample dos metais foi parar no hit do grupo de Valesca Popozuda. Agora ela é solteira e ninguém vai segurar:

O momento em que a música muda de andamento com a frase “Vejam só como é que é a ingratidão de uma mulher” é literalmente chupado (sem dar crédito, é lógico) do Rush e seu eterno hit e tema da série McGyver “Tom Sawyer”, que toca até cansar em algumas rádios rock brasileiras. É inclusive uma forma de usar o teclado de Júlio Rasec de forma mais ~criativa~ e menos “churrascaria” do que acontecia normalmente:

Já o trecho que vem a seguir é um riff tirado diretamente com boticão de uma música do grupo de prog metal Dream Theater, “The Mirror”. Provavelmente coisa do guitarrista Bento Hinoto, fã de metal em geral e rock progressivo.

Os maravilhosos samples obscuros que Moby usou em seu disco “Play”, de 1999

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Em 1999, Moby lançou seu elogiado disco “Play”, o quinto de sua carreira. O álbum chamou a atenção por ter todas as canções licenciadas pelo artista para utilização em comerciais e trilhas sonoras. Ou seja: Moby dominou as paradas e aparecia inclusive nos intervalos comerciais.

Vale a pena garimpar atrás dos samples que Moby usou nas músicas. Muitos deles saem diretamente de gravações antigas e obscuras de soul, blues, gospel e jazz.

“Natural Blues”, lançado como single em 2000 acompanhado por um divertido clipe em animação, foi um dos maiores hits do disco.

Vera Hall gravou “Trouble So Hard” em 1959 no disco “Sounds of The South”. Nascida em 1902 no Alabama, Vera era uma cantora de Folk que cresceu em Livingston e ganhou exposição nos anos 30 com sua voz poderosa.

“Bodyrock”, hit que virou single em 1999 e apareceu até em trilha de Fifa Soccer, veio do finalzinho de “Love Rap”, de 1980, de Spoonie Gee and The Treacherous Three. Você ouve a letra aos 5:32 da música.

“Find My Baby”, último single do disco, foi lançado em fevereiro de 2001, com um clipe cheio de bebês superstars.

A voz do hit veio de “Boy Blue”, um blues incrível de Joe Lee’s Rock, lançado em 1959 pela Atlantic Records.

O mega-hit deprê “Why Does My Heart Feels So Bad” saiu em novembro de 1999 e fez sucesso com mais um clipe de animação que conquistou os espectadores da Mtv.

De onde veio a voz calejada e cheia de dor? The Banks Brothers and The Greater Harvest Back Home Choir, em “He’ll Roll Your Burdens Away”, lançada em 1963. Mesmo a voz “de mulher” que rola na música do Moby vem dessa música, em uma versão com o pitch alterado.

A colaboração com Gwen Stefani “South Side” saiu em 2000 e difere um pouco do restante do álbum, se aproximando mais de um single pop.

A bateria da música vem do The Counts. Você pode ouví-la na música “What’s Up Front That Counts”, de 1971 (aos 6:40):

A ligação improvável entre o hip hop do Doctor MC’s e o rock setentista do Azymuth gerou o hit “Tik Tak”

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Em 1998 o grupo de rap “bate-cabeça” (era assim que eles chamavam) Doctor MC’s, formado por $mokey Dee, MC.A e Dog Jay, lançou o menosprezado disco “Agora A Casa Cai”, um grande álbum que emula o lado mais festeiro do hip hop, sem deixar de lado as sempre presentes críticas sociais que permeiam o rap paulistano.

Neste disco está o maior hit do grupo, “Tik Tak”, cujo refrão você já deve ter ouvido mesmo que não seja ouvite assíduo do Espaço Rap da 105 FM:

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O sample vem diretamente de outro grande hit de um trio, desta vez do também subestimado rock setentista brasileiro. “Linha do Horizonte” está presente no disco “Azimüth”, lançado em 1975 pela Som Livre pela banda Azymuth. Formada em 1973 na cidade do Rio de Janeiro, a banda contava com José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Ivan Conti, o Azymuth teve grande sucesso com a música, que foi incluída na trilha sonora da novela “Cuca Legal”, da Rede Globo, o que alavancou as vendas do disco do trio.