Rock, drama e experimentação: Siouxsie and The Banshees – “Kiss in The Dreamhouse” (1982)

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Bolachas Finas, por Victor José

Uma coisa interessante a respeito dessa banda é que o rosto maquiado de Siouxsie Sioux sobrevive no imaginário da cultura pop de modo completamente errado. Boa parcela daqueles que já viram esse semblante icônico nem sequer deram uma chance para o som, temendo ser uma coisa meio nada a ver dos anos 80. Se você é um desses, não sabe a bobagem que está cometendo. Siouxsie and The Banshees é uma das bandas de rock mais interessantes de todos os tempos.

Mesmo gostando muito desse período da música britânica, assumo que demorei um tempo para escutar com atenção os Banshees, sabe-se lá o motivo. Tive uma fase pós-punk que durou muito tempo, mas só depois de vários anos foi que parei para escutar essa discografia com calma. Lembro de ter me impressionado muito, mas muito mesmo, com os álbuns “The Scream” (1978), “Kaleidoscope” (1980) e “Juju” (1981). Achei o som dessa banda uma coisa incrível. Além da excelente voz cheia de drama e personalidade de Siouxsie Sioux, o que me cativou foi fato de que a banda consegue fazer um trabalho extremamente criativo, competente e visceral em vários níveis, num período em que o rock, de um modo geral, passava por uma forte transição que ainda determinaria o som da década.

Depois de muito escutar esses três álbuns citados acima, acabei me deparando com algo ainda mais interessante. “Kiss in The Dreamhouse” (1982), quinto álbum da banda, é um trabalho um pouco mais rebuscado. Produzido, arranjado e composto inteiramente pela banda, no LP a banda explora de verdade as possibilidades do estúdio, e com isso abandona um pouco o punk e traz um lado mais experimental, artisticamente mais denso, mas ao mesmo tempo coeso e de fácil assimilação. “Kiss in The Dreamhouse” serviu como ponte para os trabalhos posteriores, de sonoridade mais puxada para a neo-psicodelia, um sub-gênero que fez a cabeça de bandas da época como The Cure e Echo & The Bunnymen.

Seja pelas linhas de baixo a la Joy Division de Steve Severin, pelo som tribal e quase nunca óbvio da bateria de Budgie (na época, marido de Siouxsie) ou também pelas guitarras estranhas e cheias de efeito de John McGeoch, qualquer música desse disco te cativa. E, claro, Siouxsie é a força maior por trás de tudo. A feminilidade forte somada ao timbre tão característico de sua voz embala tudo de modo que pareça coerente, sem arestas. Uma curiosidade é que a cantora estava passando por complicações na garganta que poderiam ter impedido sua carreira. Por recomendações médicas ela aprimorou seu modo de cantar e o resultado pode ser percebido em algumas faixas do disco, executadas de modo mais suave.

O álbum começa com a ótima “Cascade”. A atmosfera densa, típica da personalidade da banda, ganha novos elementos com um arranjo mais maduro. Dá para imaginar facilmente essa música soando como um punk rasgado, como se ouvia em “The Scream”, mas o grupo conseguiu traduzir com um domínio impressionante sua própria linguagem, sem perder a qualidade agressiva. Siouxsie está incrível. “Green Fingers”, seguindo uma linha mais psicodélica, apresenta um riff de flauta doce e flerta bastante com outras vertentes do rock. Ali consta uma vibe muito similar ao que se encontra no LP “Porcupine”, do Echo & The Bunnymen, lançado meses depois.

“She’s a Carnival”, “Painted Bird” e “Slowdrive” dão ao disco um ritmo mais pop, mas nada que chegue a ser óbvio. Todas obrigatórias nos shows da banda na época, essas faixas sugerem a coragem da banda ao unir os princípios do punk com seja lá o que for. Parece óbvio, mas não foram tantas bandas que se deram bem ao tentar fazer isso.

Com um loop hipnotizante, “Circle” é uma faixa incrível. Sendo a mais experimental, destaca-se na tracklist como aquela que sonoramente te segura até o fim. A intensa bateria de Budgie faz um contraponto interessante com a letra que menciona um abuso sexual que a cantora sofreu quando tinha nove anos.

A performance dramática toma conta de “Melt!”, uma das melhores faixas da banda. Em ritmo de valsa, foi escrita durante a primeira excursão ao Japão, quando ganharam várias roupas, cartões e desenhos dos fãs japoneses. Nas palavras da cantora, eles ficaram derretidos com aquilo tudo.

O arranjo de cordas para “Obsession” é um dos pontos altos da obra. Esta música, carregada de erotismo, mostra a habilidade de Siouxsie com sua voz, cantando com suavidade e carregando para si uma personalidade artística irresistível. É por músicas como essa que a vocalista faz jus ao seu visual, e você percebe que todo aquele teatro não é um exagero sem propósito.

Como se não bastasse, o LP conta com um pouco de jazz. O clima de “Cocoon”, mesmo indo para outra direção, faz todo o sentido, e é por canções assim que podemos perceber como é importante o conjunto da obra. Talvez em um álbum como Juju ela não teria tanto sentido.

No fundo, “Kiss in The Dreamhouse” se trata de um ótimo exercício de experimentação e coesão. É muito difícil conseguir essas duas qualidades ao mesmo tempo. Em muitos casos isso é como óleo e água, a coisa não casa e tudo parece não ter nexo. Mas isso não é só minha opinião, isso porque na época o disco foi aclamadíssimo pela crítica. A revista Melody Maker considerou “Kiss in The Dreamhouse” o lançamento do ano de 1982, num ano em que foram lançados clássicos como “Rio”, do Duran Duran, “Nebraska”, do Bruce Springsteen e nada mais nada menos que “Thriller”, do Michael Jackson.

A própria banda afirmou diversas vezes que “Kiss in The Dreamhouse” foi seu auge criativo. Apesar disso, curiosamente, o tempo foi passando e o LP foi esquecido em partes, talvez por não conter nenhum grande hit. Somente há pouco tempo seu prestígio foi retomando fôlego, com artigos sobre o trabalho e sua importância para a época.

Eu sempre falo que o pós-punk do início dos anos 1980 é um dos melhores e mais importantes períodos do rock. Esse disco não me deixa mentir.

Os Estilhaços trazem toda a força e o fuzz do garage rock sessentista à tona

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Os Estilhaços

Saídos diretamente das garagens da Zona Leste de São Paulo, Os Estilhaços possuem a psicodelia cheia de fuzz do garage rock dos anos 60 correndo nas veias. Formada por Caio Sérgio (ex-Haxixins) (vocal/guitarra), Paulo Nobre (baixo), Alexandre Xéu (ex-Panoramas) (bateria) e Cristina Alves (órgão), a banda atesta em seu soundcloud o poder da sonoridade sessentista registrada com o equipamento analógico e o toque do produtor Jonas Morbach (The Blackneedles/Berlin Estúdio).

Após algum tempo de estrada, o quarteto agora está lapidando as músicas que farão parte de seu primeiro disco. “Os planos são de gravar algumas até o final deste ano, juntar com as outras que já temos gravadas e lançar um LP no próximo ano. Estando com o disco pronto, aí é tentar organizar uma turnê (possivelmente na Europa, onde a cena 60s é mais sólida) para divulgar o álbum”, contam.

Conversei com a banda sobre seu trabalho, a retomada da psicodelia (ou a permanência dela), a internet como meio de apoio a bandas independentes e mais:

– Como a banda começou?

Podemos dizer que a formação da banda se deu em três momentos. O Alexandre Xéu e o Paulo Nobre já se conheciam e inclusive até já haviam tocado juntos em outras bandas anteriormente. Enquanto isso, o Caio Sérgio (que tocou com Os Haxixins) foi convidado pelo Felipe Caponne para tentarem fazer um som, desenvolver algumas ideias. Como os quatro se conheciam, já era todo mundo amigo, nos juntamos e montamos a primeira formação da banda. Como a ideia sempre foi a de ter um órgão agregando na sonoridade, algum tempo depois convidamos a Cristina Alves, que acabou aceitando o convite. Com a saída do Felipe, atualmente permanecemos como quarteto.

– De onde surgiu o nome Os Estilhaços?

A banda chegou a ter alguns outros nomes provisórios antes, mas um dia, tendo em vista que faríamos o primeiro show com a nova formação (que incluía o órgão), era preciso escolher um nome definitivo, que acabou ficando “Os Estilhaços”, por conta da última frase da letra da nossa música “Atemporal” (“Os sons se fazem em estilhaços”). Então foi uma questão de necessidade mesmo (risos)…

– Me falem um pouco mais sobre o material que já lançaram.

