Construindo La Burca: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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La Burca

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o duo La Burca, que indica suas 20 canções indispensáveis.

L7“Andreas”
Amanda: Um marco na minha pequena vida musical, nunca mais fui a mesma depois que comecei a escutar essas mulheres e as vi pela tela da TV esfregando um modess na cara da sociedade no Hollywood Rock. Tinha uns 12 anos quando comprei o CD “Hungry for Stink”, deixava no repeat sempre. L7 foi uma referência forte na minha construção sonora. Uma tatuagem sonora. Acho que a música “Similar” é um exemplo.

Come“Hurricane”
Amanda: As linhas de guitarra preguiçosas/nervosas e vocal largado-chapado de Thalia Zedek me arrebataram nos anos 2000, época que descobri a banda. Inebriante essa canção. Tem um som inédito “El Topo”, que foi bem influenciado por essa fase, lembro que estava viciada no disco “Near Life Experience” quando compus.

Ramones“53rd e 3rd”
Amanda: Os Ramones construíram toda a minha base para fazer música. Eu pensava, também posso criar, caramba! Esse som é um deles, um épico punk e tem todo o contexto junkie psicótico do Dee Dee. Eu sempre racho o bico na última estrofe porque é absurda e lembro que não podemos nos levar a sério o tempo todo com nossas letras. Bom, tomara que ele não tenha puxado a navalha de fato, né. “Gonzo Truth”, que é uma canção relativamente calma nossa, tem uma batida da bateria em “slow motion” inspirada nesse som, por exemplo.

Wipers“Soul’s Tongue”
Amanda: Esse som me leva para passear por dunas sonoras da alma e me inspira em vários momentos, Greg Sage é uma escola foda. Tem umas linhas de som instrumental livres que faço pra me soltar e que formam sons depois que vem dessa linguagem, bom, pelo menos eu tento e vou continuar tentando! (risos)

Patti Smith“Wings”
Amanda: O que falar dessa mulher e da sua importância na nossa (r)existência musical/ artística como como ser humana? She is a benediction. Obrigada pelas asas & baladas, Patti ❤

Mercenárias“Imagem”
Amanda: Esse som é fantástico e ímpar, gosto muito do tom da voz da Rosália. Aos poucos começo a cantar uns trechos dos sons em português, e Mercenárias me “ajudam” nessa transição. Sempre escuto pra dar um gás no pt/br e lembrar das origens também (risos)!

Durutti Column“Sketch for a Dawn I”
Amanda: Esses dias coloquei pra Duda (nova batera) escutar, e ela falou: “É daí que vem os graves que vc sempre pede”! Os tum-dum-dum dos tons, sempre marcantes na hora de construir as minhas baterias mentais…(risos). Na real, o álbum “LC” do Durutti Column é o meu preferido de todos os tempos. Me pega de um jeito atemporal, adoro a “fragilidade” tão intensa dos sons desse magrinho querido.

The Index“Israeli Blue”
Amanda: Quando decidi assumir o violão folk e esboçava formar a La Burca, vinha escutando incessantemente essa banda psych-garageira. Puta som visceralzão, só lançaram 2 discos no final dos 60´s. Me apaixonei por eles e sempre retorno pra me revigorar no violão, embora o som deles seja com guitarra. Mas faço essa conexão sempre entre Index e violão.

Hazel“Day Glo”
Amanda: Som que me abraça e faz eu voltar no tempo de descobertas sonoras: melódico, pungente e grunge. Puta-que-o-pariu, que trio, ou melhor, que quarteto com o louco dançarino! As linhas de vocal intercaladas entre a baita batera Jody e do guitarrista Pete são fodas demais pro meu coração, muita criação grungística veio daí. Banda muito querida na minha vida.

Dead Moon“Clouds of Dawn”
Amanda: Essas bandas de Portland, vou falar, viu (Wipers e Hazel too)! Passava horas nas tardes distraídas e descompromissadas de minha adolescência ouvindo esse trio maravilhoso! Vi eles no doc “Hype” e chapei no som meio garageiro tosco bem tocado. Gosto muito dos vocais do casal, é muito emocionante. Esse som me acompanha há muito tempo e não abro mão.

