De 60 anos pra cá: álbuns essenciais de 58, 68, 78, 88, 98 e 2008

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Quem diria, um ano da coluna Bolachas Finas! Como estamos em clima de ~comemoração~ aqui vai um texto um pouco diferente. Dessa vez falo um pouco sobre discos relevantes de 1958, 1968, 1978, 1988, 1998 e 2008. Que tal?

Enfim… De sessenta anos pra cá muita coisa mudou e muita coisa perdurou. Sim, são detalhes aparentemente óbvios, mas que enriquecem ainda mais a qualidade do velho e a proposta do novo. Quero dizer, o seu eu de 1958 poderia escutar o então moderno Lady In Satin” de Billie Holiday e se apaixonar (ou não) pelas canções, mas naquele momento você não teria como afirmar que aquele disco é um dos maiores monumentos da história do jazz cantado. E hoje podemos perceber esse grande álbum resvalando em uma enxurrada de coisas, de Aretha Franklin a Janis Joplin e Amy Winehouse.

O mesmo aconteceu com 2008, ou 1998… O que uma obra como “Moon Safari” do Air consegue comunicar? Será que artistas revisitarão aquele som daqui 30 anos, olhando aquilo como algo cheio de pioneirismo? Existem coisas que só o tempo é capaz de avaliar.

Pois bem, aqui vai uma breve lista com alguns desses “discos especiais”:

“Canção do Amor Demais” – Elizete Cardoso (1958)

É “apenas” o marco zero da bossa nova. Composições de Vinicius de Moraes e Tom Jobim com o revolucionário violão de João Gilberto, tudo isso pela primeira vez… Não é pouca coisa! A “Santíssima Trindade” do gênero faz uma cama generosa para a potente e dramática voz de Elizete Cardoso, que com sua pegada de “era do rádio” manda muito bem em todas as 13 faixas. Canção do Amor Demais” é um disco fundamental, daqueles que você precisa saber da existência. O álbum não fez sucesso logo de cara, a prensagem inicial foi de 2 mil cópias, e sua grandeza só foi reconhecida quando a bossa nova explodiu fora do Brasil. Isso precisa ser preservado no imaginário popular brasileiro. Destaque para “Chega de Saudade”, “As Praias Desertas” e “Canção do Amor Demais”.

“Astral Weeks” – Van Morrison (1968)

O segundo LP da carreira-solo do irlandês Van Morrison é tido até hoje como um dos melhores álbuns de todos os tempos. Logo é fácil notar a potência artística do trabalho: uma mistura de folk com a improvisação do jazz e arranjos inventivos. O jeito de Morrison cantar, que une gospel, soul e pop (meu Deus, sempre me lembra demais Mick Jagger!), é emocionante, perfeito para aquela atmosfera meio relaxada. Astral Weeks” foi concebido em apenas três sessões, o que endossa o tom de improviso da base instrumental. Apesar de ser um trabalho de um artista essencialmente inclinado para a veia singer/songwriter, o resultado sonoro é impressionante, e toda a banda consegue destaque. Esse é pra ouvir muitas vezes. Destaque para “Astral Weeks”, “Sweet Thing” e “Cyprus Avenue”, que assim como “Madame George” Morrison empregou a técnica literária do fluxo de consciência para produzir a letra.

“The Last Waltz” – The Band (1978)

Considerado por muita gente como um dos espetáculos mais venerados da história do rock, o último show da canadense The Band foi muito mais que isso. Foram mais de quatro horas de música, com direito a convidados como Paul Butterfield, Eric Clapton, Neil Diamond, Bob Dylan, Emmylou Harris, Ronnie Hawkins, Dr. John, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters, Ronnie Wood e Neil Young. O concerto foi tão chique que foi servido um verdadeiro banquete para as 5 mil pessoas presentes no Winterland Ballroom, em São Francisco (era Dia de Ação de Graças). Poetas declamando e baile dançante também fizeram parte do roteiro. Sobre a música… olha, realmente esse show é uma covardia. O repertório de primeira linha passa por toda a carreira do grupo e ainda visita versões dos artistas convidados. Imperdível e obra de arte fundamental para entender a realeza que já foi o rock ‘n’ roll. Martin Scorsese transformou a noite num dos documentários de música mais aclamados do cinema, que por sinal é realmente lindo. Destaque para “Up on Cripple Creek”, “Mannish Boy”, “Helpless”, “The Night They Drove Old Dixie Down” e “I Shall Be Released”.

“Daydream Nation” – Sonic Youth (1988)     

         

Mais de meio mundo passou por esse disco para fazer o som da década posterior. Talvez o mais importante LP do Sonic Youth, Daydream Nation” de certa forma sedimentou a proposta da banda e elevou seu som inventivo e ruidoso em status de obra-prima. Todas as faixas são relevantes, e ali é fácil notar algo estranhamente acessível, bizarro e ao mesmo tempo (até então) novo. O casamento das guitarras de Lee Ranaldo e Thurston Moore impressiona até hoje, e o carisma do vocal falado de Kim Gordon cai como uma luva, muito embora no fundo eu sempre esteja inclinado a acreditar que o ritmo sólido de Steve Shelley (aliado ao baixo constante de Kim) seja o segredo dessa banda incrível. Em Sister” (1987) o SY apontava para essa sonoridade, porém em “Daydream Nation” a afirmação musical é mais contundente e segura. Discaço que parece jamais envelhecer. Destaque para “Teen Age Riot”, “The Sprawl” e “’Cross The Breeze”.

“The Miseducation of Lauryn Hill” – Lauryn Hill (1998)

Esse enorme sucesso de público e crítica da ex-vocalista do influente grupo de rap Fugees ainda soa incrível e já é um trabalho de indiscutível importância. A mistura de hip hop, r&b, reggae, gospel e soul rendeu uma enxurrada de Grammys (cinco no total) e, até hoje, oito milhões de cópias vendidas somente nos Estados Unidos. Hill conseguiu com sua salada musical mostrar os limites do rap e como esse gênero consegue ser tão flexível e ainda assim íntegro, algo como o Exile on Main St.” da década de 1990: uma reverência aos gêneros norte-americanos mais tradicionais em uma roupagem adequada ao seu tempo. É impressionante pensar que agora esse álbum já tem 20 anos! Mais um que você precisa ter na estante ou no celular. Destaque para “Everything Is Everything”, “Lost Ones” e “To Zion”.

“Fleet Foxes” – Fleet Foxes (2008)

Revisitar o passado foi a tônica da década de 2000. Enquanto uma penca de grupos persistia até saturar no post-punk e proto-punk até mais ou menos 2007, o Fleet Foxes veio com essa pegada completamente “fora da curva”. Essa atmosfera de Crosby, Stills & Nash com Fairport Convention, quem diria, deu tão certo a ponto de chamar atenção desse público reticente em relação ao folk rock. A verdade é que a banda faz um som verdadeiramente bonito, e é difícil não respeitar esse tipo de coisa. Robin Pecknold, líder da banda, além de talentoso vocalista é um compositor de mão cheia. Melodias e harmonias memoráveis, algo não tão explorado de uns anos pra cá, e sim, isso já é um incrível mérito. Revisitar é bom, mas poucos fazem isso com o devido respeito e capacidade. Seria essa obra aspirante a clássico? Destaque para “White Winter Hymnal”, “Your Protector” e “Quiet Houses”.

