Quando a fé é genial – John Coltrane – “A Love Supreme” (1965)

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John Coltrane

Poucos trabalhos musicais conseguiram unir a devoção espiritual e uma proposta estética distinta com tanto êxito. É o caso de “A Love Supreme” (1965), talvez o grande disco de jazz da década de 1960.

A afirmação sonora do quarteto formado por John Coltrane, McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria) é de uma qualidade brutal, capaz de nos fazer refletir, meditar, sorrir e vibrar. Pensa aí, quantos discos você já escutou e sentiu várias coisas ao mesmo tempo? Esses poucos são sempre uma preciosidade particular, embora provavelmente muita gente concorde comigo quando falo desse disco, especificamente. Este é um LP obrigatório. Não há restrições quando se trata de “A Love Supreme”.

Tocando com Miles Davis em um grupo fantástico e se apresentando noite após noite, os abusos com álcool e heroína começaram a prejudicar sua vida. A tal ponto que em 1957 chegou a ser demitido pelo próprio Miles. A partir daí, iniciou sua batalha contra o vício que devastava sua vida pessoal e profissional. Nesse mesmo ano experimentou um “despertar espiritual”, que segundo ele o conduziu a uma vida mais plena. Voltou para o trabalho com Miles um período (a tempo de produzir aquele que talvez seja o ponto máximo do jazz até hoje: “Kind Of Blue”), mas no início de 1960 sai de uma vez para formar seu próprio grupo. E deste contexto saiu sua maior obra, cinco anos depois.

Além do talento praticamente único para tocar o sax tenor, John Coltrane também é conhecido pela sua peculiar espiritualidade. “Eu acredito em todas as religiões”, dizia.  A relação de Coltrane com temas relacionados é tão forte que até mesmo existe uma seita, a Saint John Coltrane African Orthodox Church. É sério. O reverendo Franzo Wayne King é o pastor da congregação que mistura liturgia Africana com frases e músicas do saxofonista. “A Love Supreme” é uma espécie de “bíblia” para os membros, e tratam o LP como um objeto de estudo e veículo para a devoção. Isso tem algum nexo?

Bem, dizem que estava na ideia de concepção de “A Love Supreme” Deus e o físico alemão Albert Einstein, cujo trabalho John sempre manteve forte interesse. Unindo a ideia de uma força maior criadora, esoterismo e as infinitas possibilidades da Matemática, Coltrane tratou de fazer sua magnum opus: uma ode à sua fé no amor e em Deus.

Esse verdadeiro monumento é construído em quatro partes: “Acknowledgement”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”. São nesses 33 minutos, gravados em uma única sessão em 9 de dezembro de 1964, que John conseguiu o mais perfeito diálogo entre uma força sagrada e sua criatura, empregando a música como esse idioma tão misterioso. Quebras de tempo, improvisação, fraseados que beiram a fala, sutileza e potência… Não cabem adjetivos para o que fez aquele quarteto.

Em “Acknowledgement” Coltrane experimenta empregar a voz, entoando o nome do álbum como uma espécie de mantra, enquanto a banda entra em uma atmosfera cheia de groove latino. A voz do sax é apaixonada, determinada, de modo que parece um pastor pregando um evangelho. Pode parecer viagem, mas se você pensar que Coltrane tinha em mente justamente tocar sobre o “amor supremo”, me parece bastante razoável essa perspectiva.

As cores da música árabe (o que não é necessariamente coincidência, pois sabe-se que John flertou com o islamismo fortemente) dão forma ao belo desenho que é “Resolution”. A banda brilha com uma intensidade absurda. É uma música sem falhas, executada em sua perfeição. Ninguém poderia fazer melhor que aquelas quatro pessoas. Esse tempero do Oriente Médio com o escuro que o jazz evoca faz do tema irresistível. É como um riff de rock, pode morar na sua cabeça por dias.

“Pursuance” já começa com um solo destruidor de bateria e descamba para o virtuosismo sem soar excessivo. O tempo é rápido, a força é total e aqui o sax de Coltrane soa como o fluxo de consciência, mas de alguém que sabe pra onde ir. Sua dicção através de seu instrumento é fantástica. Destaque também para o belo solo de baixo que encerra a faixa.

Eis que chega “Psalm”, que talvez seja a mais refinada demonstração artística de uma fé pessoal, livre de imagens pré-concebidas. De fato, a faixa que encerra “A Love Supreme” é um arranjo baseado em um poema que Coltrane fez para Deus e imprimiu no álbum. Ele toca quase exatamente cada nota para cada sílaba do poema, baseando suas frases nas palavras.

Eis aqui o poema. É de chorar:

Depois disso, o que mais precisa ser dito? Ouça já esse gênio!

Construindo Zé Bigode: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Criolo“subirusdoistiozin”
Primeira musica que ouvi do Criolo, logo de cara achei o nome bem diferente, quando conferi o som ouvi uma base bem orgânica com uma pegada jazz, com aquele som de Fender Rhodes curti de cara e depois fui baixar o disco nó na orelha que foi bem importante pra mudar minha visão musical

Gil Scott Heron“Lady Day and John Coltrane”
Uma das minhas musicas favoritas do disco “Pieces of a Man”, clássico do Gill Scott Heron, essa musica toda vez que me sinto meio pra baixo serve de estímulo, assim como na letra ouvir “Lady Day and John Coltrane” levam os problemas pra longe, Gill Scott também o faz muito bem.

Oasis“Live Forever”
Ouvi muito Oasis na minha vida, e essa música sem duvida é uma das que mais escutei deles, lançada em 1994 no disco de estreia, o “Definitely Maybe”, escrita por Noel Gallagher, é uma homenagem a estar vivo.

John Coltrane“Acknowledgement”
Uma das músicas mais perfeitas da história da humanidade. É só isso que consigo dizer quando a ouço, muitos sentimentos nesse som aí! Sem contar que faz parte de um dos maiores discos da história, o “A Love Supreme”.

BaianaSystem“Playsom”
Só quem já foi num show do Baiana sabe a energia que é, e essa música pra mim é a que melhor define o som deles. Pedrada pura!

Nina Simone“I Put a Spell on You”
Nina Simone, né? Dispensa comentários, rainha!

Gilberto Gil“Drão”
Já era fã da musica desde sempre, quando descobri que era uma musica falando da separação dele com a Sandra Gadelha, um pedido de desculpas, tem vários jogos de palavras geniais.

Céu“Lenda”
Essa tem um groove que pega de primeira ouvida, lembro que quando descobri esse som e o disco de estréia dela, ouvi sem parar.

Elton John“Razor Face”
Eu podia indicar qualquer faixa do disco “Madman Across The Water”, que é um dos meus discos favoritos, mas vai “Razor Face”. Acho que é a que melhor representa essa fase do Elton John, quando ele tinha o timbre de voz bem agudo e lançava um clássico atrás do outro.

Gal Costa“Tuareg”
Se não me engano essa musica é do Jorge Ben. “Tuareg” mostra quanto o Brasil estava num ótimo momento musical no fim da década de 60, experimentando sonoridades de várias regiões do mundo e mesclando com a nossa musica tradicional. Os anos 60 foram bem intensos pra musica popular, apesar de politicamente estarmos em um dos piores momentos de nossa história.

Belchior“Alucinação”
Faz parte do álbum de mesmo nome, eu citaria o disco todo, mas escolho essa, que mostra o Belchior na sua melhor forma poética, dando o papo reto numa crítica ácida e certeira. “A minha alucinação é suportar o dia a dia”.

Chico Science e Nação Zumbi“Manguetown”
Chico Science talvez seja uma das minhas maiores influências, a sensacional analogia da parabólica fincada na lama… A música é isso, é universal, é um pouco de tudo que já escutamos nessa vida independente de território. Poucos souberam mesclar o tradicional com a vanguarda como Chico Science fez, um verdadeiro alquimista.

Jorge Ben“5 Minutos”
Falando em alquimista musical, aqui temos outro. “5 Minutos” chama minha atenção pela harmonia dela, diferente de quase tudo que ele fez. É torta mas tem groove, vê se pode?

Metá Metá“Oyá”
Metá Metá é uma das melhores coisas que a musica brasileira nos proporcionou nesse novo século. É punk? É samba? Música de terreiro? Escolhi “Oyá” por ter uma dinâmica entre a porrada e a calmaria.

Planet Hemp“Stab”
Nunca tive uma formatura, mas se tivesse certamente entraria com essa música. Escutei bastante quando andava de skate, me dá uma motivação enorme pra enfrentar as dificuldades.

Fela Kuti“Army Arrangement”
Essa música é quase um disco (risos). Com quase meia hora de duração, algo muito comum pro Fela Kuti, icone negro de resistência contra as opressões do governo e do imperialismo eurocêntrico.

Herbie Hancock“Dolphin Dance”
Uma mistura entre musica modal e musica tonal, um tema bem complexo de se improvisar, mostrando a verstatilidade harmônica do Herbie, uma lenda do jazz.

Miles Davis“So What”
Faz parte do essencial “Kind Of Blue”. Recomendo escutar esse disco a todos que querem saber mais sobre jazz. Ou melhor: a todos que gostam de ouvir música, recomendo a audição. Uma guinada que mudou o jazz, quebrando o virtuosismo técnico e cheio de progressões do bebop, inserindo o modalismo.

Led Zeppelin“Going To California”
Essa musica faz parte do clássico disco “IV”, amo todas desse disco, mas essa me marcou positivamente por bons momentos que tive embalados por esse som.

Milton Nascimento“Travessia”
Escolher uma do Milton é complicado, poderia fazer essa lista só com musicas dele que ainda faltariam mais 20! Mas “Travessia” é a minha favorita, desde a letra do Fernando Brant, que é uma das coisas mais lindas já musicadas, quanto a harmonia e arranjo. O trompete nessa faixa é algo de outro mundo.

Construindo Arnaldo Tifu: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o seu som

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o rapper Arnaldo Tifu, que indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Pepeu“Nome de Meninas”
Foi um dos primeiros rap que escutei na vida, e pelo fato das rimas serem genuínas é simples incentivou a brincar de fazer rima e estimulou, uma grande referência.

Racionais MCs“Fim de Semana no Parque”
Esse som veio como as vozes das periferias, narrando características fortes do cotidiano. Quando eu escutava essa música e olhava pro bairro, eu via tudo que a música falava: a descrição, a base e a poesia forte, representatividade.

Consciência Humana“Tá na Hora”
Esse rap me ensinou que eu poderia falar do meu bairro, foi uma referência que incentivou fazer rap também, me influenciou a escrever meus primeiros versos.

MC Cidinho e Doca – “Rap da Felicidade”
Esse funk, além da batida miami bass que parece um sampler do Afrika Bambaata da música “Planet Rock”, tem a voz forte que clamava por paz nas favelas. Na época em que foi lançado a linguagem simples e batida dançante contagiou a juventude das favelas do Brasil, e pra nós não poderia ser diferente.

Kool Moe Dee“Go See the Doctor”
Lembro das festinhas de garagem, da casa de máquina do Dudu tocando os flashback e os flash raps que bombavam… O Dudu me deixava limpar os discos em troca de uma ficha e uma Tubaína e ficava me falando como eram os bailes do Clube House e ensinando como eles dançavam em passinhos.

Tim Maia“Ela Partiu”
Música que me ensinou o que era o sampler, por que a primeira vez que ouvi os arranjos desse som foi na música “Homem na Estrada” dos Racionais. Depois que eu escutei Tim Maia entendi como podia se fazer rap através do sample e a importância que o rap tem em resgatar músicas através da arte de samplear.

Raul Seixas“Maluco Beleza”
Meu pai curtia bastante as músicas do Raul, ele tinha várias fitas K7 e sempre colocava essa música em alto e bom som pra gente escutar e cantar, e depois usei as fitinhas tudo pra gravar rap (risos).

Fundo de Quintal“Amor dos Deuses”
Vim do berço do samba e essa música a gente já tocava desde pivetinho nas rodas de samba com meus primos e lideradas pelo meu tio avô, o Tio Cido, que já fazia a gente empunhar um balde, um prato ou uma frigideira pá tocar um samba. Já naquela época a gente ficava encantado com a poesia desse samba.

Facção Central“Artista ou Não?”
Rap de mensagem forte me ensinou desde a primeira vez que eu escutei a identificar o rap como arte.

Rage Against the Machine“Killing In The Name”
Vixi! Essa música marcou meus circuitos de skate, quando tava na febre e ia correr os campeonatinho, já pedia pro DJ tocar essa. Já até me aventurei em cantar numa banda cover do Rage e Beastie Boys (risos).

Planet Hemp“Mantenha o Respeito”
Teve uma época que o hardcore ficou bem forte na minha vida, principalmente com o surgimento de bandas nacionais com a pegada do rap e do rock. O Planet foi muito significante nesta época, foi a época que comecei a ficar mais cabeção no skate e sair mais do bairro pra curtir com outras quebradas e dialogar com diferentes tribos.

Fugees“Killing Me Softly”
A voz feminina do rap/R&B forte e representativa demais, marcou minha vida apaixonado em escutar as música dessa mulher.

Wu Tang Clan“Triumph”
Abriu minha mente pra prestar atenção nos diversos modos de se versar num rap, cada um rimando nessa banca com suas peculiaridades e o boom que foi quando surgiu o Wu Tang, nós curtimos muito.

Criolo“Ainda Há Tempo”
Ainda quando o Criolo era doido, vi um show dele e quando ele cantou essa música ele se emocionou e comoveu o público que estava presente no evento, cerca de umas 70 pessoas. Mas o sentimento e a verdade versados nessa música foi impactante, foi um hino pra minha vida.

Cassiano“Onda”
Música que hipnotiza, mais instrumental e realmente parece que a música é o oceano em movimento, uma das música que me trazem paz.

Herbie Hancock“Chameleon”
Original funk, este groove me inspirou a criar vários versos, levadas e flows, pra mim uma aula. É inspiração e toda vez que escuto fico com vontade de criar.

Arnaldo Tifu“Simplicidade”
Essa música minha é uma obra pela qual eu tenho muito carinho, acho que eu consegui transmitir a simplicidade que vivo no meu cotidiano e que eu almejo para as pessoas do mundo.

Thaíde e DJ Hum“Afro Brasileiro”
Tá aí uma música que me ensinou sobre a minha descendência, orgulho, alto estima e luta.

John Coltrane“Blue Train”
Essa música é sensacional, tipo um teletransporte. Me inspirou a criar alguns personagens, uma nova maneira de explorar a música e introduzir isto no meu universo criativo.

Emicida“Triunfo”
Esse som foi as vozes das ruas da minha geração no rap. Quando Emicida lançou e estourou com este som, me mostrou a possibilidade de fazer a parada acontecer de verdade, pela vitória e pelo triunfo. E como vivíamos todos bem próximos nas rodas de rima de freestyle, esse som foi um hino pra nós. Emicida provou que é possível. E essa música marcou!

Construindo I Buried Paul: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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I Buried Paul

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o projeto I Buried Paul, de Pedro Oliveira. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Angelo Badalamenti“Twin Peaks Theme”

É talvez a melhor trilha de todos os tempos; o clima e a instrumentação dessa música é a tradução perfeita da série, e constrói um determinado universo que pra mim é uma das coisas mais importantes na música. O universo aqui é estático, quase amorfo, nublado, e, principalmente, levemente fora do “normal.”

Portishead“Humming”

Eu não consigo descrever direito o que foi ouvir essa música pela primeira vez, numa madrugada passada em claro lá pelos idos de 2004, mas é daquelas que eu queria muito poder ouvir pela primeira vez de novo. A mistura de jazz com eletrônico com film noir é a essência do Portishead, e essa música engloba tudo isso. “Humming” moldou meu gosto musical pós-2004 e não poderia fazer uma lista sem ela.

Julee Cruise“Rockin’ Back Inside my Heart”

Mais uma relacionada com o Twin Peaks, mas aqui eu vejo o trabalho de voz dela como mais uma camada da atmosfera que a música cria, mais do que como algo que flutua por sobre os instrumentos. Inclusive a instrumentação e a leve estranheza dentro de uma fórmula “pop” é pra mim uma aula de como construir um momento estático no tempo e no espaço da música.

Earth“Old Black”

Essa música me mostrou que era possível compor em círculos. Fora isso: o arranjo, o timbre, o andamento, tudo nessa música é perfeito. Fundamental aqui, tanto quanto a guitarra, é a maneira que a Adrienne Davis toca bateria. É daquelas músicas que gostaria de ter escrito, e o Earth é talvez a maior influência direta do IBP junto com a trilha do Twin Peaks e o Coltrane.

John Coltrane“Psalm”

Eu costumo a dizer que o “A Love Supreme” é a minha Bíblia. Essa música, por exemplo, é uma oração escrita pelo Coltrane e lida não pela voz mas sim pelo saxofone. Ela faz parte de um disco que, na minha opinião, é mais do que um projeto musical e sim um projeto de vida. Diferente das outras em “A Love Supreme”, aqui em “Psalm” parece que tudo é aberto, espaçado, e principalmente permanentemente incompleto – três das coisas que eu mantenho na cabeça como guias quando/enquanto toco.

Miles Davis“Shh/Peaceful”

Em contraste ao Coltrane, aqui o espaçamento e a abertura é mais uma técnica de estúdio do que qualquer outra coisa. Essa maneira de trabalhar a improvisação no estúdio, o corta-e-cola de longas sessões de improvisação e, principalmente, a utilização do estúdio enquanto força de expressão pra moldar a improvisação é o que mais me influencia aqui. Esse disco todo, na verdade, é meu “holy grail.” É a tradução perfeita do que eu espero um dia chegar pelo menos perto com a minha música (e eu sei o tamanho dessa empreitada).

Hanna Hartman“Att Fälla Grova Träd Är Förknippat Med Risker”

O trabalho da Hanna Hartman é quase que cirúrgico. O jeito que ela manipula gravações de campo nessa peça é por vezes mais nítido do que a realidade. As sobreposições e a distribuição dos sons no espaço, assim como essa ultra-proximidade desconfortável é uma coisa que marcou muito minha trajetória musical/sonora. Foi por conta desta peça que eu decidi comprar um gravador e começar a coletar sons por aí, coisa que faço até hoje e que é uma peça importante no IBP.

Fennesz“Saffron Revolution”

A música do Fennesz apareceu na minha vida num momento em que eu me encontrava completamente frustrado com tocar guitarra. Ouvir as manipulações estranhas dele me levaram a reconsiderar tocar um instrumento “tradicional” e expandi-lo de alguma maneira. Foi a maior influência do meu segundo disco “in schwarzen Tönen, in lauten Farben” (de 2012), principalmente porque eu entrei na loucura de programar todos os sons eletrônicos na unha. Tanto que só fiz isso nesse disco (mas deveria fazer de novo).

Alice Coltrane and Carlos Santana“Angel of Sunlight”

Esse disco da Alice Coltrane com o Santana caiu na minha mão por conta da segunda música do lado A, que o Cinematic Orchestra sampleou em um dos discos e criou “All that You Give”, que é uma música tão linda quanto essa. Mas nada supera a original e esse disco é o ápice da pira orientalista dos anos setenta. Fora todo o talento absurdo da Alice Coltrane, a guitarra do Santana é algo formativo na minha vida, desde timbre a como ele era capaz de traduzir o pensar do jazz pro rock psicodélico sem soar virtuosamente chato. Esse disco todo é uma obra-prima.

The Dillinger Escape Plan“Panasonic Youth”

Depois que eu ouvi o DEP minha vida nunca mais foi a mesma. Eu gosto especialmente das músicas que abrem os discos porque eles sempre escolhem a mais brutal e chocante que é pra já avisar o ouvinte o que está por vir. O “Miss Machine” é meu disco preferido deles (e olha que sou fã de carteirinha da banda), e “Panasonic Youth” é um clássico absoluto do caos controlado, da agressividade, e do rompimento de qualquer barreira musical ou o que o valha. Na edição que eu tenho desse disco tem um sticker com um review que diz “this is the sound of the future” – e eu concordo plenamente: ainda acho que nenhuma banda chegou no nível deles.

Fantômas“Delirivm Cordia”

Mike Patton é talvez o músico que mais me influencia diretamente – por conta do ecletismo e da falta de vergonha na cara (com o primeiro eu me identifico, já o segundo eu admiro de longe). Fantômas é uma das bandas da vida pra mim, mas acho que o “Delirivm Cordia” é uma aula de composição em formato mais longo que funciona como uma narrativa em si própria. Assim como quase tudo que coloquei nessa lista, esse som constrói um universo próprio e deixa o ouvinte livre pra explorá-lo, porque dá espaço e dá material suficiente pra quem ouve poder se situar dentro desse espaço. É genial.

Menace Ruine“Not Only A Break In The Clouds But A Permanent Clearing Of The Sky”

Eu poderia botar muita coisa de metal aqui – muita mesmo, – mas acho que o Menace acaba sendo uma influência mais direta por conta da maneira com que eles trabalham com a distorção, o barulho, camadas, e melodias. É, de novo, aquela coisa entre o sujo e o entendível, o harmônico e o desconfortável que mais me fascina aqui. É metal sem ser necessariamente metal, sem apelar praquela coisa hipermasculina. Tem muita influência da Nico na voz da Geneviève, o que também é um ponto positivo.

Morphine“Empty Box”

A melancolia do Morphine e essa transposição do jazz prum contexto de bar pé-sujo com sinuca numa tarde nublada de quinta-feira é o que me pega no Morphine. Tem algo na maneira que o Mark Sandman compunha que eu ainda tou tentando entender como funciona, e o niilismo sutil da letra dessa música me intriga demais. É uma música que respira, se desenvolve sozinha e não chega a lugar algum. Do jeito que eu mais gosto.

Nico“Frozen Warnings”

O que me pega nessa música é o contraste: é uma peça quase de drone, mas a voz da Nico aqui tem uma urgência profética e apocalíptica. É como se o mundo tivesse ruindo e ela tivesse te avisando pra procurar abrigo, mas no fundo você sabe que vai ser inútil e que já era. Como não amar?

Steve Reich “Electric Counterpoint”

O pulso dessa peça do Reich é hipnotizante. Claro que influenciou metade do que se tem por “rock experimental” até hoje (alô Radiohead), mas eu ainda acho uma das melhores peças do Reich e uma das melhores composições minimalistas pra guitarra já pensadas.

Ulver“Hallways of Always”

O “Perdition City” foi um disco que me fez rever meus conceitos sobre música eletrônica. A complexidade dos arranjos e como ele passeia por gêneros é uma grande influência pra mim até hoje. A parte “central” do meu primeiro EP (“633”, de 2009), que é fundamentalmente diferente do que eu faço hoje com o IBP, é toda baseada nesse disco. Sonoramente eu deixei de tentar copiar (ahem) o Ulver, mas conceitualmente eu sempre volto nesse disco como referência de precisão e arranjo.

Satanique Samba Trio“Gafieira Bad Vibe”

O SS3 é daquelas bandas que está sempre no fundo da minha cabeça quando eu componho. Eu me lembro da fascinação que foi ouvir o “Misantropicália” pela primeira vez, e tentar sacar tudo o que tava acontecendo ali em tão pouco tempo. É uma parada muito profana em muitos níveis, mas principalmente pela pachorra que os caras tiveram de mexer com coisas “tradicionais” e “canônicas” no Brasil como o samba, e fazer isso sem o menor escrúpulo. O SS3 sempre me faz pensar “como eu posso deixar isso mais torto?” quando estou tocando. Nem sempre dá certo.

65daysofstatic“Radio Protector”

Essa banda me influenciou de uma maneira muito curiosa; foi bem numa época em que eu estava tentando entender o que é que me fascinava tanto em música eletrônica. O 65dos faz essa ponte entre o que, na época, ainda eram dois mundos distintos – post-rock e glitch –, e o trabalho deles com melodias “assobiáveis” é assustador. Eles me influenciam tanto que eu tenho uma série de gravações minhas que eu chamo de “clichês de pós-roque,” porque vez ou outra eu me pego tocando uma melodia que parece um plágio deles. Talvez um dia eu ponha isso no mundo, ou não.

Nine Inch Nails“4 Ghosts IV”

Eu poderia colocar o “Ghosts” inteiro, na verdade. O Trent Reznor é talvez um dos músicos mais importantes dos últimos 20+ anos, e apesar dele ter criado quase que um “blueprint” do próprio som, aqui no “Ghosts” é onde o NIN se desconstrói totalmente. A parte mais legal é como o disco é todo um projeto audiovisual, onde as músicas respondem às fotos que respondem às músicas, num processo cíclico.

Almir Sater“Vinheta do Capeta”

Eu cresci no interiorzão de SP, então a música dita “caipira” é um marcador muito nostálgico pra mim. O som do Almir sempre se destacou dos demais na minha cabeça – eu tenho pra mim que ele toca a viola como se fosse guitarrista, mesmo nas músicas com voz. Mas esse disco instrumental dele é inteiro bom, do início ao fim. É ótimo pra quebrar pré-conceitos (os meus inclusos) e perceber que há todo um contínuo entre a viola caipira e o blues, ou o que se veio a chamar de “american primitive”, por exemplo.