Dieguito Reis, baterista da Vivendo do Ócio, lança “Favela Sincera”, primeiro single do seu disco solo

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Dieguito Reis é músico, produtor, DJ, instrumentista e compositor, nascido em Salvador, Bahia. Cria da cidade baixa, desde a adolescência vivida no bairro do Uruguai, suas principais influências musicais eram Sabotage, Racionais Mc’s, RZO Planet Hemp, entre outros, e foram essas influências que o levaram para o rock e outros ritmos. Dieguito Reis toca em diversos projetos, entre eles a banda Vivendo do Ócio, somando 11 anos de carreira em 2018, Trummer SSA, projeto idealizado por Fábio Trummer (banda Eddie) e a banda Lau e Eu, projeto formado em 2013 pelo sergipano Lau.

“Eu conheço essa voz! Mas ele não é baterista?”
É a primeira impressão dos amigos ao escutar o single de seu trabalho solo “Favela Sincera”, que anteriormente ao lançamento nas mídias digitais, foi enviado via Whatsapp a muitos fãs do artista, mas para quem conhece Dieguito, logo se desmancha. Tentar resumir este novo trabalho a rótulos musicais não é o caminho. “Pode ser rap, reggae, rock, pagode, funk ou arrocha”, como o trecho do single conclui. O refrão é cantado por seu parceiro de longa data e companheiro de banda, Jajá Cardoso (Vivendo do Ócio).

A música “Favela Sincera” é sobre um sentimento que sempre esteve presente na vida do músico, mas que nunca tinha sido exposto em outros trabalhos. Cria da quebrada, vem tentar a vida como muitos nordestinos em São Paulo. É sobre insistir no que acredita, ter fé, entender os fracassos.

A “Favela Sincera” incomoda, o baterista largando rima sem ser MC incomoda, e é isso o que Dieguito quer para essa nova fase da carreira. Sair da zona de conforto, criando sem bloqueios. O álbum era um sonho do Dieguito, que só foi possível ser realizado com a colaboração de muitos amigos, desde a gravação, foto, capa, clipe, releases, formou-se uma verdadeira rede de colaboração para levar esse sonho adiante.

Yannick lança mais um novo vídeo clipe da saga “Também Conhecido Como Afro Samurai”.

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O rapper paulistano Yannick Hara lança mais um vídeo de uma das faixas do EPTambém Conhecido Como Afro Samurai”. Desta vez, a faixa-título versão remix, última música do trabalho, ganhou um clipe cheio de efeitos e participações especiais.

Gravado em estúdio, o vídeo apresenta os dançarinos Danilo Martins e Dartlita Double-Lock em performances intercaladas com a presença do próprio artista. O cenário alterna as cores azul, vermelha e branca, gerando uma sensação de drama e suspense, como sugere a letra.

Na concepção da música, Yannick conta com a participação de Dieguito Reis (Vivendo do Ócio) e Petrus (OI Darth Bastard). O remix tem uma pegada trap, com uma roupagem eletrônica e mais pesada do que a original. A faixa apresenta, ainda, novas rimas, que lembram uma apresentação de Freestyle.

O vídeo é o sexto de uma séria de oito. “Irei lançar clipe de todas as faixas do EP até 2018”, explica Yannick. O trabalho é totalmente inspirado no mangá e anime Afro Samurai, cujo o enredo narra a saga de um samurai negro chamado Afro que busca vingar a morte do pai, assinado por Justice.

Assista aqui:

FICHA TÉCNICA

Realização: Live Station

Direção: Seiji Hara e Rodrigo Furlani

Edição e produção: Rodrigo Furlani e Norberto Filho

Beat por Everton Beatmaker

Participação especial de Petrus da Ol´Darth Bastard (@petrus.camargo), Dieguito Reis da Vivendo do Ócio (@dieguitoreiss)

Dançarinos: Danilo Martins (@danilo_kapela) e Dartlita Double-Lock (@darlita.albino)

Figurino: Rose N Crown Brasil (@rosecrownbrasil)

Mixado e masterizado por BlakBone nos estúdios da Live Station (@livestationoficial).

Disco: EP Também Conhecido Como Afro Samurai (2016)

 

YANNICK

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Conheça LAY e o seu novo single, “Solitária”

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Com um grito ousado, explícito, positivo e com propositivo, a cantora LAY iniciou no final de 2015 uma revolução na música brasileira. O single Ghetto Woman e o EP 129129, lançados em 2016, foram de uma profunda influência na música preta pra dançar no Brasil.

O disco “129129” – que abre com o memorável verso “saudações a todas as bucetas”, de “Ressalva” – além de ser um dos pontos de partida para a revolução feminina que tomou de assalto o rap nacional na segunda metade desta década, também remexeu as pistas, com uma mistura malandríssima de hip hop, ragga, trap e até funk, com uma carga eletrônica pesada costurada pelo produtor Léo Grijó.

Nascida e criada em Osasco, a cantora que fez sua voz valer na música já vinha com uma caminhada criativa em consolidação – começando no punk e na musica jamaicana, transformou seus poemas feministas em munição de alto calibre para acompanhar uma estética retrô-futurista mutante, que havia se apresentado pela primeira vez na sua marca de roupas, a Lay Moretti Clothing. Com a fama nacional, a singjay que inspirou-se na carreira de Foxy Brown, Lil Kim e Lady Saw começou a preparar o terreno para tomar o resto do mundo, e em 2016 foi uma das personagens principais da série de vídeos da revista britânica i-D Beyond Beauty, apresentada por Grace Neutral, enquanto também participou de campanhas para marcas como Avon Brasil.

