Texano de alma europeia: Scott Walker – “Scott 4” (1969)

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Scott Four - Scott 4

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se trata de música pop, poucas vezes a gente vai se deparar com algo tão melodioso quanto essa obra prima do excêntrico Scott Walker, um dos cantores/compositores mais enigmáticos de seu tempo. Seu quarto disco é um fiel retrato de beleza sonora, saturado de dramaticidade, lirismo, arranjos e uma atmosfera quase erudita. Por tanto cuidado com esses detalhes, as canções beiram a periferia da cafonice, há nelas tudo aquilo que poderia transformar a sonoridade em algo piegas, mas é aí que entra a genialidade de Walker: ele sabe ser empolado e soar perfeitamente adequado.

A qualidade da gravação é de impressionar qualquer um interessado nas possibilidades do pop. São dez músicas exemplares, de uma exposição melódica sem par.

Para situar o momento do álbum, é importante citar a prolífera carreira que o cantor vinha trilhando desde 19??, primeiramente com o Walker Brothers. Apesar de serem dos Estados Unidos, o grupo estourou mesmo no Reino Unido, chegando até mesmo a ter o maior fã clube oficial da Inglaterra, por volta de 1966. A voz floreada de barítono e seu ar de galã fez de Scott Walker um ídolo teen, embora fosse um cara muito tímido, recluso, sempre mais interessado no lado intelectual das coisas. Existencialista confesso (ávido leitor de Sartre e apreciador do cinema de Ingmar Bergman), sempre teve como ponto de partida em sua música a possibilidade de agregar referências que vinham de fora da esfera musical.

Problemas internos, a depressão de Scott e a guinada psicodélica puseram um ponto final no Walker Brothers. Livre das exigências do grupo, em 1967 iniciou as composições de seu primeiro trabalho solo, fortemente influenciado pelo belga Jacques Brel e climas orquestrais, algo que iria marcar com força os quatro primeiros discos de Walker. A aceitação foi imediata, e alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas, ficando atrás somente do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”.

Em seguida vieram mais dois excelentes álbuns, Scott 2 e Scott 3″. Curiosamente, na medida em que o compositor vinha refinando a qualidade de seus lançamentos, o distanciamento com o público se tornava mais evidente, o que de certa forma deve ter sido um alívio para ele, que sempre detestou os holofotes. Em 1969 foi lançada sua obra-prima, Scott 4″, que é uma espécie de síntese amadurecida dos três LPs anteriores, um pouco menos pomposo, porém permeado de composições intensas e interessante de cabo a rabo.

A começar pela épica “The Seventh Seal”, faixa claramente inspirada no filme O Sétimo Selo de Bergman e na atmosfera das lendárias trilhas sonoras estilo western do italiano Ennio Morricone.

Uma levada que lembra a vibe das músicas de Serge Gainsbourg embala “The Old Man`s Back Again”. As apaixonadas opiniões políticas de esquerda de Scott Walker não eram segredo quando essa faixa foi gravada, mas nesse caso ele critica o lado tirano do governo esquerdista. O subtítulo, “Dedicated to the Neo-Stalinist Regime” refere-se especificamente ao governo repressivo checo que derrubou a era da Primavera de Praga em 1968 com ajuda militar soviética. O “velho” seria o fantasma de Stalin.

“Boy Child” é uma música sem par, um daqueles casos irretocáveis de beleza. A sonoridade tem essa qualidade capaz de impressionar. Talvez seja a melhor faixa de todo o vasto catálogo de Scott Walker.

“Angels Of Ashes” e “On Your Own Again” esbanjam estilo. A sensação é a de que você está em uma outra época, num ambiente suntuoso, cheio de detalhes. Pode ser que isso acabe incomodando algumas pessoas, porque de fato Walker propõe (e consegue) elevar a estética do estado de beleza ao limite do pop.

O cantor brinca com as referências e faz um mundo inteiramente pessoal. Em “Get Behind Me” visita o gospel, já em “Rhymes Of Goodbye” redefine uma proposta country, enquanto que “Hero of The War” há um flerte com a levada primitiva do pioneiro Bo Diddley.

“Duchess” e “World’s Strongest Man” mostram como Walker vinha lapidando seu modo de soar acessível, aliviando consideravelmente a afetação vocal que antes se ouvia com frequência nos primeiros trabalhos.

“Scott 4” não foi um sucesso. Demorou um bom tempo para enxergar esse LP com a devida atenção. Com o passar dos anos, Scott Walker se tornou cada vez mais obscuro, recluso e experimental, tão avant garde a ponto de lançar álbuns com músicas de mais de 20 minutos de experimentos, como o ótimo Bish Bosch”, de 2012. Vale dizer que essa fase é igualmente interessante.

Atualmente houve uma renovação no interesse em torno do lendário texano com alma de europeu. Em 2014 Lançou com o Sunn O))) o Soused”, um ótimo disco, muito aclamado pela crítica e pelo público. E ao se deparar com esses trabalhos mais recentes e depois rever o contexto de “Scott 4″, fica uma pergunta muito difícil de responder: quem, além dele, conseguiu passear por essas vertentes com esse nível de qualidade?

Inglês até os dentes: The Kinks – “Face To Face” (1966)

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The Kinks - Face To Face

Bolachas Finas, por Victor José

Tem como não gostar de Kinks? Essa banda seminal encarnou praticamente tudo que importa do espírito do rock britânico dos anos 1960, mas, diferentemente dos parceiros de época Beatles, Stones e The Who, não atingiu aquela enorme massa de sucesso. Apesar disso, pode-se dizer que ainda sim esta é uma das maiores bandas de todos os tempos sem sombra de dúvida, e divide com o The Animals (e quem sabe o The Hollies) esse estranho e não tão justo posto de bandas britânicas definitivas da década de ouro do rock que todo mundo conhece pelo menos uma música.

Mas o mais interessante do legado do The Kinks é que a cada nova vertente que aparece no rock você percebe uma banda ou outra que os idolatra. Perceba o power pop do The Knack, o indie a la “You Really Got Me” da sueca The Hives ou a personalidade inglesa até a medula nas principais obras do Blur… Tudo isso é muito The Kinks. A banda atravessa os anos renovado e cada vez mais bem assimilado.

