Construindo Arnaldo Tifu: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o seu som

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o rapper Arnaldo Tifu, que indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Pepeu“Nome de Meninas”
Foi um dos primeiros rap que escutei na vida, e pelo fato das rimas serem genuínas é simples incentivou a brincar de fazer rima e estimulou, uma grande referência.

Racionais MCs“Fim de Semana no Parque”
Esse som veio como as vozes das periferias, narrando características fortes do cotidiano. Quando eu escutava essa música e olhava pro bairro, eu via tudo que a música falava: a descrição, a base e a poesia forte, representatividade.

Consciência Humana“Tá na Hora”
Esse rap me ensinou que eu poderia falar do meu bairro, foi uma referência que incentivou fazer rap também, me influenciou a escrever meus primeiros versos.

MC Cidinho e Doca – “Rap da Felicidade”
Esse funk, além da batida miami bass que parece um sampler do Afrika Bambaata da música “Planet Rock”, tem a voz forte que clamava por paz nas favelas. Na época em que foi lançado a linguagem simples e batida dançante contagiou a juventude das favelas do Brasil, e pra nós não poderia ser diferente.

Kool Moe Dee“Go See the Doctor”
Lembro das festinhas de garagem, da casa de máquina do Dudu tocando os flashback e os flash raps que bombavam… O Dudu me deixava limpar os discos em troca de uma ficha e uma Tubaína e ficava me falando como eram os bailes do Clube House e ensinando como eles dançavam em passinhos.

Tim Maia“Ela Partiu”
Música que me ensinou o que era o sampler, por que a primeira vez que ouvi os arranjos desse som foi na música “Homem na Estrada” dos Racionais. Depois que eu escutei Tim Maia entendi como podia se fazer rap através do sample e a importância que o rap tem em resgatar músicas através da arte de samplear.

Raul Seixas“Maluco Beleza”
Meu pai curtia bastante as músicas do Raul, ele tinha várias fitas K7 e sempre colocava essa música em alto e bom som pra gente escutar e cantar, e depois usei as fitinhas tudo pra gravar rap (risos).

Fundo de Quintal“Amor dos Deuses”
Vim do berço do samba e essa música a gente já tocava desde pivetinho nas rodas de samba com meus primos e lideradas pelo meu tio avô, o Tio Cido, que já fazia a gente empunhar um balde, um prato ou uma frigideira pá tocar um samba. Já naquela época a gente ficava encantado com a poesia desse samba.

Facção Central“Artista ou Não?”
Rap de mensagem forte me ensinou desde a primeira vez que eu escutei a identificar o rap como arte.

Rage Against the Machine“Killing In The Name”
Vixi! Essa música marcou meus circuitos de skate, quando tava na febre e ia correr os campeonatinho, já pedia pro DJ tocar essa. Já até me aventurei em cantar numa banda cover do Rage e Beastie Boys (risos).

Planet Hemp“Mantenha o Respeito”
Teve uma época que o hardcore ficou bem forte na minha vida, principalmente com o surgimento de bandas nacionais com a pegada do rap e do rock. O Planet foi muito significante nesta época, foi a época que comecei a ficar mais cabeção no skate e sair mais do bairro pra curtir com outras quebradas e dialogar com diferentes tribos.

Fugees“Killing Me Softly”
A voz feminina do rap/R&B forte e representativa demais, marcou minha vida apaixonado em escutar as música dessa mulher.

Wu Tang Clan“Triumph”
Abriu minha mente pra prestar atenção nos diversos modos de se versar num rap, cada um rimando nessa banca com suas peculiaridades e o boom que foi quando surgiu o Wu Tang, nós curtimos muito.

Criolo“Ainda Há Tempo”
Ainda quando o Criolo era doido, vi um show dele e quando ele cantou essa música ele se emocionou e comoveu o público que estava presente no evento, cerca de umas 70 pessoas. Mas o sentimento e a verdade versados nessa música foi impactante, foi um hino pra minha vida.

Cassiano“Onda”
Música que hipnotiza, mais instrumental e realmente parece que a música é o oceano em movimento, uma das música que me trazem paz.

Herbie Hancock“Chameleon”
Original funk, este groove me inspirou a criar vários versos, levadas e flows, pra mim uma aula. É inspiração e toda vez que escuto fico com vontade de criar.

Arnaldo Tifu“Simplicidade”
Essa música minha é uma obra pela qual eu tenho muito carinho, acho que eu consegui transmitir a simplicidade que vivo no meu cotidiano e que eu almejo para as pessoas do mundo.

Thaíde e DJ Hum“Afro Brasileiro”
Tá aí uma música que me ensinou sobre a minha descendência, orgulho, alto estima e luta.

John Coltrane“Blue Train”
Essa música é sensacional, tipo um teletransporte. Me inspirou a criar alguns personagens, uma nova maneira de explorar a música e introduzir isto no meu universo criativo.

Emicida“Triunfo”
Esse som foi as vozes das ruas da minha geração no rap. Quando Emicida lançou e estourou com este som, me mostrou a possibilidade de fazer a parada acontecer de verdade, pela vitória e pelo triunfo. E como vivíamos todos bem próximos nas rodas de rima de freestyle, esse som foi um hino pra nós. Emicida provou que é possível. E essa música marcou!

Racionais MC’s como crítica social: Diário de Um Sobrevivente do Inferno

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Racionais MCs

Filosophone, por Matheus Queirozo

“O ser humano é descartável no Brasil”

(Racionais MC’s – “Diário de Um Detento”)

Inferno. O que é o inferno? Essa é uma questão relativa. Não existe uma resposta única, pronta, acabada, esgotada, que dê fim a essa pergunta. A religião, a filosofia, a Teologia, todas essas áreas de uma forma ou de outra falam do inferno, o inferno como lugar de morada dos mortos, lugar de penitência pelos atos cometidos enquanto se vivia a vida terrena, inferno como lugar de sofrimento e dor. Vulgarmente falando, o inferno para algumas pessoas e aqui mesmo na terra, lugar de morte e dor; para outros, inferno é não poder entrar na internet, é não ter um bom celular, é não conseguir estar na moda, com os sapatos tendência, com o corte de cabelo do momento; inferno para outros é não ter o que comer, é viver em condições sub-humanas, é não ter uma boa educação, não ter uma boa família. Esse último é o inferno de quem vive na periferia. Aliás, de quem sobrevive na periferia, porque não é fácil.

Nos anos noventa, o mundo da música já tinha passado por vários momentos de estilo musical. Aqui no Brasil, nos nossos anos cinquenta, era de ouro, tivemos os cantores de rádio cantarolando com aqueles vozeirões; tivemos o samba do morro, depois a bossa nova, que pregava um basta na saudade – “chega de saudade!” –; vieram, perto do fim dos anos sessenta, os grandes festivais de música onde a MPB começou a se consolidar, pegamos em 1964 um duro golpe, instaurou-se a Ditadura Militar, de censura artística completa. Resultado em face disto, tentando ludibriar os censores: surgiram músicas de crítica ao regime, mas uma crítica sutil, inteligente; nesses mesmos anos setenta, surgiu a galera da Jovem Guarda, a galera da psicodelia, do rock progressivo, a música nordestina invadindo o planeta Brasil; já nos anos oitenta, ocorreu a explosão do rock nacional, o chamado BRock; e em fins dos anos noventa, o hip hop e o rap se consolidam como música de protesto, se utilizando da realidade sem fantasia como matéria para as suas rimas.

Racionais MCs
Em 1997, o grupo de rap Racionais MC’s, considerado o grupo mais popular e influente dos nossos tristes trópicos, lança o disco que faz com que os membros do grupo fiquem conhecidos no Brasil todo, que é o “Sobrevivendo no Inferno”. O disco todo pode ser definido como rap político, muito inteligente, recheado de referências culturais, de críticas ao preconceito racial e exclusão social. O disco fala do que é o inferno para quem vive na periferia, o que é o inferno para quem é preto, pobre e não tem poder aquisitivo.

Interessante que, mesmo tendo sido lançado por uma gravadora independente, esse álbum alcançou a vendagem de 1.500.000 cópias vendidas. Com certeza é um disco antológico do rap. Quer dizer, não só do rap – seria reduzi-lo demais. Corrigiria dizendo: disco antológico da história da música.

A sétima música do disco, “Diário de Um Detento”, talvez seja a música mais conhecida até hoje, ganhou até clipe, conta o drama do brasileiro que vive num sistema opressor, que se mete no mundo da criminalidade, e preso e se depara com o sistema penitenciário e suas mazelas. A música conta, em primeira pessoa, a história de um sujeito que viveu na pele a vida de prisioneiro, vendo a olho nu uma vida atolada pela miséria, que deixou de viver para sobreviver no inferno.

Segundo alguns sociólogos, a sociedade humana pode ser dividida em superestrutura e infraestrutura, sendo o primeiro acima do segundo. A superestrutura do Estado é o nível jurídico-político e ideológico, ou seja, onde estão aqueles que fazem as leis, aqueles que executam a lei e aqueles que veiculam as informações (parte ideológica), as mídias, os jornais, as revistas, os sites. Na parte abaixo, na infraestrutura, estão as relações de produção de uma sociedade, ou seja, aqueles que fazem a economia funcionar de, o patrão e o empregado, o empresário e o trabalhador assalariado. Quem sustenta toda essa pirâmide social quase medieval é o trabalhador que acorda às cinco horas da manhã, se desloca da parte periférica da cidade para o centro, para mover as produções, para limpar a casa da classe média, para ficar enclausurado numa forma de trabalho estressante, nada criativa. Em cima deles, desses que precisam do emprego miserável, já que não tiveram uma boa escola no bairro, já que não tiveram familiares ricos e influentes, em cima desses é que o empresário lucra, em cima deles é que um político deita a cabeça no travesseiro e acorda com a conta cheia de dinheiro desviado da educação, da saúde e da segurança, em cima desse trabalhador da periferia que as notícias deitam e rolam contando mentiras, em cima desses que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.

O Estado, por exemplo, não é um aparelho neutro, a serviço de toda a sociedade, como os capitalistas nos pretendem fazer crer. O Estado, no fundamental, sempre tem servido os interesses daqueles que detêm o poder econômico. 

(…) Os donos dos meios de produção, tendo nas suas mãos o Estado com todo o seu aparelho: exército, polícia, tribunais, funcionários públicos, etc., tem nas suas mãos portanto não só o poder econômico como também o poder político” (URIBE, Gabriela; HARNECKER, Marta. Exploradores e Explorados. São Paulo: Global Editora, 1979, p. 38).

É uma grande farsa essa a de que cadeia serve para reestruturar o ser humano. A cadeia não passa de uma lata de sardinha onde vale a lei do mais forte, o presídio é uma sociedade que existe dentro da sociedade, com suas regras próprias, sua moral própria, sua ética, cunhada empiricamente por prisioneiros e para todos os prisioneiros. Lá dentro não existe a moral universal kantiana (“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”), não existe a justa medida aristotélica. Não existe essa moral alcançada pela razão filosófica. A prisão brasileira não tem a menor condição humana de devolver o detento reestruturado à sociedade. Isso é uma grande piada. E a cadeia só existe para os mais pobres. Rico fica em prisão domiciliar, principalmente se for político.

O médico Drauzio Varella, autor do Best-seller “Estação Carandiru” de 1999, viu de perto a situação mórbida da antiga Casa de Detenção Carandiru. Começou a trabalhar no sistema penitenciário, na parte médica, em 1989, ano em que chegou ao Carandiru. O médico, pesquisador profundo na área de estudos de câncer e AIDS, comenta em um vídeo de 2015, no seu canal, a atrocidade que era a situação dos presos consumidos pelas complicações da AIDS: “Era uma tragédia coletiva. Eu cheguei a perder, na minha enfermaria do Carandiru quatro, cinco doentes por semana. E não é perder porque um dia a pessoa morre, como todos nós vamos morrer. É uma morte muito sofrida, emagrecendo, passando mal, incapaz de comer, e trancados em celas. Foram as mortes mais tristes que eu vi na minha vida, foram lá no antigo Carandiru”.

Cada detento uma mãe, uma crença

Cada crime uma sentença

Cada sentença um motivo, uma história de lágrima

sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento,

desprezo, desilusão, ação do tempo

Misture bem essa química

Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio

Ao redor do campo,

em todos os cantos

Mas eu conheço o sistema, meu irmão,

Aqui não tem santo

No meio de tantos detentos e tantas histórias, sentenças e motivos, eis a história de um cidadão comum, é o Jocenir Prado. Preso por receptação de carga roubada e formação de quadrilha, condenado a oito anos e três meses, dos quais cumpriu quatro anos, Jocenir viveu alguns anos no Carandiru. Em entrevista a Jô Soares em seu programa, Jocenir Prado alega que foi pego como bode expiatório (expressão popular utilizada para definir uma pessoa que sobre a qual recai toda a culpa alheia, mesmo que esse alguém seja inocente) da polícia. Jocenir, nessa mesma entrevista, comenta: “Eu sofri uma série de agressões, agressões físicas mesmo, agressão moral. Então, praticamente isso fazia com que, cada vez que eu fosse dormir, eu rezava pra não acordar, só de imaginar que o dia seguinte seria a mesma coisa. (…) E quando veio minha condenação de oito anos e três meses, me bateu o desespero, então eu sabia que eu tinha que tomar alguma atitude. E eu tinha três alternativas: ou praticaria o suicídio, que é uma coisa normal dentro na prisão e pouco divulgada; ou deixava me levar pelo mundo das drogas; ou procurava de alguma forma conquistar a massa carcerária (os detentos)”.

Tem uma cela lá em cima fechada

Desde terça-feira ninguém abre pra nada

Só o cheiro de morte e Pinho Sol

Um preso se enforcou com o lençol

Qual que foi? Quem sabe? Não conta

Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta

Nada deixa um homem mais doente

Que o abandono dos parentes

Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?

A vaga tá lá esperando você

Pega todos seus artigos importados

Seu currículo no crime e limpa o rabo

A vida bandida é sem futuro

Sua cara fica branca desse lado do muro

 

Jocenir optou pela terceira alternativa. Ganhou popularidade se utilizando do conhecimento que tinha, do estudo que teve durante a vida, coisa que poucos ali dentro possuíam devido às baixas condições econômicas que tinham. Jocenir passou a escrever as cartas para aqueles que não sabiam escrever, que era a maioria. Com isso, foi ganhando respeito, isso antes de ser transferido para a casa de detenção. Após uma rebelião traumática, Jocenir prado foi transferido para a casa de detenção de São Paulo, o famoso Carandiru.

Acertos de conta tem quase todo dia

Tem outra logo mais, eu sabia

Lealdade é o que todo preso tenta

Conseguir a paz, de forma violenta

Se um salafrário sacanear alguém

leva ponto na cara igual Frankestein

Nesse período, ele já tinha algum prestígio entre os presos, era conhecido como “o tiozinho que escrevia as cartas”. Para quem não sabe, a autoria de “Diário de Um Detento” é creditada a Mano Brown e a Jocenir, que foi autor de um diário o qual inspirou a música. Jocenir viveu na pele a vida de um prisioneiro.

“Diário de Um Detento” é um relato dramático de alguém que optou pela vida sem futuro do crime, é a denúncia de como o Estado se livra daquilo que não sabe lidar, de como o Estado se comporta diante daqueles que vivem à margem da sociedade e da lei. O Estado esperou uma boa oportunidade, uma rebelião, usou isso como uma ótima justificativa para sentar o cacete em todo mundo e, de xeque-mate, provocar uma carnificina, sabe pra quê? Pra eliminar gastos, pra se livrar de uma responsabilidade social.

Foto que registra o resultado do massacre na Casa de Detenção do Carandiru ocorrido em 1992.

Dois ladrões considerados passaram a discutir

Mas não imaginavam o que estaria por vir

Traficantes, homicidas, estelionatários

Uma maioria de moleque primário

Era a brecha que o sistema queria

Avise o IML, chegou o grande dia

Depende do sim ou não de um só homem

Que prefere ser neutro pelo telefone

Ratatatá, caviar e champanhe

Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo

Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!

Sobre a música, Jocenir Prado comenta no Programa do Jô: “Na casa de detenção, nessa rotina em que eu fazia versos e cartas, eu escrevi alguns versos e em cima desses versos criou-se o ‘Diário de Um Detento’ gravado pelos Racionais MC’s. Ele (Mano Brown) fez algumas adaptações e gravou”.

Nas palavras de Drauzio Varella, em entrevista de maio de 2017 para o canal do Youtube Nexo Jornal, anos depois do grande massacre do Carandiru: “A população carcerária aumentou e as cidades continuam inseguras… ficaram mais inseguras ainda porque, antes, as cidades inseguras eram São Paulo, Rio, agora é o Brasil inteiro. (…) Então acho que a violência se disseminou pelo país, o que mostra que o aprisionamento não traz segurança. Aquele bandido que tá na rua assaltando vai preso, ele para de assaltar, mas isso não significa que haja uma diminuição da violência como um todo, que é o que a sociedade imagina, né? A sociedade acha que prendendo todos os bandidos e todos os traficantes, as cidades vão ficar seguras e os filhos das famílias não vão usar droga, o que e uma visão irreal, uma visão fantasiosa do problema”.

Ou seja, o problema só aumenta. A violência ganha cada vez mais proporções alarmantes. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, de 2016, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil (fonte: BBC Brasil, 6 de junho de 2016). A educação e a saúde públicas, dois pilares fundamentais para a gestão do bem público, não melhoram nunca e os políticos desviam cada vez mais dinheiro que deveria ser direcionado a programas sociais, às políticas públicas. O Estado, então, não cumpre seu papel. Acho, portanto, que precisamos romper esse contrato social, Sr. Thomas Hobbes e Sr. Jean-Jacques Rousseau.

Ratatatá, Fleury e sua gangue

vão nadar numa piscina de sangue

Mas quem vai acreditar no meu depoimento?

Dia 3 de outubro, diário de um detento

(Todos os versos citados nesse texto são trechos da música “Diário de Um Detento”).

“Funky Drummer”, de James Brown, é oficialmente a música mais sampleada de todos os tempos

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“Funky Drummer” é oficialmente a música mais sampleada de todos os tempos, com quase 2.000 samples. A música de James Brown, gravada em 1969 em Cincinnati, Ohio, foi lançada pela King Records em um single em 1970. A música é uma daquelas clássicas de James Brown onde o Godfather se comporta praticamente como um maestro, e seus vocais são basicamente uma condução aos membros da banda. O nome da música é graças aos solos do baterista Clyde Stubblefield.

São quase 2.000 samples, então não dá pra citar todos aqui, mas vamos a alguns que usaram toda a ginga de Brown e sua banda:

“Let Me Ride”, de Dr. Dre feat. Snoop Dogg, Jewell e Ruben Cruz

“Fight The Power”, do Public Enemy

“Mama Said Knock You Out”, do LL Cool J

“Save Me”, de Nicki Minaj

“Fuck The Police”, do NWA

O tema das Meninas Superpoderosas

“Scarlet Begonias”, do Sublime

“Run’s House”, do Run DMC

“Shadrach”, dos Beastie Boys

“Give The Drummer Some”, dos Ultramagnetic MCs

“The Magic Number”, do De La Soul

“The Next Movement”, do The Roots

“Kick the PA”, por Korn e Dust Brothers

“I Am Stretched On Your Grave”, de Sinéad O’Connor

“Separate/Together”, do A Tribe Called Quest

“Freedom ’90”, do George Michael

“Shirtsleeves”, do Ed Sheeran

“Pânico na Zona Sul”, dos Racionais MC’s

“Original Gangster”, do Ice T

E isso são apenas alguns dos que já samplearam a música. A lista completa você encontra aqui. (Vai demorar pra você ouvir tudo, já vou avisando!)

 

 

Os samples que KLJay usou para criar “Capítulo 4, Versículo 3”, dos Racionais MC’s

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“Capítulo 4, Versículo 3” foi um dos maiores sucessos de “Sobrevivendo no Inferno”, o disco dos Racionais MC’s de 1997 que estourou e colocou as quilométricas letras de Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e do DJ KLJay na boca de todo o Brasil. A música chegou a ser apresentada ao vivo no VMB de 1998, um lugar onde normalmente o quarteto não apareceria nem amarrado.

Desvendaremos agora alguns dos samples que KLJay usou para montar essa música que foi um dos passaportes que levaram os Racionais MC’s a serem o grupo de rap paulista mais conhecido do país:

O sample que vem logo após a participação de Primo Preto (aos 0:23) vem diretamente da banda War e sua “Slippin’ Into Darkness”, do disco “All Day Music”, de 1971.

Já a batida característica que acompanha Mano Brown em toda a música vem de Tom Scott and the L.A. Express e sua “Sneakin’ In the Back”, de 1974. Dá o play que você vai reconhecer logo de cara:

O famoso e belo “Aleluia” que aparece na música dos Racionais vem da gargante de ninguém menos que Sade Adu, em sua música “Pearls”, do disco de 1992 “Love Deluxe”.

Já o baixo cheio de groove veio dos Ohio Players em “Pride and Vanity”, de 1972, tirada do disco “Pleasure”.

E, finalmente, o “Filha da puta / Pá, pá, pá” é sampleado de “Eles Não Sabem Nada”, do MRN. O disco que contém a música é “Só Se Não Quiser”, lançado em 1994:

10 dos piores exemplos de que o machismo correu solto (e ainda corre) nas letras de rap

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Tem um momento no stand-up de 2004 “Never Scared”, de Chris Rock, em que ele diz que adora rap, mas não dá pra defender o estilo. Motivo: suas letras. Ele cita “Get Low”, de Lil Jon (“To the window / To the wall / To the sweat drop down my balls”) e como “é difícil defender letras como ‘I got hoes in different area codes’” e que às vezes até garotas dançam raps com letras cheias de misoginia.

Será que ele está exagerando? Se você assiste e pensa “ah, não existem letras tão pesadas como o ‘blind the bitch’ que ele brinca ali no final, vai”, acho melhor repensar. Existe coisa até pior e mais violenta que isso. Duvida? Vou dar 10 exemplos de letras machistas e misóginas do rap, mas isso é só a ponta do iceberg. Existe muito mais rodando por aí, e não só no rap: no funk, no rock, no sertanejo e em todos os estilos musicais, infelizmente, a coisa ainda tá feia.

“Fique esperto com o mundo e atento com tudo e com nada / Mulheres só querem/preferem o que as favorecem / Dinheiro e posse, te esquecem se não os tiverem”Racionais MC’s

Em “Mulheres Vulgares”, os Racionais MC’s começam dizendo que vivemos em uma sociedade feminista que considera todo mundo machista. Sério? Temos outros exemplos, como “Em Qual Mentira Vou Acreditar”, do disco “Sobrevivendo no Inferno”, de 1997, com o verso “Que mina cabulosa, olha só que conversa: Que tinha bronca de neguinho de salão / Que a maioria é maloqueiro e ladrão / Aí não, mano! Foi por pouco / Eu já tava pensando em capotar no soco”

“Slut, you think I won’t choke no whore / Til the vocal cords don’t work in her throat no more?!”Eminem

http://www.youtube.com/watch?v=lkMs2YI8x68

Ah, Eminem. Dava pra fazer um post só com os vários versos violentos, homofóbicos e misóginos do loirinho, que normalmente diz que “é brincadeira”. Como no final de “Kill You”, que contém o verso acima. Ou na faixa “Kim”, que é basicamente um diálogo em que ele espanca e mata sua ex-mulher com uma batida de Led Zeppelin sampleada ao fundo, algo como um rap torture porn.

“Bitches ain’t shit but hoes and tricks / Lick on these nuts and suck the dick.”Snoop Dogg

O verso de Snoop em “Bitches Ain’t Shit” mostra o quanto a mulher era valorizada no rap americano na época do lançamento de “The Chronic” do Dr. Dre.

“My little sister’s birthday / She’ll remember me / For a gift I had ten of my boys take her virginity.”Bizarre

www.youtube.com/watch?v=9Tin7x8OPho

Este nojento verso de Bizarre está presente em “Amytiville”, música do (adivinhem?) Eminem. O cara se orgulha de levar dez caras para estuprar sua irmã virgem, um “presente” do irmão. Isso é música que se faça, cara?

“Put Molly all in her champagne, she ain’t even know it / I took her home and I enjoyed that, she ain’t even know it.”Rick Ross

A tática que Bill Cosby supostamente usou para estuprar diversas mulheres aparece aqui na música de Rick Ross “You Don’t Even Know It”. Nojentíssimo.

“Parece que parou comigo pra me atazanar/ Me dá vontade de pegar uma arma e…/ Cala a boca! Eu tô pensando em fazer igual o goleiro Bruno / Falar que tu viajou e te mandar pra outro mundo”Shawlin

Sério que o Shawlin do Quinto Andar se comparou ao goleiro Bruno em um rap que fala sobre como ele tem raiva de “mulher chata”? Sim, a música “A Raiva” é toda sobre isso, mas este verso é de assustar qualquer um.

“E tu vem, meu coração parte e grita assim / ‘arrasa biscate!’ / Merece era uma surra, de espada de São Jorge”Emicida

Emicida é declaradamente contra o machismo, mas entrou em uma polêmica com a música “Trepadeira”, que contém o verso acima. “O tema do machismo no rap é importantíssimo e deve ser debatido e combatido, assim como na sociedade como um todo. Gostaria de lembrar que já colocamos o dedo nessa ferida ao criar “Rua Augusta”, saindo do lugar-comum da mulher como “vadia/produto/objeto”, e humanizando a imagem de uma prostituta. Muito respeito a todas as feministas (principalmente as que me xingaram pouco)”, disse ele, em resposta à polêmica.

“I fuckin’ hate you; I’ll take your drawers down and rape you / While Dr. Dre videotapes you…”D12

O D12, que conta com Eminem e Bizarre, já citados acima, novamente mostra que para eles estupro é algo comum e sem importância. Ou não é isso que esse trecho de “Fight Music” demonstra?

“Rape a pregnant bitch and tell my friends I had a threesome.”Tyler, the Creator

Tyler, The Creator é conhecido por seus “raps ofensivos”. O verso acima é uma “piada” com estupro de grávidas que aparece na música “Tron Cat”.

“And if you got a daughter older than 15, I’mma rape her/Take her on the living room floor, right there in front of you/Then ask you seriously, what you wanna do?”DMX

DMX pega pesadíssimo na letra de “X Is Coming”, ameaçando estuprar a filha de alguém na frente dos pais, caso ela tenha mais de 15 anos. Estupro, pedofilia e violência em apenas uma frase. Dá pra acreditar?

“Kabaluerê”, a música que trouxe toda a ginga samba rock funky de “Qual É”, de Marcelo D2

Quando Marcelo D2 lançou “Qual É”, estava carimbada sua passagem para o mundo do pop (mesmo ele se auto-referenciando como “Pesadelo do Pop”) e a consequente queda do Planet Hemp. Muitos samples brasileiros, um balanço que até então o rap brasileiro ainda não havia explorado com força e as letras malandras e cheias de referências à maconha (se bem que mais comedidas do que no Planet) reforçaram o sucesso com público e crítica.

Em “Qual É”, D2 já começa utilizando uma frase inteira de “Voz Ativa”, dos Racionais MC’s (“Eu tenho algo a dizer / Explicar pra você / Mas não garanto, porém / Que engraçado eu serei dessa vez”), algo que é comum no rap lá de fora, mas aqui causou um certo mal-estar entre o grupo de Mano Brown e o rapper carioca.

Porém, o sample que dá todo o balanço e “dançabilidade” da música vem de Antonio Carlos e Jocafi, com “Kabaluerê”. A música vem do disco “Mudei de Idéia”, de 1971. A dupla, nascida na Bahia, começou a carreira em 1969, no Festival Internacional da canção. Muitas de suas músicas fizeram parte de trilhas sonoras de telenovelas. Entre os outros sucessos estão “Você Abusou”, que ficou conhecida na voz de Maria Creuza.

“Kabaluerê” também foi sampleada em “Comin Thru” por Charli 2na, rapper americano que fez parte dos grupos Jurassic 5 e Ozomatti. Ficou diferente do que D2 fez com a música e usa bem o refrão e título da música.

O sample de “Vida Loka II” dos Racionais

Eu adoro pesquisar por conexões em músicas. Quando sai disco de covers, vou correndo ouvir as versões originais (normalmente, acabo gostando mais delas). Hoje, fui atrás do sample de “Vida Loka – Parte II” dos Racionais MC’s, do disco “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, de 2002.

O som que permeia todas as rimas deste clássico da trupe de Mano Brown é “Theme From Kiss Of Blood”, da Ray Davies Orchestra, de 1976. De onde tiraram esse som?

“KL Jay conta que Mano Brown produziu a faixa sozinho, e descobriu o sample (“triste, triste”, na opinião do DJ) quase ao acaso. “Ele encontrou o disco [Os Detetives] jogado num quintal. Colocou para ouvir e falou, ‘é essa’. Você vê, os diamantes às vezes estão na lama.” O tal disco era uma coletânea de temas de séries policiais interpretados pela Button Down Brass com participação do trompetista Ray Davies (homônimo do líder do Kinks). Só que a faixa escolhida para o sample, “Theme from Kiss of Blood”, era de um seriado inexistente, tinha sido composta pelo próprio Davies e foi colocada sorrateiramente na seleção – até que Brown a desenterrasse para ser a trilha sonora de motoboys a boys brasileiros” [Fonte]