A música também não parou: em 2016 lançou o clipe do seu remix de “Panda”, do rapper norte-americano Desiigner, no music vídeo festival, no MIS, em São Paulo. “Chapei”, parceria com Don L lançada no mesmo ano, ficou no top 10 de melhores músicas de 2016 no portal brasileiro da Red Bull, e Lay ajudou a inaugurar a plataforma online do festival Music Women Event com uma apresentação exclusiva no mesmo ano.

Em 2017 a parceria com Don L voltou a render frutos, com “Mexe Pra Cam”, faixa do disco “RPA Vol. 3”, presente na lista de melhores do ano de veículos como Rolling Stone, VICE, Genius e também da Associação Paulista de Críticos de Arte. Em dezembro, ao lado de Renan Samam e do MC Guimê, lançou “Tá Patrão 2.0”, primeiro single do novo disco do DJ do Racionais MCs KL Jay, Na Batida Vol. 2. Além disso, a cantora prestou homenagem a Prodigy, do Mobb Deep, com um remix de “Young Veterans”, do grupo nova-iorquino, e fechou o ano com os primeiros sinais da sua “coletânea de sentimentos” que traz Lay explorando os limites do trap em singles poderosos como “Magia Negra”, “Bitch Star” e “Daraxa Clan”.

E agora ouça o seu mais novo single “Solitária”.

“Hoje faltam MCs, sobram faladores contando histórias”. Confira uma entrevista com o rapper Marcello GuGu

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Conheci o trabalho de Marcello Gugu pela incrível ilustração zumbi da capa de sua mixtape “Até Que Enfim Gugu”, de 2013. Muitos dizem que não se deve julgar um livro (ou disco, que seja) pela capa, mas foi exatamente o que eu fiz. E estava certo: algo com uma capa tão bacana não podia ser ruim. Veloz nas rimas e nas referências e com batidas que vão do soul ao rock, Gugu impressiona em seu primeiro disco, produzido por DJ Duh, Léo Cunha, Rodrigo Chiocki, DJ Caique, Jhow Produz e pelo próprio rapper, que pode ser baixado gratuitamente em seu site. Agora, ele prepara seu segundo trabalho, “Azul Índigo”, ainda sem previsão de lançamento, e continua rimando pelo Brasil afora.

Bati um papo com Gugu sobre música grátis, o hip hop brasileiro hoje em dia, o machismo que ainda existe no meio e a Batalha do Santa Cruz, da qual é um dos organizadores:

– “Até Que Enfim Gugu” obteve bastante sucesso de forma independente com divulgação pela internet e sendo disponibilizado para download gratuito em seu próprio site. Como foi isso? O que você acha do streaming estar dominando o mundo da música?

Durante todo o processo de produção do disco pude refletir sobre como seria lançado e sobre como disponibilizaria esse trabalho para o público. A ideia sempre foi de oferecer música de qualidade a um preço acessível. Cresci durante os anos 90/2000 e pude acompanhar todo processo de transição entre a fita K7 e o CD para o Mp3 (em meados de 2010), e dessa forma pude configurar uma ideia sobre a transitoriedade dos meios que existem para se oferecer música as pessoas. A ideia, antes do lançamento, era: Como chegar no ouvinte? Como fazer esse trabalho ser conhecido? Como fazer com que as pessoas tenham curiosidade e fácil acesso ao que estamos produzindo?

Para todos aqueles que estão antenados nas mudanças tecnológicas relacionadas ao mundo musical, desenvolver uma resposta não foi tão difícil.

Se analisarmos o processo de produção de um disco como um todo, perceberemos que hoje existe uma a facilidade muito maior para se executar gravações profissionais já que os estúdios estão mais acessíveis em questão de preço, poderemos perceber também que os processos de masterização e mixagem, que mantém a qualidade do áudio final, continuam em evolução garantindo um resultado cada vez melhor e que hoje é relativamente baixo o custo para reprodução/cópia. Ao se analisar isso chegasse a conclusão de que seria/é possível divulgar o trabalho gratuitamente ainda sim disponibilizá-lo para venda, a baixo custo, para as pessoas pudessem adquirir caso gostassem. Por que? simples. O retorno do investimento em questão de vendas de disco existe, porém, a oportunidade de divulgar o trabalho faz com que outras portas sejam abertas, cujo a rentabilidade é maior, como a venda de shows por exemplo.

Por ser meu primeiro registro em estúdio, a idéia de ter o disco completo na internet era divulgar o trabalho, caso a pessoa se interessasse, poderia adquirir a cópia física. Deu muito certo, hoje estamos em quase 10 mil cópias do disco e perdemos a conta de quantos downloads já foram feitos e de quantos sites replicaram o disco em seus acervos. Graças a Internet o músico independente tem a possibilidade de direcionar sua arte da forma em que acredita, sem sofrer interferência de um selo ou gravadora, o que permite com que a liberdade artística seja preservada. Com todas as ferramentas que a net propicia tais como as redes sociais e os serviços de streaming, o músico consegue, além de divulgar seu trabalho para grandes públicos, manter um contato quase que direto com seus fãs, contratantes e todo círculo social que o mercado/cena possui. Acredito que o streaming é uma tendência mercadológica devido a informatização dos processos de divulgação e distribuição, e que talvez seja mais um passo nesse processo de transição que a música sofre com o decorrer dos anos.