O som caleidoscópico do Jefferson Airplane

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Um dos motivos pelo qual estou falando sobre o Jefferson Airplane é porque aqui no Brasil parece que a banda ainda não foi completamente assimilada. É um caso muito parecido com o de outros grupos como Allman Brothers Band ou Roxy Music, que pra música pop mundial são tão influentes como aqui é pra nós os Novos Baianos ou Titãs.

Formado em 1965, em São Francisco, o grupo liderado por Marty Balin (vocais) e Paul Kantner (guitarra e vocais) foi um dos precursores do que mais tarde viria a ser chamado de rock psicodélico. Na época do “Verão do Amor”, em 1967, a banda esteve no auge e conseguiu emplacar no rádio sucessos como “Somebody to Love” e “White Rabbit”, clássicos que hoje são praticamente as únicas músicas lembradas pelo público em geral.

O Airplane sempre foi inventivo, tanto em estúdio quanto ao vivo. Jorma Kaukonen (guitarra), Jack Cassady (baixo) e Spencer Dryden (bateria) tinham inclinação para improvisos e enriqueciam o som do grupo com influências do jazz e do blues enquanto Balin e Grace Slick entrelaçavam suas vozes com a guitarra Rickenbaker de 12 cordas de Kantner. Era como se estivessem reinventando harmonias incessantemente. Considerando a influência do LSD no período, essa estranha junção soava como um casamento entre The Byrds com Cream e mais alguma coisa levemente caótica.

O grupo durou até 1974. Por conta da relativa vida curta, pode-se dizer que muitos músicos passaram pelo Jefferson Airplane, e com essa constante entrada e saída de integrantes, gradativamente, o grupo se transformou no Jefferson Starship, o qual não vale muito a pena perder tempo, com exceção de alguns poucos momentos de inspiração.

A fase áurea da banda vai de 1966 a 1969.

“Jefferson Airplane Takes Off” (1966)

O debut da banda ainda não contava com Grace Slick nos vocais e Spencer Dryden na bateria. Signe Anderson e Skip Spence (mais tarde fundador do Moby Grape) eram os donos das posições, respectivamente. Quanto à sonoridade do disco, é notável a predominância do folk rock nas canções, o que acabou resultando num ponto positivo. “Takes Off” é agradável do início ao fim e, como em grande parte das estreias musicais, é um pouco contido se comparado aos demais trabalhos. A ótima “Let Me In” mostra exatamente pra qual direção o rock‘n’roll americano estava apontando naquela época de transição, enquanto “It’s No Secret” revela a competência de Marty Balin como vocalista e fazedor de melodias pegajosas. Destaque também para a elegante “Come Up the Years”.

“Surrealistic Pillow” (1967)

Muitos são os motivos pra este trabalho ser considerado o ponto alto do Jefferson Airplane. A cena de São Francisco estava ainda mais efervescente, as composições eram mais coesas, o então novo baterista Spencer Dryden era mais adequado à sonoridade dos demais músicos e a entrada de Grace Slick de fato transformou o grupo em algo maior. O disco é excelente de ponta a ponta e não é exagero afirmar que o resultado final é um dos melhores da história do rock. Basta escutar o início de “She Has Funny Cars” e se entregar ao repertório, que vai da sutileza acústica de “How Do You Feel” e “Comin’ Back To Me”, às mais roqueiras “1/3 of a Mile in 10 Seconds” e o hit “Somebody to Love”, que chegou a entrar no Top 10 das rádios. Tem a também clássica “Plastic Fantastic Lover”, com participação de Jerry Garcia, do The Grateful Dead, no violão, e a obra-prima “White Rabbit”, onde a banda – sobretudo Grace – alcança um resultado ímpar que sobreviveu ao tempo. “Surrealistic Pillow” foi um grande sucesso, vendendo mais de um milhão de cópias na época do lançamento e transformando o Jefferson Airplane numa sensação nos EUA. Referência de um dos períodos mais prolíferos da música Pop. Perfeito.

“After Bathing at Baxter’s” (1967)

Quando se fala de alternative rock é fácil vir em mente grupos como Sonic Youth. Por que não Jefferson Airplane? Contradizendo ao título do álbum anterior, “After Bathing at Baxter’s” é mais surrealista e pode ser tido como exemplo de como um produto de sucesso pode se transformar em algo mais difícil de digerir, no bom sentido. Tirando “Martha”, que de certa forma repete a fórmula dos dois primeiros, este LP é muito mais agressivo que os anteriores e é mais próximo de como soavam nos palcos, talvez por isso seja o favorito de muita gente. E desta vez está escancarada nas músicas a influência do LSD sobre a banda, basta ouvir “Two Heads” ou a muito bem construída “Won’t You Try/Saturday Afternoon”, que divide com “The Ballad of You & Me & Pooneil” o posto de melhor canção do álbum. Vale lembrar também de “Young Girl Sunday Blues”, que é um rock irresistível. Outro ponto a favor é o baixo de Jack Cassady, que se destaca ao longo das canções e culmina na “Watch Her Ride”, um dos singles escolhidos pra promover o disco. Tem umas doideiras que muita gente desacostumada com sons psicodélicos julgará pura bobagem, como a colagem de bizarrices em “A Small Package of Value Will Come to You, Shortly” e o improviso “Spare Chaynge”, mas em “Baxter’s” o Airplane definitivamente está mais solto.

“Crown of Creation” (1968)

A faixa-título é um bom pretexto pra apresentar a banda a alguém que nunca escutou nada deles. “The House at Pooneil Corners” tem uma atmosfera furiosa e densa, enquanto por outro lado há algumas canções com a roupagem mais enxuta, o que dá pra notar em “Lather” – com direito a solo de nariz – e na ótima balada “Triad”, composta por David Crosby. “Greasy Heart” é uma daquelas que agradam logo na primeira audição, sem muitas firulas. Há também um pouco da estranheza, como em “Would You Like a Snack” e “The Saga of Sydney Spacepig”. “Crown of Creation” segue a linha de “Baxter’s”, apesar de parecer um pouco menos caleidoscópico.

“Volunteers” (1969)

A essa altura o Airplane havia alcançado o topo da maturidade, e ao mesmo tempo iniciara o processo de auto-destruição. Jorma Kaukonen e Jack Cassady já tinham começado a tocar paralelamente com o Hot Tuna, Marty Balin há tempos não contribuía tanto nas composições e Spencer Dryden já estava de saída pra dar lugar a Joey Covington. Apesar do clima tempestuoso, a banda lançou um dos seus trabalhos mais aclamados pela crítica e público. Dá vontade de escutá-lo novamente assim que termina. “We Can Be Together” é um hino pacifista que para alguns pode parecer meio datado, mas a melodia arrebatadora fala mais alto. “Wooden Ships” é especial por ser de longe o momento mais emotivo da carreira do Jefferson Airplane. Outras faixas, como “Eskimo Blue Day” e “The Farm” mantém o ouvinte satisfeito, mas o ponto alto é a faixa-título. Escrita por Balin, “Volunteers” é dois minutos de um rock direto e que curiosamente tem como base praticamente o mesmo riff de “We Can Be Together”, uma espécie de auto-homenagem. A banda soa mais habilidosa do que em qualquer outro disco anterior a esse, e a guitarra de Jorma Kaukonen tem presença decisiva em praticamente todas as faixas.

Após esses LPs, o Airplane começaria a se desmantelar, a começar pela saída de Marty Balin, um dos fundadores. Lançariam “Bark” (1971) e “Long John Silver” (1972), que também são bacanas, mas aí a banda já não era mais a mesma. No início de 1974 foi anunciado oficialmente o fim. Em 1989 houve uma reunião do grupo com a formação clássica e o lançamento de um álbum homônimo, o qual jamais deveria ter sido lançado.

