Supla e uma ode às músicas traduzidas para o português em “Menina Mulher” (2004)

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"Menina Mulher", disco do Supla de 2004

Não dá pra negar que Supla é um cara que realmente não se importa com o que os outros dizem, o que é muito benéfico. Afinal, depois que ele mostrou que sabe não se levar tão a sério e abraçou a zoeira de Marcos Mion no finado programa “Piores Clipes do Mundo” da finada Mtv Brasil, Supla reergueu sua carreira no Brasil e vendeu como água seu disco “Charada Brasileiro”, além de conseguir uma bela vaga no reality “Casa dos Artistas, ficando em segundo lugar. A partir daí, lançou discos tão amplos quanto sua personalidade, indo do punk rock ao pós punk, do rap à “bossa furiosa” (no ótimo projeto Brothers of Brazil, com seu irmão João Suplicy). Supla, como seu pai Eduardo Suplicy, é um cara que é difícil de não gostar, mesmo que você não seja lá muito fã de seu trabalho. Suplicy é o petista que até fãs do PSDB (como minha mãe, por exemplo) adoram, e Supla é o punk que até os mais ávidos odiadores do rock simpatizam. Talvez seja algo inerente à família Suplicy, quem sabe.

Em 2004, Supla lançou o disco de versões “Menina Mulher”, com produção de Liminha, o cara que fez o rock brasileiro dos anos 80 ser o que foi. No disco, o Papito mostra sem vergonha nenhuma a sua falta de medo de ser feliz. Afinal, pegar 13 músicas, muitas delas clássicos, e fazer versões em português é algo que provavelmente apenas Sandy e Junior e Aviões do Forró conseguiriam fazer com louvor e ousadia assim. Mas Supla não tem receio e passa incólume à esta tarefa: traduziu ou recriou sons de gente como Blondie, Elvis Presley, Gary Glitter e Flock of Seagulls com seu tempero platinado e sem muito respeito à letra original.

Isso já pode ser visto na divertida faixa-título, que abre o álbum. Versão de “Leader Of The Gang”, hit do encarcerado Gary Glitter, “Menina Mulher” fala do clichê roqueiro tiozão de admirar moças que acabam de chegar na puberdade. Aliás, Supla sem querer acabou falando um pouco do que levou Glitter a ser preso, né. Enfim.

“Cenas de Ciúmes” foi o primeiro single e ganhou um clipe estrelando Luciana Gimenez (sim, do Superpop!) e transforma a letra original em um som sobre (dã) ciúmes. A voz de Supla é perfeita para a música, e apesar de abusar das rimas de verbo com verbo, a música fica divertida em sua versão brasileira. “Eu Já Não Quero Mais” é uma versão do hit do PhD “I Won’t Let You Down” e ganha uma letra de separação que vai totalmente na direção contrária que a música original. Supla dá uma engrossada na voz pra dar um ar mais pós-punk à canção. Na sequência, a única música autoral do disco, “Aquela Sexta-Feira”, punk, curtinha e que passa meio batida em meio às outras.

Voltamos às versões com “Baby Doll”, com Supla fazendo versão de “Baby Talk” daquele que é sua versão importada, Billy Idol. Aliás, acho que ainda nessa existência é necessário que algum dia exista uma parceria (ou como os millenials falam, um “featuring”) entre Supla e Idol. O quase sacrilégio do disco vem em “Coração em Chamas”, em que ele simplesmente destrói o maior hit de Chris Izaak, “Wicked Game”. Apesar de ser uma das músicas que mais tenta manter o teor original, não funciona. Dá uma olhada:

Que tipo de jogo é esse?
Eu queria saber
Mistura a tristeza e alegria
E ainda nos dá prazer
Que tipo de jogo é esse?
Onde amar é sofrer
Que tipo de jogo é esse?
De te pertencer

“Verão de Dezembro” é uma versão divertida para um semi-hit de Elvis Presley, “Return To Sender”, e o jogo de palavras da tradução pra lembrar um pouco o original é simplesmente digna de “Weird Al” Yankovic. Uma das melhores do disco, sem dúvidas. Como “Heartbreaker” da Pat Benatar não estourou muito por aqui, essa versão (“Virgínia”) passa facilmente como uma música própria do Supla, sem medo de ser feliz. Mas aí vem um combo de sons clássicos:

“Tina” é uma versão para o clássico dos clássicos do Cheap Trick, “I Want You To Want Me”, e não deixa de ser engraçado ouvir o malabarismo lírico de transformar “Didn’t I, didn’t I, didn’t I see you crying” em “Tina, Tina, Tina, não chore”. Se você achou essa meio cômica, aguarde a transformação de “Mr. Postman”  em “Carolina”, pegando a letra original e jogando na lixeira sem dó nem piedade. “Oh yeah, lembro bem da Carolina / Yeah yeah yeah Carolina”.

“Tititi”, por incrível que pareça, funciona bem como versão tupiniquim de “Shake It Up” do The Cars. Sim, tem muita rima de verbo com verbo, mas se você ignora isso, até anda. Parece mesmo um som do Tokyo. Já “Paixão Pra Esquecer” é quase um sacrilégio com “Flowers By The Door” do TSOL. O instrumental segura, mas a versão não consegue se manter. Fechando o disco, uma versão quase literal acústica para “Hanging On The Telephone” do The Nerves e famosa na versão do Blondie. O nome? “Telefone”, claro.

Somando tudo, se você não levar muito a sério (e o próprio Supla acerta muito em não se levar muito a sério e se divertir sempre), “Menina Mulher” é um disco divertido e mesmo as versões mais esdrúxulas podem render boas risadas.