Se analisarmos em questão de serviços oferecidos, existe por exemplo, uma sincronização que o Spotify permite com que o usuário não precise estar conectado para ouvir as músicas de sua playlist. Isso dá a a oportunidade para o assinante ter em mãos o acesso de um determinado número de artistas como se fosse um mp3. Quem imaginaria isso a alguns anos atrás? Pensando nessa linha de raciocínio acredito que talvez, daqui alguns anos, o streaming seja um dos serviços mais utilizados pelos usuários que realmente gostam de música, afinal, essa ferramenta não oferece necessariamente apenas musicas, mas também notícias, vendas de produtos e atualizações que fazem parte desse universo.

– A capa de “Até Que Enfim” é incrível. Quem fez?

O responsável pela capa se chama Hugo Silva (@abacrombieink) e a idéia do desenho nasceu de uma brincadeira relacionada ao meu comportamento numa empresa em que trabalhei durante quase 5 anos. Fui funcionário de uma editora que trabalha com a produção de mídia digital voltada para ensino a distância, editando audio e vídeo. A maioria dos MC’s e de pessoas que trabalham com o Hip Hop, devido a falta de estrutura de mercado e ao lento processo de consolidação do mesmo, não consegue viver apenas da arte ou da cultura, tendo que ter uma jornada dupla de trabalho e na época, eu também me enquadrava nesse perfil. Dormia pouco, trabalhava com as composições e processos burocráticos do disco ‘até que enfim gugu’ que foi lançado em 2013, na madrugada e muitas vezes ia trabalhar virado. Quando você passa duas, três noites sem dormir, isso cria um efeito visual (risos) e um dia, cheguei muito cansado, virado da madrugada, e um dos colaboradores de lá me disse: Você as vezes vem trabalhar parecendo um zumbi. A brincadeira pegou e alguns dias depois o Hugo me trouxe um sketch de um desenho de zumbi, feito em cima de uma foto de um amigo chamado Willi Lopez e com os dizeres: The Walking Rap, adaptado e fazendo uma brincadeira com o The Walking Dead, a série sobre zumbis mundialmente famosa. No momento em que vi a ilustração pensei na hora em fazer camisetas, porém, o projeto se estendeu e acabou se tornando a capa do disco também. Por demorar 3 anos para lançar o trabalho e pelas brincadeiras com o título, o desenho conversou muito bem com toda a proposta e composição estética e hoje é considerada uma das capas mais originais do rap.

– “Hoje faltam MCs, sobram faladores contando histórias”. O que falta nos rappers de hoje para que sejam verdadeiros MCs?

Essa linha da “Gil Scott Heron” sintetiza a necessidade que eu sinto de fazer com que as pessoas de nossa cultura se lembrem sempre sobre o que significa ser MC. Mais do que somente a sigla mestre de cerimônia, quando me refiro a MC, me refiro mais do que somente fazer rimas e shows, me refiro ao Griot africano, ao improvisador de lundu, ao tocador da congada, ao jongueiro e ao repentista. Me refiro sobre os professores das culturas populares que tem a oportunidade de imortalizar histórias e pessoas através da oralidade, e muitas vezes sinto que isso pode se perder. Essa linha muitas vezes funciona para me lembrar da necessidade de passar a história do Hip Hop para frente, de fazer com que o conhecimento adquirido por mim durante a vivência e o estudo seja transmitido da mesma forma que era feito na África sub-sariana de séculos atrás, através da palavra. Cada vez que não falamos um nome ou não lembramos a próxima geração sobre a importância de uma figura histórica da nossa própria história, essa pessoa e tudo que ela construiu acaba se perdendo. Isso não pode acontecer. Pessoas como Marcos Telesphóro e J.R Blow não podem ser esquecidas. Pensando nisso comecei com um projeto que já dura mais de 5 anos chamado Infinity Class: redefinindo a história sob a ótica do Hip Hop. O nome, Infinity Class é uma homenagem as aulas que eram ministradas dentro da Zulu Nation para a comunidade negra americana e a palestra aborda toda formação da historia sócio-cultural e política do Hip Hop. Nesse projeto, vi a possibilidade de trazer para nova geração os nomes e as historias de personagens como Rosa Parks, Malcolm X e Martin Luther King, e percebi que é impossível falar de Hip Hop sem falar de política, sem falar de racismo, de resistência, de luta. Sou extremamente apaixonado pela cultura, pela história dela e acredito demais no poder transformador que o Hip Hop tem. No mais, acredito que ser Mc é começar a entender esse todo e se ver parte dessa história como um dos elementos. Atuar como alguém que vive essa cultura diariamente e isso está além da indústria, ‘do jogo’, do showbizz, isso está em acreditar num Hip Hop que pode ser utilizado como agente de transformação social, e a partir disso, auxiliar seus integrantes a direcionarem suas vidas, suas visões do mundo, suas formas de enxergar e se enxergar dentro de uma sociedade. Eu acredito que ser MC, o porta voz dessa cultura é, ter a possibilidade de transmitir ao próximo algo que contribua para seu crescimento pessoal e isso faz com que formamos uma rede para melhoria de uma comunidade. Quanto mais gente acreditar nisso, mais força e mobilização teremos para auxiliar o próximo que se encontra em uma situação não tão esclarecida, e isso vai para lugares que necessitam de pessoas que tragam essa energia transformadora, na qual, eu acredito que o Hip Hop é e que todos que fazem parte dessa cultura tem.

Marcello Gugu, Grupo Inquérito e Emicida
Marcello Gugu, Grupo Inquérito e Emicida

– Quais são suas principais influências musicais?