Poderia escolher praticamente qualquer álbum da banda para comentar, mas escolho Face To Face”, seu quarto LP, por ser o meu favorito e porque vejo nele um período de transição muito evidente, o que o torna ainda mais interessante. Há o melhor dos dois mundos de Kinks nesse disco. “Face To Face” está para The Kinks como Rubber Soul” está para The Beatles. Pelo menos eu vejo assim. Ainda há aquela urgência dos primeiros trabalhos, mas já notamos uma banda mais refinada, variando nos estilos, buscando se inserir na nova onda de experimentações sonoras e se saindo muitíssimo bem.

Ray Davies – como sempre – estava afiadíssimo nas composições e produziu alguns de seus momentos mais memoráveis.  Pela primeira vez, toda a tracklist leva sua autoria. Outra coisa curiosa sobre esta obra é que muito a consideram como o primeiro álbum conceitual da história, ou seja, todas as músicas contribuem para um tema específico, como acontece com clássicos como Tommy” e The Wall”. No caso de “Face To Face”, o tema explorado foi basicamente a sociedade inglesa e seus costumes e, ao contrário dos clássicos álbuns conceituais, não há nada de repetições de temas e dramáticas overtures ou interlúdios, pelo contrário, você escuta as 14 faixas em uma tacada só, sem encheção de linguiça e não cansa um segundo. Cada canção funciona muito bem sozinha, se considerar fora dessa pegada conceitual.

“Party Line” abre o LP com bastante força, direto, sem maiores pretensões. Essa na verdade é uma parceria entre os irmãos Davies, que no fim acabou não sendo creditada no encarte. “Rosy Won’t You Please Come Home” traz um ritmo dançante embalado pela bateria sempre bem destacada de Mick Avory e por um cravo meio empolado tocado pelo mestre Nicky Hopkins. Essa música é uma daquelas que tem a incrível capacidade de grudar em sua cabeça pelo resto do dia, semana ou mês. Uma curiosidade: essa canção foi inspirada principalmente pela irmã de Ray e Dave Davies, Rosy. Ela e seu marido, Arthur Anning, tinham se mudado para a Austrália em 1964, o que deixou Ray profundamente triste. No dia que eles se mudaram, Ray Davies teve um surto de choro em uma praia. Dave contou uma vez que ele correu para o mar gritando e chorando. Além disso, a partida de Rosy e Arthur inspiraria mais tarde a banda na concepção de outro grande álbum da banda: Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire)”, de 1969.

Um dos singles para o disco, “Dandy” traz uma ótima letra de Ray, cheia de sarcasmo. Dizem que esta canção fala indiretamente de seu irmão, Dave Davies, o guitarrista da banda. A acidez para com os outros não para por aí, isso porque “Session Man” é um retrato de ninguém menos que Jimmy Page. E pelo visto a banda detestava o então músico de estúdio. Para se ter uma ideia, veja o que Ray já disse sobre isso: “Quando gravamos “All Day And All Of The Night” nós tivemos que gravá-la às 10 horas da manhã, porque tínhamos um show naquela noite. Tudo foi feito em três horas. Page estava fazendo uma sessão no estúdio ao lado, e veio para ouvir o solo de Dave. E ele riu, ficou tirando sarro. E agora ele diz por aí que tocou aquele solo! Então eu acho que ele é um cuzão. Dave é um grande guitarrista. Ele tem suas limitações, mas nunca recebeu o devido reconhecimento. Ele tocou isso com 16 anos de idade. Ele criou um som”.

Embalada pelo belo baixo de Peter Quaife, “Too Much On My Mind” apresenta um ar de folk rock bem dentro dos padrões da época, enquanto que em “Rainy Day in June” e “Fancy” a banda arrisca algo mais experimental com sonoplastias de trovões e cítaras, premeditando os anos psicodélicos (algo que o Kinks nunca chegou a cavar a fundo).

O rock básico dá as caras em faixas incríveis como “House in The Country”, “Holiday in Waikiki” e “You’re Lookin’ Fine”, que mostram a capacidade do grupo de transitar entre a busca de maturidade musical e a rebeldia inerente do rock, sem abrir mão da qualidade. O mesmo ocorre com as mais melodiosas “I’ll Remember” e “Most Exclusive Residence For Sale”, esta última com uma letra hilária sobre um sujeito que compra uma casa suntuosa por puro capricho do status e não consegue manter o estilo de vida.

A super inglesa “Little Miss Queen Of Darkness” traz esse ritmo ligeiramente jocoso, cheio de irreverência e um solo de caixa irresistível. Dá até para dizer que ela faz um belo par com a mais famosa do disco, “Sunny Afternoon”. Um dos pontos altos do catálogo do grupo, essa canção alcançou o primeiro lugar nas paradas do Reino Unido, o que animou bastante Ray, que via nesse novo jeito de compor sua força principal. “Não havia escrito nada por um tempo”, comenta Ray. “Eu estava doente e vivia numa casa muito decorada, tinha paredes laranja e móveis verdes. Minha filha de um ano de idade estava engatinhando no chão e eu escrevi o riff de abertura. A única maneira que eu poderia interpretar como eu me sentia era por meio de um aristocrata decadente. Eu o transformei [o protagonista da faixa] em um canalha que brigou com sua namorada depois de uma noite de embriaguez e crueldade”, disse.

Apesar das ótimas críticas, “Face To Face” não foi um sucesso de vendas, o que viria a se repetir em vários dos melhores trabalhos do Kinks. Talvez o público estivesse mais sedento por folk rock e pirações psicodélicas, que já estava começando a pipocar com força em 1966. Mas fato é que pouco importa o desempenho da banda nas paradas de sucesso. Hoje todos concordam que ali está uma das obras mais importantes da música pop. E termino como comecei: tem como não gostar de Kinks?

