Tamanho não é documento: cantarolando 10 músicas curtinhas

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Esta semana estava relembrando esse disco que já dá para ser considerado um clássico independente brasileiro, o “Noisecoregroovecocoinvenenado(2006) da banda paraibana Zefirina Bomba, e reparei que a maioria das músicas têm menos de 2 minutos. Aliás, boa parte delas nem chega a 1 minuto. Pauleiras na medida certa, direto ao ponto e que deixam um aftertaste de satisfação. Tipo um bocado caprichado ou um Yakult.

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Algumas músicas curtas, apesar de deixarem aquele gostinho de quero-mais, são tão redondinhas que nos dão a sensação de que se fossem maiores, estragaria. É sobre este sentimento que trata a coluna de hoje, que, em vez de gastar as tintas com uma canção só, vai homenagear 10 faixas curtíssimas para cantarolar o dia inteiro sem enjoar.

A primeira delas é a hipnótica “O Que é que tem pra tu ver na TV”, do Zefirina Bomba. No mundo do hardcore, não é incomum as canções serem curtas, diretas intensas e imediatas. Essa do Zefirina se destaca porque passa uma ideia tão simples quanto sincera, a letra é “O que é que tem pra tu ver na TV? Comercial.” – não precisa dizer mais nada. Mas principalmente, a bateria foge daquela batida reta típica de HC para dar um peso estilo Dave Grohl arretado – alias, Guga é um dos melhores bateristas que já vi ao vivo. O resultado, depois que a música termina é um grande “minha nossa”.

Ainda no mundo do punk/hardcore, a canção “Wasted”, do Black Flag é uma expressiva e suficiente canção de 51 segundos sobre um cara que fez muitas merdas enquanto estava bêbado. Considerando outras canções do BF, como a “Drinking and Driving”, talvez a letra na verdade esteja zombando desse moleque que faz um monte de merda para parecer “cool”, em vez de estar enaltecendo suas realizações. Mas também pode ser uma letra absolutamente literal, o que não a deixa menos interessante e franca. Aliás, o EP de estréia do Black Flag, Nervous Breakdown (1979) em que está a Wasted, é um ótimo exemplo de concisão e suficiência, já que só tem 5 minutos de duração.

Na lista também tem Beatles, com a singela hidden track de 23 segundos no disco Abbey Road” (1969), intitulada “Her Majesty”. É uma mini-canção satírica sobre a rainha Elizabeth II escrita pelo Paul McCartney. Essa faixa era para ficar entre a “Mean Mr. Mustard” e a Polythene Pam” – aliás, duas canções curtinhas de pouco mais de 1 minuto, que muito bem poderiam fazer parte desta lista também. Mas o Sir Paul não achou que combinou, e pediu que a cançãozinha fosse destruída. Porém, a gravadora EMI tinha uma política de não destruir nada que fosse gravado pelos Beatles, então a pequena “Her Majesty” foi inserida no disco após um trecho de silêncio depois da última faixa, sem ser listada na tracklist, tornando-se a primeira hidden track da história. Os Beatles inventando moda (meio sem querer), pra variar.

A próxima faixa é uma verdadeira obra-prima de 1:55 minutos. “Renaissance Fair” (1967), do Byrds. Essa canção é aparentemente simples, mas na verdade é cheia de detalhes nos lugares certos. Ela fala de uma feira renascentista – provavelmente em um sonho – com várias cores, música, aromas de especiarias e pessoas com flores no cabelo. Esse cenário descrito na canção é embalado pelas impecáveis harmonias vocais, e um mix de guitarras com um saxophone, que dão um climão e te levam pro sonho junto com eles. Essa dá pra ouvir em loop.

Mantendo o clima ‘renascentista’ da lista, outra pérola de 1:23 minutos é a “Cheap Day Return” do Jethro Tull. A canção acústica, assim como várias do “Aqualung” (1970), tem uma influência forte dos violões do Bert Jansch e Roy Harper, ou seja, folkão britânico de primeira, trazendo essa vibe medieval perfeito para as flautas do Ian Anderson e seu vocal com muita expressão.