Eu cresci em um ambiente onde música sempre foi algo muito presente. Meu pai é guitarrista  e minha mãe ouve muito MPB, então eu tive grandes influências para minha formação musical. Por parte de pai eu ouvia muito Rock clássico, Jimi Hendrix, Clapton, Carlos Santana, e por parte da minha mãe eu ouvia muito Cazuza, Lulu Santos, Toquinho. Esse tipo de criação me ensinou a não ter preconceitos e a procurar sempre ouvir de tudo. Quando era mais novo existia um momento em minha casa, na hora da janta, em que meu pai colocava um disco e enquanto jantávamos, além da conversa e da convivência, escutávamos musica.

Isso me fez conhecer muita coisa e me fez entender que música é arte e que para se entender um determinado gênero musical precisa-se entender a linguagem que ele fala, e acredito que, como trabalhamos com arte, devemos nos desprender de qualquer preconceito relacionado a criação, portanto, sendo assim, procuro sempre extrair o melhor daquilo que escuto. Quando era mais novo andava de skate e isso me trouxe muita coisa legal, musicalmente falando, portanto, posso dizer que ter toda essa vivência em diversos universos diferentes me permitiu conhecer muita música. Outra coisa que tenho e que me influência muito é o processo de pesquisar em blogs, sites e sebos, que aprendi sozinho, porém, vendo o DJ Diamante e aperfeiçoei, então é difícil definir o que estou ouvindo no momento ou o o que vai me influenciar daqui 5 minutos, porém, existem músicas que sempre estiveram no meu Ipod e que posso definir seus criadores como minha principal influência graças a forma como esses artistas conversam comigo através de suas criações. Acredito que a conexão que fazemos com a música é definida pela energia que emanamos numa determinada época ou momento e que, ao termos esse retorno, seja nunca composição, numa letra, nos identificamos e passamos a incorporar essa arte em nosso dia a dia. Outra coisa que teve um peso nesse processo foi crescer nos anos 90, então minha playlist tem discos clássicos, como “Illmatic” do Nas, “Like Water for Chocolate” do Common, “Are you Experienced?” do Hendrix, porém, quando falamos de influência, falamos de pessoas que mudaram sua vida através da arte delas e dessa forma são fontes eternas de inspiração e referência, então posso dizer que Tupac, Gil Scott Heron, Common, Nas, Kendrick Lamar e J.Cole hoje, são influências pela forma como criam música e como essa música reverbera, me inspirando.

– Você integra o integra o coletivo Afrika Kidz Crew, responsável pela Batalha do Santa Cruz. O quanto as batalhas foram influenciadoras dessa nova leva de rappers que surgiram e levaram o estilo a crescer tanto no Brasil?

O coletivo chamado Afrika Kidz Crew é composto por mim, Flow MC, MC Bitrinho e DJ Colorado, Jay P, Gah MC, Helibrown, Guilherme Treze, e a iniciativa de fazer uma Batalha de MCs partiu de três amigos, Andrei Hadee, Skol e Cabeça, que faziam parte da AFK, porém hoje, não estão mais no coletivo. Eles se inspiraram na tradicional Batalha do Real do Rio de Janeiro e tiveram a ideia de fazer algo semelhante para que a gente pudesse ter uma batalha próxima, afinal, não tínhamos condições de ir para o Rio batalhar. Dia 18 de Fevereiro de 2006 o Santa Cruz teve sua primeira edição e desde então cresceu bastante. A principal idéia da batalha surgiu em meio a necessidade de criarmos nossa própria cena, queríamos reunir pessoas que estivessem fazendo Rap, trocar contatos, mas não tínhamos certeza nenhuma de que daria certo. Fomentamos a idéia do ‘faça você mesmo’ e corremos atrás daquilo que acreditamos. Com o tempo, percebemos que foram surgindo centenas de batalhas espalhadas pelo país e que o Santa Cruz foi inspiração para a maioria delas. Ao refletirmos sobre isso, notamos que as batalhas tiveram grande influência sobre essa nova geração por diversos motivos. Podemos elucidar que essa geração hoje, é a geração do virtual. A informação chega mais rápido, o acesso é mais fácil, as coisas levam menos tempo para serem percebidas, tudo é gravado e postado e a batalha é um reflexo disso. A oportunidade de se expor, de mostrar as habilidades, de travar duelos e ter centenas de acessos no youtube, permite com que a ascensão seja percebida de forma mais rápida, porém, é válido lembrar que: o freestyle e consequentemente as batalhas, são modalidades que, apesar de chamarem atenção e darem visibilidade, são efemêras, ou seja, o ciclo e a durabilidade delas é muito curto se comparados com um disco, um video clip, ou qualquer coisa dessa natureza. O freestyle nasce e morre no momento em que é dito. A vantagem é que, o tanto o freestyle quanto as batalhas, são excelentes vitrines para que um público perceba seu talento com as rimas. O improviso dentro da música tende a se popularizar fácil, fazendo com que uma batalha por exemplo, atraia olhares para outros tipos de trabalho que um MC tem.