O som de hoje 40 anos atrás: David Bowie – “Low” (1977)

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David Bowie - Low

Bolachas Finas, por Victor José

Mesmo que a icônica capa de Aladdin Sane” (1973) tenha sobrevivido intacta e soberana no imaginário da cultura pop e levado a personagem de David Bowie quase que à banalidade em termos visuais, o legado do britânico ecoa ainda mais forte por conta de seu extraordinário conteúdo musical. Se por algum motivo a incessante busca por sintéticas texturas sonoras entra e sai de moda entre bandas de rock e de outros gêneros, muito disso é fruto das sugestões apontadas por Bowie e sua essencial “Trilogia de Berlim”, sobretudo o álbum Low”, de 1977.

Parece redundante hoje em dia destacar a importância do britânico para a música popular, mas fato é que neste ano Low fez 40 anos e permanece ileso e incontestavelmente rico em proposta estética. Aliás, por mais que Bowie seja um gigante da música do século XX, este disco jamais deixará de ser assunto de uma infindável discussão sobre até onde pode chegar um cantor pop.

Produzido pelo próprio Bowie e seu parceiro de longa data, Tony Visconti, “Low” abriu um novo caminho na carreira do músico. Se antes já havia causado espanto geral por flertar facilmente com pop barroco, soul e glam rock, a partir de 1977 passaram a vê-lo como um artista desafiador, que expandia os limites sugerindo à música o uso expansivo da artificialidade sonora.

Com o objetivo maior de largar seu vício em cocaína, Bowie viveu modestamente na Alemanha Ocidental, em Berlim, recluso e longe dos holofotes. Como forma de ocupação, em meados de 1976 chegou a produzir o álbum solo de seu amigo Iggy Pop, o fundamental The Idiot”. Logo ali já podia ser notada uma pitada do que David estava preparando.

Fortemente influenciado pelo som de grupos como Neu! e Kraftwerk, Bowie reuniu uma série de músicos como Carlos Alomar (guitarras), George Murray (baixo), Ricky Gardener (guitarras) e Brian Eno (sintetizadores) para recriar a seu modo a atmosfera dessas bandas. O resultado foi “Low”, um disco metade instrumental, metade pop experimental e distinto por completo.

O curioso é que alguns atribuem a Eno importância igual ou maior que o próprio Bowie na concepção de “Low”. Polêmicas à parte, certamente o modo de criação do ex-Roxy Music foi uma grande influência, tanto que o próprio alega que participou da produção do LP e não foi creditado.

Não é que bandas do rock progressivo, expoentes do krautrock ou o próprio Eno com sua ambient music não houvessem sugerido aquilo até então, mas o fato surpreendente (além do resultado final do LP) foi a abrupta ruptura de David Bowie, que há um ano antes vinha fazendo soul e mesmo assim assumiu o eletrônico sem quaisquer restrições.

Outro fator que contribui para a notoriedade de “Low” é a incessante capacidade de algumas de suas canções se ajustarem naturalmente ao presente momento, como no caso de “A New Career in a New Town” ou “Breaking  Glass”, que com seus quase dois minutos representa o que inúmeras bandas contemporâneas tentam recriar direta ou indiretamente. “Sound and Vision” e “Be My Wife”, mesmo sem seguirem a fórmula linear de canção pop, traçaram no panorama musical da época o que viria a ressoar com muita força em conjuntos de pós-punk e new wave do início dos anos 1980.

Todas as onze composições são capazes de levar o ouvinte a uma interessante experiência sensorial, mas de fato as últimas quatro faixas de “Low”, “Warszawa”, “Art Decade”, “Weeping Wall” e “Subterraneans”, verdadeiros exemplos de ambient music, carregam peso maior do status de obra-prima atribuído ao LP. Qualquer um acostumado apenas com as irresistíveis facilidades do camaleão do rock (coisas como “The Jean Genie”, “Rebel Rebel” ou “Changes”) passará pela primeira vez pelo desfecho de “Low” e a partir de então encarará Bowie de maneira absolutamente diferente.

Com todo o reconhecimento obtido anos depois, a desconfiança da RCA (então gravadora do músico) para com o disco virou mero detalhe. Das onze faixas, seis eram basicamente instrumentais e a empresa teve sérias dificuldades em encontrar na obra alguma “música de trabalho”. No final das contas, “Sound and Vision” foi a escolhida como single.

O disco saiu em janeiro de 1977. Inicialmente seria lançado em dezembro de 1976, porém a RCA cancelou com a justificativa de que não via “Low” com um potencial presente de Natal.

Seria “Low” o ápice criativo de Bowie? O próprio afirma que sim, e até chegou a tocá-lo na íntegra em 2002, num único show em Londres. Mas fato é que, gostando ou não gostando, ao escutar o álbum todo não há como relevá-lo e não perceber nele uma infinidade de outros artistas.

David Bowie - Low

5 marcas brasileiras para os apaixonados por camisetas de música

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Eu sempre fui apaixonado por camisetas de banda. Desde a minha primeira, dos Raimundos, aos 14 anos, nunca mais parei de colecionar camisetas estampadas com ilustrações que mostravam um pouco das minhas bandas preferidas. Hoje em dia, com a internet, a dificuldade em encontrar uma camiseta com uma bela estampa é bem menor (lembre-se que agora até nas C&A e Renner a gente encontra belas peças dos Ramones, Rolling Stones, Aerosmith e etc.). Selecionei 5 marcas que eu gosto e chamaram minha atenção pela criatividade e por fugirem um pouco do esquema clássico de só colocar o logo da banda.

Marca nova que foca em estampas que demonstram um pouco do estilo de vida do rock, não aludindo a nenhuma banda em específico. Com desenhos simples e com aquela cara de Do It Yourself, a marca busca um estudo urbano e jovem. Para quem é viciado nas clássicas estampas de caveiras, é um prato cheio!

Capitaneada por Daniel Ete, membro das bandas Muzzarelas e Drákula, a loja de discos e camisetas no centro de Campinas tem em seu interior muitas das clássicas estampas feitas pelo próprio. Se você não conhece o trabalho do Ete, tem que conhecer. Suas colagens e desenhos de caveiras derretidas com um monte de queijo, meleca, robôs, aliens e tudo o que você adora ouvir nas letras de suas bandas são imperdíveis.