Além dos trabalhos de estúdio, a banda tem bons discos ao vivo lançados oficialmente: “Bless It’s Pointed Little Head” (1969), “Thirty Seconds Over Winterland” (1973), “2400 Fulton Street” (1987) e “Live at The Fillmore East” (1998).

Pra conhecer melhor a banda, vale a pena o DVD “Fly Jefferson Airplane”, com entrevistas, apresentações de TV e clipes, além da leitura da biografia escrita por Jeff Tamarkin chamada “Got a Revolution! – The Turbulent Flight of Jefferson Airplane”.

A beleza do fim: Beck – “Sea Change” (2002)

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Beck Sea Changes

Considerando a cena do pop rock, pouca gente consegue soar tão convincente e ao mesmo tempo tão livre quanto Beck. Pensa bem, quantos têm essa habilidade incrível? Bowie, Björk, Kate Bush… Dá para contar nos dedos.

Beck transmite aquela sensação rara que nos dá a impressão de que ele é capaz de fazer qualquer coisa soar bem. Não é nada fácil brincar com gêneros, transformá-los em grandes álbuns e praticamente reinventar algo firmemente estabelecido, o que pôde se percebido em Mellow Gold” (1994) e na obra-prima Odelay” (1996). Que diabo é aquilo? Rock, rap, blues, folk… Aquilo é Beck. Talvez inconscientemente, ele, mais do que ninguém, apontou para o hibridismo sugerindo ser este o caminho a ser explorado no futuro.

E na virada do milênio Beck estava com uma carreira consolidada, recheada de bons discos, premiações e alguns milhões de cópias vendidas. O grande público comprou sua ideia maluca, e cada trabalho era uma verdadeira surpresa, como Midnite Vultures” (1999), uma releitura de sons da música negra, como funk e soul. Eis que em 2002 ele surge completamente diferente, com um dos discos mais lindos das últimas décadas.

Embora pareça desconexo na discografia de Beck até então, Sea Change” pode ser visto como uma evolução do compositor, que nunca escondeu sua queda por violões e melodias mais explícitas, como podemos conferir no incrivelmente tosco One Foot In The Grave” (1994), trabalho com pegada lo-fi voltado ao folk torto que ele gostava de assumir.

Em “Sea Change” temos uma quantidade absurda de emoção, arranjo de cordas, grandes vocais e um Beck mais maduro, sério e melancólico. Pode ter certeza que ninguém esperava um disco como este.

Naquele período o cantor enfrentava o fim de um relacionamento que durou nove anos, o que logo de cara fez muita gente comparar “Sea Change” com Blood on the Tracks” (1975), emblemático álbum de Bob Dylan que também foi inspirado em uma separação. Na verdade, nem é preciso saber dessa informação para sentir isso nas faixas. Beck traduziu essa situação com uma rara habilidade. É um disco fácil de ouvir e assimilar, e embora tenha essa densa carga de lágrimas ele emana esse forte magnetismo que as melodia tocantes carregam. Tudo é bonito: os vocais, as letras, as cordas, a simplicidade da banda e a incrível produção de Nigel Godrich. Vale destacar seu papel nesse trabalho, isso porque há por trás de praticamente todas as faixas uma atmosfera muito sutil e peculiar, e pode ter certeza que esse resultado vem da mão de Nigel, que já trabalhou com nomes de peso como Paul McCartney, R.E.M., Radiohead e Roger Waters.

Perceba em “The Golden Age” a carga daquele som. Tão simples e tão cheio, coeso, bonito e direto. É um belo jeito de abrir um disco. Esta já é um clássico contemporâneo. Você que conhece o trabalho de Beck antes de “Sea Change”, imagina a estranheza que deve ter sido escutar essa beleza logo de cara? A maturidade sonora é gritante (não confundir aqui com simplicidade).

Uma espécie de groove sombrio dita as regras em “Paper Tiger”, uma das melhores da track list. Um arranjo de cordas absurdo dá uma cor inédita em qualquer canção já feita por Beck até então.

“Guess I’m Doing Fine” meio que reassume a roupagem de “The Golden Age”, quase que uma música irmã. Outro sucesso, outra grande música, outro momento deparada obrigatória no catálogo do compositor. Com uma melodia dessa grandeza é muito difícil dar um tiro fora.

O momento mais tocante do álbum está reservado para “Lonesome Tears”, que faz jus ao título e realmente emociona. São vários os motivos para te levar a este estado de espírito, seja a letra escancaradamente pessoal, o modo que ele canta, o arranjo de cordas choroso, a dinâmica sinuosa… Essa é difícil de passar ileso, sério.

“Lost Cause”, outro grande sucesso, ainda soa adequada ao contemporâneo (o disco todo na verdade). Uma assumida desilusão encarna no espírito de Beck com uma forte convicção, o que reforça a assinatura autobiográfica em “Sea Change”­ – só tendo vivido aquilo de fato para fazer coisas como “Lost Cause” se mostrar como algo real. Esse mesmo estado de espírito soa forte em “Already Dead” e seu interessante arranjo de violão.

Seguindo a mesma pegada quase “road movie” de “The Golden Age” e “Guess I’m Doing Fine” temos outra excelente faixa, “End Of The Day”. E aqui fica evidente que este disco é bom justamente porque é bom por si só. Não se trata de novidades atrás de novidades, como nos outros álbuns de peso de Beck. Em “Sea Change” as coisas funcionam porque são orgânicas, os sentimentos não estão encobertos, e é isso que fascina.

Com um lindo arranjo de cordas fornecido por David Campbell, pai de Beck, “It’s All In Your Mind” vem como um ressurgimento. Isso porque ela já havia sido lançada como single em 1995, sendo uma sobra das gravações de “One Foot In The Grave”. E isso é muito curioso, porque comparando as duas podemos ver como existem várias personas em Beck: enquanto que a versão de 1995 soa como uma demo atraente, a faixa de 2002 é um artista por inteiro. Grande momento.

É inevitável não o comparar com Nick Drake em “Round The Bend”. A densidade da orquestra que preenche a faixa e até mesmo a melodia lembram muito “River Man”, clássica canção do cantor britânico. Mas mesmo que soe parecido, não é um caso constrangedor.

Dá até para achar um resquício de Coldplay (da fase boa) em “Sunday Sun”, que com sua batida eletrônica se mostra como o momento mais destoante de “Sea Change”, ainda que muito bem assimilado por todo o restante do trabalho. O refrão é arrebatador.

Ainda que realmente boas, sinto as duas últimas, “Little One” e “Side Of The Road”, meio que sobrando na tracklist. Mas merecem atenção, sobretudo a última, pelo trabalho de slide e aquele pouco de blues que persiste em Beck Hansen, esse artista incrível.

Há quem diga que este seja o melhor trabalho dele, há quem ache esse disco meio fora da curva, há quem considere “Sea Change” um dos melhores discos da década, assim como tem gente que considere este como um dos melhores álbuns de todos os tempos (como foi o caso da Rolling Stone e outras revistas).

De certa forma, o fim do relacionamento fez muito bem a Beck, que conseguiu ainda mais sucesso com esse trabalho e mostrou ao mundo talvez a única persona que ele ainda precisava escancarar: aquela do homem vulnerável perante os sentimentos.