Ainda nos folkões britânicos, não poderia faltar uma do Incredible String Band, a “Son of Noah’s Brother” (1968). Possivelmente uma referência bíblica, a letra da canção mais curta desta lista é a frase “Many were the lifetimes of the Son of Noah’s brother/
See his coat the ragged riches of the soul [muitas foram as vidas do filho do irmão de Noé/ veja seu casaco, as riquezas esfarrapadas da alma]”. A linguagem solene contrasta com a simplicidade da canção, mas a letra é uma frase tão completa que já se faz suficiente pra sustentar e dar força para a faixa, tanto que é uma cançãozinha muito querida do disco “Wee Tam and The Big Huge”.

Em uma vibe parecida está a “El Rey” (1973), do Secos e Molhados. É outro caso, assim como a do Incredible String Band, em que a concisão da música faz você pensar mais ainda no que ela significa. Nessa dos Secos e Molhados, é pintada uma cena de um rei, ou alguém com muito poder, passando diante do observador. A letra é repleta de símbolos e imagens concretas, como uma poesia barroca dessacralizada, como os modernistas faziam. Logo de cara, ele joga a decadência do poder para nós com a imagem do “rei andar de quatro”, causando um choque inicial que em seguida é quebrada com o “quatro caras diferentes”, que pode significar algo como as máscaras do poder. Sem contar nas imagens das celas cheias de gente, e das velas, representando as mortes causadas pelo monarca. Isso ainda num contexto da ditadura militar… Essa música dá para viajar muito, merece um post só pra ela. Brilhante.

A próxima música é do meu maldito favorito, Walter Franco. A faixa “Água e Sal” está no disco “Ou Não” (1973). Eu sempre involuntariamente cantarolo esta música enquanto tomo bando de sal para neutralizer as energias – às vezes precisa, recomendo muito. Mesmo sem querer, muitas músicas do Walter Franco têm meio que uma função de mantra, e essa é uma delas.

Eu já fiz um post aqui nesta coluna sobre a representante Britpop dessa lista [veja aqui], a “Far Out” do Blur. Ela tem a versão extendida, mas eu não consigo me acostumar com ela maior do que os 1:40 min que estão no disco “Parklife” (1994) . É a essência do Syd Barrett suficientemente capturada pra deixar qualquer um satisfeito depois de ouvir.

Para fechar, “Horn” do Nick Drake. Que coisa mais linda, gente. Essa faixa instrumental, lenta, violão simples mas muito característico do estilo de Nick Drake. Apenas ouçam.

Playlist:

Construindo Juvenil Silva: conheça as 20 músicas que mais influenciaram seu som

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o cantor e compositor pernambucano Juvenil Silva, que indica suas 20 canções indispensáveis. “Minha lista fala de primeiros impactos e encontros com obras e artistas que viriam muito, de modo geral, me influenciar na música. Fazer essa listinha foi revirar um baú de memórias saborosas que há tempos não mexia. Foi um prazer. Algumas coisas ficaram de fora mas é a vida… Ninguém vai morrer”. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Bob Dylan “Mr Tambourine Man”
Era um atípico dia cinza e de chuva em Recife, a capital tropical do país. Eu havia trazido pra casa uma fita k7 com uma coletânea de Dylan. Seria nosso primeiro encontro. Quando “Mr Tambourine Man” ecoou, algo além daquela voz de areia e mel me transpassou o corpo. Eu sabia que eu nunca mais seria o mesmo depois daquilo. Prossegui meu caminho deglutindo tudo que me era possível encontrar da obra dele. Nunca me senti tão bem alimentado, preenchido.

The Who“My Generation”
Quando conheci The Who, através dessa bomba, fudeu, eu queria ser mod! (Risos) Mesmo morando em Hellcife, que é a porra de um lugar super quente. Eu catava terninhos coloridos em brechós e outros acessórios que me remetia aquela vibe. Logo além da grande influência sonora, se falando principalmente pelo modo de tocar e compor de Pete Townshend, abria-se pra mim todo um novo e maravilhoso universo estético que abracei por uma determinada época.

Ave Sangria“Dois Navegantes”
Meus amigos haviam alugado um CD que era um CD gravado de um vinil, tinha um som todo meio agudo e havia chiado de vinil. Quando o play foi dado e a introdução de Dois Navegantes, faixa abre alas do único disco da banda mais fantástica de minha terrinha, aquele som divino me embebedou, me enfumeceu embelezando minhas asas com novas e coloridas penugens. Ave Sangria.

Mutantes“Don Quixote”
Um vinil, na contra capa, seres do outro mundo… Era o segundo dos Mutantes, o que na frente Rita tá de noiva. Por intermédio dele me entrou Arnaldo Baptista, todo aquele universo de arranjos genias de orquestras, as guitarras lindas e inimagináveis de Serginho, Rita Lee e suas potências criativas. Toda aquela orgia sonora embaralhava de forma maravilhosa minha cabeça. “Palmas para Don Quixote que ele merece”.

The Beatles“I’m Only Sleeping”
Conhecia a fase “iê iê iê” dos Beatles, quando o “Revolver” entrou na jogada, me expandiu para um outro universo Beatle. “I’m Only Sleeping” vinha com aquela preguiça e falsa despretensão de ser uma das minhas canções preferidas deles. Fiquei fissurado na brincadeira de guitarras reversas e nessas harmonias derretidas. Amo a melodia vocal!

Love“Alone Again Or”
Num certo e idiota momento em que eu achava que nada mais me surpreenderia tanto… Em que eu já achava que conhecia todos meus deuses… Me aparece Arthur Lee. “ Alone Again Or” abre a porta pra “Mudanças Eternas”.

Sá, Rodrix e Guarabyra“Desenhos no Jornal”
Lembro como hoje, era noite, havia saído de um ensaio num estúdio do centro. Um amigo estava com uns vinis na mão, entre eles o “Terra” de Sá, Rodrix e Guarabyra. Nunca vou entender o porque, até porque ele gostava de som bom. Talvez ele quiser legal comigo ou estivesse afim de comer um cachorro quente, ou estava sem passagem pra voltar pra casa. Bem, não sei. Mas ele me vendeu o vinil por três reais. E foi assim que eu adentrei no mundo maravilhoso do que chamam “Rock Rural”. Essa música me deita num cama bem fofinha e decola pra mim pelo cosmo entre sensações orgasmáticas e delírios de amores.

Serge Gainsbourg “Intoxicated Man”
Sem perceber a gente vai se apegando ao habitual, o que nos vem. Em relação a música, a gente fica meio que nessa, musica em português, musica em inglês… Serge chegou trazendo outro idioma, sonoridade, dimensão… “Intoxicated Man“ me chapa, me dilui e me funde a cores mais opacas com duras e finas texturas. Abordagens peculiares em outras estéticas sonoras e melódicas.

T.Rex“Jeepster”
Com essa Marc Bolan me seduziu, me excitou e me desflorou pro seu universo glam e peculiar. Gosto como soa e é usada a voz, como funciona a fusão percussão + guitarras, a produção e tudo que envolve essa e outras tantas do T.Rex, que definitivamente é uma de minhas maiores influências.

David Bowie “Life On Mars”
Lembro de ter em meu walkman uma fita abafada do “Hunky Dory” quando saí pleno livre das garras do quartel. Fui dispensado. Saí, era cedo dia, desci numa praça antes da minha parada habitual. Quando terminava essa música eu rebobinava e ouvia de novo, olhando sempre por nada específico que era o tudo de bonito que aquela manhã me proporcionava. “Life on Mars” é uma composição incrível, amo a forma como cresce, explode, surpreende mirando e acertando em cheio num infinito de beleza me fazendo bem. Eu me lasco todo de emoção!

Gilberto Gil – “Cérebro Eletrônico”
Gil arregaçando o irreal entre o balanço na viola, aqueles órgãos pastosos e alucinantes, guitarras futuristas, letras que me levavam além e no geral ter a convicção que ouvir Gilberto Gil era ter uma aula intensa de composição. Esse disco de 69, e o de 68 me fez conhecer uma outra faceta do Baiano e da música brasileira em si. Foi a tal da Tropicália e suas bananas ao vento que me sopraram por novos caminhos também.

Sérgio Sampaio“Eu Sou Aquele Que Disse”
Sampaio entrou na minha vida pra ficar e me arrastar pra universos ainda mais belos e sombrios em termos de poesia e canção. “Eu Sou Aquele Que Disse” está no primeiro álbum que tive contato, o primeiro de sua carreira, produzido por ninguém menos que Raul Seixas. Assim como essa, enumeras outras composições de Sérgio me fazem a cabeça e o coração.

Itamar Assumpção “Presadíssimos Ouvintes”
A dimensão de um groove totalmente novo e único pra mim. Entre a voz, baixo, batidas, escalas nas guitarras… Aquela narrativa peculiar contida na letra e acompanhada por arranjos incríveis e super complexos mesmo dendro, passeando numa harmonia simples. Piro em Itamar e em toda uma turma da chamada Lira Paulistana.

Reginaldo Rossi“Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme”
A real é a seguinte, tem coisa que se entranha em sua essência quando você é criança e em relação a música, o brega era algo que meu pai ouvia muito nos fim de semanas em casa. Seja tomando umas ou se arrumando pra sair para dançar nas gafieiras.“Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme” é só uma entre um enxurrada de hits de Rossi que habitam em mim desde sempre, que por muito ficou guardado mas que depois voltou a tona.

Chet Baker“But Not For Me”
Uma pluma que me envolve em ligeiros e sutis encantamentos. Baker é meu prefiro no universo do jazz. Amo como ele usa a voz e o trompete, amo “But Not For Me” e outras tantas desse esplendor.

MC5“Kick Out The Jams”
Dos tempos de furia e algazarra juvenis. Eu alucino na energia e na violência proferida em cada fragmento de kick out the jams.

Belchior“Coração Selvagem”
Meu beeem… Essa sim eu posso dizer sem titubear que é a minha canção preferida desse filosofo foda que é Belchior. Cruel e amável, primitivo e a frente do tempo ao mesmo tempo. A letra dessa música é um manifesto da paixão pela simples alegria de ser.

Nick Drake“Pink Moon”
Eu já conheço Drake há um certo tempo, mas do ano passado pra cá se intensificou meu amor pela obra dele. Lembro de dias em que todas as noites antes de dormir eu o colocava pra tocar, embalar minha mente me lubrificando para sonhos doces e fantásticos. Essa canção e de um beleza harmônica e estética sonora muito peculiar do universo dele.

Sly and the Family Stone“I Want To Take You Higher”
Foi através dessa pedrada que embarquei no mundo de Sly e outras tantas pérolas do soul, como as do Stevie Wonder e no Brasil, Tim Maia, Toni Tornado… Sou apaixonado por soul music e essa música em especifico me deu o estalo pra compor uma canção que se tornou uma espécie de hino no underground que se chama “Eu Vou Tirar Você Da Cara”, que é foi até regravada e adentrou na trilha sonora do filme “Tatuagem”. Sly é um Deus demônio genial!

Raul Seixas“A Maçã”
Por último, mas poderia está em primeiro, Raul Seixas. Algo que levo carimbado em meu dna sonoro. É incrível que até hoje em dia (que escuto bem menos Raul, por ser algo que ouvia muito na adolescência) quando mostro canções minhas pra algumas pessoas, elas percebam Raul ali no meio… “A Maçã” é um hino do amor livre de padrões. Amo essa letra, harmonia, arranjo e a impecável interpretação do Raul.

O lado bom da tristeza: Nick Drake – “Five Leaves Left” (1970)

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Nick Drake - Five Leaves Left

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se fala de Nick Drake, a pergunta é sempre a mesma: como esse sujeito não conseguiu fazer um pingo de sucesso em sua época? Afinal, ele era um incrível compositor, talentosíssimo letrista, criativo no uso de afinações alternativas, dono de uma voz agradável e boa pinta. Tinha tudo que a maioria dos artistas se mata para conseguir ter.

Na breve carreira do britânico – três LPs ao todo – só tem pérolas. Não existe música ruim no universo de Nicholas Rodney Drake. Por outro lado, a felicidade quase inexiste e a melancolia reina absoluta, fato que por si só assombra uma boa parcela do público mais sedento por agitação. Além disso, demasiadamente recluso, quase não se apresentava ao vivo, o que deixava tudo mais difícil.

Estudante de literatura e esporádico atleta (classificado pelos colegas de rugby como um “calmo autoritário”), o jovem Nick sempre foi extremamente reservado, tímido e impenetrável. Dizem por aí que nunca chegou a ter um relacionamento amoroso, muito embora atraísse atenção por parte do público feminino. O cara era fechado mesmo. Quem o conhecia dizia que na poesia e na música é que se percebia sua alma mais evidente, seja tocando violão, piano ou até mesmo saxofone e clarinete.

Foi por volta de 1967 que ele viria a se arriscar em apresentações em pequenos clubes e cafés de Londres, e foi num desses shows que Ashley Hutchings, integrante do Fairport Convention, o descobriu. Passado algum tempo descolou um contrato com o selo Island Records e em 1969 saiu sua primeira gravação.

“Five Leaves Left”, álbum de estreia de Drake, é uma obra de arte irretocável. Fundamental para quem se liga em sons mais delicados, de caráter intimista. Você escuta qualquer música do disco e tudo o que você pensa é em bucolismo, outono, inverno, esse tipo de coisa. Traz um conforto inevitável. Seu refinado violão é um espetáculo por si só, e, como se não bastasse, Nick Drake juntou um time de primeira para fazer o acompanhamento da maioria das canções. Ali você pode conferir gente como Richard Thompson (Fairport Convention) nas guitarras e Danny Thompson (Pentangle) no baixo, além dos emocionantes arranjos orquestrais de Robert Kirby e Harry Robinson.

O produtor do LP, Joe Boyd, responsável por alguns trabalhos do Pink Floyd, Jimi Hendrix e R.E.M., já chegou a dizer que havia conflitos entre ele e Drake por conta da direção que o álbum deveria tomar. Enquanto Boyd defendia a ideia de explorar mais as possibilidades de estúdio, o músico queria um disco mais seco e orgânico. No fim resultou em um belo trabalho equilibrado, onde a voz do cantor e seu violão ganham o destaque absoluto, embora vez ou outra os arranjos de cordas conseguem nos deixar de boca aberta.

Essa fusão atinge a perfeição em “River Man”. Essa canção é simplesmente uma das coisas mais bonitas que já ouvi. Meu Deus… o que é aquilo? Uma faixa soturna, triste, como de praxe no catálogo do cantor, mas nesse caso acredito que até quem não se liga em sons melancólicos vai dizer que é uma baita música. Não tem como repreender uma coisa dessas. Apenas ouça.

“Three Hours” e seu ritmo de congas é outro ponto alto. A sonoridade, sempre de altíssimo requinte, nos hipnotiza enquanto Drake canta suas reflexões profundas. A faixa faz um par muito coerente com outra pérola, “’Cello Song”, que, como o próprio título diz, gira em torno de uma maravilhosa linha de violoncelo.

Como dito anteriormente, a tristeza é uma máxima no som do rapaz, de fato. É como se a vulnerabilidade que ali está fosse um sutil chamado de socorro. Ele sofria de depressão, o que mais tarde viria a ser determinante para o seu (suposto) suicídio. E “Way To Blue” é uma dessas canções que só quem está nessa vibe poderia fazer-la tão sincera. A orquestra que o acompanha é de chorar. Essa não é para os fracos, mesmo.

“Man In a Shed” traz alguma alegria em seu ritmo suave, o que faz um ótimo contraponto na tracklist, do mesmo modo que “The Thoughs Of Mary Jane” apresenta um som mais doce e diversifica a maneira de Nick Drake interpretar suas belas letras. “Fruit Tree”, assim como “Time Has Told Me” servem em alto nível um letrista inspiradíssimo, que somente por essas músicas já teria uma cadeira cativa entre os maiores cantores/compositores de seu tempo.

Igualmente interessante é a agridoce “Saturday Sun”, que encerra o álbum com um clima leve. Nick abandona o violão e vai para o piano, e a sensação que fica é a de que Nick Drake, com seu jeito nada incisivo e ao mesmo tempo absurdamente expressivo, nos prendeu sem nenhuma dificuldade por pouco mais de 40 minutos. E você vai querer escutar tudo de novo, pouco importa a quantidade de melancolia. É bonito demais.

“Five Leaves Left” não fez o menor sucesso. Uma série de fatores o levou a isso. Um deles foi a demora da gravadora ao lançá-lo e promove-lo. Além disso, Nick Drake fez poucas apresentações, e quando o fez foi para um público desinteressado, que não sacou muito bem qual era a daquele cara grandalhão que nem dizia “oi” para a plateia. Antes de cada bendita canção interpretada tinha que afinar diferente seu violão, o que quebrava o ritmo do show e irritava os presentes, já impacientes com sua suposta indiferença.

Vieram mais dois trabalhos: “Bryter Layter” (1971) e “Pink Moon” (1972). Não dá para dizer qual é o melhor dos três, todos são incríveis. Mas do mesmo modo que são um grande feito artístico, também são fracassos descomunais de vendas, o que feriu Drake bem no âmago.

Ele viria a falecer em 1974, com 26 anos. Infelizmente não pode ver a lenta aceitação de seu trabalho, que agora é lembrado por gente como Elton John, Norah Jones e The Mars Volta como um dos melhores catálogos da música folk/rock. Hoje em dia todos os seus três LPs são aclamados pela crítica e constantemente presentes em listas de melhores álbuns de todos os tempos.

Enquanto houver pessoas dispostas a ouvir reflexões, haverá espaço para a música sinceramente melancólica. Espero que seja para sempre.

Construindo Naissius: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som do artista

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Construindo Naissius

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a participação do Naissius, que se apresentará nessa sexta-feira na Sensorial Discos com o repertório de seu disco de estreia, “Síndrome do Pânico”, além de músicas inéditas que estarão em seu próximo álbum. 

The Beatles“Hello Goodbye” (do disco “Magical Mistery Tour”, 1967)
Quando era criança, vi o clipe desta música e não entendi nada; foi a primeira que lembro ter sentido vontade de me tornar músico.

Jeff Buckley“Lover, You Should’ve Come Over” (do disco “Grace”, 1994)
O Jeff Buckley me mostrou que não havia problema algum em adorar Nina Simone e MC5 numa época em que eu ainda era um tanto ‘purista’.

Screamin’ Jay Hawkins“I Put a Spell On You” (do disco “I Put A Spell On You”, 1977)
Eu já adorava essa música quando criança, na versão do Creedence – meu pai tinha uma coletânea do Creedence e eu sempre escutava. Fui descobrir a versão original muitos anos depois e hoje tenho o estranho hábito de procurar versões dela na internet. São inúmeras, por diversos artistas, mas nenhuma supera a original.

Raul Seixas“A Maçã” (do disco “Novo Aeon”, 1975)
Aos 13 anos de idade interpretei o Raul Seixas no teatro e, para pegar o ‘sotaque’, fui ouvir toda a discografia dele. ‘A Maçã’ é sobre esse conceito de monogamia e traição que somos submetidos desde o nascimento e o qual nunca questionamos – além de ser uma das melhores músicas do Raul.

The Clash“Know Your Rights” (do disco “Combat Rock”, 1982)
O The Clash foi a primeira banda de punk rock que eu me apaixonei. O ‘Combat Rock’ foi um dos primeiros discos que eu comprei na vida e teve grande influência na minha formação.

Minor Threat“Guilty of Being White” (do disco “Complete Recordings”, 1988)
Eu já fui menosprezado por estar em lugares que não eram para ‘pessoas como eu’; o engraçado é que isso já aconteceu tanto por eu ser ‘muito branco’ quanto por ser ‘muito preto’.

Titãs“Desordem” (do disco “Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas”, 1987)
Ainda me pergunto como os Titãs conseguiram fazer músicas com letras tão fortes se tornarem hits nacionais.

Chemical X“What’s Your Problem?” (da demo “What Ever Happened?”, 2003)
Trio de irmãs que tocam um punk rock de primeiro nível. Na minha adolescência era um alívio vê-las tocando entre tantas bandas que soavam iguais. Através delas eu passei a me interessar por feminismo, o movimento riot grrl e bandas como o Bikini Kill.

Nirvana“Sappy” (do box “With The Lights Out”, 2004)
As primeiras vezes que vim para São Paulo foram de trem, descendo na Luz, para passar a tarde na Galeria do Rock atrás de bootlegs. Quando ouvi essa música do Nirvana num CD de raridades, percebi que ela fugia do padrão ao relatar a vivência de uma mulher que leva uma vida de abusos e não se dá conta disso.

MC5“Kick Out The Jams” (do disco “Kick Out The Jams”, 1969)
Provavelmente uma das melhores músicas já escritas até hoje.

The Monks“Monk Time” (do disco “Black Monk Time”, 1966)
São ‘os Beatles do mal’. Não vou resumir a história pois vale muito a pena ir atrás dessa banda e desse disco. É pop com caos numa medida que nunca havia sido feita e provavelmente nunca mais será.

John Lennon“God” (do disco “Plastic Ono Band”, 1971)
Lennon usou seu primeiro disco para lavar a roupa suja com todo mundo, inclusive com o todo-poderoso, que ele se refere como ‘um conceito pelo qual medimos nossa dor’. Sigo o conselho de um amigo e sempre que escuto esse disco o faço ‘com muito cuidado’.

Chico Buarque“Construção” (do disco “Construção”, 1971)
Meus pais sempre ouviram muito Chico e ainda criança lembro que essa música me assustava: a crescente dos arranjos; a letra; a ideia da morte inevitável e repentina… É uma música que me impactou muito.

Nick Drake“Saturday Sun” (do disco “Five Leaves Left”, 1969)
Quando estava escrevendo o ‘Síndrome do Pânico’ eu ouvi muito os discos do Nick Drake. São de uma simplicidade e beleza tão raros… Nada é forçado ou exagerado.

New York Dolls“Personality Crisis” (do disco homônimo, 1973)
O New York Dolls me deu um nó no cérebro: usar calças rasgadas não parecia nada audacioso depois de ver caras vestidos de mulher tocando um rock sujo e minimalista. Ao conhecer a banda eu finalmente passei a tentar (des)construir minha própria imagem.

Fagner“Canteiros” (do disco “Manera Fru Fru Manera”, 1973)
É a música que eu canto no karaokê.

Chris Bell“I Am The Cosmos” (do disco “I Am The Cosmos”, 1992)
Se a discografia do Big Star é desconhecida e subestimada, esse disco solo de um dos integrantes é um tesouro perdido (lançado 15 anos após sua gravação). A música é a que dá nome ao disco e é daquelas que sempre me pega pelo nervo.

Ryan Adams“Afraid Not Scared” (do disco “Love Is Hell”, 2004)
O ‘Love Is Hell’ é um disco maravilhoso e essa é uma das minhas favoritas desse disco e de toda a discografia do Ryan Adams.

Rodriguez“Sandrevan Lullaby Lifestyles” (do disco “Coming From Reality”, 1971)
Uma das minhas letras e música favoritas. Conheci o Rodriguez uns anos antes de sair o documentário sobre sua obra e desde então seus dois discos que servem como uma espécie de bússola.

Mark Lanegan Band“Bombed” (do disco “Bubblegun”, 2003)
Ouvi esse disco quando saiu. Me fez entender que não é necessário ter guitarras ou gritos para ser rock.