  • – No Meu Tempo Era Assim

Tá, a famosa marca da Bárbara Savazzoni não é somente de música, e sim de nostalgia em geral, com estampas incríveis de desenhos como Doug, Cavalo de Fogo, O Fantástico Mundo de Bobby e muito mais. Mas é claro que a nostalgia passa pela música, com camisetas de David Bowie, Backstreet Boys, Shakira e até É o Tchan. Se você foi uma criança dos anos 90, com certeza vai gostar.

Aqui talvez você encontre aquela camiseta de uma banda clássica que você ama, mas com uma estampa um pouco diferente do que todas as outras lojas mais “padrão” ofereceriam.

Estampas mais que exclusivas de suas bandas preferidas, além de muitas sobre TV, cinema, animes, quadrinhos e etc. Nas camisetas musicais, estampas totalmente diferentes do que você já viu, com artes incríveis feitas por quem realmente gosta das bandas. Algumas têm até easter eggs para os fãs mais enlouquecidos sacarem.

As Baratas

 

Rock, drama e experimentação: Siouxsie and The Banshees – “Kiss in The Dreamhouse” (1982)

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Bolachas Finas, por Victor José

Uma coisa interessante a respeito dessa banda é que o rosto maquiado de Siouxsie Sioux sobrevive no imaginário da cultura pop de modo completamente errado. Boa parcela daqueles que já viram esse semblante icônico nem sequer deram uma chance para o som, temendo ser uma coisa meio nada a ver dos anos 80. Se você é um desses, não sabe a bobagem que está cometendo. Siouxsie and The Banshees é uma das bandas de rock mais interessantes de todos os tempos.

Mesmo gostando muito desse período da música britânica, assumo que demorei um tempo para escutar com atenção os Banshees, sabe-se lá o motivo. Tive uma fase pós-punk que durou muito tempo, mas só depois de vários anos foi que parei para escutar essa discografia com calma. Lembro de ter me impressionado muito, mas muito mesmo, com os álbuns “The Scream” (1978), “Kaleidoscope” (1980) e “Juju” (1981). Achei o som dessa banda uma coisa incrível. Além da excelente voz cheia de drama e personalidade de Siouxsie Sioux, o que me cativou foi fato de que a banda consegue fazer um trabalho extremamente criativo, competente e visceral em vários níveis, num período em que o rock, de um modo geral, passava por uma forte transição que ainda determinaria o som da década.

Depois de muito escutar esses três álbuns citados acima, acabei me deparando com algo ainda mais interessante. “Kiss in The Dreamhouse” (1982), quinto álbum da banda, é um trabalho um pouco mais rebuscado. Produzido, arranjado e composto inteiramente pela banda, no LP a banda explora de verdade as possibilidades do estúdio, e com isso abandona um pouco o punk e traz um lado mais experimental, artisticamente mais denso, mas ao mesmo tempo coeso e de fácil assimilação. “Kiss in The Dreamhouse” serviu como ponte para os trabalhos posteriores, de sonoridade mais puxada para a neo-psicodelia, um sub-gênero que fez a cabeça de bandas da época como The Cure e Echo & The Bunnymen.

Seja pelas linhas de baixo a la Joy Division de Steve Severin, pelo som tribal e quase nunca óbvio da bateria de Budgie (na época, marido de Siouxsie) ou também pelas guitarras estranhas e cheias de efeito de John McGeoch, qualquer música desse disco te cativa. E, claro, Siouxsie é a força maior por trás de tudo. A feminilidade forte somada ao timbre tão característico de sua voz embala tudo de modo que pareça coerente, sem arestas. Uma curiosidade é que a cantora estava passando por complicações na garganta que poderiam ter impedido sua carreira. Por recomendações médicas ela aprimorou seu modo de cantar e o resultado pode ser percebido em algumas faixas do disco, executadas de modo mais suave.

O álbum começa com a ótima “Cascade”. A atmosfera densa, típica da personalidade da banda, ganha novos elementos com um arranjo mais maduro. Dá para imaginar facilmente essa música soando como um punk rasgado, como se ouvia em “The Scream”, mas o grupo conseguiu traduzir com um domínio impressionante sua própria linguagem, sem perder a qualidade agressiva. Siouxsie está incrível. “Green Fingers”, seguindo uma linha mais psicodélica, apresenta um riff de flauta doce e flerta bastante com outras vertentes do rock. Ali consta uma vibe muito similar ao que se encontra no LP “Porcupine”, do Echo & The Bunnymen, lançado meses depois.

“She’s a Carnival”, “Painted Bird” e “Slowdrive” dão ao disco um ritmo mais pop, mas nada que chegue a ser óbvio. Todas obrigatórias nos shows da banda na época, essas faixas sugerem a coragem da banda ao unir os princípios do punk com seja lá o que for. Parece óbvio, mas não foram tantas bandas que se deram bem ao tentar fazer isso.

Com um loop hipnotizante, “Circle” é uma faixa incrível. Sendo a mais experimental, destaca-se na tracklist como aquela que sonoramente te segura até o fim. A intensa bateria de Budgie faz um contraponto interessante com a letra que menciona um abuso sexual que a cantora sofreu quando tinha nove anos.

A performance dramática toma conta de “Melt!”, uma das melhores faixas da banda. Em ritmo de valsa, foi escrita durante a primeira excursão ao Japão, quando ganharam várias roupas, cartões e desenhos dos fãs japoneses. Nas palavras da cantora, eles ficaram derretidos com aquilo tudo.

O arranjo de cordas para “Obsession” é um dos pontos altos da obra. Esta música, carregada de erotismo, mostra a habilidade de Siouxsie com sua voz, cantando com suavidade e carregando para si uma personalidade artística irresistível. É por músicas como essa que a vocalista faz jus ao seu visual, e você percebe que todo aquele teatro não é um exagero sem propósito.

Como se não bastasse, o LP conta com um pouco de jazz. O clima de “Cocoon”, mesmo indo para outra direção, faz todo o sentido, e é por canções assim que podemos perceber como é importante o conjunto da obra. Talvez em um álbum como Juju ela não teria tanto sentido.