Três Pés Grandes e muito rock setentista são a esquisita receita da banda PPL MVR

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PPL MVR

Ao ver a figura de três caras gigantes vestidos de Yeti (ou Pé Grande) com instrumentos musicais, logo a gente imagina que teremos um som primal bizarro ou um projeto industrial ensurdecedor. Pois bem: apesar do baterista do PPL MVR usar baquetas em forma de ossos e a banda se comportar como verdadeiras criaturas da mata, o som remete ao hard rock dos anos 70, com muita criatividade. Ah, os vocais com pedal de talkbox dão um charme a mais.

Os PPL MVR—ou “The One and Only PPL MVR” são de Los Angeles e como muitas das bandas que usam fantasias, mantém suas reais identidades em segredo, dando seus nomes de criatura como SNWBLL, K-PO e Q e continuando em seus personagens durante suas divertidíssimas e bizarras entrevistas. Sério, é algo como o cruzamento entre uma entrevista com o Animal dos Muppets e o Chewbacca.

O nome PPL MVR significa “People Mover” e a banda já teve clipes promovidos pelo Funny Or Die, além de abrirem para bandas como Cake, The Black Keys, Jane’s Addiction

Não sabemos se o empresário da banda também é uma criatura mitológica (talvez a Nessie?), mas que faz um bom trabalho, com certeza faz: o trio já participou de festivais como o Sundance e o Festival Supreme do Tenacious D, de Jack Black, por exemplo. Ah, e eles são assinados pela Elektra Records, coisa que poucas bandas de não-Yetis podem se orgulhar de ter.

Ouça o som setentista e roqueirão do PPL MVR:

Sons de desespero: Led Zeppelin – “Presence” (1976)

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Led Zeppelin Presence

Existem raros casos em que a obra completa de um determinado grupo ou artista é praticamente irretocável, incontestável em termos de importância histórica e cultural, quase imune ao ranço daqueles que insistem em torcer o nariz. O Led Zeppelin é um desses exemplos.

Tenho ouvido muito toda a obra da banda, mas muito mesmo, como há tempos não fazia com tanta intensidade. Então naturalmente quis escrever algo sobre, mas logo veio uma dúvida pertinente… Como falar dessa banda sem se repetir? Como abordar esse tema tão dissecado sem chover no molhado? Eis que descobri a resposta: Presence”.

Em sua curta trajetória devastadora, o Zeppelin produziu oito álbuns, todos excelentes, a grande parte deles fundamentais. Mas “Presence” sempre foi aquele LP meio negligenciado, o patinho feio que ninguém liga muito. Que injustiça.

Após Physical Graffiti” (1975) consagrar Jimmy Page (guitarra), Robert Plant (vocais), John Paul Jones (baixo e teclados) e John Bonham (bateria) como “a banda da década”, estava claro que não precisavam provar mais nada para ninguém. O quarteto havia realizado uma dezena de turnês, recorde após recorde, vendas absurdas, seis álbuns excelentes, chegando ao ponto de se tornarem lendas precocemente. O mais bizarro é que jamais tiveram apoio da crítica especializada (que insistia em descer a lenha no trabalho do grupo) e de adventos tão indispensáveis para uma banda divulgar seu trabalho, como singles, clipes e aparições em programas de TV. Naquela altura tudo ia bem, não havia como melhorar, porém, todo império tem seu fim, e no caso do Led, o começo da queda ladeira abaixo foi exatamente este período.

A zica que viria a persistir até o fim da banda – com a morte de Bonham – começou com um grave acidente de carro. Em 4 de agosto de 1975 Plant e sua família estavam de férias na Grécia, quando o carro que dirigia derrapou para fora da estrada e rolou a ribanceira. O acidente deixou Plant e sua esposa Maureen bastante feridos, entretanto os filhos escaparam do pior e sofreram apenas alguns arranhões. O vocalista quebrou um tornozelo e um cotovelo, que custaram mais de dois anos de recuperação total. O cantor passou um tempo em uma cadeira de rodas, o que afetou diretamente os planos futuros do Led Zeppelin, fazendo com que o grupo cancelasse uma turnê mundial.

Durante um período em convalescença Plant escreveu algumas letras e, quando Jimmy Page juntou-se com ele estas composições foram concretizadas. Os dois prepararam material suficiente para os ensaios, período que durou um mês.

“Presence” foi gravado no prazo de três semanas no Musicland Studios em Munique, Alemanha, com Plant em uma cadeira de rodas. Esta gravação foi a mais rápida desde “Led Zeppelin I”. Uma parte da pressa em gravar o álbum se deu pelo fato do Led ter reservado o estúdio antes dos Rolling Stones, que gravariam o álbum Black and Blue” logo em seguida. Ao chegar no local para iniciar os trabalhos, os Stones ficaram espantados, pois o Led havia gravado o álbum em apenas 17 dias.

Para Jimmy Page o trabalho foi ainda mais intenso, que além de assinar a produção do álbum ficou acordado dois dias para gravar os overdubs de guitarras. Ele inclusive chegou a dizer que trabalhou de 18 a 20 horas por dia para concluir as mixagens.

Talvez pela pressa de ter que concluir logo o trabalho ou talvez pelo período de ansiedade, “Presence” apresenta uma tracklist direta, crua, o que faz deste o disco mais hard rock da discografia do Led. São sete músicas que trazem um pouco daquela energia intensa dos primeiros trabalhos, mas com uma sonoridade mais polida.

De todas, a dolorosa “Achilles Last Stand” destoa como o grande trunfo. Essa porrada de estatura épica dura pouco mais de dez minutos e representa uma banda buscando atingir a força máxima. É como se eles quisessem deliberadamente compensar o hiato forçado pelo acidente de Robert com um som de assimilação instantânea e impressionante. A cozinha formada pela bateria impecável de Bonham lado a lado com o baixo galopante de John Paul Jones serve os vocais melancólicos de um Plant menos agressivo como de costume, enquanto que Jimmy Page constrói uma parede de guitarras incríveis, como uma espécie de orquestra. Para quem curte solos, isso aqui é uma coisa única. Um dos pontos máximos do Led Zeppelin.

“For Your Life” é um hard rock básico com um pouco de funk, uma faixa sem aquele brilho intenso de sempre, mas que ao mesmo tempo é ótima. A banda, mesmo em desvantagem, consegue entregar algo que ainda hoje quase nenhum grupo de renome consegue: esse som cru, bem tocado, ao mesmo tempo bem arranjado e criativo no modo de abordar um gênero básico. Led Zeppelin tem muito dessa excelência inata, justificada pela capacidade técnica dos quatro membros, extremamente capazes em seus respectivos papeis, a ponto de agradar vários nichos: músicos exigentes, músicos toscos, ouvintes desinteressados, saudosistas, moderninhos e os aficionados mais xiitas.

O groove certeiro de “Royal Orleans” mais parece uma prova de evolução e maturidade. Olhando para trabalhos anteriores com essa pegada funk (“The Crunge”, “Trampled Under Foot” etc.) percebe-se que ao chegarem em “Presence” o ritmo cadenciado flui naturalmente, afiado e extremamente competente, embora sem aquela vitalidade radiante dos primeiros anos. Já “Nobody’s Fault But Mine” é um rock de saltar às vistas. Cheio, pesado e certeiro, essa releitura completamente remodelada da faixa homônima do bluesman Blind Willie Johnson é o Led que estamos acostumados. O peso do riff de Page dita o caminho que toda a banda segue em linha reta, sem falhas e vibrante. Ótima música ao vivo.