Atualmente a banda possui algumas músicas oficialmente gravadas desde 2014 (que disponibilizamos em plataformas como o Soundcloud, etc.), e que sairiam em forma de compacto duplo. Porém, como a gente vem criando coisas novas, mais músicas e a ideia é gravá-las ainda este ano, queremos lançar um LP (mesmo que seja de maneira independente) ano que vem.

– Quais as principais influências musicais da banda?

Nossas influências são basicamente de bandas 60s de garage como o 13th Floor Elevators, Music Machine, The Seeds, Count Five, e também as nacionais como Os Baobás, Os Beatniks, The Galaxies, etc., Mas isso de modo geral, pois cada integrante tem suas influências particulares. O Alexandre ouviu muito Fuzztones, que é um garage 80s; o Paulo curte umas paradas de mod jazz; Caio conhece bastante de raridades nacionais e a Cris gosta até de uns sons 60s da Grécia, por exemplo.

Os Estilhaços

– A psicodelia está voltando? A música é cíclica, e estamos de volta a um tempo de psicodelia em alta no som?

Na nossa opinião, a psicodelia nunca deixou de existir na verdade e, portanto, não tem muito o porquê de falar em uma volta. Seja com bandas conhecidas ou não, a psicodelia é uma referência que surgiu na década de 60, mas que percorre também as décadas seguintes, de forma mais, ou menos evidente. Talvez no momento ela realmente esteja em alta, já que várias bandas atuais transitam por ela de diversas maneiras. No nosso caso, já é algo intrínseco à proposta de som que fazemos.

– Como vocês avaliariam a cena independente paulistana? As casas de show ajudam a firmar a cena das bandas autorais independentes?

Atualmente, a cena independente paulistana anda muito difícil, especialmente para bandas autorais que fazem um som mais underground. São pouquíssimas as casas que dão oportunidade e, das que dão, a maioria não pensa numa valorização do trabalho da banda. Falta um mínimo de comprometimento, seja em oferecer um equipamento de som decente, pagar um cachê justo (isso quando pagam) e acaba parecendo que os músicos estão ali fazendo um favor. Bandas boas existem muitas, o que tem faltado é espaço, mesmo numa cidade enorme como São Paulo.

– Vejo que vocês usam bastante a internet para divulgar a banda. Acreditam que ela auxilia a vida do artista independente?

Sem dúvida a internet auxilia demais. Sem ela, seria muito mais difícil para as bandas alcançarem o público que se atinge hoje em dia. Já teve podcast na França tocando nosso som, por exemplo, algo praticamente inimaginável se não fosse a internet. Outro exemplo são Os Haxixins, que foram “descobertos” na Europa em tempos de MySpace. Acreditamos que toda ferramenta que possa auxiliar a banda a levar seu trabalho mais longe é muito válida.

Os Estilhaços

– Quais os próximos passos da banda?

Como comentamos antes, estamos em uma fase de criação, trabalhando em músicas novas. Os planos são de gravar algumas até o final deste ano, juntar com as outras que já temos gravadas e lançar um LP no próximo ano. Estando com o disco pronto, aí é tentar organizar uma turnê (possivelmente na Europa, onde a cena 60s é mais sólida) para divulgar o álbum.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Algumas bandas atuais (nem tão novidades assim) que nos chamam a atenção e temos acompanhado são o Mystic Braves, Messer Chups, o próprio Tame Impala, Vintage Trouble… No mais, sempre acompanhamos as bandas independentes do pessoal aqui da zona leste e dos amigos que estão fazendo um trabalho autoral bacana como Os Skywalkers, o Continental Combo, Os Tulipas Negras e mais um monte…

“Kurious Eyes” mostra o som “pós-punklore” performático do duo La Burca

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La Burca

O “pós-punklore” performático do La Burca vem diretamente de Bauru, no interior de São Paulo, e desde 2011 mistura em seu som diversas influências de pós-punk, folk, grunge e punk rock, entre muitas outras coisas. “Tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos)”, conta Amanda Rocha (vocais e violão), que junto com Lucas S. (bateria) já lançou três discos: os EPs “La Burca” (2013) e “She Goos to Flowers” (2015) e o recém-lançado disco “Kurious Eyes” (2016).

Sobre o novo trabalho, Amanda conta que optaram por gravar o som ao vivo. “Usamos alguns ruídos e calmarias que podem permear um show. Um exemplo é a música ‘HHH’, um improviso-hino-randômico-ao-amor feito em parceria com Marcos Tamamati (Bertran de Born, Acromo) na guitarra, que também toca na instrumental ‘Goos’”. O disco contou também com as participações de Vanessa de Michelis (guitarra) e Jiulien Regine (percussão), do Post e da banda de Sara Não Tem Nome, na música “She Thrills”. As faixas contam com temas como o amor entre mulheres, preconceito, empoderamento e muito mais.

Conversei com Amanda sobre a carreira da banda, o “pós-punklore”, o machismo no meio musical e suas inspirações musicais:

– Como a banda começou?

Começamos em 2011. Eu pensava em algo mais acústico, meio neo folk… Tinha muito som parado e tava incomodada de não mostrar. Aí demos um break,  mudei de cidade e o Lucas se enrolou… Voltamos no final de 2012, ensaiamos uns 2 meses e gravamos ao vivo. Curiosidade: o primeiro show foi em fevereiro de 2013 com o lançamento do disco “La Burca”, D.I.Y. Antes de chamar o Lucas tentei algo cênico com um maluco, mas surtamos no primeiro ensaio e não rolou. Ia ser um acústico violento (risos).

– E porque “La Burca”?

Hmmmm… Foi tudo meio instintivo… Fiz um som instumental com esse nome e um desenho – que seria a capa do disco com o nome “La Burca”. Tem a ver com libertação/opressão/se salvar de si mesma. O nome da banda foi uma consequência ao que já tinha feito, “batizado”.

– E porque mudou de estilo? Como você definiria o som da banda?

Não cheguei a mudar, sé adaptei mais, porque tudo se comunica,  tenho sons mais pro folk e outros que ganharam peso com bateria. Aliás, bateria que passo mais ou menos o que quero e ele adapta. Então, pensei no termo post-punklore, porque são as misturas sonoras mais significativas pra mim: post punk, punk e folk.
Só faltou o grunge (risos). Eu escutei um som que o cara falava “this is punklore”, ou eu acho que escutei isso e ficou martelando… Porque casava com o que fazia/faço.

– Quais são as principais bandas e artistas que influenciaram o La Burca?

Vixe, tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos). Escutei e escuto muito post punk, MercenáriasHermeto Paschoal,  música clássica surrealista… Ravel, Satie, Debussy… punk… Subhumans, Germs, Ramones, Slits, Husker Du, Minutemen, mas Dead Moon, Wipers e Hazel moram no coração… Fora o grunge, claro, afinal sou dos anos 90. Outra coisa que amo muito escutar é Durutti Column e… “Neil Young é meu pastor e nada me faltará!” Também curto muito no wave, Lydia Lunch, Mars, James Chance… Krautrock – Can, Faust, Amon Dull… Lucas escuta muita coisa também, Novos Baianos, hardcore,  big band orquestras… Ufa! Sou fotógrafa, e vou parafrasear um fotógrafo – Duane Michals – com esta frase: “Eu sou um reflexo, musicalizando outros reflexos com seus reflexos”.

La Burca

– A música ainda é um meio muito machista? Como você vê isso?

Sim,  a sociedade é machista e o rock não fica de fora. Acho que o tempo todo somos postas à prova.  Tipo “será que ela sabe tocar?”, “Vamo ver qualé dessa mina”. Ssei que é um pensamento corrente em mentes estúpidas.  Toco há 20 anos no underground e não estamos isentas num nicho a priori “libertário e alternativo”. Muitas barreiras vêm sendo quebradas nesse meio musical, sejam eventos voltado às minas, só com bandas de mulheres ou majoritamente, há um fortalecimento e empoderamento necessário em andamento, mas é uma luta constante contra o machismo. Às vezes penso que é infindável. O rock é um reflexo da sociedade, um produto dela e temos que reverter esse “produto” em algo igualitário, condizente com a realidade das mulheres que produzem, tocam, cantam.  Enfim, (r)existimos.

– Fale um pouco mais sobre o material que a banda já lançou.