No fundo, “Kiss in The Dreamhouse” se trata de um ótimo exercício de experimentação e coesão. É muito difícil conseguir essas duas qualidades ao mesmo tempo. Em muitos casos isso é como óleo e água, a coisa não casa e tudo parece não ter nexo. Mas isso não é só minha opinião, isso porque na época o disco foi aclamadíssimo pela crítica. A revista Melody Maker considerou “Kiss in The Dreamhouse” o lançamento do ano de 1982, num ano em que foram lançados clássicos como “Rio”, do Duran Duran, “Nebraska”, do Bruce Springsteen e nada mais nada menos que “Thriller”, do Michael Jackson.

A própria banda afirmou diversas vezes que “Kiss in The Dreamhouse” foi seu auge criativo. Apesar disso, curiosamente, o tempo foi passando e o LP foi esquecido em partes, talvez por não conter nenhum grande hit. Somente há pouco tempo seu prestígio foi retomando fôlego, com artigos sobre o trabalho e sua importância para a época.

Eu sempre falo que o pós-punk do início dos anos 1980 é um dos melhores e mais importantes períodos do rock. Esse disco não me deixa mentir.

Além do Clube da Esquina: Som Imaginário – “Matança do Porco” (1973)

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Bolachas Finas, por Victor José

Há um sabor especial bastante curioso na música feita pelos brasileiros. Podemos tomar emprestado algum estilo ou até mesmo copiar descaradamente um artista que ainda assim fica algo lá no fundo, bem no âmago, que nos revela autênticos. E não falo daquele papo cafona de “brasileirice”, mas sim de uma verdadeira identificação com musicalidade. O Som Imaginário tem disso.

De fato essa é uma banda interessante. Afinal, o que falar de um grupo que serviu de apoio para a maioria dos primeiros (e fantásticos) álbuns e turnês do Milton Nascimento? Para resumir bem: basicamente, eles foram a espinha dorsal do que viria a ser o Clube da Esquina.

O Som Imaginário era composto por  Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão e guitarra), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Fredera (guitarra) e Zé Rodrix (percussão, órgão e flautas). Poucas vezes na história da Música Popular Brasileira houve um grupo que deu tão certo.

A carreira foi breve, com três discos lançados, mas o último, “Matança do Porco”, de 1973, se destaca como o ápice criativo do Som Imaginário. Claramente influenciado pelos colegas do Clube da Esquina e pela abordagem prog do Pink Floyd e do Yes, o grupo (já sem Fredera e Rodrix) conseguiu uma sonoridade muito classuda, digna de carreira internacional – o que infelizmente não aconteceu –, mesclando a pegada do jazz, às vezes com ritmos brasileiros.

Mesmo com tudo isso, não é algo cansativo de ouvir, dá para assimilar sem muita dificuldade. E lembrando que esse é um trabalho basicamente instrumental, salvo uns vocalizes que Milton e os Golden Boys emprestaram para a faixa-título. E por falar nessa música, dá para dizer que ela é o que mais chama atenção em todo o disco. Como uma espécie de suíte, em “A Matança do Porco” a banda passeia pelo erudito, por improvisações de rock e por algo muito parecido com a vibe de “Careful With Tha Axe, Eugene”, do Floyd. Com certeza “Matança do Porco” não perde em nada para qualquer trabalho desse período, é uma faixa muito bonita, bem trabalhada e impactante.

“A3” e “Mar Azul” exploram mais o terreno do jazz e da música latina, e, como não podia deixar de ser, sem esconder o forte traço de Clube da Esquina predominante na banda. “Bolero”, com sua tranquila guitarra de 12 cordas, também escancara essa qualidade e dá vontade de repeti-la logo em seguida. O climão da “A Nº2” é outra coisa pegajosa, no bom sentido. Na outra metade da faixa tem um baita groove bem estilo dos anos 1970 que hipnotiza a gente enquanto faz a cama para um piano elétrico extremamente competente. Ali também conseguimos escutar novamente a voz de Milton no fundo.

Em “Armina” a banda apresenta um total domínio do que fazer com a música e como oferecer diferentes níveis de melancolia. A atmosfera funciona em torno de um riff bem próximo de “I Want You (She’s So Heavy)” dos Beatles e de um piano delicado carregado de erudição. O tema ainda é repetido ao longo do disco em outras três ocasiões, sempre apresentando uma textura a mais.

Mesmo com a presença marcante de todos os integrantes, é bem evidente que Wagner Tiso naquela altura do campeonato meio que dominava a parada toda, e um sinal disso é o crédito que ele leva da maioria das composições. Tanto que Fredera já chegou a dizer que “Matança do Porco” é meio que um disco solo de Tiso. Mas sinceramente, isso não importa muito pra mim, pois vejo esse como um trabalho de banda do início ao fim.

É interessante notar como esse álbum se comporta perto das grandes obras da nossa música brasileira. Ele é como se fosse um presente daqueles que você não espera que vai ganhar, mas ao recebê-lo a satisfação é imediata.

Dificilmente você não vai se surpreender com alguma faixa desse disco.

Joia esquecida: Roy Harper – “Stormcock” (1971)

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Roy Harper - Stormcock

Bolachas Finas, por Victor José

Na primeira vez que ouvi este álbum, ficou claro que havia acabado de me deparar com uma obra-prima relativamente desconhecida. Stormcock” se resume a isso. É uma pérola injustiçada pela ação do tempo. Lançado em 1971, o quinto trabalho de Roy Harper é um daqueles discos especiais, que de uma forma ou de outra vai te surpreender artisticamente. A começar pela pequena quantidade faixas. São apenas quatro canções, todas longas, todas fantásticas, seja pelo som como pelas letras contundentes.

Pode-se dizer que o LP apresenta um caso incomum de folk progressivo. A combinação de arranjos elaborados com a simplicidade daquele típico som trovador predominante no folk britânico dá ao trabalho aquele sabor de algo inusitado, ao mesmo tempo em que soa absurdamente certeiro.