A forma mais sadia é encarar os duelos como um momento e como uma oportunidade de se ter visibilidade para, a partir disso, mostrar músicas gravadas, sessões em estúdio, enfim, algo que dê ao público mais do somente um improviso do artista, consolidando, dessa forma, uma base de fãs. Acredito também que o sucesso das batalhas não se faz apenas pelas visualizações ou fãs de improviso/duelos, e sim, pela possibilidade da inclusão social que o espaço ‘batalha de freestyle’ oferece a quem frequenta. A chance de ser visto, de se sentir parte de um grupo, de se relacionar com iguais e diferentes, faz com que o indivíduo se veja num coletivo, se veja aceito por um determinado grupo, passando, não só a frequentar regularmente, mas também tentar se inserir participando ativamente das atividades, ou seja, um cara que era tímido e mal conversava com os colegas, com o passar do tempo, as vezes, está no meio da roda de rima desferindo versos com quem parar na frente. Isso faz parte da transformação pessoal que existe em cada ambiente que o Hip Hop atua e quanto a isso, tivemos centenas de exemplos em que a Santa Cruz fez parte, inclusive a minha. Ano que vem, a batalha do Santa faz 10 anos e é muito bom ver toda essa exposição, ver o amadurecimento, ver ganhar outros públicos e se consagrar como uma das maiores batalhas do Brasil. Aquele momento todo sábado a noite é feito por cada um que cola pra assistir, que dá sua contribuição tanto como platéia quanto como MC, a organização e é graças a essas pessoas que conseguimos mobilizar a atenção de diversas mídias. De tese de um mestrado da USP a reportagens da Globo, SBT e inúmeros temas de trabalho de faculdade, o Santa Cruz vem deixando sua marca nas páginas da história do Hip Hop, porém, acredito que o grande sucesso do Santa é o que ele significou pra vida de cada MC que passou por ali e o quanto isso reverberou pelo país a fora, sendo ainda hoje, modelo pra diversas batalhas que estão começando.

– O rap sempre foi cheio de colaborações, algo que hoje em dia é quase obrigatório. Com quais artistas você gostaria de colaborar?

Gostaria de gravar com muita gente, porém, acredito que a música boa nasce num encontro de energias. Acredito que musica é arte e não consigo conceber a ideia de fazer uma música apenas por fazer ou fazer uma colaboração apenas com o intuito de aumentar o número de vendas ou visibilidade. Acredito no processo orgânico, na maturação da ideia em conjunto, no processo criativo que faz com que o público perceba que foi uma união natural para que aquela música acontecesse. Quanto a pessoas que eu gostaria de gravar, tenho uma lista enorme, porém poderia citar alguns: Ed Motta, Max de Castro, Simoninha, Paula Lima, Léo Jaime, Pedro Mariano, Marina Peralta, Zé Ramalho, Elba, Marisa Monte. Gostaria de trabalhar com muita gente do Rap, a lista é extensa também. Sou fã de muitos artistas e as vezes, tenho a possibilidade de conviver com pessoas das quais sou fã também, porém, acredito que tudo tem um momento certo para acontecer e acho que as musicas tem que conversar com quem você chama para participar. Sinergia. As pessoas sentem quando o tema, o conceito e a composição tem haver com quem produz. Soa com sinceridade e quem ouve sente.

Marcello-Gugu

 

– Suas letras mostram que você luta contra o machismo, tão difundido no rap. Você acredita que o sexismo continua em alta no mundo da música?

Infelizmente sim e não só no mundo da música. Se pensarmos que o rap representa a voz de uma geração, vamos entender que essa geração vai falar sobre o que lhe é ensinado, sobre o que lhe incomoda, sobre o que a cerca, sobre o que permeia sua cultura e etc.. Partindo dessa linha de raciocínio, o machismo é algo tão presente e tão intrínseco na nossa sociedade, que por muitas vezes, esse discurso continua sendo reproduzido sem que haja uma reflexão. Acredito que essa naturalidade vem de um processo secular que fez com que determinados conceitos se tornassem falsas realidades e assim, continuam a serem reproduzidos a torto e a direita. O machismo é algo que deve ser combatido através da desconstrução. Leva tempo, exige esforço para reconhecer determinadas atitudes, já que fomos criados numa sociedade que nos ensina desde criança a sermos machistas, porém, a desconstrução desses conceitos é algo extremamente necessário e eu acredito que a arte, não somente a música, pode auxiliar no processo de reconstrução.

– Em “Milagres” você fala sobre a importância da emancipação feminina, um tema que não costuma ser abordado musicalmente, muito menos por artistas do sexo masculino. Porque nesse trampo você escolheu fazer uma palavra falada e não fazer uma música e qual é, se é que existe, o papel do homem nessa causa?