O rock ‘n’ roll dos anos 1950 é revisitado em “Candy Store Rock”, que já dá pistas do viria a ser In through The Outdoor” (1979), o último disco do Zeppelin. Plant encarna um Elvis dos tempos de Sun Records, com direito a eco na voz e tudo. É uma faixa segura, sem grandes emoções. Um rock ‘n’ roll que não compromete e pouco acrescenta, para falar a verdade. Mas é uma boa faixa, apesar da falta de ímpeto.

Bonham brilha em “Hots On For Nowhere”, que literalmente salva a canção. Se não fosse as alterações que ele propõe ao longo dos quase cinco minutos talvez essa seria a música capaz de pôr em cheque a fidelidade de “Presence”. Ainda bem que não é o caso, no fim das contas é um momento agradável.

Quando a gente começa a achar que o disco vai derrapar na pista a banda apresenta essa verdadeira aula de blues. “Tea For One” – que no fundo é uma irmã caçula de “Since I’ve Been Loving You”, do III” (1970) – encerra o LP com o que parece ter significado para aqueles quatro caras o esforço de produzir algo novo quando as coisas pareciam estar ruindo. Um sentimento de melancolia extremamente adequado ao contexto em que o Led estava inserido. Page faz um trabalho de mestre e põe tudo de si naqueles fraseados tristes.

“Presence” é o melhor disco do Led Zeppelin? Claro que não. Mas funciona. Perceba como deveria ser difícil para aquele grupo seguir em frente tentando superar disco após o outro. Claro que uma hora as coisas começariam a ficar escuras. Aconteceu com os Beatles em Let It Be”, com o Pink Floyd em The Final Cut…” Excesso de drogas, libertinagem, muita grana envolvida, acidentes, ego inflado até o teto. Acho que tudo isso te coloca em uma posição horrorosa de desespero, e uma hora você terá que passar por uma provação. “Presence” é isso para o Zeppelin, uma provação com nunca eles haviam passado. Talvez por isso Page considere esse o principal trabalho da banda.

Mesmo tendo se tornado o álbum com as vendas mais baixas, banda passaria por essa turbulência, mas aos poucos sucumbiria por outros motivos (morte do filho de Plant e de John Bonham, por exemplo). “Presence” é um belíssimo começo de um fim amargo.

Cinnamon Tapes inicia caminhada com excelência confessional e crueza sutil

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Cinnamon Tapes

É fato que me alegra muito perceber que os lançamentos que mais gostei em 2017 são de artistas da cena independente, basicamente do mesmo rolê que costumo frequentar, ou seja, pessoas potencialmente próximas, fazendo música pela música, livres. Outra coisa que me chama atenção é que todos esses projetos são liderados por mulheres. Já era tempo de ver isso acontecer.

Não que isso seja algo extremamente inusitado, longe disso, mas não é preciso se esforçar muito para perceber que a predominância do viés masculino nas artes é brutal, a ponto de parecer boicote. Acha exagero? Então tenta contar quantas diretoras de cinema de renome você conhece, ou quantas guitarristas, pintoras, grafiteiras, romancistas… Bem, como tudo nessa vida carece de um meio termo (Aristóteles e Sidarta não podem estar errados), estamos sendo presenteados com um período de gratas mudanças de comportamento, ao menos nesse aspecto de gêneros. E o tema deste texto é um belo exemplo disso.

Fruto de Susan Souza, cantora, guitarrista, violonista e compositora, o Cinnamon Tapes chega até nós como um projeto contundente, bem-acabado e belo. Esta muito claro que em Nabia” (Balaclava Records) cada canção foi pensada, repensada e aprimorada com muito cuidado, até chegar a este resultado incrível.

O lançamento funciona bem considerando cada faixa separadamente, mas também traz requintes de um álbum conceitual. Isso porque Nabia seria uma personagem, uma espécie de alter ego de Susan, que já afirmou que “Ela [Nabia] é um tipo de sereia mística que se permite viver em terra firme e suas vivências são contadas nas músicas”. Sendo assim, tudo que está ali parece ser verdadeiro, vivido por Susan e transmutado em arte.

Brisa, umidade, azul, zodíaco, sal, ciclos, areia, lágrimas, caminhadas, petricor, escuridão, isolamento, esperança, esoterismo e mulher. Pessoalmente falando, essa enigmática figura evoca todos esses elementos. Está tudo lá, no som e nas palavras.

Apesar de ser fácil notar que em toda a tracklist há uma profunda marca da individualidade da compositora, não posso deixar de ressaltar a importância do produtor e baterista do play, Steve Shelley, o impecável membro do Sonic Youth, que ornamentou o álbum com aquela perspicaz expressividade tão marcante que ele carrega (quem manja de SY sabe do que estou dizendo). Há uma sinergia muito bonita entre os dois em todo o disco, tudo executado e pensado de forma vaporosa, discreta. O peso está na mensagem que fica. Afinal, um bom disco guarda essa habilidade. O discurso musical de Nabia é bastante pessoal, sem aquela maquiagem pesada, quase nu, o que por si só o torna um projeto notável.

A primeira coisa que senti quando ouvi “Sol” foi uma mistura de acolhimento e conforto com uma instantânea identificação. A letra é humana, despida de artifícios, um som extremamente certeiro, honesto e puro, como pouco se ouve de uns tempos pra cá. Que música incrível. Ela fica na sua cabeça e persiste como um sabor agradável.

“Road” é outra faixa impecável e que resume o trabalho de forma certeira: sons limpos de guitarra, bateria minimalista, baixo profundo e uma dobra de vozes bem destacadas. Aliás, o grave e belo vocal de Susan é o que tem de mais denso em todo esse conjunto. Embora o timbre não seja similar, é inevitável deixar de pensar em algum momento em Cat Power, talvez pelo fato de que Steve também a produziu, no início da carreira.

Em “Estrela” temos uma densa melancolia com um quê de astrologia e um cenário de depressão, falando de quadratura de Plutão e diabo. Talvez seja o momento mais vulnerável de “Nabia”, na verdade, talvez seja o momento mais vulnerável que escutei há um bom tempo, o que é artisticamente muito bom. Não há como não deixar de se comover minimamente com esse som. Susan faz letras corajosas. “Faz quantos anos que este minuto existe?”, um belo verso.

A levada arrastada de “Skull” embala uma letra cheia de duras confissões e uma atmosfera de tons escuros. O sentimento transborda. Acho que muita gente que curte aquele clima do pós-punk vai curtir essa faixa. O mesmo acontece com “Lua”, e aí notamos como Steve Shelley é um baita produtor: poucos elementos, uma grande quantidade de espaço, sutileza e dinâmica. Você pode até achar que isso é fácil de se conseguir, mas se assim fosse seria mais comum encontrar álbuns tão redondinhos como este.

As agradáveis “Sacred Waves” e “Salty Eyes” incorporam uma persona ligeiramente inclinada ao folk rock, chegando a resvalar em Neil Young e até no sadcore dos anos 1990. A sensação é de estar caminhando na beira de uma praia, com aquele sol tímido pouco colorido. A envolvente trama de guitarras forma uma paisagem quase etérea em “Cinnamon Sea”, e não há como deixar de reparar na alta carga de PJ Harvey e Sonic Youth que a compositora carrega na bagagem, independe de Shelley estar na jogada. As referências estão acentuadas em todo o disco, porém “Nabia” tem uma cara, um corpo e uma voz autênticos.

“Ventre” fecha a tracklist exaltando a feminidade com uma intenção redentora, guiada por um belo piano. É um ótimo desfecho. Aí então você para e pensa nessas nove faixas e percebe que Nabia, essa personagem quase arquetípica, parece ter travado uma conversa franca, aberta, como poucas pessoas são capazes de fazê-lo. Isso é um dom. Um dom ainda maior quando você fala por meio da língua da arte.