Mais conhecido pelos vocais em “Have A Cigar” do Pink Floyd e pela menção de seu nome na faixa “Hats Off to (Roy) Harper”, do Led Zeppelin, o músico é considerado uma lenda pelo público britânico. Desde o início de sua carreira, em meados da década de 1960, Roy vinha lançando discos de folk rock de relativo sucesso, dividindo a cena com nomes como Donovan, Bert Jansch e Fairport Convention. É curioso como Roy era bem relacionado, cheio de medalhões participando de seus trabalhos, e mesmo assim não conseguiu emplacar.

De Sophiticated Beggar” (1967) até Flat Baroque and Berserk” (1970), seus álbuns eram regulares, com um momento ou outro de grande impacto. Porém, foi somente com a chegada de “Stormcock” que ele iria realmente surpreender.

O álbum foi gravado estúdio Abbey Road, com uma equipe de primeira na produção e na engenharia de som. Entre os envolvidos estava Alan Parsons, o mesmo que produziu o clássico Dark Side of The Moon” e lançou em carreira solo vários singles de sucesso ao longo dos anos 1970.

A começar por “Hors d’œuvres”, você nota que vem pela frente uma forte dose de emoção. A música fala de um homem no corredor da morte, bastante inspirada no caso de Caryl Chessman, o “Bandido da Luz Vermelha” norte-americano, que estudou Direito na cadeia, dispensou advogados e fez sua própria defesa. Eu realmente não tenho muito o que dizer sobre essa música porque ela dispensa qualquer comentário. A simplicidade, a singularidade e o forte sentimento da gravação são capazes de nos remeter aos grandes momentos do folk ou do rock em geral, sem exagero.

Roy mantém o nível lá em cima com “Same Old Rock”, uma belíssima trama de violões com ninguém mais ninguém menos que Jimmy Page. A música passa por uma série de climas, e é impressionante o que acabou saindo daquela dupla. Talvez seja o ponto alto de “Stormcock”, em termos de instrumental e energia. No encarte do LP, Page foi creditado com o nome S. Flavius Mercurius, por questões contratuais.


Com seu violão agressivo, “One Man Rock And Roll Band” é exatamente o que o título menciona. Você consegue imaginar facilmente uma banda à la Zeppelin na base, mas Roy consegue sustentar tudo sozinho e não dá tempo de sentir falta de coisa alguma. Aliás, esse vazio permeia por todas as faixas e é uma das belezas do disco. Dá para afirmar que se trata de folk, mas a produção soa como rock.

Com pouco mais de 13 minutos, a épica “Me and My Woman” encerra o LP com grandiosidade. A música também passeia por diferentes emoções, com seu bem trabalhado arranjo de cordas e uma estrutura complexa. A extensa letra fala basicamente de meio ambiente. Sobre ela, Roy comentou uma vez: “Qual é o nosso destino? Importa? Está ligado ao ‘nosso’ planeta? Na minha opinião, sim”.

Assim como toda a carreira de Roy Harper, o disco vendeu modestamente, mas a crítica o recebeu com entusiasmo, amplamente apontado como o trabalho definitivo do cantor/compositor. Na verdade, o selo de Harper, a Harvest Records, não fez o menor esforço para divulgá-lo, e o disco vendeu muito pouco. Nas palavras do próprio músico: “Eles [o selo] odiaram. Nenhum single. Não havia como promover o disco no rádio”.

Pessoas como Johnny Marr (Smiths) e a banda norte-americana Fleet Foxes já mencionaram “Stormcock” como um de seus álbuns prediletos. A revista NME, em sua lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos divulgada em outubro de 2013, colocou “Stormcock” na 377ª posição.

Faz o seguinte: senta numa poltrona, coloca esse disco e presta atenção. Vale cada segundo.

Salvando-se pela música: Cat Power – “Moon Pix” (1998)

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Cat Power - Moon Pix

Bolachas Finas, por Victor José

Há muita gente que afirma que para se fazer uma obra de arte melancólica e ao mesmo tempo convincente é preciso que o artista esteja em um estado de espírito sombrio. Não vejo isso como verdade absoluta, mas deve ajudar.

É uma pena que existam poucos álbuns extremamente vulneráveis como o quarto disco da Cat Power, “Moon Pix”, de 1998, é um desses raros casos de equilíbrio entre qualidade artística e intensidade emocional que notamos em obras impressionantes, como o irretocável Plastic Ono Band”, de John Lennon, ou o corajoso Loki?”, de Arnaldo Baptista.

Primeiramente, Chan Marshall, a pessoa por trás do pseudônimo Cat Power, faz música como ninguém. Dona de uma voz lindamente rouca e irregular, a moça tem um estilo único, e se engana quem acha que seu modo de tocar guitarra seja simplório. Desde o início Chan vinha fazendo um bom trabalho, mas acontece que em meados dos anos 1990 não estava passando por um bom momento pessoal. A desordem na cabeça era tanta que quase abandonou a música no momento em que já havia lançado três discos de algum prestígio na cena alternativa dos Estados Unidos.

Morando em um sítio com seu namorado, na Carolina do Sul, a compositora estava na maior bad: deprimida, bebendo muito e cheia de dúvidas sobre a vida que vinha levando. Mas foi uma noite difícil de outono de 1997 que talvez tenha salvado o futuro de Chan. Segundo ela, em um desses momentos de profunda confusão, sozinha em casa, teve um intenso pesadelo alucinatório.

“Fui acordada por alguém que estava no campo, atrás da minha casa. A terra começou a tremer enquanto espíritos escuros se espatifavam contra todas as janelas. Eu acordei com meu gatinho ao lado. Comecei a rezar para que Deus me ajudasse. Então eu corri e peguei minha guitarra, tentando me distrair… Acendi as luzes, cantei para Deus e gravei uns sessenta minutos com meu gravador. Estava tocando umas progressões longas”, contou.

Dessa experiência absurda saiu a espinha dorsal de Moon Pix”: “No Sense”, “Say”, “Metal Heart”, “You May Know Him” e “Cross Bones Style”.