A poesia ‘Milagres’ foi criada para um fórum de educação realizado no SESC Interlagos que tinha o nome de “E aí, biblioteca pra quê?” na qual fui convidado a fazer alguns spokens sobre a importância da biblioteca para uma comunidade. Refletindo sobre o tema, quis sair do óbvio e ao invés de fazer apenas uma peça elucidando a importância de uma biblioteca, tomei a biblioteca e desfiz de sua representatividade literal, fazendo dela uma metáfora para um espaço cultural, um ponto de encontro, um local onde a cultura está presente e, a partir desse raciocínio, fiz 7 peças sobre os problemas que a ausência de uma biblioteca( como espaço cultural) pode trazer. Dentro desse contexto, tinha tráfico de drogas, abundância de bares a falta de polos culturais e a violência contra a mulher.  A milagres era a quarta. Terminei a apresentação, uma senhora, chorando, se levantou, e disse: “Obrigado, você contou minha história”. Naquele momento fiquei em choque e muito reflexivo. Decidi lançar a versão completa do texto dia oito de Março, com a intenção de lembrar as pessoas sobre o verdadeiro significado dessa data, a morte de centenas de mulheres numa fabrica devido a uma paralisação por melhorias na condição de um trabalho que beirava a escravidão. Dentro da metáfora estava incluso a luta constante da mulher numa sociedade extremamente machista, a importância da emancipação feminina, feminismo, algumas casos e nomes de mulheres que ficaram famosas devido a um machismo que mata todo dia e outros temas relacionados. Desde o lançamento, recebo emails e depoimentos de mulheres que viveram coisas semelhantes ao que é dito, e o quanto elas se viram representadas nas minhas linhas. De alguma forma, algumas sentiram a liberdade de poder me contar suas histórias e dividir um pouco do que elas viveram comigo. Soube também, que existe um projeto dentro de uma delegacia que utiliza a poesia “Milagres” para auxiliar mulheres que sofreram algum tipo de violência. Considero a arte como um caminho excelente para criar reflexões, e para auxiliar o processo de conscientização e de reeducação não só sobre o machismo ou o racismo, mas sobre uma série de questões sociais, culturais e políticas que ao meu ver, necessitam ser revistas. Depende de nossa geração a criação de uma sociedade melhor. O que iremos ensinar a nossos filhos, o que iremos transmitir de valores e cultura e o que iremos propor de mudanças pode encontrar na arte, um caminho que permita a transformação de uma forma gradativa, respeitosa e constante. Acredito que, talvez, a “Milagres” fala por centenas de mulheres que a vergonha e o medo calou, e acredito que, através da arte, essa vozes ecoam fazendo com que pessoas se sensibilizem com uma causa, auxiliando o processo de transformação social. Sobre o papel do homem dentro de uma causa como o feminismo: eu acredito que existe porém, é importante entender algumas premissas básicas: Jamais o protagonismo dessa luta é masculino. É uma luta feminina, e isso significa que o papel do homem é no máximo auxiliar a desconstrução de conceitos que ele mesmo criou, ou seja, primeiro mudar o próprio comportamento, para depois, tentar mudar o comportamento do próximo. É necessário entender que existem termos que não podem ser confundidos tais como femismo e feminismo e é necessário compreender também que, se você não se manifesta ao perceber algo machista, você continua fomentando esse comportamento. Para se falar da dor do próximo necessita-se de sensibilidade e para compreender a causa é necessário entender que feminismo não é somente por igualdade e sim, também, por justiça.

– Qual o seu processo de composição? O beat vem antes da rima ou é o contrário?

Meu processo criativo é confuso, depende de muita coisa, mas, geralmente, a rima vem primeiro. As vezes tenho a ideia de um som ou um conceito e reflito sobre ela antes de fazer as rimas, mas as vezes penso nos versos e depois no conceito do som, no título. Tudo depende muito do momento da criação, porém, por gostar de arte em geral, me preocupo muito com a estética em que escolho criar, me preocupo com as conexões, com as metáforas e figuras de linguagem e com cada linha que vai figurar a música pois, quando escrevo, meu objetivo é fazer as pessoas assistirem aquilo que eu estou falando. É transformar a imaginação do ouvinte em uma tela e fazer com que minhas linhas pintem um filme no imaginário de quem as ouve. Vejo cada letra como uma peça e acredito que essa peça imortaliza um determinado momento da vida, é como se fosse uma obra imortalizando um ponto de vista meu, sobre um determinado assunto num período da minha vida, portanto, penso que devo me doar ao máximo para que consiga fazer uma obra que não dure semanas ou meses e sim, anos.

Meu objetivo final é transformar o ouvinte em participante, fazer com que, quem me ouve seja sensibilizado e sinta vivo naquilo que eu escrevi.

Isso funciona tanto para as letras, como para os textos, spokens, releituras literárias, enfim, uma coisa que tenho é que escrevo todo dia. Compulsivamente e sobre centenas de assuntos diferentes. Acredito que escrita é um exercício e quanto mais se treina, melhor fica.

– Você já está trabalhando em seu próximo trabalho? Quando podemos esperar algo novo por aí?

Desde a concepção do conceito das musicas do até que enfim gugu até a prensagem, o disco demorou cerca de 3 anos para ser terminado e marca um momento muito importante na minha vida, que foi onde ocorreu um processo de transição no qual parei de batalhar e comecei a me dedicar a escrita e a composição. O processo de criação do até que enfim gugu foi um aprendizado sem tamanho e me permitiu conhecer melhor as ferramentas de escrita que tinha e a entender e explorar algumas coisas dentro do campo de compor. Foi uma excelente escola e que vai me permitir explorar mais coisas nos próximos trabalhos. Atualmente já estou mexendo no meu próximo disco que leva o nome de “Azul Índigo”, porém ainda sem previsão. Tenho alguns trabalhos soltos que virão antes dele e alguns videos do até que enfim gugu para encerrar o disco como ele merece.

– Quais rappers que estão fora da mídia você recomendaria que o público em geral conhecesse?

Atualmente percebo que a cena está sendo constantemente sendo alimentada pela aparição de novos MCs, grupos e coletivos. A internet tem permitido com que as pessoas tenham a oportunidade de se expressar musicalmente de forma mais fácil, isso fomenta a cena e trás novidades constantemente. Tenho escutado muita coisa que me mandam, alguns já consolidando público, alguns no começo de um processo, porém, todos na mesma corrida. Se tivesse que recomendar alguns ‘novos’ MCs, citaria, o A.L.M.A, Caroline Souto (Souto MC), Valmir Nascimento, Daniel Garnet e Peqnoh.