Pegando o taoísmo emprestado, acima de tudo, “Nabia” é um álbum “yin”, com uma estética legítima, decorado de introspecções notáveis e uma linguagem arrebatadora. Faz falta ouvir coisas novas que priorizam o espaço, o silêncio, a natureza dos timbres de cada elemento que ali está, e isso este álbum supre com maestria. Com certeza um dos melhores discos do ano. Mulheres, continuem assim. Susan, continue assim.

Em terreno bizarro: Rolling Stones – “Their Satanic Majesties Request” (1967)

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Their Satanic Majesties Request

Bolachas Finas, por Victor José

O tema dessa coluna de hoje é certamente um dos discos mais injustamente subestimados do panteão do alto escalão do rock. Trata-se daquele que é o mais estranho álbum dos Stones, o controverso Their Satanic Majesties Request”.

Totalmente desconexo das raízes da banda – que sempre se manteve calcada no blues e suas vertentes mais próximas –, esse trabalho vem sendo assimilado com má vontade desde seu lançamento. Isso porque a imprensa insistiu em classificar esse LP como “uma resposta ao Sgt. Pepper`s”, o que é uma grande bobagem.

Além disso, a própria banda passava por um momento complicado. Embora para quase todo mundo da música pop 1967 tenha sido um ano mágico, para os Stones não foi bem assim. Brian Jones, Mick Jagger e Keith Richards haviam sido presos por porte de drogas, fazendo com que a fama de bad boys chegasse em um nível nocivo para eles, botando em cheque o futuro do trabalho que vinham fazendo.

Talvez as incertezas do momento tenham resvalado na obra, que ganhou uma forma bastante diferente de seu antecessor, o excelente Between The Buttons”, que por sua vez já era ligeiramente ousado se comparado com trabalhos anteriores.

Sim, a influência dos Beatles foi grande, tanto que os fab four estão na capa do álbum, escondidos. A homenagem foi uma forma de agradecimento, isso porque em “Sgt. Pepper’s”, lançado meses antes, continha uma boneca vestindo uma roupa com a escrita “Welcome The Rolling Stones”.

A ambição dos Stones com esse LP estava na vontade de “entrar na onda” da psicodelia, e mergulharam de cabeça, ao mesmo tempo em que não sabiam muito bem para onde ir. Aliás, esse é o primeiro trabalho da banda sem a produção de Andrew Loog Oldham, o empresário do grupo. Isso inclusive fez com que os Stones experimentassem ao máximo as capacidades de um estúdio, produzindo eles mesmos.

A começar por “Sing This All Together”, uma faixa meio bizarra com atmosfera hippie, cantanda num coro (pouca gente sabe, mas Paul McCartney e John Lennon estão lá) e acompanhada por uma parafernalha de instrumentos conduzidos por Brian Jones. Vale falar sobre a incrível capacidade de Brian de tirar som de praticamente qualquer instrumento. Nesse disco ele toca guitarra, violão, mellotron, órgão, percussão, trompete, flauta e sei lá mais o quê.

“Citadel” é um rock de primeira, carregada de peso e um riff encorpado, talvez a faixa que mais lembre Stones em todo o disco. A surreal “In Another Land” é a única música cantada e composta por Bill Wyman em todos os álbuns da banda. O vocal cheio de trêmolo, guiado por um cravo rococó, leva qualquer conhecedor superficial do trabalho da banda em um terreno completamente inexplorado. Aquilo está muito, mas muito longe de “Start Me Up”, por exemplo.

“2000 Man”, que chegou a ser regravada pelo Kiss, pousa no folk rock, fazendo dessa um dos melhores momentos do LP. “Sing This All Together (See What Happens)” é nada mais nada menos que piração, que acaba como uma espécie de reprise lento da faixa de abertura.

Chegamos na belíssima “She’s A Rainbow”, um grande êxito artístico dos Rolling Stones, com uma ajuda de John Paul Jones – sim, aquele do Led Zeppelin –, que fez os arranjos de cordas. Poucas vezes essa banda soou tão bela.

“The Lantern” apresenta uma proposta bem embalada de folk, mas que ganha cores de gospel com o piano de Nick Hopkins (músico de estúdio decisivo para a sonoroidade desse disco). “Gomper” flerta com a sonoridade oriental, que só ganhou vida por conta da parede de instrumentos que Brian Jones construiu, com sarode, cítara, dulcimer, baixo, órgão, flauta etc.

“2000 Light Years From Home” retoma o ritmo inconfundível da bateria de Charlie Watts mas com um pé no sci-fi. Um clássico da música psicodélica e considerado por muitos a primeira faixa de space rock. Por fim, “On With The Show” encerra o disco de maneira estranhíssima nos padrões de Stones com um Jagger todo circense, talvez já flertando com a ideia do antológico Rock and Roll Circus”.

“Their Satanic Majesties Request” foi concebido de maneira torta, sem direção, talvez por isso tenha resultado em um LP confuso – o que está longe de significar ruim – e vulnerável. A banda já mencionou algumas vezes que pouco antes da data do lançamento eles não tinham ideia do que lançar e que “Their Satanic” foi no fim das contas um catadão de gravações e pirações. Keith, Bill e Brian criticaram muitas vezes o disco, e até hoje não executam as músicas ao vivo (salvo raras vezes “She’s A Rainbow” e “2000 Light Years From Home”).

50 anos depois fui surpreendido pelo anúncio de um box especial comemorativo de “Their Satanic”… Será que mudaram de ideia ou seria apenas manobra caça-níquel de gravadora? Bom, o que eu sei é que sempre que falo desse disco por aí a reação é quase sempre entusiasmada. Eu, que tenho os Rolling Stones como banda favorita, vejo esse trabalho como algo extremamente inusitado, inédito e sim, muito bom em uma porção de momentos e positivamente curioso nas partes mais bizarras. Não existe nada como esse LP, e isso por si só é um triunfo. 1967 foi generoso até nos fracassos.

Punk? Television – “Marquee Moon” (1977)

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Television - Marquee Moon

Bolachas Finas, por Victor José

Tom Verlaine já disse certa vez: “Nós nunca fomos uma banda de punk rock”. Obviamente que não. Acontece que a cena nova-iorquina empurrou o grupo para essa vertente, como aconteceu com um monte de gente, em grande parte por conta do lendário clube CBGB’s e também da mais importante publicação independente local do período, a Punk Magazine. Bom, acontece que as circunstâncias do momento levaram a gravar esse rótulo na testa do Television, que no fim das contas ficou sendo aquela banda punk que faz um som bem longe do punk.

Em 1977 o rock passava por uma espécie de crise de identidade, ao mesmo tempo em que nichos alternativos sugeriam uma reviravolta no modo de fazer música. O status de pomposidade e o virtuosismo de bandas como Yes, Jethro Tull e Emerson Lake & Palmer estavam perdendo força entre a molecada, que via em coisas mais viscerais como The Stooges, MC5 e New York Dolls uma possibilidade mais atrativa. Daí vocês sabem, trilharam essa estrada Ramones, Dead Boys, Richard Hell e por aí vai… Acontece que com o Television não foi bem assim. Isso porque Billy Ficca (bateria), Richard Lloyd (guitarra) Fred Smith (baixo) e Tom Verlaine (guitarra e vocais) buscavam um certo refinamento que os outros grupos do período não pretendiam.

Com suas oito faixas incríveis, “Marquee Moon” fez escola, principalmente no caso das bandas indie da década de 2000 e no pós-punk da década de 1980. O disco de estreia do grupo foi algo inédito, em grande parte por ser extremamente inovador no trato com as guitarras e no jeito de transformar uma música de rock aparentemente simples numa estrutura bastante ordenada e criativa. Na verdade, ali de simples não tem nada. É notável o cuidado com os arranjos, as variações, os ritmos etc. É daqueles trabalhos em que está muito claro o capricho e como isso resultou naturalmente em alto valor artístico e estético. Mesmo assim a mensagem chega diretamente, o som é seco, orgânico e sem truques.

A cozinha intrincada, ao mesmo tempo objetiva, sugere uma série de espaços para as guitarras de Verlaine e Lloyd (seguramente uma das melhores duplas de guitarras de todos os tempos), que se entrelaçam a ponto de uma depender completamente da outra, sem grandes firulas, mas com uma dose incrível de inventividade na escolha dos acordes e no modo de tocar riffs. Faixas como “Venus” e “Elevation” são verdadeiras aulas de como se deve tocar para a música, coletivamente. O resultado é um rock impressionante, bem lapidado, embalado pela voz escorregadia e desengonçada de Tom Verlaine, que, justiça seja feita, carrega um pouco da aura do punk rock.

A excelente “Prove It” é o The Strokes cuspido e escarrado. Julian Casablancas deve ter furado esse disco de tanto ouvir, a semelhança é gritante. Do mesmo modo percebe-se o Television mostrando suas influências ao resgatar em “See No Evil” um pouco do rock ‘n’ roll mais tradicional e aquela pegada glam rock do T.Rex, embora a analogia não seja assim tão escancarada.

Aliás, isso é uma coisa engraçada em “Marquee Moon”, que por ser tão singular, parece que o Television mais influenciou do que foi influenciado. Toda a bajulação em torno da obra fica mais evidente na faixa-título, que com mais de dez minutos de duração é seguramente um dos grandes momentos do rock em geral. O ritmo intenso, os riffs pegajosos, o clímax do solo e toda aquela estrutura coloca a banda imediatamente num patamar de respeito.

“Torn Curtain”, música que encerra o disco, chama atenção pela carga de dramaticidade, o piano em evidência e o refrão a lá power pop. E aí nesse momento você já se pergunta: isso é mesmo punk? Que diabo é isso?

O disco foi aclamado pela crítica e embora tenha vendido pouco nos Estados Unidos fez um sucesso considerável no Reino Unido. A banda faria mais um disco, também bom, até que as brigas separaram os quatro rapazes no início dos anos 1980. Mas aí o estrago já estava feito, e a música alternativa nunca mais seria a mesma após “Marquee Moon”. Uma infinidade de bandas declarou este como uma referência inspiradora, e sempre sai uma lista ou outra de “melhores de todos os tempos” com ele lá no meio. O NME chegou a colocá-lo em segundo lugar na lista dos “melhores álbuns de estreia”, ficando atrás somente de Velvet Underground and Nico”.

Motivos não faltam pra você escutar esse disco.

Texano de alma europeia: Scott Walker – “Scott 4” (1969)

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Scott Four - Scott 4

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se trata de música pop, poucas vezes a gente vai se deparar com algo tão melodioso quanto essa obra prima do excêntrico Scott Walker, um dos cantores/compositores mais enigmáticos de seu tempo. Seu quarto disco é um fiel retrato de beleza sonora, saturado de dramaticidade, lirismo, arranjos e uma atmosfera quase erudita. Por tanto cuidado com esses detalhes, as canções beiram a periferia da cafonice, há nelas tudo aquilo que poderia transformar a sonoridade em algo piegas, mas é aí que entra a genialidade de Walker: ele sabe ser empolado e soar perfeitamente adequado.

A qualidade da gravação é de impressionar qualquer um interessado nas possibilidades do pop. São dez músicas exemplares, de uma exposição melódica sem par.

Para situar o momento do álbum, é importante citar a prolífera carreira que o cantor vinha trilhando desde 19??, primeiramente com o Walker Brothers. Apesar de serem dos Estados Unidos, o grupo estourou mesmo no Reino Unido, chegando até mesmo a ter o maior fã clube oficial da Inglaterra, por volta de 1966. A voz floreada de barítono e seu ar de galã fez de Scott Walker um ídolo teen, embora fosse um cara muito tímido, recluso, sempre mais interessado no lado intelectual das coisas. Existencialista confesso (ávido leitor de Sartre e apreciador do cinema de Ingmar Bergman), sempre teve como ponto de partida em sua música a possibilidade de agregar referências que vinham de fora da esfera musical.

Problemas internos, a depressão de Scott e a guinada psicodélica puseram um ponto final no Walker Brothers. Livre das exigências do grupo, em 1967 iniciou as composições de seu primeiro trabalho solo, fortemente influenciado pelo belga Jacques Brel e climas orquestrais, algo que iria marcar com força os quatro primeiros discos de Walker. A aceitação foi imediata, e alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas, ficando atrás somente do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”.

Em seguida vieram mais dois excelentes álbuns, Scott 2 e Scott 3″. Curiosamente, na medida em que o compositor vinha refinando a qualidade de seus lançamentos, o distanciamento com o público se tornava mais evidente, o que de certa forma deve ter sido um alívio para ele, que sempre detestou os holofotes. Em 1969 foi lançada sua obra-prima, Scott 4″, que é uma espécie de síntese amadurecida dos três LPs anteriores, um pouco menos pomposo, porém permeado de composições intensas e interessante de cabo a rabo.

A começar pela épica “The Seventh Seal”, faixa claramente inspirada no filme O Sétimo Selo de Bergman e na atmosfera das lendárias trilhas sonoras estilo western do italiano Ennio Morricone.

Uma levada que lembra a vibe das músicas de Serge Gainsbourg embala “The Old Man`s Back Again”. As apaixonadas opiniões políticas de esquerda de Scott Walker não eram segredo quando essa faixa foi gravada, mas nesse caso ele critica o lado tirano do governo esquerdista. O subtítulo, “Dedicated to the Neo-Stalinist Regime” refere-se especificamente ao governo repressivo checo que derrubou a era da Primavera de Praga em 1968 com ajuda militar soviética. O “velho” seria o fantasma de Stalin.

“Boy Child” é uma música sem par, um daqueles casos irretocáveis de beleza. A sonoridade tem essa qualidade capaz de impressionar. Talvez seja a melhor faixa de todo o vasto catálogo de Scott Walker.

“Angels Of Ashes” e “On Your Own Again” esbanjam estilo. A sensação é a de que você está em uma outra época, num ambiente suntuoso, cheio de detalhes. Pode ser que isso acabe incomodando algumas pessoas, porque de fato Walker propõe (e consegue) elevar a estética do estado de beleza ao limite do pop.

O cantor brinca com as referências e faz um mundo inteiramente pessoal. Em “Get Behind Me” visita o gospel, já em “Rhymes Of Goodbye” redefine uma proposta country, enquanto que “Hero of The War” há um flerte com a levada primitiva do pioneiro Bo Diddley.

“Duchess” e “World’s Strongest Man” mostram como Walker vinha lapidando seu modo de soar acessível, aliviando consideravelmente a afetação vocal que antes se ouvia com frequência nos primeiros trabalhos.

“Scott 4” não foi um sucesso. Demorou um bom tempo para enxergar esse LP com a devida atenção. Com o passar dos anos, Scott Walker se tornou cada vez mais obscuro, recluso e experimental, tão avant garde a ponto de lançar álbuns com músicas de mais de 20 minutos de experimentos, como o ótimo Bish Bosch”, de 2012. Vale dizer que essa fase é igualmente interessante.

Atualmente houve uma renovação no interesse em torno do lendário texano com alma de europeu. Em 2014 Lançou com o Sunn O))) o Soused”, um ótimo disco, muito aclamado pela crítica e pelo público. E ao se deparar com esses trabalhos mais recentes e depois rever o contexto de “Scott 4″, fica uma pergunta muito difícil de responder: quem, além dele, conseguiu passear por essas vertentes com esse nível de qualidade?

Inglês até os dentes: The Kinks – “Face To Face” (1966)

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The Kinks - Face To Face

Bolachas Finas, por Victor José

Tem como não gostar de Kinks? Essa banda seminal encarnou praticamente tudo que importa do espírito do rock britânico dos anos 1960, mas, diferentemente dos parceiros de época Beatles, Stones e The Who, não atingiu aquela enorme massa de sucesso. Apesar disso, pode-se dizer que ainda sim esta é uma das maiores bandas de todos os tempos sem sombra de dúvida, e divide com o The Animals (e quem sabe o The Hollies) esse estranho e não tão justo posto de bandas britânicas definitivas da década de ouro do rock que todo mundo conhece pelo menos uma música.

Mas o mais interessante do legado do The Kinks é que a cada nova vertente que aparece no rock você percebe uma banda ou outra que os idolatra. Perceba o power pop do The Knack, o indie a la “You Really Got Me” da sueca The Hives ou a personalidade inglesa até a medula nas principais obras do Blur… Tudo isso é muito The Kinks. A banda atravessa os anos renovado e cada vez mais bem assimilado.

Poderia escolher praticamente qualquer álbum da banda para comentar, mas escolho Face To Face”, seu quarto LP, por ser o meu favorito e porque vejo nele um período de transição muito evidente, o que o torna ainda mais interessante. Há o melhor dos dois mundos de Kinks nesse disco. “Face To Face” está para The Kinks como Rubber Soul” está para The Beatles. Pelo menos eu vejo assim. Ainda há aquela urgência dos primeiros trabalhos, mas já notamos uma banda mais refinada, variando nos estilos, buscando se inserir na nova onda de experimentações sonoras e se saindo muitíssimo bem.

Ray Davies – como sempre – estava afiadíssimo nas composições e produziu alguns de seus momentos mais memoráveis.  Pela primeira vez, toda a tracklist leva sua autoria. Outra coisa curiosa sobre esta obra é que muito a consideram como o primeiro álbum conceitual da história, ou seja, todas as músicas contribuem para um tema específico, como acontece com clássicos como Tommy” e The Wall”. No caso de “Face To Face”, o tema explorado foi basicamente a sociedade inglesa e seus costumes e, ao contrário dos clássicos álbuns conceituais, não há nada de repetições de temas e dramáticas overtures ou interlúdios, pelo contrário, você escuta as 14 faixas em uma tacada só, sem encheção de linguiça e não cansa um segundo. Cada canção funciona muito bem sozinha, se considerar fora dessa pegada conceitual.

“Party Line” abre o LP com bastante força, direto, sem maiores pretensões. Essa na verdade é uma parceria entre os irmãos Davies, que no fim acabou não sendo creditada no encarte. “Rosy Won’t You Please Come Home” traz um ritmo dançante embalado pela bateria sempre bem destacada de Mick Avory e por um cravo meio empolado tocado pelo mestre Nicky Hopkins. Essa música é uma daquelas que tem a incrível capacidade de grudar em sua cabeça pelo resto do dia, semana ou mês. Uma curiosidade: essa canção foi inspirada principalmente pela irmã de Ray e Dave Davies, Rosy. Ela e seu marido, Arthur Anning, tinham se mudado para a Austrália em 1964, o que deixou Ray profundamente triste. No dia que eles se mudaram, Ray Davies teve um surto de choro em uma praia. Dave contou uma vez que ele correu para o mar gritando e chorando. Além disso, a partida de Rosy e Arthur inspiraria mais tarde a banda na concepção de outro grande álbum da banda: Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire)”, de 1969.

Um dos singles para o disco, “Dandy” traz uma ótima letra de Ray, cheia de sarcasmo. Dizem que esta canção fala indiretamente de seu irmão, Dave Davies, o guitarrista da banda. A acidez para com os outros não para por aí, isso porque “Session Man” é um retrato de ninguém menos que Jimmy Page. E pelo visto a banda detestava o então músico de estúdio. Para se ter uma ideia, veja o que Ray já disse sobre isso: “Quando gravamos “All Day And All Of The Night” nós tivemos que gravá-la às 10 horas da manhã, porque tínhamos um show naquela noite. Tudo foi feito em três horas. Page estava fazendo uma sessão no estúdio ao lado, e veio para ouvir o solo de Dave. E ele riu, ficou tirando sarro. E agora ele diz por aí que tocou aquele solo! Então eu acho que ele é um cuzão. Dave é um grande guitarrista. Ele tem suas limitações, mas nunca recebeu o devido reconhecimento. Ele tocou isso com 16 anos de idade. Ele criou um som”.

Embalada pelo belo baixo de Peter Quaife, “Too Much On My Mind” apresenta um ar de folk rock bem dentro dos padrões da época, enquanto que em “Rainy Day in June” e “Fancy” a banda arrisca algo mais experimental com sonoplastias de trovões e cítaras, premeditando os anos psicodélicos (algo que o Kinks nunca chegou a cavar a fundo).

O rock básico dá as caras em faixas incríveis como “House in The Country”, “Holiday in Waikiki” e “You’re Lookin’ Fine”, que mostram a capacidade do grupo de transitar entre a busca de maturidade musical e a rebeldia inerente do rock, sem abrir mão da qualidade. O mesmo ocorre com as mais melodiosas “I’ll Remember” e “Most Exclusive Residence For Sale”, esta última com uma letra hilária sobre um sujeito que compra uma casa suntuosa por puro capricho do status e não consegue manter o estilo de vida.

A super inglesa “Little Miss Queen Of Darkness” traz esse ritmo ligeiramente jocoso, cheio de irreverência e um solo de caixa irresistível. Dá até para dizer que ela faz um belo par com a mais famosa do disco, “Sunny Afternoon”. Um dos pontos altos do catálogo do grupo, essa canção alcançou o primeiro lugar nas paradas do Reino Unido, o que animou bastante Ray, que via nesse novo jeito de compor sua força principal. “Não havia escrito nada por um tempo”, comenta Ray. “Eu estava doente e vivia numa casa muito decorada, tinha paredes laranja e móveis verdes. Minha filha de um ano de idade estava engatinhando no chão e eu escrevi o riff de abertura. A única maneira que eu poderia interpretar como eu me sentia era por meio de um aristocrata decadente. Eu o transformei [o protagonista da faixa] em um canalha que brigou com sua namorada depois de uma noite de embriaguez e crueldade”, disse.

Apesar das ótimas críticas, “Face To Face” não foi um sucesso de vendas, o que viria a se repetir em vários dos melhores trabalhos do Kinks. Talvez o público estivesse mais sedento por folk rock e pirações psicodélicas, que já estava começando a pipocar com força em 1966. Mas fato é que pouco importa o desempenho da banda nas paradas de sucesso. Hoje todos concordam que ali está uma das obras mais importantes da música pop. E termino como comecei: tem como não gostar de Kinks?