Chan decidiu voltar aos estúdios e gravou o disco na Austrália. Para isso, convocou Mick Turner (guitarra) e Jim White (bateria), da banda Dirty Three. A sonoridade das gravações remete a um clima solto, com trama de guitarras confusas, baterias minimalistas e muita sobreposição de vozes, o que fica sendo um dos grandes charmes do trabalho.

É interessante o jeito de Chan compor. Ela circula por uma progressão de acordes quase que em um loop e destila seus sentimentos em letras cheias de emoção. Não tem como dar errado. E neste trabalho todo cheio de arestas, essa fórmula foi como um movimento perfeito.

Esse é daquele tipo de álbum que vale mais ser escutado por inteiro, sem destacar nenhuma faixa especificamente. Mas é claro que sempre há uma ou outra coisa que se torna mais memorável, por isso, se fosse para separar somente uma das onze canções para definir a vibe desse belo trabalho, eu destacaria “No Sense”. Trata-se de uma linda obra de arte, profundamente comovente, que nos remete à sensação de dissolução que Marshall canta na letra. Da mesma forma, não tem como não se sentir tocado com “Moonshiner”, uma antiga canção tradicional do folk dos Estados Unidos onde ela fala claramente do seu ímpeto pelo álcool e interpreta de um modo que gera uma angústia instantânea. As guitarras tranquilas de “Say”, com seu som de chuva no fundo, embalam uma linda melodia, resultando em um perfeito retrato sonoro de reflexão de uma artista de mão cheia. Talvez a coisa mais acessível em “Moon Pix” seja o clipe da ótima “Cross Bones Style”, que é ao mesmo tempo a canção mais “radiofônica” do álbum. A sutilmente esperançosa “Colors and The Kids” quebra de leve a toada do disco com seu belo piano, o que acaba ganhando sem querer um status de “cereja do bolo”.

“Moon Pix” marca também um ponto de guinada na carreira da Cat Power. Mesmo ainda oferecendo a bem-vinda confusão dos trabalhos anteriores, o disco aponta para uma compositora mais madura, que mesmo com sua fórmula sem muitos floreios já abria caminho para grandes feitos aclamados por um público maior como “You Are Free” (2003) e The Greatest” (2006). Mas quem acompanha a carreira dessa grande mulher sabe bem que “Moon Pix” é seu ponto alto, daqueles que dificilmente se repetem na carreira de um artista.

Hoje, aquele triste cenário de pesadelo pessoal é lembrado por muitos como um dos maiores momentos do rock alternativo dos anos 1990. “Moon Pix” é um exemplo de que de fato a música é mais que expressão.

Prog para gostar de prog: Camel – “Mirage” (1974)

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Camel - Mirage

Bolachas Finas, por Victor José

A capa muita gente conhece, seja pela semelhança com o maço de cigarros (o que não é mera coincidência) ou por conta dessas listas de “grandes álbuns da década de 1970” que costumamos ver de vez em quando. É internacionalmente reconhecido e elogiado, por outro lado também não dá pra dizer que é aquele baita sucesso. Mas a verdade é que Camel tem um lugar reservado entre as bandas clássicas do rock, sobretudo na cena das bandas progressivas, e muito disso se deve a esse disco.

Basta ouvir uma vez para perceber que Mirage” tem uma boa vantagem em relação a muitos álbuns do gênero prog: não é excessivo. Considerando esse aspecto, não significa que nele não contenham faixas longas e um monte de solos, afinal, é prog em todos os sentidos. O que quero dizer é que nesse disco tudo é bem coeso, há ali um começo, meio e fim convincente. A banda não quis encher linguiça e por isso fez algo memorável.


A banda surgiu em 1971, na cidade de Guildford, na Inglaterra. A cozinha inventiva de Doug Ferguson (baixo) e Andy Ward (bateria) faz um som sólido, seguro e bastante criativo, mas o espetáculo fica por conta das guitarras e flautas de Andrew Latimer e dos teclados de Peter Bardens. Ambos fazem um trabalho incrível, cheio de personalidade. Vale lembrar também da ótima voz grave de Latimer, que mesmo econômica aparece sempre no momento certo, toda vez com uma boa melodia. O primeiro disco, homônimo, viria a ser lançado em 1973, conseguindo alguma atenção do público londrino e da crítica. Logo depois viria “Mirage”.

O trabalho, produzido por David Hitchcock, foi gravado no final de 1973, nos estúdios das gravadoras Decca e Island. O LP contém apenas cinco músicas e cada uma tem um charme especial, por assim dizer. A começar pela “Freefall”, a mais direta e radiofônica do disco, com um riff que lembra de longe “Eye Of The Tiger”, aquela do filme Rocky. Você escuta uns dois minutos e pensa que se trata de um disco de hard rock setentão, mas não, não é só isso. Logo no meio da faixa de abertura já dá para notar que a banda gosta de mudanças bruscas e daqueles tempos quebrados que tanto se ouve em alguns discos desse período.

Depois vem a mais curtinha do álbum, “Supertwister”, uma faixa instrumental de ritmo intrincado e com vários climas, onde a flauta ligeiramente erudita de Latimer se sobressai e não à toa acaba lembrando os bons momentos de Jethro Tull e do Focus.

Inspirada no livro O Senhor dos Aneis, a épica “Nimrodel/The Procession/The White Rider” é um dos pontos altos de “Mirage”. Intercalando partes instrumentais com ótimas melodias vocais, a música passeia por momentos de calmaria, peso, rapidez e um belo trabalho de Bardens no Mellotron e no mini Moog. É um dos melhores momentos do disco e uma das mais cultuadas do grupo.

“Earthwise” é outra faixa instrumental. Aí sim dá para dar o braço a torcer e dizer que em certo ponto a banda chega a extrapolar um pouquinho na nerdice em seus respectivos instrumentos. Mas ainda assim, em seus quase sete minutos, não se percebe nem 30 segundos de falta de bom senso. Ela começa tranquila e vai ficando frenética. É aquele tipo de som de moleque que gosta de tocar coisas difíceis, no bom sentido.