Ouça “Até Que Enfim Gugu” completo aqui. Para baixar, basta entrar no site do MC: http://www.marcellogugu.com.br/

Verso Rude lança single “Último Dia” e promete novo EP ainda em junho

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Fundado em 2014, o grupo Verso Rude, formado por  Neph, JV e V-Beat, começou fazendo freestyle e brincando, voltando da escola dentro do ônibus. Em 2014 o grupo lançou seu primeiro EP, “Eu Sou o Problema” e o single “Último Dia”, lançado em junho de 2015, chamou a atenção de sites especializados em rap de todo o Brasil. O grupo promete que o sucessor do primeiro EP já está em produção e deve sair ainda neste mês.

“Pouco a pouco o rap tá tomando seu espaço de direito. A maior prova disso é o mercado: antes o rap não tinha mercado, não conseguia (em termos de vendas) bater de frente com outros estilos, e hoje podemos ver que em alguns lugares os shows de rap não preferência do público. Acho que o brasileiro está começando a gostar de música boa”, contou JV.

Conversei com a dupla sobre a cena do rap nacional, o lançamento de “Último Dia” e o funk ostentação:

– Me fale mais de seu novo single, “Último Dia”.

JV: “Último Dia” foi nossa primeira track, na verdade. Quando nem existia Verso Rude ainda. Acabei indo mexer no Facebook um certo dia e vi o soundcloud do Mr.Break, e resolvi clicar para conferir os novos beats à venda. Acabei achando um beat chamado unknown, que é o instrumental de “Último Dia”, e foi amor à primeira vista. Aquilo se encaixava perfeitamente comigo, e, mesmo sem ter a ideia de fazer uma música assim, no fundo tínhamos essa necessidade. A minha história e a história do Neph meio que se completam, ambos decepcionados no amor, frustrados, e logo que mostrei o beat pra ele a ideia veio. E naquele mesmo dia, à noite, começamos a ouvir SOJA e acompanhar as letras, prestar mais atenção nelas, o que deu inspiração o suficiente para criar essa faixa.

Naquela mesma noite fizemos nossos versos e o Neph fez o refrão. Ficou até bonito o refrão rimado, mas dez dias depois de pronta, quando fomos gravar no Studio Setor (comandado por Ramiro Mart) encontramos o DC, que também faz parte do Ello (outro grupo do Neph) e pensamos nele para o refrão, já com algo mais cantado. Gravamos no Setor, deu tudo certo. Ramiro Mart fez um trabalho lindo de mixagem e masterização, e essa faixa acabou sendo uma das melhores filhas que temos nesse primeiro EP.

– O EP “Eu Sou o Problema”, de 2014, é a estreia de vocês. Como rolou esse disco?

JV: Depois de ouvir a guia de “Último Dia”, uma ideia nos veio: Por que não criar um EP juntos? O Neph já tinha outro grupo (o Ello) e outros projetos, mas como amigos de infância, e pelo fato de termos começado a rimar juntos, decidimos criar um EP.
À princípio seria só um EP, não teríamos grupo nem nada, apenas dois amigos criando algumas faixas juntos. Criamos cinco faixas que acabamos nem usando. E, pouco a pouco em nossas conversas fomos chegando onde queríamos: montar um grupo.

– Como o Verso Rude se formou?

JV: Começamos a rimar em 2010, juntos, na volta da escola, dentro do ônibus.
Éramos muito ruins no começo, não conseguíamos completar duas rimas direito, porém tínhamos uma coisa que muitos não tem: Tempo e vontade. Ficamos o ano de 2010 inteiro rimando dentro do ônibus, fazíamos muito freestyle, batalhávamos um contra o outro, sempre vendo e ouvindo o Emicida, que na época era nossa maior referência.

Em 2011 eu (JV) me mudei, fui morar em Vassouras para fazer faculdade, o que me fez parar de ver o Neph com tanta frequência, e, consequentemente, diminuir o tempo que eu tinha para o rap, que na época era somente um hobbie. No fim de 2011 eu voltei para Rio Claro (Rio Claro – RJ, nossa cidade natal) buscando outra coisa, aquele curso não era para mim. Logo que voltei, eu e o Neph voltamos a nos reunir na casa dele todo dia, de segunda a segunda, e continuamos rimando, rimando e rimando.

Em 2012 comecei a fazer faculdade em Volta Redonda, o que nos deu ainda mais tempo para aquilo, já que íamos no mesmo ônibus e tínhamos o mesmo cenário de 2010. Já maiores, evoluídos e conhecendo mais de rap estávamos dispostos a levar aquilo para frente. Não viver disso, apenas buscar mais conhecimento, experiência, ficar mais técnico no que se diz respeito à fazer rima: Conhecemos a roda de rima de Volta Redonda.

Em Rio Claro, onde moramos, não tem cena do RAP. Ninguém aqui se interessava por isso na época, então tivemos que migrar para Volta Redonda. Chegamos na sétima edição da Roda de Rima, em um sábado quente. O evento estava marcado para 19h00, e a gente chegou as 18h00 e ficamos esperando por alguém até as 21h00. Vimos um pessoal se reunindo na praça (hoje chamada de praça do rap) em baixo da biblioteca, e fomos lá para ver. Trocamos um pouco de ideia com o pessoal, até que começou a roda.

Os caras pareciam ter experiência, tranquilidade e tudo que a gente não tinha na época. Eu lembro que vi o Grilo (um MC de Volta Redonda) rimando e fiquei impressionado, o cara era sinistro. Aí ele me chamou pra rimar, recusei o convite, estava um pouco tenso, com vergonha, medo de errar, sei lá, e acabei passando a bola pro Neph.