The Slits“Dub Beat”
Jiulian Regine: O que me agrada na pesquisa rítmica de Palmolive é a experimentação dentro do gênero post-punk, a cada disco percebe-se fisicamente a liberdade de investigação, rompendo todas as limitações e queimando todas as bandeiras com gosto e bruxaria.

Autolux – “Listen To The Order”
Jiulian Regine: Os grooves de Carla Azar são verdadeiras fontes de inspiração e pegada, muita dinâmica, notas fantasmas e muita precisão. Escuto sempre com a alma toda, com segurança e alegria nas composições dela.

Babes In Toyland – “Hello”
Jiulian Regine: Lori Barbero trás uma pegada que é muito natural pra mim, tanto nos timbres quanto no estilo, que é um flerte ao metal.

Blood Mary Una Chica Band“Take Me”
Jiulian Regine: A Mari me trás uma mistura de influências que vem do blues ao garage fuzz, se decupar o trabalho dela você encontra muita influência que se atravessa e resulta sempre em trabalhos fantásticos. Absorvo sempre a riqueza da simplicidade do que é possível fazer para acompanhar um beat predominante que é o da guitarra, ou violão, no caso da La Burca. E não confunda simplicidade com facilidade!

Deap Vally“Baby Can I Hell”
Jiulian Regine: Julie Edwards me faz investigar a postura corporal, acima de tudo. Uma potência performática!

The Coathangers“Hurricane”
Jiulian Regine: Essa música me faz pensar no timbre, com cadência rápida e suja sem perder a nitidez, chimbal aberto no groove todo com dinâmica sucinta. Tenho a impressão de que Rusty adoraria conhecer La Burca (risos).

Carangi“Seven”
Jiulian Regine: A Carol Doro é um orgulho, além de ser aquariana do mesmo dia que eu (risos) temos muito em comum, incluindo nosso amor pelos batuques. Gosto de como ela soa na bateria, com essa pegada de grunge delicioso que ela trouxe para o Carangi, com essa banda eu fecho os olhos e mergulho nas cores dos timbres dos pratos que ela tanto escolhe com atenção. Em todos os níveis a La Burca me proporciona investigar esses timbres mais abertos de pratos e chimbal, com a caixa mais seca e precisa. A relação é direta.

Sleater-Kinney“Steep Air”
Jiulian Regine: Bom, a Janet me faz querer rudimentos e mais rudimentos, amo a forma como ela traz as viradas pra dentro dos grooves, não só como delimitação das partes mas como composição das frases.

Lava Divers“Done”
Jiulian Regine: A Zump me encanta, quando você a vê tocando você sente todo o amor e toda a forma de expressão através da bateria, eu costumo fechar os olhos e viajar.

Hangovers“V de Vinagre”
Jiulian Regine: Ai ai, Liege. Determinação (se for pra definir e olha que definições não me convém). Pegada forte, dança de bumbos, sempre atenta aos timbres. Poderosa!

“Kurious Eyes” mostra o som “pós-punklore” performático do duo La Burca

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La Burca

O “pós-punklore” performático do La Burca vem diretamente de Bauru, no interior de São Paulo, e desde 2011 mistura em seu som diversas influências de pós-punk, folk, grunge e punk rock, entre muitas outras coisas. “Tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos)”, conta Amanda Rocha (vocais e violão), que junto com Lucas S. (bateria) já lançou três discos: os EPs “La Burca” (2013) e “She Goos to Flowers” (2015) e o recém-lançado disco “Kurious Eyes” (2016).

Sobre o novo trabalho, Amanda conta que optaram por gravar o som ao vivo. “Usamos alguns ruídos e calmarias que podem permear um show. Um exemplo é a música ‘HHH’, um improviso-hino-randômico-ao-amor feito em parceria com Marcos Tamamati (Bertran de Born, Acromo) na guitarra, que também toca na instrumental ‘Goos’”. O disco contou também com as participações de Vanessa de Michelis (guitarra) e Jiulien Regine (percussão), do Post e da banda de Sara Não Tem Nome, na música “She Thrills”. As faixas contam com temas como o amor entre mulheres, preconceito, empoderamento e muito mais.

Conversei com Amanda sobre a carreira da banda, o “pós-punklore”, o machismo no meio musical e suas inspirações musicais:

– Como a banda começou?

Começamos em 2011. Eu pensava em algo mais acústico, meio neo folk… Tinha muito som parado e tava incomodada de não mostrar. Aí demos um break,  mudei de cidade e o Lucas se enrolou… Voltamos no final de 2012, ensaiamos uns 2 meses e gravamos ao vivo. Curiosidade: o primeiro show foi em fevereiro de 2013 com o lançamento do disco “La Burca”, D.I.Y. Antes de chamar o Lucas tentei algo cênico com um maluco, mas surtamos no primeiro ensaio e não rolou. Ia ser um acústico violento (risos).

– E porque “La Burca”?

Hmmmm… Foi tudo meio instintivo… Fiz um som instumental com esse nome e um desenho – que seria a capa do disco com o nome “La Burca”. Tem a ver com libertação/opressão/se salvar de si mesma. O nome da banda foi uma consequência ao que já tinha feito, “batizado”.

– E porque mudou de estilo? Como você definiria o som da banda?

Não cheguei a mudar, sé adaptei mais, porque tudo se comunica,  tenho sons mais pro folk e outros que ganharam peso com bateria. Aliás, bateria que passo mais ou menos o que quero e ele adapta. Então, pensei no termo post-punklore, porque são as misturas sonoras mais significativas pra mim: post punk, punk e folk.
Só faltou o grunge (risos). Eu escutei um som que o cara falava “this is punklore”, ou eu acho que escutei isso e ficou martelando… Porque casava com o que fazia/faço.

– Quais são as principais bandas e artistas que influenciaram o La Burca?

Vixe, tem muita coisa, porque acho que desde o que escutei na infância, tipo Balão Mágico,  me influenciou (risos). Escutei e escuto muito post punk, MercenáriasHermeto Paschoal,  música clássica surrealista… Ravel, Satie, Debussy… punk… Subhumans, Germs, Ramones, Slits, Husker Du, Minutemen, mas Dead Moon, Wipers e Hazel moram no coração… Fora o grunge, claro, afinal sou dos anos 90. Outra coisa que amo muito escutar é Durutti Column e… “Neil Young é meu pastor e nada me faltará!” Também curto muito no wave, Lydia Lunch, Mars, James Chance… Krautrock – Can, Faust, Amon Dull… Lucas escuta muita coisa também, Novos Baianos, hardcore,  big band orquestras… Ufa! Sou fotógrafa, e vou parafrasear um fotógrafo – Duane Michals – com esta frase: “Eu sou um reflexo, musicalizando outros reflexos com seus reflexos”.

La Burca

– A música ainda é um meio muito machista? Como você vê isso?

Sim,  a sociedade é machista e o rock não fica de fora. Acho que o tempo todo somos postas à prova.  Tipo “será que ela sabe tocar?”, “Vamo ver qualé dessa mina”. Ssei que é um pensamento corrente em mentes estúpidas.  Toco há 20 anos no underground e não estamos isentas num nicho a priori “libertário e alternativo”. Muitas barreiras vêm sendo quebradas nesse meio musical, sejam eventos voltado às minas, só com bandas de mulheres ou majoritamente, há um fortalecimento e empoderamento necessário em andamento, mas é uma luta constante contra o machismo. Às vezes penso que é infindável. O rock é um reflexo da sociedade, um produto dela e temos que reverter esse “produto” em algo igualitário, condizente com a realidade das mulheres que produzem, tocam, cantam.  Enfim, (r)existimos.

– Fale um pouco mais sobre o material que a banda já lançou.

Lançamos o primeiro álbum em 2013, o homônimo “La Burca”, no esquema do it yourself. Gravamos em um estúdio em Agudos e produzimos e distribuímos nós  mesmos. Lançamos ele junto ao nosso primeiro show.
São 9 sons que mostram essa pegada “post-punklore” com sons mais sussa e acelerados. Gosto muito dele porque foi tipo uma libertação pra mim, em vários sentidos.  Enfim. Lá tem “Similar” e “Diário de uma Sombra”, opostos que se comunicam.  Punk grungístico e som instrumental. Adoro musica instrumental-minimal. Esses dois sons tem uns clipes maneiros no nosso canal do YouTube (“maneiros”, gíria idosa). É um disco especial que já mostramos os lados que curtimos. Como “Kid Kid Kid”,  balada post punk “psicodélica” e “Excuse from the Universe”. São sons que eu tinha “empoeirados”,  guardamos desde 2001… que se misturaram e deram nele. Os desenhos do encarte desse disco foram influenciados pela HQ “Bloody”. Gosto muito de HQS literárias e tals…  O clipe de “Diário de uma Sombra” também tem uma pegada Sandman. Eu usei imagens do meu livro “A Imagem no Museu do Sonho – Uma Visão Imaginária de Sandman”. Lancei o clipe junto com o livro em 2014. Na real tento unir as artes que faço,   som e imagem. Já o EP “She Goos to Flowers” que antecede o “Kurious Eyes”, a capa foi feita por minha namorada Aline, que também é fotógrafa. Lançamos 3 sons nesse: “Goos”“Flowers of Romance” e “She Thrills” – esta música gravada com a Post Vanessa de Michellis na “outra” guitarra e Jiulian Regine na percussão, ensaiados uma hora antes de gravar e rolou. O nome-frase do disco é um analogia aos sons. Elas também tocam com a Sara Não Tem Nome. Ah, gravamos tudo ao vivo sempre, exceto a voz nesse segundo que preferi regravar separado. “Goos” também teve participação na guitarra com o Marcos Tamamati, que também toca em um duo, Bertran de Born. Lançamos tudo por nosso selo, punklorecords! “She Goos to Flowers” é do final de 2015. Agora em julho lançamos o álbum completo “Kurious Eyes”, também com 9 sons. Tamo aguardando pra setembro o vinil pela Lombra Records, de Brasília. Capa e arte também assino. Foi um disco mais trabalhoso, um parto, mas nasceu saudável (risos). A gente tava muito ansioso pra mostrar sons novos… Tocamos eles já faz um tempo em shows, com exceção de algumas.

– O que você acha da atual cena independente no Brasil?

Acho que existem várias cenas, é bem amplo o aspecto de cenário brasileiro. Ficamos mais na região sudeste, centro oeste paulista, então a percepção daqui é uma… Fomos agora pro DF lançar o disco novo, baita rolê lindão, diga-se, e vimos bandas tão distintas e tão próximas também entre elas… Há um emaranhado sonoro complexo de bandas instrumentais ótimas, por exemplo, post punk, sludge doom.. tanto daqui quanto dali. E os duos também, há uma cena incrível de duos espalhada… Tipo Sulfúrica Billi do Maranhão, Cassandra de Curitiba, Post de Belo Horizonte, Magnetita e Projeto Trator de SP, Muñoz de MG, Betran de Bauru… O problema é ficar ensimesmado e não ter troca, ficar fechado numa cena só de uma cidade… Na panela gordurosa. Aí não vira. Há muita música acontecendo.

– Você falou sobre duos. Porque este formato ficou tão popular depois dos anos 2000?

Não sei ao certo, mas pra mim foi pela facilidade de tocar, estava já meio esgotada do formato quarteto ou trio.  Menos é mais, às vezes (risos). Menos gente, menos problema. Como pensava em algo mais intimista e minimal,  o duo foi uma solução já pronta.

– E você acha que a cena do rock pode algum dia sair do underground e voltar às paradas de sucesso, como já rolou nos anos 90?

Vixe,  quem sou eu pra responder,  né?  Creio que todxs do meio  gostariam de ouvir algo decente nas rádios e não o lixo que desce ondas abaixo.  Tudo o que é novidade vende.  O grunge foi assim e além de ser novidade na época era e é boa música.  Havia um contexto cultural efervescente e dinâmico de bandas,  produtores. Hoje há apenas o mercado e sem qualidade,  ficamos restritos a um cenário que “celebra a si mesmo”.  Acho difícil,  hoje tudo é nicho.

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– Mas você acha que isso é culpa da internet e a queda da cultura do álbum, da Mtv Brasil e do fácil acesso aos singles em streaming ou algum outro fator? A culpa é do público ou do mercado?

Tá todo mundo acomodado!  A culpa é do governo (risos). Hoje é outro contexto de se ouvir  música.  São novos tempos e creio que estamos em fases de adaptação.  Mas prefiro a velha escola.  Vinil,  K7, CD.

– Quais os próximos passos do La Burca em 2016?

Divulgar o novo disco – “Kurious Eyes” – onde pudermos, ir pra outros Estados, ampliarmos os palcos. E tamo aguardando o vinil pela Lombra Records também,  vai rolar show em SP em setembro possivelmente com o lançamento.

– Recomende bandas e artistas (de preferências independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Os duos Luvbugs e Fronte VioletaLiniker e os Caramelows, Sociopata, Mais Valia, Sara Não Tem Nome, Gattopardo, Jussara Marçal, Giallos, Post, Krokodil, Rakta! Porno Massacre também é louco. Glassbox. Tem muita banda que escuto randomicamente… Inclui Blear!  Tô pirando com o novo,  foda demais. Acho legal falar de bandas antigas também que cresci ouvindo e ainda ouço: Pin Ups, Brincando de Deus, Snooze, Eddie, Second Come… Isso graças aos zines que chegavam, tipo o Scream & Yell… Época linda e ingênua, sem a precocidade imediatista de sucesso da internet.

Festival Distúrbio Feminino combate o machismo no meio musical neste sábado em São Paulo

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Festival Distúrbio Feminino

Neste sábado acontecerá em São Paulo a primeira edição do festival Distúrbio Feminino. Organizado pela autora do programa de rádio/blog, Mariângela Carvalho, Supernova Produções e pelo Tsunami Coletivo, o evento vai rolar na Praça do Ouvidor, que fica no Largo São Francisco, na Sé, das 14h às 19h. O festival é gratuito. “O objetivo é mostrar a qualidade dos trabalhos realizados por mulheres em diferentes áreas das artes”, explicou a produtora. “O evento procura evidenciar o poder das garotas, que nunca deixaram a desejar no quesito talento e originalidade. Queremos mostrar que as mulheres estão em completa equidade criativa e artística com os homens, e que muitas mulheres juntas podem mudar o sistema e as noções de machismo”.

O line-up contará com 4 bandas paulistas independentes: do interior, La Burca (Bauru) e Travelling Wave (Piracicaba), e da capital, BBGG e Fronte Violeta, bandas que surgem com força no cenário autoral do rock em 2015. Além disso, as garotas do Coletivo Efêmmera farão um grafite ao vivo durante o evento e o selo Contra Boots registrará um bootleg com os shows do dia, que será lançado em fitas K7 limitadas posteriormente.  Conversei com Mariângela sobre o evento:

 

– Como surgiu a ideia do festival?

Quando o Distúrbio Feminino surgiu ele tinha muitos propósitos: ser um zine artesanal, uma festa, programa de rádio, blog, festival. Começou como programa de rádio (atividade que sempre exerci desde formada) e ficou no ar por cerca de um ano e meio. Como a ideia nasceu para ser pluralista mesmo, envolvendo diferentes formatos e mídias, já estava na hora de expandir o foco e estrear como festival. Os objetivos continuam iguais (assim como eram enquanto programa radiofônico): mostrar a qualidade dos trabalhos realizados por mulheres em diferentes áreas das artes; por isso o festival traz música e artes visuais, com as garotas do Coletivo Efêmmera promovendo um grafite ao vivo durante o evento.

– Como este projeto busca combater o machismo, que continua tão em alta no Brasil (e em todo o mundo)?
O evento procura evidenciar o poder das garotas, que nunca deixaram a desejar no quesito talento e originalidade. Queremos mostrar que as mulheres estão em completa equidade criativa e artística com os homens, e que muitas mulheres juntas podem mudar o sistema e as noções de machismo. Hoje sabemos que podemos fazer e ser tudo aquilo que queremos.:)

BBGG
BBGG

– Pode me falar um pouco mais sobre as bandas que vão participar?

Quando o festival começou a ser formado a ideia era que tivéssemos 4 bandas vindas de lugares diferentes do Brasil para mostrar as diferentes produções que temos hoje em dia. Grupos do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram convidados, mas com nenhum deles foi possível (os motivos eram os mais variados, mas o que pesou mesmo foi o preço das passagens, pq realmente ainda é muito caro viajar pelo país). Depois dessa fase com várias respostas negativas (que também fugiam do controle das próprias bandas), grupos próximos foram convidados e aos poucos pudemos fechar o line-up em 4 nomes. Os estilos das 4 bandas são bem variados entre si mas todos carregam a essência do rock. BBGG é um nome recente no circuito mas tem um potencial enorme. Com 3 garotas à frente, a aposta deles é numa pegada mais classic rock, riffões e refrão para ser gritado. La Burca e Fronte Violeta são dois duos, de Bauru e SP capital, respectivamente. O La Burca tem uma proposta que considero bem original no país que é fazer punklore, um punk acústico (muito produzido nas terras gringas mas por aqui ainda sem muito destaque), e o Fronte Violeta faz experimentações eletrônicas e brinca muito com colagens sonoras, synths, delays. E o Travelling Wave é um quarteto de Piracicaba. A onda deles é mais psychedelic com muitas teclas e reverb, fazem um show bem intenso e têm 2 garotas de destaque.
La Burca
La Burca

– Nos anos 90, festivais com bandas independentes pipocavam em todo o país e geraram diversas cenas musicais. Porque isso parou? Tem como recuperar?

Acho que o ritmo foi diminuindo ao  longo dos anos, mas nunca chegou a parar. Muitos fatos podem ser creditados a esse déficit como, por exemplo, o rock ter passado uns bons 15 anos na geladeira no Brasil. Há anos não temos um nome forte e que chegue às massas mesmo, isso enfraquece o movimento e a vontade de fazer. Nos primeiros 5 anos dos anos 2000 surgiram muitos festivais de rock independente mas eles perderam a força quando se notou que a movimentação era mais política do que artística. Isso tb enfraqueceu quem estava a fim de produzir. Hoje em dia eu acho que o momento é outro mesmo, com agentes culturais e bandas levando o faça-vc-mesmo ao pé da letra e concretizando vontades que antes só existiam no plano das ideias.

– Você pretende levar o projeto para a frente, fazer mais edições do festival?
Com certeza! O Distúrbio Feminino (como um todo) sempre obteve mais sucesso do que eu imaginava e próximas edições estão certamente nos planos, com vontade de ser cada vez maior e dar mais visibilidade para as mulheres nas artes.

Travelling Wave
Travelling Wave

 

 – Onde será o festival? As casas de SP oferecem auxílio para bandas autorais?
O festival acontecerá na rua, melhor lugar para expressar as artes. Ali próximo ao metrô Sé, no Largo São Francisco, existe um espaço muito bom que é a Praça Ouvidor Pacheco, que já tem um tablado perfeito para usar como palco e é um lugar bem amplo, dá pra muitas pessoas circularem livremente. Sim, a maioria das casas em SP oferecem um certo auxílio para as bandas, mas cada uma tem seu esquema: algumas dão uma porcentagem da bilheteria, algumas dão toda a bilheteria e outras (a minoria) garante o cachê fixo.
Fronte Violeta
Fronte Violeta

– Além dos shows, também vão ter outras atrações, correto?

Isso! Mantendo a ideia de ser multimídia, o Distúrbio Feminino Fest tem também a participação das meninas do Coletivo Efêmmera, uma galera talentosa que se divide por diferentes cidades para articular sobre artes visuais, cultura urbana e, claro, empoderamento feminino. No dia do eventos elas estarão grafitando telas com temas feministas e depois vamos deixar esses trabalhos expostos em casas alternativas da cidade. Além das Efêmmeras, também teremos a galera do selo Contra Boots. O trabalho que eles realizam é daqueles “simples mas geniais – como ninguém pensou nisso antes?!?!”. O selo grava e lança bootlegs de shows em fitas K7, com edição limitada, arte caprichada e esquemas de distribuição, e eles farão isso com os shows do festival, que depois se tornarão ‘obras físicas’. A ideia é registrar o evento e guardar para a posteridade.

Coletivo Effêmera
Coletivo Effêmera

– Onde o pessoal vai poder comprar estes registros?
Diretamente com os meninos do selo. A princípio vamos fazer apenas 30 cópias, sendo que 14 ficarão com as bandas (uma por integrante), 10 para mim e 6 para o selo. as minhas eu ainda não sei o que vou fazer (risos). Mas quero presentear algumas pessoas que estão me ajudando nessa.

– Quem fez a arte do flyer?
A arte foi feita pela Micha Oliveira, conhecida como Teenage Micha. Ela é artista visual e zineira no RJ e participa de coletivos feministas também. As figuras das meninas que constam na arte do festival foram feitas a mão e depois ela digitalizou.

 

Festival Distúrbio Feminino
Onde: Praça do Ouvidor – Largo São Francisco – Sé – São Paulo
Quando: 17 de outubro (sábado) das 14h às 19h
Quanto: Gratuito
Classificação livre