Enfim, chegamos até aquela que é o verdadeiro motivo por esse disco ser cultuado. Dividida em três partes, a suíte “Lady Fantasy” é considerada por muita gente um dos ápices do rock da década de 1970. Diria que essa é uma das melhores coisas de rock já feitas. Ela se destaca em praticamente qualquer aspecto que lá está. São quase 13 minutos de quase tudo o que uma boa música de rock deve ter, é uma coisa absurda. A faixa começa com um teclado bizarro, passa por uma melodia chiclete incrível, depois vira um hard rock rápido, entra num esquema de viagem meio Pink Floyd (sem parecer chupinhação) e acaba numa porrada impressionante. Ouça.

“Mirage” acabou sendo lançado em março de 1973 pelo selo Deram. O álbum foi bem na Europa, chegando ao segundo lugar nas paradas inglesas. Já nos EUA, o disco alcançou somente a 149ª posição. Realmente, o grupo firmou um acordo com a fabricante de cigarros Camel e prensou as cópias do disco com o rótulo da marca estilizado na capa. Críticos ao tabagismo caíram em cima da banda, que acabou sendo acusada de incentivo ao fumo, mas ficou só nisso. Deve até ajudado na promoção do trabalho.

E embora apenas com Andrew Latimer da formação original, a banda continua por aí até hoje, com uma vasta discografia cheia de bons álbuns, principalmente os do início da carreira.

Enfim, “Mirage” é um discão, um clássico. E mesmo que você não curta muito rock progressivo, dê uma chance. Pelo menos para “Lady Fantasy”.

Deformando o rock ‘n’ roll: Quicksilver Messenger Service – “Happy Trails” (1969)

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Quicksilver Messenger Service

Bolachas Finas, por Victor José

No final da década de 1960, no auge da cena de São Francisco, uma apresentação ao vivo era como um ritual, onde o público embalado pelas drogas psicodélicas buscava uma experiência sem padrões ou regras preestabelecidas. E a música – quase sempre improvisada, chapada e estendida ao máximo – servia como pano de fundo ao mesmo tempo em que o próprio público estimulava essas possibilidades encorajando a banda. Era uma troca e, na medida do possível, um sincero sentido de comunhão.

Talvez por isso, um detalhe bastante interessante que ocorreu nesse período foi o lançamento de álbuns ao vivo – ou parcialmente gravados em estúdio – contendo repertórios de faixas inéditas. E considerando a fertilidade artística do período, somada ao poder de performance de algumas bandas e ao clima efervescente das casas de show, dá para perceber que a vibe orgânica presente naquelas gravações eram de fato um ingrediente a mais. Os casos mais clássicos são “Cheap Thrills” (1968), “Anthem Of The Sun” (1968) e “Happy Trails” (1969), do Big Brother and The Holding Company, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, respectivamente.

Embora amplamente celebrado na região da Costa Oeste, o Quicksilver não ganhou a mesma notoriedade que seus conterrâneos Jefferson Airplane e Santana, mas de fato foi um dos pilares que ajudaram a moldar o som da cena hippie e de toda uma ideia em torno da arte do improviso.

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Em “Happy Trails”, segundo álbum do grupo formado por John Cipollina (guitarra e vocais), Greg Elmore (bateria e vocais), Gary Duncan (guitarra e vocais) e David Freiberg (baixo e vocais), percebemos como o rock‘n’roll tinha se transformado até então, isso porque o lado A do disco é uma suíte de pouco mais de 25 minutos do clássico “Who Do You Love”, de Bo Diddley, um dos roqueiros pioneiros dos anos 1950.

Alguns poderão imaginar que deve ser um pé no saco escutar quase meia hora de piração em torno de um rock básico, mas eu digo com toda certeza que não: aí está um dos momentos mais criativos, dinâmicos, entorpecentes e inspirados da música pop. Exagero? Então imagina você há quase 50 anos atrás escutando a releitura de uma música lançada há pouco mais de dez anos, de modo que em alguns trechos você se confunde e mal sabe se ainda se trata do mesmo tema ou se está ouvido rock, jazz, pura dissonância ou sabe-se lá o quê. Pois bem… É um daqueles casos na história da música em que se percebe de modo gritante que houve um verdadeiro salto estético dentro de uma vertente específica – neste caso, o rock‘n’roll.

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De fato, é como se a banda quisesse depositar na música as possibilidades psíquicas proporcionadas pelo LSD, mostrando que é possível descaracterizar o “ego” de uma canção, indicando que ao ir além dos dois minutos da versão original você encontra um vasto “inconsciente” a ser explorado.

O legal é que a versão do Quicksilver tem divisões bem delimitadas, ao todo seis: “Who Do You Love Part 1”, “When Do You Love”, “Where You Love”, “How You Love”, “Which Do You Love” e “Who Do You Love Part 2”. Cada uma das quatro partes do meio da suíte contempla um membro específico da banda, então em um momento a música enfatiza mais no baixo, em outro na guitarra e assim por diante.

O lado B de “Happy Trails” continua na linha do improviso e da experimentação, mantendo a qualidade em um nível invejável. “Mona”, outro cover de Bo Didldey, demonstra uma banda no auge de seu vigor no palco, enquanto que “Maiden Of The Cancer Moon” e “Calvary” (esta última sendo a única gravada em um estúdio) ressaltam o compromisso das bandas do período com o rompimento de estruturas. O som é livre e irresistivelmente volátil, como deveria ser o comportamento do público das lendárias casas de show Fillmore East e West, onde o grupo gravou as faixas ao vivo. O álbum acaba com a faixa-título, que também dá título ao programa de TV estrelado por Roy Rogers e Dale Evans nos anos 50.

Hoje pode até ser que a obra-prima do Quicksilver Messenger Service não pareça assim tão revolucionária, e realmente é bem provável que os próprios integrantes não estivessem interessados em soarem pretensiosos. Mas, embora sutilmente, esse disco contribuiu muito para um arsenal de bandas naturalmente ousadas.
Para quem gosta de guitarras e improviso, “Happy Trails” é um prato cheio, em todos os sentidos.