Ele mandou umas rimas e gritaram pra ele, aquilo despertou nele uma vontade maior, pude ver. Fizemos aquela rotina juntos por mais três ou quatro rodas de rima, até a décima ou décima primeira, e depois mais uma pedrada do destino: Acabei me afastando novamente do rap por influência de uma ex namorada.

Dizendo que àquilo não daria futuro, que eu deveria crescer, parei de fazer freestyle, parei de escrever, parei de frequentar eventos de rap. Por outro lado, a vida do Neph no rap ia de vento em poupa, acabou se tornando amigo do pessoal da roda de rima, virou ícone após vencer muitas batalhas lá, criou um grupo chamado Ello Crew (referência em VR) e acabou indo para a batalha do real.

Eu continuei estudando, e mesmo vendo o Neph todo dia e ouvindo histórias de rap, fingia não me importar. Até que meu relacionamento veio à baixo… três anos e meio, tudo caiu. Passei uma semana horrível, me reconstruí e fui me reconstruindo aos poucos. Costumo dizer que morri em vida e renasci para o rap.

Continuei afastado, não frequentava mais a roda de rima e nem rimava com o Neph, mas voltei a fazer freestyle, voltei a escrever, eu já estava mais maduro. Estava mais observador, acabei aprimorando meu rap, me tornei muito técnico nisso e evoluí da minha maneira, sozinho. Até que um dia, como citei anteriormente, entrei no facebook e ouvi o beat do Mr.Break… e toda aquela ideia de criar um grupo voltou.

Depois das cinco faixas ruins que escrevemos, chegamos a ideia de criar um grupo, o que tornou a coisa mais séria ainda: Tínhamos a meta de escrever 50 letras, e só depois dessas 50 íamos escolher algumas para compor o EP. Acabamos criando 45 letras em uma semana, aquilo foi incrível. Tínhamos muita letra, muita ideia, muito conteúdo, mas não tínhamos um conceito para o EP. Naturalmente surgiu isso. “Eu sou o Problema” era uma faixa que eu escrevi nesse tempo “afastado do rap”, que acabou entrando para o EP depois do Neph ouvir e gostar. O resto do conceito vocês só vão entender depois que ouvirem. Sai ainda esse mês (Junho).

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Quais são suas maiores influências musicais?

Neph: J Cole, Kendrick Lamar, Wu Tang, Sintese, Travis Scott, Soja, Djvan
JV: Mos Def, Biggie, Emicida, Kamau, Kendrick Lamar, Soja

– Vocês acreditam que a cena rap está se expandindo no Brasil?

JV: Sim, sim. Pouco a pouco o rap tá tomando seu espaço de direito. A maior prova disso é o mercado: antes o rap não tinha mercado, não conseguia (em termos de vendas) bater de frente com outros estilos, e hoje podemos ver que em alguns lugares os shows de rap não preferência do público. Acho que o brasileiro está começando a gostar de música boa.

– Muitas garotas estão entrando no mundo do rap e não aceitando atitudes machistas que antes permeavam o estilo. Qual a opinião de vocês sobre isso?

JV: Assunto muito delicado, posso ser mal entendido ao falar disso, mas… o rap é liberdade de expressão acima de tudo, ou seja, você tem que falar a sua verdade. Seja lutando contra o machismo ou falando de qualquer outra coisa, ela tem que ser sincera, pois comprar uma causa sem fundamento é lutar em vão. Escreva com fundamento, exponha seus argumentos, faça isso mudar. Reclamar por reclamar não vai levar a lugar algum. E, do mesmo jeito que eu apóio mulheres lutando contra o machismo, eu também apoio o direito de cada um falar sobre o que quiser: isso é o rap!

– Ainda existe uma rivalidade entre rap paulistano e carioca?

JV: Olha… deve existir sim. Existe rivalidade entre duas ruas, dois bairros, por que não entre dois estados? Mas acho que o rap é acima disso tudo, somos um coletivo, essa tal “rivalidade” só serve para evoluir, fazer com que os dois lados cresçam. Sem falar que… já foi o tempo em que o rap só era forte no Rio e em Sampa, podemos perceber muitos caras sinistros no sul, nordeste. O Brasil tá cheio de gente talentosa.

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– O rap americano possui muito da “ostentação” que aqui aparece no funk. Porque o rap em geral não entrou nessa?

JV: O fato do rap falar sobre realidade já explica isso. Os primeiros mcs não tinham o que ostentar, e nem tinham porque ostentar. Muita coisa precisava ser dita, tinha muita mensagem pra ser passada, o plano nunca foi ostentar, e sim informar. Com esse tal mercado que criou-se em torno do rap, muitos mcs já vivem disso, e alguns tem até condição de ostentar, e ostentam. Não tem porque esconder o dinheiro ou ter vergonha de ganhar dinheiro. Se você tem para ostentar, ostente. Mas faça isso com a qualidade que você teve para ganhar aquilo tudo, com fundamento, e não falando asneira. O Brasil criou um pensamento de que rapper bom é rapper pobre, e eu não consigo entender isso.
Talento, talento é a palavra! Cresceu? Ganhou dinheiro? Ajude quem você tiver que ajudar, mas não tenha vergonha de ostentar. Afinal, prefiro ver um rapper que eu escuto, um ídolo, alguém que eu escuto, montado no dinheiro do que um cantor de sertanejo.

– Quais rappers brasileiros que não estão na grande mídia vocês recomendam?

Neph: Ramiro Mart, Pachá, Zona Verde e Indigesto.
JV: Pachá, Liink, Kayuá e Ramiro Mart.

Ouça o EP “Eu Sou o Problema”: