Cantarolando “Novo Tempo” (1980), o bilhete premiado perdido de Ivan Lins

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Ivan Lins Novo Tempo

Já começo o Cantarolando de hoje esclarecendo que, pessoalmente, eu não consigo gostar de Ivan Lins, talvez por influência do meu pai, que sempre demonstrou antipatia e certa irritação por ele.

Mesmo sabendo que ele é um dos grandes compositores brasileiros, autor de diversos hits da MPB, trilhas de novelas e de reconhecimento internacional. Além dos artistas brasileiros, teve suas músicas interpretadas por grandes nomes gringos como Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald – aliás, não tem nada que a Ella Fitzgerald cante que não fique bom, até em português esquisito.

A canção “Novo Tempo” bombou nas rádios brasileiras no ano de seu lançamento, em 1980. Com uma letra daquelas da leva de possíveis trilhas sonoras para o movimento pró-democracia, no contexto da cada vez mais decadente – mas ainda presente – ditadura militar, “Novo Tempo” dá um tom esperançoso para os jovens ouvintes.

Porém, independentemente da letra, a canção tem um tremendo apelo pop. Tanto que chamou a atenção dos ouvidos de Quincy Jones, o então produtor do Michael Jackson. Jones, ao se deparar com as linhas melódicas, sentimentais e grudentas de “Novo Tempo”, entrou em contato com Ivan Lins para que sua composição pudesse fazer parte do repertório do novo disco solo do Michael Jackson. No caso, para fazer parte do álbum que viria a ser, até hoje, o disco mais vendido de toda a história da humanidade, “Thriller (1982)”.

A partir daí, travou-se meses de negociações jurídicas. Como acontece muito comumente em contratos de cessão de direitos autorais, a proposta era leonina – abusiva, exageradamente desproporcional. Coisa de 90% para eles e 10% para o autor. Hoje sabemos, até que não seria nada mal, financeiramente, embolsar 10% dos royalties de uma faixa do “Thriller”, sem contar a visibilidade que daria para Ivan como compositor. Mas, em 1980, Michael Jackson apesar de já ser grande, ainda não era MICHAEL JACKSON, o ícone, o rei do pop, o artista em escala estratosférica em termos de sucesso e popularidade.

Como sabemos, a canção acabou não entrando para o “Thriller”, que acabou sendo lançado antes mesmo de as longas negociações terem sido encerradas.

A parceria entre Quincy Jones e Michael Jackson rendeu três discos brilhantes – e talvez os mais importantes – da carreira solo de Michael Jackson, “Off The Wall (1979)”, “Thriller” e “Bad (1987)”. Porém, Jones sempre foi um grande admirador da música brasileira, e acabou ajudando Ivan Lins a ingressar no mercado internacional de qualquer forma, quando gravou as canções “Dinorah Dinorah” e “Love Dance” no disco do cantor e guitarrista de soul George Benson, o qual estava produzindo, chamado “Give Me The Night (1980)”. Esse disco alcançou bastante sucesso nos EUA.

Enfim, gostando ou não, tenho que reconhecer a qualidade das composições do Ivan Lins, inclusive do seu vocal. Mas agora só resta a curiosidade eterna de como teria sido a versão de Novo Tempo no Thriller – acredito eu, muito mais interessante do que a original. O próprio Ivan Lins admite que, caso tivesse aceitado o contrato, possivelmente ele estaria morando em algum paraíso como as Ilhas Fiji, desfrutando de sua fortuna. Termino com uma citação de meu pai sobre o assunto: “Se ele tivesse aceitado, todos ficariam felizes: ele, o Michael Jackson e eu, que não teria que aguentar tanto Ivan Lins no rádio”.