Lançamos o primeiro álbum em 2013, o homônimo “La Burca”, no esquema do it yourself. Gravamos em um estúdio em Agudos e produzimos e distribuímos nós  mesmos. Lançamos ele junto ao nosso primeiro show.
São 9 sons que mostram essa pegada “post-punklore” com sons mais sussa e acelerados. Gosto muito dele porque foi tipo uma libertação pra mim, em vários sentidos.  Enfim. Lá tem “Similar” e “Diário de uma Sombra”, opostos que se comunicam.  Punk grungístico e som instrumental. Adoro musica instrumental-minimal. Esses dois sons tem uns clipes maneiros no nosso canal do YouTube (“maneiros”, gíria idosa). É um disco especial que já mostramos os lados que curtimos. Como “Kid Kid Kid”,  balada post punk “psicodélica” e “Excuse from the Universe”. São sons que eu tinha “empoeirados”,  guardamos desde 2001… que se misturaram e deram nele. Os desenhos do encarte desse disco foram influenciados pela HQ “Bloody”. Gosto muito de HQS literárias e tals…  O clipe de “Diário de uma Sombra” também tem uma pegada Sandman. Eu usei imagens do meu livro “A Imagem no Museu do Sonho – Uma Visão Imaginária de Sandman”. Lancei o clipe junto com o livro em 2014. Na real tento unir as artes que faço,   som e imagem. Já o EP “She Goos to Flowers” que antecede o “Kurious Eyes”, a capa foi feita por minha namorada Aline, que também é fotógrafa. Lançamos 3 sons nesse: “Goos”“Flowers of Romance” e “She Thrills” – esta música gravada com a Post Vanessa de Michellis na “outra” guitarra e Jiulian Regine na percussão, ensaiados uma hora antes de gravar e rolou. O nome-frase do disco é um analogia aos sons. Elas também tocam com a Sara Não Tem Nome. Ah, gravamos tudo ao vivo sempre, exceto a voz nesse segundo que preferi regravar separado. “Goos” também teve participação na guitarra com o Marcos Tamamati, que também toca em um duo, Bertran de Born. Lançamos tudo por nosso selo, punklorecords! “She Goos to Flowers” é do final de 2015. Agora em julho lançamos o álbum completo “Kurious Eyes”, também com 9 sons. Tamo aguardando pra setembro o vinil pela Lombra Records, de Brasília. Capa e arte também assino. Foi um disco mais trabalhoso, um parto, mas nasceu saudável (risos). A gente tava muito ansioso pra mostrar sons novos… Tocamos eles já faz um tempo em shows, com exceção de algumas.

– O que você acha da atual cena independente no Brasil?

Acho que existem várias cenas, é bem amplo o aspecto de cenário brasileiro. Ficamos mais na região sudeste, centro oeste paulista, então a percepção daqui é uma… Fomos agora pro DF lançar o disco novo, baita rolê lindão, diga-se, e vimos bandas tão distintas e tão próximas também entre elas… Há um emaranhado sonoro complexo de bandas instrumentais ótimas, por exemplo, post punk, sludge doom.. tanto daqui quanto dali. E os duos também, há uma cena incrível de duos espalhada… Tipo Sulfúrica Billi do Maranhão, Cassandra de Curitiba, Post de Belo Horizonte, Magnetita e Projeto Trator de SP, Muñoz de MG, Betran de Bauru… O problema é ficar ensimesmado e não ter troca, ficar fechado numa cena só de uma cidade… Na panela gordurosa. Aí não vira. Há muita música acontecendo.

– Você falou sobre duos. Porque este formato ficou tão popular depois dos anos 2000?

Não sei ao certo, mas pra mim foi pela facilidade de tocar, estava já meio esgotada do formato quarteto ou trio.  Menos é mais, às vezes (risos). Menos gente, menos problema. Como pensava em algo mais intimista e minimal,  o duo foi uma solução já pronta.

– E você acha que a cena do rock pode algum dia sair do underground e voltar às paradas de sucesso, como já rolou nos anos 90?

Vixe,  quem sou eu pra responder,  né?  Creio que todxs do meio  gostariam de ouvir algo decente nas rádios e não o lixo que desce ondas abaixo.  Tudo o que é novidade vende.  O grunge foi assim e além de ser novidade na época era e é boa música.  Havia um contexto cultural efervescente e dinâmico de bandas,  produtores. Hoje há apenas o mercado e sem qualidade,  ficamos restritos a um cenário que “celebra a si mesmo”.  Acho difícil,  hoje tudo é nicho.

La Burca

– Mas você acha que isso é culpa da internet e a queda da cultura do álbum, da Mtv Brasil e do fácil acesso aos singles em streaming ou algum outro fator? A culpa é do público ou do mercado?

Tá todo mundo acomodado!  A culpa é do governo (risos). Hoje é outro contexto de se ouvir  música.  São novos tempos e creio que estamos em fases de adaptação.  Mas prefiro a velha escola.  Vinil,  K7, CD.

– Quais os próximos passos do La Burca em 2016?

Divulgar o novo disco – “Kurious Eyes” – onde pudermos, ir pra outros Estados, ampliarmos os palcos. E tamo aguardando o vinil pela Lombra Records também,  vai rolar show em SP em setembro possivelmente com o lançamento.

– Recomende bandas e artistas (de preferências independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Os duos Luvbugs e Fronte VioletaLiniker e os Caramelows, Sociopata, Mais Valia, Sara Não Tem Nome, Gattopardo, Jussara Marçal, Giallos, Post, Krokodil, Rakta! Porno Massacre também é louco. Glassbox. Tem muita banda que escuto randomicamente… Inclui Blear!  Tô pirando com o novo,  foda demais. Acho legal falar de bandas antigas também que cresci ouvindo e ainda ouço: Pin Ups, Brincando de Deus, Snooze, Eddie, Second Come… Isso graças aos zines que chegavam, tipo o Scream & Yell… Época linda e ingênua, sem a precocidade imediatista de sucesso da internet.

As portuguesas Anarchicks metem o pé na porta com “We Claim The Right To Rebel and Resist”

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Anarchicks

Se a música é a arma, elas são o gatilho. Este é o mote do quarteto de Lisboa Anarchicks, riot grrrl à portuguesa com muito para dizer. Formada por Marta Lefay (vocal, synth, guitarra), Katari (bateria), Synthetique (baixo) e Aim (guitarra e baixo), a banda está na estrada desde 2011 atirando sua música em todas as direções com o dedo do meio levantado e sem dar satisfações a ninguém.

O quarteto lançou neste ano o álbum “We Claim The Right to Rebel and Resist”, primeiro com a vocalista Marta Lefay e uma obra que visa empoderar as pessoas e chamar atenção à necessidade de reclamar por seus direitos e lutar pelo que é justo. O som é punk rock com influências de electro e rock and roll e o disco contou com a participação de Peaches na faixa “Sloppy Seconds”.

Conversei com elas sobre o disco, a cena portuguesa, o machismo no meio musical e o disco anterior, “Really?”:

– Como começou a banda?

A banda começou em 2011, após Helena Andrade (baixo), Priscila Devesa (vocalista prévia) e Catarina Henriques (bateria) se terem juntado numa sala de ensaio, com o desejo de fazer música rock. Ana Moreira (guitarra) juntou-se de seguida, e pouco depois foi lançado o primeiro EP digital: “Look What You Made Me Do”. Seguiram-se diversos concertos e a banda lançou o primeiro album “Really?!”, que as levou a diversos palcos nacionais, entre eles o Vodafone Mexefest, onde tocaram num autocarro, e o palco principal do festival Super Bock Super Rock, onde tocaram ao lado de nomes como Azealia Banks e Arctic Monkeys. Pouco depois Priscila deixou a banda e com a nova vocalista, Marta Lefay, a banda conquistou palcos internacionais (Festival Europa Sur em Cáceres, Espanha; Festival Theater der Welt em Mannheim, Alemanha; Le Tetris em Le Havre, França; La Machine du Moulin Rouge em Paris, França) entre outros nacionais. Fizeram inúmeras colaborações (Da Chick, Peaches, António Calvário, entre outros) e em maio deste ano lançaram o seu segundo álbum, “We Claim the Right to Rebel and Resist”.

– Como o punk rock se mantém vivo depois de tantos anos?

Pela capacidade de reinvenção! O punk é mais do que um estilo musical, sendo na nossa opinião transversal a todos os estilos de arte. É toda uma atitude de vida, de reivindicação e de apelo à luta pelos direitos dos seres vivos. Desde que haja injustiça no mundo, vozes dissidentes surgem. E que arma fantástica é esta que escolhemos e nos escolheu, a música, para atingir as pessoas mesmo no cérebro!

– Quais são as principais influências da banda?

Tudo o que nos rodeia. A música que ouvimos e com a qual estamos em contacto assim como todas as nossas experiências de vida.

– Me falem um pouco mais sobre o disco “Really?”. Como ele foi criado?

“Really?!” Não querem antes falar do nosso novo álbum? (risos) Este album já saiu há três anos, foi muito bom, vivemos muito com esse disco e tivemos contacto com muitos palcos, pessoas, experiências. Foi um álbum de criação muito espontânea, numa altura em que a banda se sentia a borbulhar com ideias e havia uma necessidade muito urgente de ter um trabalho editado.

Anarchicks

– E este ano veio o segundo álbum, já com a Marta nos vocais.

Sim! Que já está nas lojas! Chama-se “We Claim the Right to Rebel and Resist”, do qual estamos muito orgulhosas. Este álbum já surgiu num processo mais gradual, que nasceu nos ensaios. Todas essas ideias foram trabalhadas, até toda a banda se sentir satisfeita com o resultado. Todo ele gira em torno do conceito “We Claim the Right”, que visa dar um bocadinho de empoderamento às pessoas, chamando a atenção para a necessidade de reclamarmos os nossos direitos e de lutar por aquilo que achamos justo. Tivemos a ajuda do nosso produtor Fernando Matias em conceber um trabalho que tem tanto de homogéneo pela mensagem como de heterogéneo pelas músicas, com diversas dinâmicas e momentos. Temos também a participação da incrível Peaches na faixa “Sloppy Seconds”. Ouçam!

– O machismo continua acontecendo com frequência no meio musical? Vocês já sofreram com isso?

Sim, infelizmente. Começado pela necessidade constante, por parte dos media, em “rotular” a nossa música como “rock feminino” em vez de apenas rock. Quantas bandas existem de composição mista, ou com composição maioritária de mulheres? Desde sempre tivemos de lidar com comentários e críticas inapropriadas, relacionadas com as nossas características físicas, a nossa música e até a nossa capacidade de saber usar os nossos instrumentos. E infelizmente isto é global, senão vejamos por exemplo a questão que veio parar às redes sociais passado Janeiro sobre o publicista musical Heathcliff Berru, do Life or Death PR e todos os casos relatados de abuso sexual de mulheres, ou as declarações da cantora de Chvrches, Lauren Mayberry, relativamente à misoginia na música. E os exemplos e relatos repetem-se… Temos que ter esperança e lutar por um mundo melhor, com mais justiça e igualdade. Só o facto de existirmos enquanto músicas já é uma luta e uma reivindicação. E a luta tem de ser feita diariamente.

– Como está a cena musical independente de Portugal hoje em dia?

Há muita coisa a acontecer, que por vezes pode ter uma visibilidade mais pequena uma vez que o nosso meio underground é pequeno. Mas julgamos que toda a crise que temos atravessado está a fazer brotar muitos músicos e artistas, e muitas pessoas estão a usar a internet como meio de divulgarem o seu trabalho. Por isso basta procurar, há muita música boa em Portugal!

– Qual a opinião de vocês sobre os serviços de streaming? Eles são benéficos para bandas independentes?

Sim, obviamente. A música deve ser livre para para o mundo, não deve estar atrás de barreiras inacessíveis. Porque se a música e a cultura estiverem atrás de barreiras intransponíveis acabam por não cumprir o seu propósito, que é chegar ao maior número possível de pessoas. A internet permite que haja uma democratização das bandas, da música, e das ferramentas necessárias para se fazer arte.

Anarchicks

– Quais os próximos passos das Anarchicks em 2016?

Queremos dar concertos e mais concertos! Queremos que a nossa música ultrapasse fronteiras! Estamos já a trabalhar novas músicas para o terceiro álbum!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Há muitas pessoas a fazer música muito boa! Por exemplo D’Alva, Mad Moizel, Sequin, Godmother, Quartet of Woah, Batuk, Rui Maia, Alexander Geist, Pega Monstro, Peaches, entre outros.

“Rock’n’Roll Theater”, o musical punk DIY de Tim Armstrong inspirado nos clássicos dos 50’s

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Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Em 2013, o site especializado no nicho punk/ska/hardcore Dying Scene fez uma lista para tentar calcular “aproximadamente” a fortuna de figuras ilustres do punk americano. Nessa lista na oitava posição estava Timothy Ross Armstrong, mais conhecido como Tim Armstrong. Para quem não está familiarizado, Tim é vocalista do Rancid, co-fundador do lendário Operation Ivy, vocalista e guitarrista do Transplants (ao lado de Travis Barker e Skinhead Rob) e dono da – subsidiária da Epitaph Recods – Hellcat Records.

Além disso ele tem um modelo Gretsch assinado por ele, réplica da que usa em seus shows. Além disso, também é produtor musical e tem em seu currículo um excelente disco solo (“A Poet’s Life”) em que é acompanhado ninguém mais ninguém menos que o Aggrolities.
Ah, ele também ganhou um Grammy pela produção do disco de Jimmy Cliff, Rebirth”, não podemos esquecer deste detalhe. Segundo o portal, sua fortuna gira em torno de uns 13 milhões de dólares.

Davey Havok é o sétimo da lista. O vocalista do AFI – que esteve na Lollapalooza de 2014 – conseguiu ao longo de sua carreira uma boa grana. Em parte por acordos milionários com majors. Alguns consideram isso vender a alma para o diabo (guarde essa informação).

Tendo como curiosidade ter participado até de um filme com Rob Lowe, o drama policial: Knife Fight” (2012). Um dos poucos músicos que pode dizer em alto e bom som: vive da música que faz. Na matéria, o Dying Scene estimou sua fortuna em cerca de 20 milhões de dólares, nada mal, não?

Tudo isso é só para explicar que para eles, dinheiro não é problema, especialmente para convencer pessoas influentes a toparem suas aventuras. E eles têm uma mente brilhante e um nível cultural invejável, então acredite: sabem o que fazem. Tim sempre foi um artista engajado, sempre apoiou artistas, participando de inúmeras parcerias e videoclipes de outras bandas, o que o tornou um cara bastante querido por todos ao seu redor. Mas ele não tem limites e a cada dia prova isso: há pouco tempo ele fez um ambicioso projeto em que lançou mais de 60 versões de músicas em estilos inusitados, o Tim Timebomb and Friends. Nele fez versões curiosas de Bob Dylan, The Selector, The Specials, Sham 69, clássicos oldies, reggae, entre outros. Mas o mais legal mesmo era o carinho e como trabalhava para que cada clássico soasse “vintage” e respeitoso.

O projeto ganhou vida um ano depois do outro que falaremos hoje. Depois dessa senhora introdução, vamos ao assunto de hoje: Rock’n’Roll Theatre.

Pois é, Tim estava animado em fazer algo inédito em sua carreira: um “Tv Show” musical. Porém em um formato não muito convencional (ao menos em 2011, ok?). O músico, inspirado por coisas como Twilight ZoneThe Rocky Horror Picture ShowThe Outer LimitsThrillerOne Step BehindAlfred Hitchcock Presents – em sua maioria shows de TV da década de 50 – resolveu fazer um mash-up desses antológicos shows e fazer seu próprio musical.

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

De uma maneira um pouco diferente do habitual: lançar de pouco em pouco pela plataforma VEVO. Ele apropriou-se da voz do narrador, e ao invés de atuar, ele é a voz oculta que te conduz durante a história toda em episódios curtos em formato de websérie. Mas ele não caiu de paraquedas nesse projeto ambicioso sem respaldo de pessoas importantes e que sabiam o que estavam fazendo. Ele convocou um senhor time para o acompanhar:

  • David Robertson: Produtor do Eminem, Metallica, Britney Spears e Madonna. Convocado para ser o produtor da série.
  • Para diretor, ele escalou Kevin Kerslake, responsável por guiar a direção estética de toda uma geração rockeira que entrou na MTV na década de 90 como Nirvana, Smashing Pumpkins, Green Day e, claro, Rancid.
  • Michael Rooney, diretor de coreografia: conhecido pelo seu trabalho no premiado clipe “Praise You” do Fatboy Slim, dirigido por ninguém menos que Spike Jonze. Outro coreógrafo que participou do projeto foi o ator Christopher Walken.
  • A conhecida atriz Marie Vernieu (“Cisne Negro”, “Sin City”, “O Lutador”) participa.
  • Os episódioscontam com figuras ainda mais ilustres em seu elenco, os músicos e amigos do peito Lars Frederiksen (Rancid, The Old Firm Casuals, Lars Frederiksen And The Bastards, ex-U.K. Subs), Dayvey Havok (AFI) e Fishbone.
  • Logo no primeiro episódio, “Dante”, Robert David Hall, da popular série “CSI” faz uma participação. Mas a série de 12 episódios não se limita a isso.

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

O plot é divertido e em entrevistas, Tim contou como o espírito colaborativo ajudou no processo. O papel de Dante, por exemplo, foi interpretado por Lars Frederiksen. Dante é um corporativista caricato e toda sua indústria está focada na dominação, opressão, humilhação e milhões de inimigos. Suas relações humanas todas são palpadas a troco de dinheiro e favores devidos. Algo meio máfia, no melhor estilo “O Poderoso Chefão”… Mas um pouco menos romantizado. A primeira parte da série é justamente sobre sua queda e sua chegada ao Inferno. Isso seria um spoiler, se não fosse tão óbvia a sequência de narrativa. Através de cenas divertidas e clichês de danças coreografadas em escritório e atuação mandrake de Lars, ele tem sua morte consumada.

Ainda no limbo, quando descobre que morreu, é abordado por Fishbone, que toca seu trompete com uma máscara macabra de caveira para anunciar seu destino: a ida para o Inferno. Chegando lá, Dante descobre que para ele o inferno na real é um grande paraíso. Isso, claro, antes de descobrir que teria que vender sua alma para o Diabo. Lembram da informação que falei que era para guardar? Pois bem, chegou a hora. O diabo traja um elegante terno rosa e tem seu penteado lambuzado em gel. Com essa classe e estilo fica difícil esconder que o Diabo na realidade é Davey Havok. Segundo Tim, o vocalista do AFI amou fazer o capeta, e ao menos para mim ele encara o tinhoso com a mesma astúcia que teria se tivesse interpretando a Pantera Cor de Rosa. O pior de tudo é que ele atua bem e convence no papel.  Mas sem spoilers, porque vocês vão ter que ver!

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

Aproveitando o fato de ser músico e a dificuldade de vender discos na era do download e streaming, Armstrong conta que compor um disco para a série foi uma das coisas mais divertidas. Pegou o telefone e começou a discar para seus famosos amigos como Jack Grisham (vocalista do T.S.O.L.), os próprios  Fishbone e Davey Havok, entre outros. Diz que o ânimo foi tanto que em poucos dias tinha 50 canções prontas para seus 12 episódios. O disco foi entregue como “bônus” para quem comprasse o DVD do primeiro episódio da websérie. Pois é, nem sempre se vive apenas de contratos milionários…

“Pessoas não estão comprando tantos discos como elas costumavam fazer, então você tem que descobrir outras maneiras para conseguir divulgar seu trabalho. E eu definitivamente estou aberto a qualquer ideia que faça com que as músicas cheguem a elas”, contou em entrevista para a revista Rolling Stone.

Tim então propôs até em nota através do site da série que quem pagasse a quantia de 5 dólares receberia o episódio em alta resolução e o disco para download. Ele ainda faz um apelo no site através do recado: “Olá a todos, estamos lançando hoje o primeiro episódio de Rock’n’Roll Theatre, chamado “Dante”, em sua totalidade, mais um álbum meu cantando canções compostas para diferentes episódios da série em que estamos trabalhando.  ‘Rock’n’Roll Theater’ é uma série 100% D.I.Y., então se vocês realmente comprarem por $5 dólares, no lugar de baixá-lo ilegalmente, eu ficaria entusiasmado. Obrigado pela sua ajuda. – Tim.”

Bom, como podemos ver num rápida procura pela internet, o sonho de Tim de ter uma série com 12 episódios desmoronou. Talvez porque em sua tentativa em 2011, Tim ainda não tinha entendido como a indústria passou a funcionar. A base do consumo e pouco afeto pelo produto ou arte consumida, tudo virou meio descartável após duas ou três audições. E não foi só ele que errou muitas vezes tentando entender um mundo onde música/cinema/artes em geral eram consumidas para gerarem dinheiro para o topo da cadeia.

A pirataria de certa forma se transformou e solidificou, sendo um pé nas costas dos produtores de conteúdo e cultura. Uma pena, pois quem assiste “Dante” quer ver a brincadeira com os musicais – com um tom de humor sarcástico e cheio de boas inspirações e repletos de pastelão – continuar por mais tempo. Bom, não percam tempo e assistam, vale a pena.

Don’t Dream It, Be It: os delírios punks de The Rocky Horror Picture Show

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Rocky Horror Picture Show

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Não é de hoje que o punk rock se mistura com cabarés no melhor estilo Moulin Rouge. New York Dolls disse olá. Musicais são um território a parte como o maravilhoso “Hedwig & Angry Inch”, “O Fantasma da Ópera”, entre outros. Tributos punk sempre são divertidos porque você simplesmente não imagina que aqueles caras iam se meter a fazer um lance desses. Tributo à Disneyworld, Tributo aos cartoons de sábado de manhã… acredite se quiser: existem.

Seriados têm trilhas tão emblemáticas que não devem ser ignorados, alguns são verdadeiras escolas musicais, como a audaciosa trilha de How I Met Your Mother, que se atreveu a mostrar grupos como Guided By Voices, The Walkmen e Pavement para uma galera que talvez nunca daria a mínima para eles.

E pensando nisso que em uma conversa com o João ele chegou com a ideia de me oferecer uma coluna por aqui. Aceitei sem pensar duas vezes esse voto de confiança pois sempre me interessei por esse tipo de assunto e corria para ver a ficha técnica de filmes, séries, além da curiosidade por esses tributos de certa forma “exóticos”.

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E nada melhor como começar com um senhor tributo, a talvez um dos mais cultuados musicais da história do cinema: The Rocky Horror Picture Show. Mas antes vocês precisam saber de um detalhe que muda tudo: antes de se tornar um filme, existia um musical (de teatro) e um livro escrito por Richard O’Brien.

O enredo na verdade é um bem humorado tributo aos filmes de ficção científica e filmes B do período de 1940-1970. Sendo assim, o musical conta a história de um casal recém casado que é pego de surpresa por uma tempestade. Com medo do temporal, eles acabam batendo na porta de uma casa com um ar freakie mal assombrado e são recepcionados por um travesti cientista que está no meio de um projeto audacioso: uma espécie de Frankenstein feito artificialmente, um crescido e musculoso “homem” chamado Rocky Horror, que leva consigo “um cabelo loiro e um bronzeado para ninguém colocar defeito”, segundo o cientista maluco.

The Rocky Horror Show ao vivo no Royal Court Theatre (Londres) em 1973.
The Rocky Horror Show ao vivo no Royal Court Theatre (Londres) em 1973.

A partir daí a confusão está montada e a jornada desesperada do casal se inicia (mas sem spoilers, por aqui não teremos esse tipo de estupidez: podem ficar tranquilos). A primeira vez que o espetáculo foi encenado foi no dia 16/06/1973 no Royal Court Theatre, em Londres, e teve como diretor Jim Sharman.

Scrypt da peça original
Scrypt da peça original

O sucesso foi tão grande que a peça ficou em cartaz por 7 anos. Foram quase 3000 apresentações e muitos prêmios por parte da academia local. Não demorou muito para a Broadway abrir o olho e ver uma oportunidade. Em 1974, Los Angeles teve sua primeira versão em território norte-americano. mas o destaque na terra do Tio Sam foi no ano seguinte, quando o Belasco Theatre foi palco para a versão da Broadway.

Sucesso em todo lugar que passou, o musical tem uma trilha de dar inveja a qualquer compositor. As letras são teatrais em sua essência e os diálogos são bastante ricos e filosóficos. Se tornar um símbolo cult era apenas questão de tempo.

filme
O filme teve a participação de elenco de todas as principais peças no eixo EUA-Inglaterra

Em paralelo a isso veio a ideia do musical para o cinema, uma parceira dos norte-americanos com os ingleses, com Jim Sharman no comando mais uma vez. O musical contou com atores de primeira linha como Tim Curry, Susan Sarandon Barry Bostwick, além do casting da Royal Court, do Roxy Theatre e do Belasco. Para manter a essência, o filme foi gravado em Londres. Curiosidade para os cinéfilos: alguns cenários foram reutilizados da produtora que participou do projeto, a Hammer Film Productions, que já tinha em seu currículo um vasto catálogo de filmes de terror.

Sue Blane foi a grande responsável pelo figurino e depois ganhou um grande reconhecimento e uma verdadeira legião de seguidores. A aproximação com o punk vem desde aí, quando Sue foi atrás da vestimenta e características do punk para montar o figurino. A maquiagem pesada, as tachinhas e o exagero na vestimenta das personagens no filme não são mera coincidência.

Os croquis de Sue Blane
Os croquis de Sue Blane

Tanto que anos depois de ser lançado, além de ser mantido em cartaz, muitos iam trajados com os figurinos das personagens às sessões. A cena era comum na cidade de Nova Iorque. Uma outra curiosidade é que mesmo mais de 40 anos depois de seu lançamento, ainda é a peça musical mais longa da história do cinema.

Cosplayers na Comic Con de Nova Iorque
Cosplayers na Comic Con de Nova Iorque

Seu legado até hoje chega às novas gerações e as conquista rapidamente. O tom de deboche, as causas sociais e o mundo mágico do teatro ainda fazem da peça-musical-filme um tremendo produto e a porta de entrada para esse encantado universo da dramaturgia.

Na segunda temporada de Glee, mais precisamente no episódio 5, que foi ao ar em 2010, rolou um tributo ao musical, “The Rocky Horror Glee Show”. Um senhor tiro no pé, diga-se de passagem. Quem não gostou nada disso foi o criador Richard O’Brien, que se expressou de maneira muito desapontante sobre a diluição do tema do musical. Achou super pejorativa e desqualificada a abordagem.

A releitura feita pelo pessoal do Glee os deixou em uma tremenda saia justa
A releitura feita pelo pessoal do Glee os deixou em uma tremenda saia justa.

Quem não ficou nada feliz também foi um representante da organização Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, que criticou o episódio como pejorativo pelo uso do termo “tranny” (uma versão debochada e pejorativa do termo “travesti”). Por outro lado, a revista Rolling Stone disse que foi o melhor episódio da história. Já o pessoal da A.V. Club falou: “a pior hora na história da série”.

Enfim chegamos ao tributo do dia: The Rocky Horror Punk Show. E que tributo, meu amigo. A iniciativa partiu pelo selo indie californiano Springsman Records no ano de 2003. A ideia era simples… E se as músicas do importante musical fossem tocadas em versões punk em seus diversos seguimentos?

Tributo punk ao musical contou com figurinhas carimbadas do punk californiano.

E a curadoria foi um show a parte.

O supergroup Me First & The Gimme Gimmes não poderia ficar de fora de um tributo de um selo californiano. O grupo tem integrantes de importantes bandas da região como NOFX, Swingin’ Utters, Foo Fighters e Lagwagon. Então a missão foi até que tranquila para eles, já que o projeto realiza covers desde o dia 1 de banda, estando juntos desde 1995. A versão escolhida foi a de “Science Fiction/Double Feature”. Quem canta na faixa é Joey Cape (Lagwagon), e a versão ficou com uma levada oldies mesclada com punk rock. Sing-alongs e aquela vibe powerpop são perceptíveis no conjunto da obra. Moshar ao som de The Rocky Horror Picture Show nunca foi tão possível.

“Dammit, Janet” foi a escolhida pelo Love Equals Death e tem uma levada mais pesada, quase hardcore, com bateria 1-2 e descendo a marretada no bumbo. A banda que já não existe mais contava com membros de bandas como Tsunami Bomb e chegou a estrelar no casting da Fat Wreck Chords.

O Alkaline Trio não poderia ser escolha mais do que acertada neste tributo. O vocalista Matt Skiba, que tem se aventurado paralelamente hoje em dia no Blink 182, é fã fervoroso do universo dos filmes de terror e do ocultismo a muito tempo. Tanto que algumas músicas do grupo soam um pouco macabras, misturando drogas, filmes B e poesia gótica. “Over at the Frankenstein Place” ficou perfeita, cheia de escuridão e melodia acertada nos vocais.

“The Time Warp” foi interpretada pelo The Groovie Ghoulies. Uma das bandas mais legais que já existiram no cenário punk/bubblegum dos EUA. Escola Ramones, The Queers, Riverdales e tantas outras que nunca nos cansamos de ouvir. A versão ganhou uma levada surf rock punkanesca que te tira para dançar com uma facilidade que assusta.

“Sweet Transvestite” é interpretada pelos obscuros Apocalypse Hoboken, uma banda seminal de Chicago que durou de 1987-2001. Algo na linha do Hudson Falcons com Mudhoney, eu diria. E se surpreende quem acha que a versão ficou qualquer coisa. É incrível, com uma levada Stooges misturada ao punk nova iorquino dos anos 70. Ela consegue evocar o espírito do strip-tease.

The Independents ficou encarregado de fazer a versão de “The Sword of Damocles”, uma banda de horror punk/ska. Que fez uma versão desgracenta na levada ~Elvis Presley is dead~, com o recurso de um órgão na melhor levada rocksteady e guitarradas distorcidas com o melhor dos 50’s.

Os pouco conhecidos mas com muita quilometragem do Pansy Division ficaram o desafio de tocar “I Can Make You a Man”. Eles colocaram trechos das falas do musical como introdução da música e a música é cheia de loopings e guitarras sem muita perfeição, cheio que quebras a cada “ato” da canção.

Já o The Phenomenauts, com sua levada powerpop / garage punk / 77 revival / New Wave mandaram ver em “Hot Patootie (Bless My Soul)”. Talvez a versão mais interessante e transgressora do tributo, guitarradas a la New York Dolls e a transgressão de grupos como The Weirdos e X são perceptíveis. A festa e o mosh estão realmente completos depois desse som. Temos até que tomar um pouco de ar depois de ouvir.

The Secretions foi responsável pela cota Devo do disco. “Devo Hillbilly”, eu diria, tudo isso com intervenções de vocais femininos. “I Can Make You A Man (Reprise)” é rápida feito um tiro.

Chubbies é a cota Hole do tributo. “Touch-A, Touch-A, Touch Me” ganhou uma versão sedutora, açucarada e perigosa. Ela sensualiza com a canção de uma maneira que jamais poderia ser cantada por marmanjo algum.

Já a cota Ska/Reggae/Rocksteady fica por conta da banda de Boston Big D & The Kids Table“Once in a While” é interpretada com um vocal sutil, os metais calmamente ganham seu espaço e o tributo mostra sim que o ritmo caribenho é um tremendo acerto na miscelânea do tributo.

Os mestres do Swingin’ Utters pegaram a bucha de regravar “Eddie’s Teddy”. Quem viu o filme sabe do que eu estou falando, ela é um dos pontos altos do enredo, e uma tremenda responsabilidade. O vocal é inconfundível, e o baixo não deixa mentir: é a marca registrada do grupo. Os membros interpretam os personagens através da entonação, o que resulta como a cereja do bolo.

Tsunami Bomb ficou responsável por dar (sobre)vida a “Planet, Schmanet, Janet”. A banda riot girl chega com tudo, solando a face de quem se atrever a passar pela frente. Uma levada rockabilly é perceptível na levada do baixo. Uma grande homenagem ao rock, com elementos como piano e diálogos interpretados com vigor.

“Rose Tint My World/Floor Show” ganhou vida através dos pouco conhecidos do Luckie Strike. Fique tranquilo que não é vinheta da marca de cigarro, ok? Mais uma vez, as meninas ganham espaço, mas a atmosfera é mais hillbilly/punk, o famoso punkabilly. Impossível não tirar o pé do chão.

“Fanfare/Don’t Dream It” caiu na mão do Stunt Monkey que fez uma versão bem com a cara das bandas californianas da década de 90, pop punk. Com um adendo: parece que o vocalista tem verdadeira obsessão pelo Ramones, se vocês pararem para reparar. Impossível não cantar, para mim é a melhor canção/cena do musical. A letra é transgressora em tantos sentidos. A libertação sexual e viver dos seus sonhos é a melhor mensagem que sintetiza com supremacia o musical.

“Wild and Untamed Thing” ficou por conta do Gametime, que fez uma versão a la Descendents de encontro com o Screeching Weasel. Com direito a um solo muito bem calculado servindo de quebra na rápida canção que é cheia de altos e baixos. Se gostou, procure por uma banda chamada The Masked Intruder.

The Migranes executa “I’m Going Home”, com uma atmosfera dark como os Misfits cansaram de fazer. Punk rock básico com sing-a-longs, a cara da Califórnia. Mas longe de ser o ponto alto do disco. Talvez até descartável.

“Super Heroes”, performada por Ruth’s Hat, é a penúltima faixa do disquinho. É melancólica, me lembrou um pouco a versão de “My Way” que Sid Vicious fez por algum motivo que não consigo explicar direito para vocês. Mas é super gostosa de ouvir, soa toda estranha e destaca a música que é sensacional por si só desde o musical.

Para fechar o disco com chave de ouro, nada como chamar o The Ataris. Banda que tem canção de noivado citando a Disney até. Musicais são importantes na vida do vocalista, pelo visto. Apesar disso a versão foi gravada meio em qualidade lo-fi como se ele tivesse tentando imitar Joey Ramone em seus discos solo. Não sei se foi bem essa intenção, mas para mim soou como.

O tributo serve como uma bela homenagem a toda essa história. E caiu como uma luva naquele ano de 2003. Já que como contei no meio do texto, o punk – sua cultura e emancipação – estiveram presentes desde o início das filmagens do musical. A transgressão de valores, a liberdade de escolha sexual, a queda de valores de uma sociedade hostil são temas presentes desde o livro. Ou seja, nada como o punk para erguer mais uma vez essas bandeiras que ambos cultivam.

Algo que funcionou perfeitamente. Já o Glee fez um episódio que denigre a imagem da obra e ofende quem não deveria ser ofendido de forma alguma: a comunidade LGBT. Ou seja, uma baita bola fora. Mas fica a lição, se for mexer na obra, que seja com tremenda delicadeza, bom gosto e despido de qualquer preconceito. Don’t Dream It, Be It!

“O punk rock está prosperando, está vivo e bem”, afirmam os americanos The Side Eyes

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The Side Eyes

Apesar de todo o alarde sobre suposta terrível e iminente morte do rock e a dominação mundial por sintetizadores e batidas pré-programadas, os californianos do The Side Eyes não poderiam se importar menos com o assunto. “Não falta nada ao rock hoje em dia. Tem bandas para todos os tipos de sub gênero de rock que você quiser ouvir”, dá de ombros o guitarrista Kevin Devine.

Formado também pela vocalista e líder Astrid McDonald, o baixista Chris Devine e o baterista Nick Arnold, o grupo acaba de lançar seu primeiro EP em fita K7 pela Burger Records, produzido por Steven McDonald (Redd Kross, OFF!). Na faixa “I Don’t Want To Go To School” dá para perceber todas as influências do punk setentista que corre nas veias do quarteto, com vocais perfeitamente raivosos e uma quebra de ritmo que deixa o refrão ainda mais incisivo. “Estamos programando gravar nosso primeiro disco em maio”, promete Astrid.

Conversei com Astrid e Kevin sobre a carreira da banda, punk rock, divulgação independente e o machismo que toda banda com vocalista feminina ainda enfrenta, infelizmente:

– Como a banda começou?
Astrid: A banda começou faz um ano quando Kevin e eu começamos a escrever músicas na minha casa depois de nos conhecermos em um show do Garden. Um mês depois, Nick entrou na bateria e o irmão do Kevin, Chris, começou a tocar baixo e tudo se desdobrou a partir daí.

– E como vocês decidiram que o nome seria Side Eyes?
Astrid: Eu sempre rabiscava pequenos olhos em todos meus cadernos e diários e isso fez a ideia nascer. Eu pensei que o nome “The Side Eyes” tinham uma boa sonoridade!
Kevin: Astrid também sempre “olha torto” para as pessoas quando está brava (risos).

– Como o punk rock entrou em suas vidas e influenciou seu som?
Astrid: Eu cresci em uma família muito musical! Meus pais tocavam em bandas e eu passei a minha infância e adolescência indo para seus shows e viajando com eles. Isso foi influenciou extremamente na minha formação e eles sempre fizeram questão de passar para mim sua sabedoria musical!
Kevin: Chris e eu jogamos todos os jogos Tony Hawk Pro Skater na adolescência e eles têm as MELHORES trilhas sonoras.

– Como vocês definiriam o som da banda?
Astrid: Nós buscamos um som punk do final dos anos 70.
Kevin: Com uma ocasional incursão heavy. Nós definitivamente também temos alguns elementos poppy em nosso som, também.

The Side Eyes

– Quais são suas maiores influências musicais?
Kevin: Nós definitivamente nos inspiramos em The Ramones, Iggy Pop, Black Flag, Redd Kross, Adolescents, Agent Orange… A lista continua.
Astrid: The Runaways, Hole, The Butthole Surfers.

– Me contem um pouco mais sobre o material que vocês irão lançar.
Astrid: Ficamos um ano sem lançar nada (nossa primeira fica acabou de sair, na verdade). Nós conseguimos construir um bom impulso tocando e fazendo muito shows e por divulgação boca a boca.

– Como está a cena punk hoje em dia, na sua opinião?
Kevin: Ele está prosperando. Ele está vivo e bem.

– Sendo uma banca com vocalista mulher, vocês acreditam que o machismo continua forte no meio musical?
Astrid: Com certeza. Não consigo contar quantas vezes as pessoas vem para nós depois que tocamos e se dizem surpresas por sermos uma banda punk com vocalista mulher. A frase mais frequente que eu ouço é “você é bem melhor do que eu esperava”. As pessoas ainda têm aquela noção pré concebida que mulheres não podem ser vocalistas de bandas punk, e isso só me dá combustível e motivação para jogar essa noção arcaica, desatualizada e completamente falsa de volta em suas caras com nossa música e performance.

The Side Eyes

– O que vocês acham que está faltando no rock que é feito hoje em dia? Falta algo?
Kevin: Nada… Tem bandas para todos os tipos de sub gênero de rock que você quiser ouvir.

– Quais são os próximos passos do The Side Eyes?
Astrid: Estamos lançando nossa fita pela Burger Records. Nos próximos meses nosso split 7″ com o Redd Kross vai sair pela In The Red Records. Também estamos programando gravar nosso primeiro disco em maio.

– Recomendem bandas e artistas (especialmente se forem independentes) que todo mundo deveria estar ouvindo hoje em dia.
Uniform (OC), Melted Pookie and the PoodlezVajjJanelane.

Wonderbitch mistura disco, punk, rock progressivo e a breguice pop dos anos 80 – e não é que dá certo?

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Wonderbitch
foto por Dani Bauer

O Wonderbitch resolveu colocar em um liquidificador sonoro ingredientes tão diferentes quanto punk, disco music, rock progressivo dos anos 70 e toda a breguice cheia de ombreiras, lasers e teclados do pop oitentista. Nessa mistureba maluca, conseguiram criar um indie rock dançante e cheio de personalidade em seus dois EPs, “Wonderbitch” (2015) e “Loves You” (2013). O som da banda tem tudo para fazer parte das paradas de sucesso das rádios rock por aí, não devendo nada para grandes nomes do rock alternativo atual.

Alex Chod (vocal e teclados), Bruce Smith Jr. (guitarra), Corey Spears (baixo) e Butch Wade (bateria) receberam elogios até da Revista Rolling Stone por sua participação no SXSW de 2015, sendo citados como um dos pontos altos do festival. Agora, a banda está em turnê pelos Estados Unidos, mas sem parar de produzir singles sempre que possível.

Conversei com eles sobre os anos 80 e sua breguice, o esquisito nome da banda, a vida de artista independente e mais:

– Como a banda começou?
A banda começou quando nossa antiga banda (The Vorticists) se dissolveu. Estávamos tendo problemas em ficar na mesma página com aquela banda, que era de art rock psicodélico muito delicado, além de vivermos em duas cidades diferentes. Além disso, sempre curtimos quando pessoas dançavam com nossas músicas, então decidimos fazer algo mais atrevido e divertido.

– E de onde surgiu o nome “Wonderbitch”?
O nome nasceu quando estávamos indo em uma viagem de Indiana para visitar Austin, no Texas (para onde eventualmente nos mudamos), estávamos entediados no carro e começamos a inventar nomes de bandas engraçados, onde Wonderbitch foi o mais engraçado. No nosso primeiro show, dissemos para a plateia “agora vamos mudar nosso nome para Wonderbitch!” (nós nos chamávamos ‘The Fool’ no pôster do evento), e nossos amigos aplaudiram e deram risada. Então ficamos com ele.

Wonderbitch
foto por Dani Bauer

– Quais são as suas maiores influências musicais?
Todos temos gostos diferentes, mas tem certas coisas que cada membro traz que nós todos gostamos, e a influência acaba sendo uma combinação de música moderna de festivais, pop dos anos 80 e “yacht rock”, o prog rock dos anos 70 e 2000, um pouco de disco e um pouco de punk.

– Me falem um pouco sobre “Wonderbitch”, seu mais recente EP.
O EP “Wonderbitch” foi concebido porque com a mudança para Austin e tendo encontrado novos membros para a banda, precisávamos mostrar nosso material. Além disso, criar discos é algo muito divertido para fazer com sua vida!

– E sobre “Loves You”, o primeiro EP da banda?
Para mim, “Loves You” é um pouco mais educado e gentil e também um pouco mais progressivo. Os novos membros que entraram na banda em “Wonderbitch” têm personalidades muito mais agressivas, e acho que isso se mostra nas músicas.

– Como vocês definiriam o som da Wonderbitch?
Gostamos de usar ‘Sophisticated Fun’ para definir nosso som. Música divertida que é bem pensada e bem construída e que pode elevar a experiência das pessoas para algum lugar muito bacana, para que elas possam realmente perceber algumas coisas legais que estão acontecendo se estiverem inclinadas a ouvir com atenção.

Wonderbitch
foto por Dani Bauer

– Uma de suas influências declaradas é o som dos anos 80, que às vezes recebe o rótulo de “brega” pelo seu uso de teclados e baladas românticas. O que vocês acham sobre isso?
Na minha opinião, música brega muitas vezes tem a intenção de fazer você se sentir melhor, ou pelo menos mexer com suas emoções. Não tenho certeza dos motivos pelos quais acho tão fascinante, mas na minha música eu gosto de usar os as aspectos do “brega” que conseguem melhorar meu humor ou são engraçadas – sintetizadores brilhantes e plastificados, letras confortadoras, progressões de acordes esperançosas, coisas que eu me lembro da televisão na infância – eu gosto de tentar embalar tudo isso como algo divertido e reconfortante para o público. Nós já tivemos tanta “breguice” forçada em todos nós por todas nossas vidas, gosto de usar um pouco dessa linguagem com um pouco de senso de humor. Dá pra achar beleza em tudo.

– Como é ser uma banda independente hoje em dia?
Acho que a cena independente é uma experiência caótica e maravilhosa. Eu realmente não sei outra forma de descrevê-la! Me pergunto se algum dia teremos um momento de indústria musical firme novamente. Estou nessa.

– Quais os próximos passos da Wonderbitch?
Agora tocaremos em nossa área dos Estados Unidos. Vamos ir de encontro a nossos fãs em toda a área, enquanto continuamos lançando singles sempre que possível para manter as coisas frescas!

– Recomendem bandas e artistas que chamaram sua atenção nos últimos tempos. Se forem independentes, melhor ainda!
Nossos bons amigos de Los Angeles têm duas bandas: Triptides e Frankie and the Witchfingers. Eles são caras incríveis fazendo coisas muito legais! Também o Fluffer, de Cincinnati, Ohio, está fazendo coisas bem bacanas misturando ‘bubblegum’, dance e heavy math. Tem uma nova banda de surf rock aqui em Austin chamada Shark Rider que nós também gostamos bastante.

Uma entrevista esquisita e engraçadinha com os mascarados escoceses do The Bucky Rage

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The Bucky Rage

Os escoceses do The Bucky Rage são bem criativos. Não só musicalmente, já que na minha tentativa de entrevistá-los, recebi respostas nonsense e quase nenhuma seriedade dos caras. Mas também, o que esperar de um quarteto mascarado que define seu som como “wrestling rock’n’roll” e define seus shows como verdadeiras apresentações de luta livre mexicanas musicais?

O quarteto se formou em 2005 “como um experimento sônico”. Handsome Al (“guitarra barulhenta e golpes de ombo”), Philthy Collins (“cantor de girl group, bateria de boy group”), Pete Kaos (teclado, ou “emanações eletrônicas, vibrações esquisitas”) e Kyle M Thunder (baixista, ou “All about the bass”) já lançaram um disco (“Under The Underground”, em 2014) e alguns EPs (“Vote for Jesus” (2006), “We’re All Damned” (2007), “Ditchdigger” (2008), “Cut ‘em Down” (2011), “Outta Sight” (2012) e “Panther Adams”, (2013)), prometendo mais um disco completo e um EP para 2016, além de shows insanos e cheios de fuzz, teclados sessentistas, punk rock chicletudo, máscaras a granel e a reputação de ser uma das melhores bandas de festa que já passaram pela Europa.

Conversei (ou pelo menos tentei) com o quarteto sobre sua carreira, discografia, inspiração e shows onde você pode até tratar suas cáries:

– Como a banda surgiu?
A banda começou como a maioria das bandas começa. Quando fomos libertados da prisão, tivemos que juntar dinheiro para salvar o monastério onde fomos criados. Os monges não permitiam que levássemos dinheiro sujo, então tivemos que pensar em alternativas pra juntar grana. Então, Filthy Collins foi no Show do Milhão, ele é um cara esperto, sabe todas as resposta, então com o milhão que ganhamos, compramos instrumentos e aí a grana alta começou a entrar, já que viramos número um na parada de sucessos em todo o mundo.

– Vocês descrevem o som da banda como “wrestling rock’n’roll”. Como é isso?
“Wrestling rock’n’roll” funciona por engano. Caras poderosos sem medo e com um bom senso de diversão. Somos maus perdedores. Mas o negócio não é sobre ganhar, é sobre tocar, e nós tocamos bem.

– Vocês nunca mostram os rostos? Porque usar máscaras?
Usamos as máscaras por motivos religiosos. Nosso Deus exige isso.

– Contem um pouco mais sobre o material que já lançaram.
Nossa discografia é vasta e bulbosa. Gravações de estúdio, canções muito atrativas e progressivas musicalmente, poesia poderosa, música muito poderosa. Música pop com uma qualidade “esfaqueante”.

The Bucky Rage

– Como é o processo criativo da banda?
O processo criativo: todos os dias, Handsome Al acorda com uma grande melodia. Philty cria alguma letra e uma música foi criada. Eles estão fazendo isso por anos e os dois possuem uma mente muito ampla.

– Como vocês descreveriam um show da Bucky Rage pra quem nunca foi?
O show típico da Rage é muito divertido, um monte de fãs bonitos dançando valsa e fazendo o hustle e o boogaloo. Às vezes, um raio aparece e acerta os mais fracos. Algo estranho normalmente acontece. Uma vez, alguém da plateia deve uma dor de dente, subiu no palco e fizemos a obturação. Isso não acontece em todo show, aliás.

– E como criaram o nome Bucky Rage?
É um nome impossível de não amar. Quem poderia resistir? É um nome sólido.

– Quais são os próximos passos da banda em 2016?
Estamos trabalhando duro. Nosso segundo disco sairá este ano e um EP será gravado. Faremos shows para quem tiver a grana para nos pagar. Não trabalhamos por pouco.

The Bucky Rage

– Recomendem bandas e artistas (principalmente independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
As boas bandas são:
The Fnords
The Cheating Hearts (de Hamburgo)
The Fat White Family
The Country Teasers

The Grindmother: a senhorinha que faz muito vocalista de hardcore parecer o Justin Bieber

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The Grindmother

Não existe idade para a música… mesmo que o estilo seja o grindcore. Uma vovó canadense de 67 anos que não revela seu nome real formou a banda de grindcore The Grindmother (sacaram o trocadilho?) e está prestes a lançar seu primeiro disco completo, “The Age Of Destruction”, no dia 28 de abril.

Tudo começou quando a vovozinha foi recrutada pelo neto para dar uns berros de apoio em uma gravação de sua banda, Corrupt Leaders. Naquele momento, a senhora percebeu que gostava de fazer aquilo e, com o apoio de seu filho, resolveu que criaria seu próprio projeto de grindcore geriátrico, algo inédito até então. E não é que os gritos assustadores da velhinha botam muita bandinha pseudo-nervosa no chinelo? As letras são bem políticas. O primeiro single lançado, “Any Cost”, é um recadinho nada sutil de tchau tchau para o primeiro ministro do Canadá, o conservador Stephen Harper: